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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Lançamento A CASA VERDE DE Cyro de Mattos





Foi lançado nesta quinta-feira dia 28 de maio a terceira edição do livro "A casa verde" do escritor Cyro de Mattos. O evento contou com a presença de membros da Academia de Letras de Itabuna, bem como de amigos e leitores do escritor.

O livro de poesia foi inspirado no Museu casa verde, antiga residência do coronel do cacau Henrique Alves (1861-1942).  A edição bilíngue teve tradução para o inglês do professor Emérito Doutor Luiz Angélico.

Na noite de lançamento o editor Gustavo Felicíssimo falou de sua honra em publicar um autor como Cyro de Mattos, a presidente da Academia de Letras de Itabuna ressaltou a importância da preservação do nosso patrimônio cultural, como a antiga sede do colégio Divina Providência e também da importância da publicação de autores grapiúnas pela editora Mondrongo.

O autor Cyro de Mattos falou sobre o livro A Casa Verde, da literatura na atualidade e citou nomes de diversos autores grapiúnas que, como ele, preservam e constroem o patrimônio literário grapiúna. Atores e poetas declamaram poemas durante o evento.























terça-feira, 2 de junho de 2015

Crônica da Infância



Cyro de Mattos



 Depois de cortar com a tesoura o pano marrom, minha mãe ficou  na máquina de costura, fazendo aquela roupa, que parecia mais um vestido folgado de mulher.  Quando ficou pronta, ela me chamou para que fosse experimentá-la. Ela chamou de hábito aquela roupa que ela passou a manhã toda costurando na velha máquina de costura, marca Singer, que foi de minha avó.  Ora, toda menina vestia vestido, menino usava calça. Como era então que minha mãe foi arranjar aquela roupa de mulher para que eu vestisse no domingo quando fosse com ela  para a missa? Quando andava, a barra do hábito roçava nos meus pés. Meu  corpo ficava abafado quando estava vestido nele no domingo  azul de  verão.  O suor escorria do peito, as costas coçavam.

 A mãe cortou meu cabelo baixo, sem esquecer de fazer uma coroinha ali no meio da cabeça. Até alpercata de duas tiras ela mandou que calçasse.  Agora tinha que ir à missa aos domingos vestido como um frade. Durante um ano. Tinha que cumprir a promessa que ela fez porque não tinha morrido com o fundo de panela que fiquei arremessando para o alto como se fosse um disco.

Encontrei o fundo de panela na Praça Camacã, perto da beira do rio. Com dificuldade desenterrei-o da terra molhada com a chuva que caiu  durante a noite.  Várias vezes eu o lancei para o alto, tentando fazer com que chegasse cada vez mais longe, como uma vez vi um menino fazer no areal deixado pela cheia do rio Cachoeira. Era um menino maior do que eu. Mas tinha confiança em mim: aquela brincadeira de lançar fundo de panela para o alto eu também sabia fazer. Era só aparecer uma primeira oportunidade.

 Esperava que daquela vez o fundo da panela fosse subir mais alto. Quando o lancei como um disco bem para o alto, com todas as forças que pude reunir, mal tive tempo de vê-lo atravessar célere o espaço de cima, brilhando como um espelho na manhã com seus raios de sol que flechavam a terra. Voltou mais célere ainda e desceu como se quisesse me atingir.

Tudo foi bem rápido. Senti o corpo balançar quando ele me atingiu na testa. O sangue desceu pelo rosto, cambaleei e caí. Botei a boca no mundo, chamando por minha mãe. Soube depois que seu Isaías, que tinha uma oficina para consertar bicicleta no beco perto da padaria, foi quem me levou nos seus braços cabeludos para minha casa. Quando acordei, escutei a empregada dizendo que cheguei desmaiado, a cara toda melada de sangue. Minha mãe prometeu que, se eu escapasse daquela, ia fazer uma promessa para São Francisco.

O médico disse que  o fundo da panela não varou minha testa e atingiu o cérebro porque tive muita sorte. Era morte certa, se o cérebro fosse atingido pelo fundo da panela.  São Francisco não deixou que isso acontecesse, minha mãe observou. Achava que o santo de sua maior devoção havia escutado seus pedidos para que o filho não morresse.  Ela tinha certeza disso.

E o pior de tudo isso estava para acontecer. Ia ser motivo de mangação pelos amigos. Bastava que um deles descobrisse a novidade e corresse para dizer aos outros. Não demorou. Aconteceu isso no primeiro domingo quando então fui à missa vestido como um frade, o crucifixo de madeira no peito, pendurado na corrente, o cordão grosso amarrado em volta  da cintura.

 Duda, que só andava sorrindo se via alguma coisa engraçada nos outros amigos, não conteve o riso quando me descobriu  vestido de São Francisco na missa das oito. Não parava de sorrir quando olhava para mim, os olhos cintilando de contente. Foi ele quem me botou o apelido de Ciroca Fradeco, assim que contou aos amigos como tinha me encontrado na missa vestido de frade. Minha sorte foi  que a professora de português pegou Duda dormindo na aula. Como castigo, ela passou para ele fazer uma composição sobre o rio Cachoeira  com quinze linhas. Era para  trazer na próxima aula. Ele nunca tinha feito uma composição sobre qualquer assunto. Eu falei que ia ajudá-lo contanto que ele deixasse de me chatear,  chamando-me daquele apelido irritante, além de incentivar  os colegas para que também mangassem de mim.

 Fiz a composição sobre o rio para tirar o amigo do vexame.  Ele foi elogiado pela professora, que chegou a dizer que quando o aluno se entrega com interesse a um dever de aula  parecendo difícil  não existe tarefa que  ele não consiga fazer. Claro que ele cumpriu a sua parte no trato que fizemos. Os colegas prontamente deixaram de me chamar pelo apelido  de Ciroca Fradeco, o que não deixou de ser  um grande alívio para mim.   



A Poesia Existencialista de Walker Luna

                                                       Cyro de Mattos

         Nascido em Itabuna, no dia 6 de agosto de 1925, o poeta Walker Luna publicou  os seguintes livros de poesia: Estes Seres de  Mim (1969), Companheiro (1979), Estações dos Pés (1983) e Na Condição do Existir (1999). Deixou inédito   Onde Os Fogos Se Cruzam. Incluí esse poeta em minha antologia  Itabuna, Chão de Minhas Raízes (1966) e o indiquei para a de Assis Brasil,  A poesia baiana no século xx (1999),  como fiz com Valdelice Soares Pinheiro, Firmino Rocha e Carlos Roberto Santos Araújo.  Dotado de uma linguagem fluente, Walker Luna  move seu discurso num ritmo agudo dentro dos limites do existir. Expõe essa paisagem estranha e solitária que comporta o ser humano na dor do viver. Poesia vazada numa experiência humana vivida com intensidade, entre a amargura e a insônia, o sofrimento e a angústia.  
         Oferece um testemunho de resistência luminosa, corajosa, de limitações  suportadas  com dignidade e altivez. Mas seus versos, de plena lucidez nas estações que comovem, trafegam também com acenos que nos descobrem livres, nos tons verdes que, transformados  em sumo vital, proliferam frutos.  
         É sobre seu último livro,  Na Condição do Existir,  publicado pela Secretaria da Cultura e Turismo,  Selo As Letras da Bahia, Salvador,  que faço  agora algumas anotações de leitura. O seu discurso nesse livro é marcado novamente  pelo enfoque de ressonâncias agudas na aventura precária comportada pelo  ser humano ao assumir a vida. Na corrente do existir o poeta estabelece o diálogo com o viver no ser. Aqui, neste encontro de alma e soluço, realidade e sonho, sinto o pulsar de espantos e indignações como elementos essenciais de uma condição interior, na qual as imagens são mitificadas,provocam ferimentos e ressoam com o seu tom vertiginoso, suas angústias, que são as de todos nós, de todos os tempos. De momentos vertiginosos que não se escondem através dos rumores de nossos sentidos.
          O poeta sabe que, mesmo quando protesta na coerência falha dos mortais,/ num aprendizado duro e sem termo/ na convergência de todo extravio, procede  nas dobras do pensamento  secreto e puro. Custa saber que na alquimia obscura da existência há o risco e o transe que são expostos através de situações estranhas, em um ritmo secreto de contágio e fogo, numa  canção onde as constantes influências tocam-se nos extremos. Elabora seu enigma feito de abismos.
         Emotivo sem ser lamurioso, porque consciente de que poesia é coisa séria, destituída de desabafos ingênuos, reflexivo, mas não conceitual no sentido estéril,  a poesia de Walker Luna resulta de uma experiência humana de natureza crítica do homem solitário. Cercado de sombras, indagações, fugas, depressões. Seus versos queimam como fogo,  sinalizam verdades na lucidez no sonho. Como na solidão passiva dos loucos descobrem-nos livres dos falsos ajustes/neste estágio maravilhoso/ entre a vida e a morte. Assim, o poeta implora esta ausência total, desconhecimento da própria matéria./ verdadeiros símbolos/ de pureza unânime.
       Em seu clima adensado de conflitos interiores permanentes, a poesia de Walker Luna está expressa nos limites do existir com a sua problemática subjetiva inserida na dor de viver, nesse estar do mundo das criaturas  como cúmplices do sofrer ante o transitório e o inevitável. Vida é dor, disse o poeta Jorge de Lima, logo se vivemos, onde todos os fogos se cruzam, é porque sofremos. A dor de viver com toda a sua carga terrestre, as estações sempre em chamas, o ontem e o hoje como uma unidade que lateja nas cordas mais agudas da condição humana, essa é a  matéria que nas visões contínuas propostas pelos golpes da  vida  o poeta Walker Luna transfigura nos sinais poéticos da escrita, na palavra trabalhada com fluência para atingir aquelas zonas da ilusão,  própria  do sonho, que nos acompanha desde não sei quando e comove.
            Poesia de homogeneidade temática e formal,  dá a impressão de um poema puxar o outro, como uma canção cheia de delírios, esta poesia mostra como o poeta deve usar a palavra com suas imagens e metáforas precisas  para alcançar aquele nível  expressivo, íntimo da boa fatura estética. Com a força dos que amam,  a poesia de Walker Luna dá um testemunho dos que sofrem com lucidez  quando então   buscam na tristeza, na angústia,  a alma de todos nós,  seres contraditórios e finitos na condição do existir.  
            Walker Luna faleceu em 3 de julho de 2007, em Jundiaí, São Paulo.

terça-feira, 19 de maio de 2015



O Voo de Telmo Padilha

              Cyro de Mattos


Telmo Padilha nasceu em Ferradas, em  5 de maio de 1930,  quando a vila era um distrito do município de Itabuna, no sul da Bahia. Faleceu em 17 de julho de 1977, em acidente automobilístico. Iniciou-se no jornalismo em Itabuna, teve  passagem na imprensa do Rio de Janeiro, na década de 50, e de retorno à terra natal  ingressou na CEPLAC, órgão de assistência e defesa da lavoura cacaueira. Estreou com  Girassol de Espanto (1956) e deixou inúmeros  livros de poesia, com destaque para  Onde tombam os pássaros (1974), Canto rouco (1977), Voo absoluto” (1977), Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro, Travessia (1979), O Punhal no escuro (1980) e Noite contra noite (1980).
Está presente em antologias no Brasil e exterior. Tem livros de poesia publicados na Inglaterra, Japão, Itália, Suíça e Uruguai. De sua poesia, disse Manuel Bandeira que “é rica de símbolos e metáforas”, enquanto Carlos Drummond de Andrade observou que  “ se faz sentir e amar pela concentração e o poder de síntese.”  Adonias Filho destaca que “os valores constantes são humanos e, em conseqüência, universais e eternos: a morte, o medo, o tempo, o nada, a memória. Circunscrita a esses valores, invulnerável a qualquer exterioridade, a poesia de Telmo Padilha pode converter-se  em um marco que congregue  toda a sua geração.”
Encontra-se na poesia de Telmo Padilha a constituição de um discurso reflexivo, que informa  proposições doloridas na clave das indagações existenciais.  Perguntas sem resposta que se manifestam sobre essa difícil e enigmática travessia, exposta aos olhos como difícil de aceitar, com sua problemática impregnada da vida,   morte, solidão,  incomunicabilidade, infância sem retorno,  enfim, a criatura humana cercada de angústia em função de circunstâncias matizadas pela  fugacidade do tempo. Nessa  travessia que  aloja nos ouvidos  cantos roucos, nessa temática ritmada de absurdos,  o poeta procura sempre se mover dentro de atitudes críticas. Dessa atmosfera vertiginosa,   na aventura que comporta de abismos e enigmas, pobreza, sofrimento, insônia, o autor de Onde tombam os pássaros consegue, numa expressão límpida, aparentemente fácil de ser compreendida, um dos momentos mais significativos da poesia contemporânea brasileira. É esse poder de tocar nos seres e coisas,  retirar sensibilidades e reflexões,  densidade na compulsão e riqueza na  profundidade da metáfora, que faz de Telmo Padilha um  poeta   com todas as essencialidades de que são dotados os bons poetas
            Em Agudo mundo, livro de poemas, inédito,  digo de poetas que ressoam suas  leituras da vida dentro de mim, com as marcas da solidão. Drummond, Eliot, Rafael Alberti, Garcia Lorca, o peruano Alfredo Pérez Alencart, Camões, o espanhol Fray Luís de León e o português Antonio Salvado são alguns desses poetas que homenageio  no meu livro.  Como poeta de minha admiração, Telmo Padilha está entre eles.  Transcrevo agora o poema que dediquei a esse poeta que ultrapassou as fronteiras regionais.  “Momento de Telmo Padilha -   Ah, Telmo Padilha/ Fale-me que sem a poesia/ o sol não pinta os desertos/ Com as cores da manhã./ O dia não entardece/ Nos braços do ocaso./ Com a razão e a emoção/ Não se estende a palavra/ Pelo vazio do vasto mundo./ A vida é mais pobre/ Sem esse canto agudo/ que em ti é feito exausto/ Como vamos perceber/ Teus passos de agonia, / que ao vento estremecem/ e te escutas nos desvãos?/ Ah, Telmo Padilha/ Fale-me de tua cidade, / A nossa querida Itabuna,/ De todos nós em teu grito,/ De Hélio, Valdelice,/ Firmino, Florisvaldo, / Cada um no seu canto/ Remoendo o seu tanto/  Fale-me dessas ruas,/ De fato não são ruas, /É uma mesma rua /Que começa solitária/ E termina solitária /  Nas vestes de teu ódio,/ Medos e incertezas/  Conquanto seja abrigo,/ Música cortante  da paixão./ No teu dia cor de sombras/ Só podemos amar com dor,/ na forma autêntica da dor/ Onde há setembros/ Que vêm e somem/ Sem saber para onde vão./ Fale-me de teu voo/ Nessa viagem duvidosa/ Que nos oprime de aflição.

Posse da nova Diretoria da Academia de Letras de Itabuna



Membros da Academia de Letra de Itabuna na Cerimônia de Posse da Nova Diretoria no dia 15 de maio do ano de 2015.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lançamento do livro A CASA VERDE- de Cyro de Mattos




O livro A casa verde  e outros poemas, de Cyro de Mattos, com tradução para o inglês do  Professor Emérito Doutor Luiz Angélico, compõe-se de duas partes, como o próprio título indica. No primeiro momento,  o poeta baiano  Cyro de Mattos inspira-se na Casa Verde, que serviu   de residência  a Henrique Alves dos Reis (1861-1942), coronel do cacau, e sua esposa, dona  Cordolina Loup dos Reis, a filha Elvira e o genro Miguel Moreira, que foi prefeito de Itabuna. Com versos despojados, de lirismo puro.
          
O premiado poeta baiano (de Itabuna) faz uma viagem no tempo perdido e busca recuperar sua alma através do diálogo que estabelece entre  a poesia e a memória, que é o lugar de onde emerge a história com as pessoas, fatos e coisas. Local de importantes decisões políticas do município,  reuniões sociais e festivas, a Casa Verde tornou-se cenário de luxo e requinte nos anos 30. Preserva até hoje em seu acervo  o passado da conquista e do domínio  dos coronéis do cacau. O  poeta recria com suficiência  um  tempo áureo da civilização cacaueira baiana,   sugerido pelas  peças e indumentárias dos séculos XIX e XX, pertencentes  à família de  Henrique Alves Reis.   

Em  cada coisa que toca,  em cada voz que escuta, no aroma que  flui nos cômodos,  na solidão de Dona Elvira,   que não teve o herdeiro para prosseguir o ciclo, usa os referenciais  como signos identificáveis  do homem e a vida. E filtra com densidade poética o mando e a  solidão,  o fausto e o triste,    o efêmero e o eterno onde tudo se esconde.  O segundo momento do livro é formado  pelos poemas “Canto a Nossa Senhora das Matas”, “Um Poema Todo Verde”, “Morcego”, “Boi”, “Galos”, “A Roda do Tempo”, “A Árvore e a Poesia”, “Passarinhos” e “Devastação” (I,II). São poemas de vibrante força telúrica, puros como o  chão de quem possui um modo próprio de fazer poesia universal  sem perder de vistas os muros da aldeia, ou seja, por meio de  seu  timbre nativo  da   origem  tornada linguagem, como bem sublinhou o crítico e poeta Ledo Ivo. 

Há que ressaltar em A casa verde e outros poemas  a tradução primorosa  para o inglês realizada pelo poeta, ensaísta e Professor Emérito Doutor Luiz Angélico. Homem erudito, simples e fraterno,  de uma atuação admirável como professor de inglês no curso de Letras da Universidade Federal da Bahia, tradutor renomado, sua tradução para a língua inglesa de  A casa verde e outros poemas é possivelmente um de seus últimos trabalhos no setor. O poeta Cyro de Mattos ao dedicar-lhe o livro não só celebra a amizade e o apreço  que tinha por ele mas presta justa homenagem a quem tanto se dedicou ao ensino do  inglês na UFBA e à arte da tradução, desvendando com competência  seus limites e modos  para que  muitos  possam conhecer a linguagem de outros povos,  com sua alma, seus costumes, seu cotidiano, suas dores e sonhos.