Páginas

sábado, 25 de janeiro de 2014

Amor pelo Brasil
                           

A literatura prejudica o econômico, interfere na família, não resolve os problemas sociais e políticos. Embora incerta para o autor, a literatura  é atividade útil como conhecimento da vida. Viver sem ela é impossível. Dá vôo à razão na leitura do mundo. Consegue o milagre de  aproximar criaturas no plano afetivo, não importando a idade, cor, crença,  lugar e distância..
Graças à literatura tenho feito  bons amigos. O último deles foi há poucos anos. É um americano, erudito, sensível, atencioso, qualidades inconfundíveis de seu caráter. Professor Emérito da Universidade de Austin, Texas, Fred Ellison  tem um amor forte  pelo Brasil. O abraço rico que vem dando há anos  ao nosso País manifesta-se  no ensino de língua e literatura brasileira nos Estados Unidos, passa pelo ensaísmo lúcido  e alcança traduções admiráveis de autores importantes de nossas letras, como  Rachel de Queiroz Helena Parente Cunha, Adonias Filho e Affonso Romano de  Sant´Anna.  Meus livros “De Cacau e Água” e “Poemas da Terra e do Rio”, inédito,  levam a marca da tradução exemplar para o inglês do caro amigo. .
”Brasilianista” dos melhores,  Fred Ellison proporciona agora em “Alfonso Reyes e o Brasil” (Editora Topbooks, Rio, 2002) estudo substancioso sobre a temporada que  o embaixador-poeta mexicano passou entre nós. O assunto encontra no americano o ensaísta maior. A pesquisa criteriosa do espírito sensível, que caminha de mãos dadas com o discernimento para erguer na  escrita agradável uma vida intelectual plena de reflexões, projeções,  esperanças e realizações  em chão brasileiro.
 Desse livro emerge todo o clima intelectual e emotivo que  o embaixador-poeta mexicano teve pelo Brasil durante os sete anos em que aqui esteve. Abordam-se   como nenhum intelectual brasileiro tentou fazer até hoje, o que não deixa de ser  omissão lamentável, as múltiplas atividades e relações  culturais que o embaixador-poeta mexicano empreendeu em prol do Brasil. Foram  anos em  que ele  se dedicou de  modo afetuoso às relações diplomáticas e à cultura brasileira, em namoro intenso,  de quem escreveu contos, poemas e ensaios tendo como ponto de referência nossas coisas e gente.
 O livro de Fred Ellison é leitura obrigatória  para quem quiser saber sobre a vida cultural do Brasil nos anos 30. Reconhecer intelectuais  do circulo de relações de Alfonso Reyes, bem como suas atuações culturais em nossas artes e letras. Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima, estes foram alguns de nossos homens de letras e artes que se tornaram amigos  desse embaixador e escritor  de extração renascentista. Manuel Bandeira fala do mexicano  com afeto em “Rondó dos Cavalinhos”, no almoço de despedida  oferecido por diplomatas e entidades brasileiras  no Jóquei Club do Rio, e no outro poema  “Rondó do Palace Hotel”,  no qual  os dois últimos versos  - “Por alguém que não está presente/ No hall do Palace”, dizem respeito a Reyes, observa  o ensaísta americano. 
Fico sabendo no livro “Alfonso Reyes e o Brasil” que o diplomata  teve  ânsias de entrar em contato com os intelectuais brasileiros assim que aqui chegou. No início nossos homens de letras não foram   tocados pelos acenos do  mexicano, que nunca escondeu nas intenções e atitudes  a inquieta admiração pelos brasileiros e sua paisagem.. Momentos de amizade foram se fazendo com nitidez pouco depois, e, dos encontros que continuavam, a oportunidade era dada   ao intercâmbio de idéias, informações e juízos críticos consistentes.
                 Até hoje pouco sabia da atuação e amor desse notável  embaixador-poeta- mexicano pelo meu país. Acredito que o mesmo se deu com a minha geração nos anos 60. No livro  de Fred Ellison, através de entrevista concedida a Aurélio Buarque de Holanda, posso sentir como esse  embaixador mexicano teve no Brasil uma temporada das mais felizes de sua vida, contribuindo para isso dois elementos essenciais: o homem e a natureza. “Tudo do melhor em minha existência”, ele assinalou,  em momento de puro encantamento.. E, enamorado do Brasil cada vez mais,  tanto o elogiou que todos os mexicanos quiseram vir ao Brasil como embaixador e desse modo lhe tomaram o posto.
                    Fico sabendo ainda no ensaio de Fred Ellison que, na poesia de  “Romances  del Rio  de Enero”,  o embaixador  diz versos num “caso de amor” pelo Brasil, simbolizado pela moça que há tempo tinha desejado:


                        “Brasil,  me das a la moza
que ha tiempo he dado em querer?
Mira, que si me la niegas
enloquezco, y yo no sé.... (sic)
La espada de mys mayores
descuelgo de la pared,
y entro a tajos por el mundo
como el que se va a perder.
La pido por cortesía,
cedemela tu por ley.
No se diga que desoyes
a los que te quieren bien;
no se diga que no sabes
pagar y corresponder;
no se diga que me pierdo
por culpa de uma mujer.”

                   
                                                        :
                   



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

          Boate Id


 ( Cyro de Mattos)


A Boate Id ficava  em um desses sobrados antigos de Salvador, na cidade alta.  Uma escada estreita terminava no terceiro andar onde funcionava a boate. Lá dentro, as mesas com quatro cadeiras distribuídas por vários cantos do salão e ao redor do círculo que servia como pequena pista de dança. À direita da entrada da boate havia um barzinho onde apenas o garçom ia buscar no balcão a bebida com  o tira-gosto pedido pelo cliente. Ao lado do barzinho, a toalete masculina e a feminina.
   À música era ao vivo. A orquestra com o pianista, baterista, saxofonista e cantor tocava no pequeno tablado, armado junto a uma das paredes laterais. Às vezes aparecia por lá um cantor famoso da música popular brasileira. Cantava sem cobrar nada porque era amigo do dono da boate ou então porque gostava de cantar naquele tipo de ambiente noturno. Não chegava a ser um show ou espetáculo demorado. Era apenas uma apresentação rápida do cantor famoso. Foi assim que tive a oportunidade de assistir cantar bem  perto Miltinho e Jamelão, dois nomes famosos da música popular brasileira à época, que se apresentaram para um público hipnotizado na boate lotada.
Ninguém podia entrar no recinto acompanhado de mulher. A Boate Id tinha as suas meninas, que assim eram conhecidas, cada uma com o seu jeito sensual para atrair a atenção do homem que acabava de chegar ao recinto, interessado por goles desse vinho vertido de gozo. Os pares conversavam sentados à mesa, misturando vozes com o prazer que dava a bebida e o cigarro.
Naquele tempo era comum a cidade de Salvador  propiciar encontro de amigos, que nem sempre tinha um local marcado. A cidade ainda era pequena, mesmo se tratando de uma das capitais mais importantes do Nordeste. Sua população talvez tivesse uns seiscentos mil habitantes. A capital baiana conservava muita coisa de cidade de interior. Em alguns locais como a Rua Chile  a cidade toda passava durante a semana. 
A noite oferecia a oportunidade de extrair o tédio ou a angústia, que à época se chamava de fossa, escondida atrás de uma fachada aparentemente brilhante, mas em situação crítica sob qualquer aspecto íntimo. Por tudo isso, e porque tinha gente que sobrevivia vendendo acarajé, abará,  mingau e churrasquinho de carne no espeto, na rua onde estava localizada a Boate Id, como em outros pontos semelhantes da cidade alta,  a noite da capital baiana era considerada como uma das coisas generosas da vida.  Para os que circulavam na boêmia, podia significar um desabafo no encontro fugaz do amor com uma das meninas da Boate Id. Reciclava-se dessa maneira,  no ímpeto máximo do  prazer, a energia que o corpo necessitava para no outro dia seguir nos caminhos da vida.                           
          As meninas que trabalhavam na Boate Id tinham origens pobres, sem preparo e proteção familiar. Levavam a vida nada fácil de mulheres que vendiam o corpo na cama para sobreviverem. Ainda não sabiam esse lado do mundo que de uns anos para cá passou a matar a vida com tóxicos e drogas, sem deixar rastros. Era na bebida que as meninas afogavam as mágoas, tentavam  enganar e aliviar os ferimentos causados pela dura realidade que levavam.
Trabalhavam de terça-feira a sábado, das 22 às 3 da madrugada, o domingo era para o descanso e o lazer. Reservavam a segunda-feira para fazer compras com o namorado. Quando estavam na boate, usavam saia curta, seios salientes de propósito quase saindo do decote. A maquiagem constava de cabelos brilhantes, rosto levemente de ruge, lábios pintados de preferência com batom vermelho. Pulseira no braço, anel  com a pedra de brilhante simulada, bolsa a tiracolo quando no fim da noite, o trabalho encerrado, iam jantar em algum restaurante da Ajuda. O preferido dos restaurantes era o Cacique, que ficava na vizinhança do Cine Guarani e do Tabaris, um famoso cabaré  que atraía as prostitutas em fim de noite, marginais do luxo e da ociosidade, comerciários, estudantes, jornalistas,  músicos e cantores. Camada de gente que se encontrava naquele ambiente procurado  porque achava que a vida noturna da cidade  tinha um prazer especial escorrendo por ladeiras e becos.
Na Boate Id era reprovado o gesto de algum homem que saísse do limite e ousasse chamar uma das meninas de puta. Por sua inconveniência, calcada em ressentimentos pessoais ou paixão compulsiva, era colocado para fora do recinto pelo segurança quando insistia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Luiza Lobo Conquista o Prêmio
Para Romance do Pen Clube do Brasil


Com Terras Proibidas – A saga do café no Vale do Paraíba do Sul, da editora Rocco, a escritora e professora de Letras da UFRJ Luiza Lobo conquistou o Prêmio Pen Clube do Brasil para romances publicados em 2014. O romance é um mergulho na trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo no café no Vale do Paraíba.
O  século XIX no Brasil foi o século do café.  Foi ele que deu origem a poderosos clãs estabelecidos no interior fluminense, na região conhecida como Vale do Paraíba do Sul. Mas, em meio ao poderio cafeeiro, fortemente dependente da mão de obra escrava, sopravam os ventos da modernidade, da onda abolicionista, da morte do Império e do nascimento da República.
O romance conta a saga da família de Francisco José Teixeira Leite, o barão de Vassouras. Empreendedor nato, ele construiu um império cafeeiro e um clã poderoso e influente, auxiliando no crescimento das cidades do Vale do Paraíba, particularmente Vassouras, e adquirindo grande importância política.  No entanto, sua família estava fadada a sofrer com tragédias e mortes.  Ele testemunha todas elas.  Seria a maldição lançada por Manoel Congo, escravo que lidera uma rebelião nas fazendas de café da região, mas é capturado e condenado à morte? - perguntam-se os moradores da Fazenda Cachoeira Grande, onde viveu o poderoso barão.
Ancorada em extensa pesquisa histórica, Luiza Lobo usa a família do Vale do Paraíba do Sul – também conhecido como Terras Proibidas, região a qual ninguém podia ter acesso para que fosse impedido o contrabando de ouro encontrado em Minas Gerais – para ilustrar as intensas mudanças pelas quais o Brasil passou na segunda metade do século XIX. Não apenas mudanças políticas e econômicas, mas também, e talvez impulsionadas por elas, mudanças de comportamento, como o namoro da sobrinha do barão com um então abolicionista chamado Joaquim Nabuco, motivo de alvoroço na família. 
           Paralelamente ao cenário social, político e econômico, Francisco José Teixeira Leite passa a enfrentar um longo martírio pessoal: perde a primeira mulher, a prima Maria, devido a um mal súbito; casa-se em seguida com outra prima, a jovem e voluntariosa Ana, que lhe tira a paz em todos os momentos com seus caprichos; amarga dissabores com os problemas mentais de um dos filhos; perde a outra filha, Ambrósia, em pouco tempo; e o destino de Eliza, sua neta, também só lhe trará dor.
           Terras proibidas narra a saga do impávido barão de Vassouras, um homem que atravessou o século cada vez mais só e isolado até uma época que já não teria lugar mais para ele, e retrata assim uma parte importante da história do país.

A AUTORA
Luiza Lobo é professora de literatura comparada e teoria literária na pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ e pesquisadora associada da Universidade de Poitiers, na França. Tem doutorado em literatura comparada pela Universidade da Carolina do Sul (EUA) e duas pós-graduações, em Nova York e em Berlim. Escreveu livros acadêmicos e de contos. Publicou mais de 100 ensaios em revistas, livros e enciclopédias no Brasil, na Inglaterra, na Itália, em Portugal e nos EUA. Traduziu mais de 30 obras, assinadas por autores como Jane Austen, Virginia Woolf e Edgar Allan Poe. Proferiu palestras nas universidades de Londres, Oxford, Yale, Harvard e Columbia, entre tantas outras. Em 2000,  a Rocco publicou seu quinto livro de contos, Estranha aparição.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

“Um Grapiúna em Frankfurt



Meu Novo Livro: “Um  Grapiúna
em Frankfurt e Outras Crônicas”

Com capa do desenhista baiano Sante Scaldaferri, prefácio do poeta paulista Álvaro Alves de Faria, a Editora Dobra Literatura (SP) publicou em dezembro último  o meu novo livro:  “Um Grapiúna em Frankfurt e Outras Crônicas”. Este foi o oitavo livro que publiquei em 2013, dessa vez reunindo 50 crônicas, umas inéditas e outras publicadas semanalmente no “Diário Bahia”.  A edição contou com o apoio cultural da LIDI, Laboratório de Análises Clínicas de Itabuna.
No prefácio, o poeta Álvaro Alves de Faria comenta:  “o poeta deixou que passasse à sua frente esse tempo que ainda vive no que guarda da sua criação da Beleza, buscando lá atrás as cenas que ainda existem, porque fazem a história de cada dia. Por isso tudo, este livro é obra rara no vale de lágrimas destes tempos brasileiros que só invertem os  valores e isso inclui também a literatura, que deveria ser a identidade de um povo”.
Com 75 anos de idade,  continuo no destino de ser escritor, é o que gosto de fazer, bem ou mal. A estréia foi em 1966 com “Berro de Fogo”, contos, livro que risquei de minha bibliografia, espero que nunca encontrem para ler. Neste ano de 214, publicarei  mais seis livros: os infantis  “Existe  Bicho  Bobo?” (Editora  Biruta, SP),  “Poesia de Calça Curta” (Editora Solisluna, Salvador)  “Olhe  Nós Aqui” (Editora Dimensão, BH), “Minha Feira Tudo Tem Como Onda Vai Vem” (Ler Editora, Brasília), o romance juvenil “Nada Era Melhor” (Biruta) e o romance para adultos “Os Ventos Gemedores” (Editora Letra Selvagem, SP). Além disso, a Editora da Universidade do Estado da Bahia  publicará a segunda edição de “Cancioneiro do Cacau”, na Coleção Nordestina, livro que me rendeu quatro expressivos prêmios literários, três no Brasil e um no exterior.
Crônica do Circo

                                (Cyro de Mattos)



Desde que conheceu o circo pela primeira vez,  ficou  encantada com os números divertidos e arrojados. Além de  Margarida,  uma chimpanzé dócil, inteligente  e brincalhona, as atrações que mais lhe chamaram a atenção foram os trapezistas, o globo da morte, palhaços (que as crianças adoraram) e os dois times de cão Paulistinha, Corintians e Palmeiras. À noite,  antes de pegar no sono, conferiu na imaginação todas as atrações e prometeu que um dia ia ser trapezista.
O circo ficou na cidade seis semanas. A casa sempre cheia. Quando o circo foi embora, ela fugiu com um dos trapezistas. Tinha pouco mais de 15 anos de idade, ele aparentava 25. Estava comprando pipoca com o irmão mais velho na entrada do circo, antes de retornar para a casa.  O trapezista aproximou-se do carro de pipoca e perguntou se ela e o irmão tinham gostado do circo. Ficou confusa quando viu o trapezista. Gaguejou, dizendo que tinha gostado muito. O que mais lhe impressionou foi o número dos trapezistas. Olhou com interesse para ele, aquele rapaz louro, olhos azuis e rosto sanguíneo.  Eles se apaixonaram ali mesmo quando seus olhos se cruzaram. 
A mãe dela desmaiou quando encontrou a cama da filha vazia no mesmo dia em que o circo foi embora.  O trapezista casou com ela, como havia prometido. De início, começou a trabalhar no circo como contorcionista. Só depois de um ano, três meses treinando com  exaustão, todos os dias, é que ela passou para o trapézio. Com o tempo tornou-se uma trapezista sensacional, que arrancava  suspiros da platéia. Quando terminava seu número com o marido e o cunhado, o circo quase vinha abaixo com os assovios, gritos e aplausos  demorados.
         Depois de casada passou a ser chamada de Baiana  pelo pessoal do circo. De mês a mês,   ficava sabendo como era a vida no circo. Tinha o lado bom e o ruim. Com certeza, o lado bom era bem melhor do que o ruim. Para o artista,  o bom era a expectativa da estreia, o povo aplaudindo. Ver uma criança aplaudindo não tinha preço.
        O lado ruim era viver na estrada sempre como nômade, sem ter tempo de criar vínculos de amizade. Ainda assim reconhecia que deixava muita gente saudosa por onde passava com o marido e os outros artistas. Outro ponto positivo daquela vida nômade era conhecer o Brasil com suas diferenças  e encantos. Em algumas regiões o frio era intenso, em outras o sol brilhava o ano inteiro. Havia gente de todos os tipos.     
       Outro fator negativo, nessa vida nômade, era a educação das crianças. “Toda criança tem como base a escola. Hoje tem uma lei que ampara a criança de circo para matrícula em colégios do ensino público”, disse para o repórter que a estava entrevistando. “Mas, infelizmente, existe deficiência no ensino público, por isso nós procuramos matricular em colégios particulares.  Há uma dificuldade muito grande para o filho de artista circense se adaptar ao ritmo do colégio”, observou.   
         Ela tentou viver na cidade, teve dificuldade no relacionamento com outras pessoas que não fossem do ambiente circense. Também não conseguiu viver  na cidade porque se acostumou a morar em trailer. A rotina na cidade era  bem diferente. O trailer tinha  tudo que uma casa normal possui, geladeira, tevê, fogão, mas  num espaço super-reduzido.
            Sentira  a dificuldade  em alfabetizar o filho.  Quem  a ajudou a solucionar esse problema da alfabetização do filho foi sua mãe,  que morava no interior de São Paulo. O filho voltaria depois  para o circo,  para ser artista como ela tinha sido, se assim ele quisesse.   Além de artista, esforçava-se para manter a ordem na agenda de dona casa. Tinha que  se virar. Cuidar do marido, do filho quando vinha passar as férias com os pais, do almoço e estar pronta na hora do espetáculo.
         - Tudo aqui é muito compacto, mas não troco o circo  pela cidade de jeito nenhum, pois não me acostumaria – ela disse ao repórter no final da entrevista. 
                                     
                                             




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Natal das Crianças Negras

             (Cyro de Mattos)

             
Eles moravam no morro, a irmã era chamada de Bel, o irmão de Nel.  Bel não recebia da vida a doçura feita com mel. E Nel não vivia a vida, lá no alto morro, como se estivesse no céu. A mãe deles chamava-se Maria. Vestia trajes simples, gastos pelo uso diário. Nunca vestiu um manto azul feito de seda para brilhar no dia, como se via na igreja com a imagem da Virgem Maria.  
A mãe de Bel e Nel era lavadeira. Tinha as mãos grossas de calo de tanto bater roupa na correnteza de águas límpidas. Durante a semana descia o caminho pelo barranco com a bacia de roupas sujas  na cabeça. Quando chegava à beira do rio, colocava a bacia de roupas em uma pedra grande, junto ao areal. Não demorava e começava a tirar as roupas da trouxa. Molhava, ensaboava, esfregava, lavava e torcia. Estendia as roupas nas pedras pretas para secar ao sol. As pedras pretas, cobertas de roupas estendidas, de repente apareciam coloridas naquele trecho do rio.     
O pai de Bel e Nel  chamava-se José, era carpinteiro. Sabia usar com habilidade  os  instrumentos de trabalho:  martelo,  serrote,  enxó,  plaina e  formão. Suas mãos pequenas faziam cadeira, mesa e banco. Consertavam porta, janela e portão. No mês que Bel completou seis anos de idade, o carpinteiro José começou a sentir  dores na espinha. Os ossos inflamados, as  mãos trêmulas, o corpo todo doía. À noite no quarto gemia. O coração dele foi diminuindo o amor que tinha por São José, o padroeiro da cidade, por causa da doença que o afligia. Até  que um dia o pai de Bel e Nel perdeu  para sempre sua constante fé em São José, o santo protetor dos carpinteiros.
O tempo de Natal era chegado. Nel queria um avião grande, Bel uma boneca que chora. Viram o velho gordo com o rosto rosado pela primeira vez na televisão da loja.  Carregava um saco de brinquedos nas costas. Tinha a barba branca e os cabelos sedosos. Vestia uma roupa vermelha. Calçava botas pretas. Numa das cenas em que aparecia na telinha, deixava escapar do rosto rosado um sorriso que transmitia uma sensação de alegria e paz a cada criança que ia falar com ele e receber o seu carinho.  Os meninos no passeio da  loja não tiravam os olhos da televisão. Comentavam que o velho  dava  brinquedos à criançada  sem  querer nada de volta. Eles sorriam quando o velho aparecia com as roupas folgadas na telinha. Olhinhos deles todos no querer, como que encantados cintilavam.
Com olhinhos espertos e risinhos que enchiam os dentinhos, Bel e Nel foram olhar a árvore enfeitada com bolinhas e luzinhas,  armada em um dos cantos da loja. À noite as luzinhas acendiam e apagavam. A estrela no alto comovia. Descobriram depois  o presépio em outro canto da loja, com os camponeses, pastores e bichos. Ficaram admirando  o pequeno estábulo do presépio, que tinha o teto coberto de folha  de palmeira. Um galo de crista vermelha estava  no telhado. Uma estrela brilhava na cumeeira, toda acesa de Deus. Nossa Senhora e São José mostravam os semblantes felizes, ao lado de  Jesuscristinho, que  dormia o sono bom no berço puro e quente, feito de palha.  E os três reis magos, ali no presépio,  davam a entender que não eram dignos de  tocar na palha onde Jesuscristinho  dormia o sono sereno.
 Sentados no meio-fio do passeio da loja, Bel e Nel escutavam agora a musiquinha  que saía alegre pelo alto-falante no poste. De vez em quando o alto-falante baixava o som. Então a   musiquinha fazia um fundo musical no mesmo instante em que entrava  a voz pausada do locutor.  A voz dele informava que  vinha de Belém a estrela mais bela. Fora trazida pelas mãos da maior madrugada. Seu brilho imenso descaía do céu e vinha iluminar a relva onde os bichos anunciavam e cantavam o nascimento do menino Jesus. A voz do locutor ficava emocionada quando comunicava  que naquele dia o menino pobre nascia no estábulo. Esse menino Deus  vinha para afugentar o mal de toda a terra. A voz doce  do locutor terminava  a mensagem de paz eterna com mais emoção no final quando então revelava que os sinos do mundo inteiro nessa hora  tocavam: É Natal! É Natal!
O alto-falante voltava a tocar a musiquinha alegre, acompanhada dessa vez  de uma cantiga cativante. Bel e Nel continuavam sentados no meio-fio do passeio. Recebiam  o sopro da brisa que circulava na rua, ao final do dia. A brisa suavizava os rostos deles dois em silêncio, enquanto seus pequenos corações eram tocados pela cantiga que se repetia e  começava assim:

Botei meu sapatinho
Na janela do quintal.
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal...

Dizia a cantiga ainda mais, que o velhinho  sempre visitava  o quarto de cada menino onde  deixava, ali,  um brinquedo como  presente naquela noite especial. Seja rico, seja pobre, seja branco, seja preto, como  Bel e Nel, o velhinho sorridente e bondoso  não esquece de ninguém.
Bel e Nel colocaram os chinelos na janela do quarto. Nada acharam no outro dia. Do ponto mais alto do morro ficaram olhando as nuvens alvas, trafegando no céu como grandes almofadas. Umas nuvens menores desenhavam brinquedos enquanto iam passando  mansas diante dos olhos tristes deles dois.
Eles viam nesse instante a cidade lá embaixo, aos seus pés. Imaginavam a algazarra da manhã festiva. No passeio, no jardim, em qualquer canto da casa. Cada menino o brinquedo exibia. Saltava, dançava, corria, sonhava, voava, sorria.
Então souberam como o mundo dava as costas a Jesus. Não queria ver Maria. Escondia-se de José.  O Natal era a lágrima que pelo rosto deles dois  descia.
E uma canção desfazia.








THE BLACK CHILDREN’S CHRISTMAS


A short story by Cyro de Mattos

Translated by Fred Ellison


          They lived up on the hill, the sister was named Bel, her brother Nel.  Life for Bel had none of the sweetness of milk and honey. And Nel knew all about the hard life, he would go to the top of the hill, as if he were in heaven. Their mother was called Maria.   Her dresses were very  plain and worn out with daily use. She never wore a blue silk cloak that shimmered in the daylight, like you’d see in church with the Virgin Mary’s image.
         Bel and Nel’s mother took in washing.  Her hands were calloused and  thick from always  pounding clothes in the clear flowing water.  During the week she’d  come down the steep path along the river bank with the can of dirty clothes on top of her head. When she got to the river’s edge, she would set the can of clothes down on top of a big rock, near the sandbar.  She wasted no time taking the clothes our of her bundle. She’d wet them, soap them, rub, rinse, and wring them.  Then she’d lay the clothes out on the black stones to dry in the sun. The black stones, covered with clothes all laid out, suddenly  looked many-colored  along that stretch of the river.
         Bel and Nel’s father was called José, he was a carpenter. He was skilled in the use of the tools he worked with: hammer, saw, adze,  plane, and chisel.  His small hands made chairs, tables, benches. They could fix doors, windows, gates.  The month that Bel reached six years of age, José the carpenter began to feel pains in his back.  Inflammation in his bones, trembling of his hands, his whole body hurting.  At night, in his room he’d moan. In his heart there was less and less  room for the love he used to have for Saint José, the city’s patron saint, because of the sickness afflicting him.  Finally, one day, Bel and Nel’s father lost forever his steady faith in Saint José, the saint protector of carpenters.
         Christmastime had come. Nel wanted a big airplane, Bel a doll that would cry. They saw the round figure of the old man with his pink cheeks for the first time on the television at the store.  On his back he was carrying a bagful of toys.  He had a white beard and his hair was silky.  He was wearing a red suit, he had on black boots. In one of the scenes in which he appeared on the tiny screen, he made his pink face into a smile that conveyed a sense of happiness and peace to every child who went up to talk with him and be held.  The kids standing on the sidewalk outside the store couldn’t take their eyes off the television.  They noted that the old man gave toys to all the kids, without wanting anything in return.  They would smile when the old man appeared on the TV screen dressed in his ample robes.  Their little eyes all fixed upon their wishes, they seemed to sparkle with enchantment.
         Alert of eye and with giggles behind their little teeth, Bel and Nel went inside to look at the tree, decorated with little balls and tiny lights, set up in one of the corners of the store.  By night the tiny lights would go on and off.  The star at the top made them marvel.  Next they discovered in another corner the Nativity scene, with field hands, shepherds and animals.  They stood admiring the little stable in the manger, whose roof was covered with palm leaves. A rooster with a red comb was on the roof.  On the  ridgepole, a star was all aglow with God.  Our Lady and Saint José showed their happy faces, alongside the Christ-child, who was sleeping his blessed  sleep in the warm, pure cradle of straw.  The three wise kings, there in the manger, gave the impression that they weren’t worthy of touching the straw, where the Christ-child was serenely asleep
         Sitting on the curb in front of the store’s sidewalk, now Bel and Nel were listening to the Christmas music coming joyfully from the loud-speaker on  the lamp post.  From time to time the volume of the loud-speaker would be turned down.  Then the Christmas  melodies  would serve as  musical background at the very moment when the announcer in his measured  voice would break in.  His voice brought the word that the most beautiful of stars was coming from Bethlehem.  It was brought in the hands of the greatest of dawns.  Its immense  brilliance was descending from heaven and came to shine on the grass where the animals were announcing and singing of the birth of the child Jesus.  The announcer’s voice choked with emotion when he communicated that on that very day the child of poverty was being born in the stable. That child-God was coming to drive out evil from all the world.  The gentle voice of the announcer was concluding his message of eternal peace with rising emotion at the end when he revealed that the bells throughout the world were pealing: It’s Christmas! It’s Christmas!
         Once more the loud-speaker was playing its happy Christmas music, featuring  this time a catchy tune.  Bel and Nel continued sitting on the street curb.  They could feel the touch of the breeze that was blowing in the street, at the end of the day. The breeze softened the faces of the two, both of them in silence, while their childish  hearts were touched by the songs that were repeated and that started thus:

I set out my little shoe
on the window-sill
Father Noël left me
my Christmas gift

         The Christmas song said something else, that the little old man would always visit every child’s  room, and, then and there, he would leave a toy as a present on that special night. Whether rich or poor, whether white or black like Bel and Nel, the smiling and generous little old man doesn’t forget anyone.
         Bel and Nel placed their old shoes on the window-sill of their room.  They found nothing the next day. From the highest point on the hillside, they stood there watching the white clouds,  coming and going like pillows.  A few of the smaller clouds took the shape of toys as they passed softly in front of the saddened eyes of the two of them. 
         They could see at that moment the city below them, at their feet. They imagined the excitement on that festive morning.  On the sidewalk, in the garden, in whatsoever  part  of the house.  Every child would be showing off his toy. He’d be leaping, dancing, running, dreaming, flying, smiling.
         At that moment they knew that the world had turned its back on Jesus.  It didn’t want to see Maria. It hid itself away from José.  Christmas was the tear that was rolling down both their faces.
         And a Christmas song was losing its sweetness.

                   
* Fred Ellison was born in 1922,  in Denton, Texas, EUA. He received his Bachelor’s degree in French and Spanish in 1941 from the University of Texas, at Austin, USA.  Received the doctoral degree in Romance Languages, with a dissertation, later appearing  as a  monograph The Novel of Brazil's Northeast: Four Northeastern Masters (Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José  Lins do Rego. He is Professor Emeritus of the University of Texas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NOITE DE NATAL EM 2013
                                     
                                      Miguel Jorge
                  
                     O Natal sabe dos sonhos do menino.
                   Sabe da estrela azul a espreitar o universo
                   Perdido no vértice dos espelhos,
                   Igual água deserta de um céu que nunca
                   Termina.

                   Ligeiramente leves os sentimentos de um Natal
                   Sagrado em seus signos. Cartas, mensagens,
                   Frases de vida, inconscientemente belas.
                   O olhar a trespassar a face rosa de um
                   Deus ainda menino.
                  
                   No coração da criança, a visão de um sol
                   A se perder no campo iluminado de orações:
                   Que todos tenham neste Natal
                   Um rei dentro de si com seu
                   Destino certo.
                  
                   A voz dormida na noite santa
                   Fora dos espelhos é outra.
                   A realidade caminha nua pelas
                   Paredes talhadas de inverno.
                   Na amurada transparente de húmus,
                   As rosas andam soltas na brevidade
                   Obsessiva de quem, triste, se deserta.
                                     
                   E os mais secretos desejos
Tomam asas sobre as horas,
                   Desenhados em segredos.
                   Um novo dia guarda a verdade
                   De uma noite em que se pensava em fadas.
                   Ser criança é não ter o jugo da dúvida.
                   Que os sonhos dos meninos possam
                   Viajar nas distâncias, lá onde o sol e o céu se
                   Encontram, onde a vida passa nas verdades
                   De um novo horizonte contido em vermelho,
                   Como os sentimentos de uma bela noite de Natal,
                   E as reais e incertas complexidades do ano de 2013.
                       
·        Premiado escritor goiano, Miguel Jorge é poeta e romancista.

                                     
                  
                  
                                     
                  
                  
                  

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Entrega do Prêmio Jean Paul Mestas ao escritor Cyro de Mattos

Entrega do Prêmio Jean Paul Mestas, da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, salão nobre da Academia Brasileira de Letras, pelo livro "De teus instantes no poema/ Dans tes instants dans le poème",tradução de Pedro Vianna, publicado pelas Editions du Cygne,  www.editionsducygne.fr, na Coleção Poesia do Mundo, Paris, 2011.




Cyro de Matos recebe o diploma do Prêmio Jean Paul Mestas concedido pela União Brasileira de Escritores, no salão Raimundo Magalhães Junior, da Academia Brasileira de Letras, Rio, em 25/10/2013. 



Na entrega dos prêmios anuais da UBE-Rio, na Academia Brasileira de Letras, Professor Doutor Eduardo Portela, escritor Cyro de Mattos, esposa Mariza  de Mattos e a Professora Doutora Olivia Barradas. 



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Conversando com o Escritor Cyro de Mattos
                                                                                                                        Texto: Nathania Malta
     Estudantes do 8º semestre da disciplina Literatura Sulbaiana, do curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz-Uesc, orientados pela professora Dra. Reheniglei Rehem, participaram, no dia 4 de dezembro último,  quarta-feira, de um encontro  com o contista,  poeta e  cronista Cyro de Mattos. Denominado "Conversa com o Escritor Cyro de Mattos: poesia, tradução e topofilia", o evento ocorreu no auditório Jorge Amado, no campus universitário. O objetivo foi proporcionar aos alunos  maior intimidade com a poesia do escritor grapiúna, a partir da leitura e análise de alguns de seus poemas inclusos na antologia Onde Estou e Sou/ Donde Estoy y Soy, com tradução de Alfredo Pérez Alencart  para o espanhol, publicada pela Editora Ler, de Brasília, numa perspectiva   poético-afetiva.
     Nesse encontro com o autor da antologia  De teus instantes no poema/ De tes instants dans le poème, publicada na França,  foi apresentado o projeto dos alunos Wilken Figueiredo e Tatiana Santos, bolsistas do Pibid/Capes/Uesc/Letras-LP, com o tema "A indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão vista a partir da literatura sulbaiana", seguido da leitura cênica do poema Agudo Mundo, de Cyro de Mattos, feita pela uniiversitária   Tacila Souza.  Outro momento do evento foi proporcionado pela apreciação do professor argentino Juan Fecundo sobre a correspondência dos versos de Cyro de Mattos traduzidos para o espanhol e suas conotações afetivas nos dois idiomas. Foi divulgado no evento o  resultado do concurso Resenha Acadêmica com o tema "Percepção e afeto na poesia de Cyro de Mattos", realizado  entre os  graduandos do 8º semestre de Letras da Universidade. 
     A seguir, aconteceu um depoimento do trajeto Cyro de Mattos  no qual o escritor   falou de sua vida e obra, das primeiras leituras com os livros de Jorge Amado, Clarice Lispector, Adonias Filho, Guimarães Rosa, Lúcio cardoso e outros grandes escritores brasileiros, Ao discorrer sobre a arte de escrever,  Cyro enfatizou que procurava em seus textos em prosa e verso dar  palavra ao sonho e concebia a literatura como fundamento da vida, um instrumento necessário para tornar a existência viável. Pontuou sua trajetória como leitor, no início,  e depois já como   autor de contos, poemas e textos para a infância, bem como o fato de ser conhecido no país e exterior .  Nesse particular, confessou que a maior recompensa em suas atividades literárias foi ter seu livro  Vinte Poemas do Rio   traduzido para o alemão por Curt Meyer-Clason,  o maior divulgador da literatura iberoamericana na Alemanha, tradutor, entre outros,  de Guimarães Rosa, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luís  Borges, Juan Rulfo, Machado de Assis e  José Saramago.    
     Ao agradecer a oportunidade do convívio com a juventude acadêmica, disse Cyro sentir-se gratificado  ao ver a sua produção literária analisada por universitários e professores da Uesc. Mattos autografou no final  para universitários e professores mais de 40 livros de sua autoria  publicados pela editora da UESC.    



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

                         Os Doces de Minha avó
                                           ( Cyro de Mattos)

                                  
A avó Ana acordava cedo todos os dias. Os passarinhos ainda estavam empoleirados na mangueira do quintal. Dizia que Deus ajuda a quem madruga. Nesse ritmo de acordar perto de clarear o dia e começar logo a se ocupar com as tarefas de casa, a avó Ana ajudou o avô  Campos a criar oito filhos, três homens e cinco mulheres. Os filhos foram casando quando ficavam adultos e de repente os meus avós se viram sozinhos numa casa grande,  de construção simples. As paredes eram de adobe e o piso de cimento.
Não conheci meu avô Campos, era muito pequeno, estava engatinhando. Dele tenho um retrato na pequena moldura em que aparece o rosto de um homem idoso com os cabelos pretos e finos. O rosto gordo, a pele alva, os lábios como se fossem riscos de tão finos, o bigodinho bem aparado. Meu pai falava que ele era um seleiro de mão cheia, a freguesia que o procurava era enorme, enchia sua sapataria A Bota Encantada na rua do comércio.
Imagino meu avô por trás do balcão atendendo o freguês, um fazendeiro  abastado, a examinar a bota feita pelas mãos competentes dele.  O couro da bota  bem trabalhado, brilhando com o verniz aplicado, os adornos embelezando com os desenhos criados por meu avô.  Imagino meu avô numa casa de couro, com a sovela, a sola e a fivela, atento e alegre na manhã luminosa,  criando uma sela macia, um par de botas, sapatos, alpercatas e  chinelos. Meu pai dizia que meu avô era um mágico, tudo que fazia com o couro ou a sola macia lograva extrair acabamento perfeito, que sempre dava prazer ao freguês. Esses vestígios de meu avô,  recolhidos através das lembranças que meu pai transmitiu-me,  dão-me a sensação de que ele acabou de sair do seu retrato emoldurado e  se aproximou  de mim, para envolver-me agora  em carícias que não tive.
   Minha avó Ana era uma doceira de mão cheia.  Gente da classe rica contratava suas artes  para ela fazer  os doces de casamento e aniversário. Ela ia visitar o neto com freqüência. 
- Bênção, vó.
- Deus te abençoe, meu neto.
E me dava o pequeno embrulho.
- Olhe aqui o doce que eu trouxe pra você.
Cocada de coco, de abacaxi ou  de cacau.
Às vezes ela trazia na compota o doce de  leite, de  batata doce ou  goiaba.
Minha  mãe era também uma boa doceira, aprendera a arte de fazer doce com minha avó. Embora eu gostasse do doce que a minha mãe fazia, o de  minha avó tinha um sabor especial. Dava água na boca só de imaginar. 
Não gostava quando minha mãe colocava cebola, tomate  e coentro na sopa. Ficava embirrado sem querer tomar. Minha mãe ralava comigo e prometia me botar de castigo se eu não tomasse. “É pra seu bem, filho, tome a sopa que está deliciosa.” Acrescentava que sem  cebola, tomate e coentro a sopa não pegava gosto. Tomava a sopa depois de tanto minha mãe pedir e me prometer que aquela era última vez que aquilo ia acontecer.
Contava à minha avó o que minha mãe fazia comigo para tomar a droga daquela sopa. Ela  interferia e aconselhava minha mãe a  não fazer mais aquilo.
- É a natureza do menino, você tem que entender – pigarreava e concluía zangada: - Você faça a sopa de agora em diante como o  meu neto quer.
Minha avó Ana gostava de contar histórias para o neto do tempo em que os bichos falavam. Contava histórias para o neto sorrir. Contava histórias para o neto voar. Contava histórias para o neto sonhar. Contava histórias para o neto dormir.
Quando o rio Cachoeira amanheceu furioso, espalhando água para todos os lados, minha avó temeu que a enchente alcançasse a casa onde eu morava. Apressada foi me buscar para que eu fosse  dormir  na sua casa, que ficava numa parte alta da cidade. Meus pais não quiseram ir. Fiquei mais de duas semanas  na casa de minha avó, à espera  que o rio baixasse suas águas barrentas e zangadas. Foi aí,  nesse tempo de muita chuva, relâmpago e trovoada, que minha avó mais demorou contando muitas histórias para eu sorrir, voar, sonhar e dormir.
Já estava acostumado a morar com minha avó. Fiquei triste quando tive que retornar de sua casa para a de  meus pais quando o rio Cachoeira voltou ao seu curso normal.
Ainda hoje, com a idade avançada, lembro de minha avó. Às vezes quando estou sozinho, pensando, pensando, não tenho dúvida de  que  ela  está morando no paraíso desde que partiu  desta vida para a outra no além. Mas tem uma coisa que me preocupa, é se ainda vou encontrar com ela quando acontecer a minha partida deste mundo de cá para o de lá.  É que não  tenho conseguido ser doce como minha avó foi nos caminhos desta vida. Quando fizer essa viagem sem volta, penso que  devo ir para o purgatório, lugar onde ficam as almas do pecador que não tenha cometido os males piores no lado de cá desta vida. E há quem diga que as almas que vivem no paraíso não se misturam com as que estão no  purgatório.  E do purgatório minha alma não vai poder sair para visitar a de minha avó, que certamente  estará  vivendo para sempre  no paraíso,  entre os  santos e os anjos. 
Mas tenho certeza que ela dará um jeito nisso tudo. E como nunca falhou nessas horas, irá me visitar no purgatório, levando os doces mais deliciosos que costumava fazer para o neto.