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segunda-feira, 9 de maio de 2016





Dois Poemas

Florisvaldo Mattos


RASTRO DE BRISA
A mãe Gertrudes
Somente de horas alegres
São feitos os dias da infância.
(O que é duro e revés
Sai da coluna do Haver).
Há duas exceções, porém:
A fome, que é desespero,
E a morte, noturna hiena,
E também as mágoas vindas
Dos primeiros desencantos.
O resto fica escondido
Nas abas lá da jindiba
Entre os guardados da loba.
Sobram os grandes espaços,
Os horizontes abertos
Às primeiras cavalgadas.
Eram cavalos-de pau
Ou era a tropa de burros?
Facão no cinto e na mão,
A taca de mil estalos,
Nas dobras de alguma nuvem,
Ramiro tange escondido
Cuscuz e a Besta Melada.
E depois nos prega sustos
Saltando detrás das portas
Com a boca escancarada.
Do cume da Jacutinga
No trote da frialdade
Desce um rebanho de sonhos.
Ou são rebanhos de sombras?
Neblina fácil nas copas
Enreda-se com a folhagem.
Misturam-se aos bem-te-vis
Velhos cantares e aboios
Que os ventos levam e trazem.
“Que fazem meninos? Brinquem”,
Entoa a voz cautelosa
De quem quer filhos unidos.
Somente de alegres luzes
São feitos os dias da infância.

DE OLHO NA FOLHINHA

II
Na manhãzinha de um verão defunto,
repisando palavras, conselheira,
a mãe urdia na hora da partida,
igualmente a um martelo na bigorna.
“Vai, filho, estude, aprenda; escreva e leia.
A luz do livro guia o pensamento”.
Os dias disparando na folhinha,
subo no trem e vou para Água Preta.
Trilhos rangem. A máquina resfolga,
bafejando fumaça nos dormentes.
Como a vida, o trem passa e passará.
Chegar, parar, partir, é o seu destino,
sem que perdure vivo nos apitos
o pranto que ele deixa para trás.

sábado, 30 de abril de 2016





Conferência na Academia
                             Brasileira de Letras Sobre
                             Romance de Adonias Filho




Sinto-me honrado ao receber carta-convite do presidente da Academia Brasileira de Letras, Professor Doutor Domício Proença Filho, para fazer  conferência sobre o romance Luanda Beira Bahia, de Adonias Filho, no dia 7 de junho, às 17,30 horas, no teatro Raimundo Magalhães Junior.
A conferência fará parte do Ciclo de Conferências África: Olhares Ficcionais da ABL, que tem como coordenador  o acadêmico Antonio Torres. O título que escolhi para a conferência é  Os Mares Trágicos de Adonias Filho: Luanda Beira Bahia. Transposta abaixo a carta-convite do presidente Domício Proença Filho e a programação geral do Ciclo de Conferências África: Olhares Ficcionais da ABL.

       

  Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2016

Ilmo. Senhor
Prof. Dr. Cyro de Mattos,

Em nome do Dr. Domício Proença Filho, Presidente da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS e da Dra. Ana Maria Machado, coordenadora geral dos ciclos, temos a satisfação de convidá-lo para proferir uma conferência sobre o Acadêmico Adonias Filho, no âmbito do Ciclo de Conferências AFRICA: OLHARES FICCIONAIS DA ABL, no dia 7 de junho do corrente ano, terça-feira, às 17h30. 

O ciclo, coordenado pelo Acadêmico Antônio Torres, compõe-se de quatro conferências, às terças-feiras do mês de junho de 2016, no Teatro R. Magalhães Jr.
Informamos que os conferencistas convidados dispõem de 45 minutos para apresentação de suas considerações. Não estão previstos debates. A conferência será transmitida ao vivo.www.academia.org.br/eventos

Com grande satisfação em recebê-lo, aguardamos confirmação de sua presença, quando poderá nos enviar o título escolhido.
       Agradecemos a atenção, solicitamos seu contato telefônico e permanecemos à disposição para qualquer informação que se torne necessária.

Cordialmente,

Profa. Marta Klagsbrunn
Chefe da Assessoria Cultural da ABL

palma
Marta Klagsbrunn
Assessora Cultural
Tel: 00 55 21 3974-2543 


 Programação da Academia Brasileira de Letras
CICLOS de CONFERÊNCIAS 2016

JUNHO
AFRICA: OLHARES FICCIONAIS DA ABL 
         Coordenação: Acad. Antônio Torres

7/6 |  Os mares trágicos de Adonias Filho:                                       “Luanda Beira Bahia”                                                          
Cyro de Mattos

14/6| Os tambores de São Luís”: 40 anos da obra-prima de Josué Montello
               
Reginaldo de Jesus 

21/6 | Jorge Amado e a formação de um imaginário

        Ana Maria Gonçalves
 
   
28/6 | O africano Antônio Olinto

                Alberto Mussa


sábado, 23 de abril de 2016

           



            


     A Morte de Salim Miguel (1924-2016)

Salim Miguel, o escritor mais importante de Santa Catarina em nosso tempo, figura marcante de nossas letras no século XX, autor de A Rede, romance, A Morte do Tenente e Outros Contos,  Velhice e Outros Contos, Nur Na Escuridão, romance, entre outros, com mais de 30 livros publicados, entre volumes de crônicas, contos e romances,  morreu sábado, 22 de abril de 2016, aos 92 anos de idade, em Brasília - DF, onde atualmente residia.
     Um de seus contos, “O Gol”, participa da antologia Contos Brasileiros de Futebol (LGE Editora, Brasília, 2008), organizada por Cyro de Mattos. Nascido no Líbano, mas criado em Santa Catarina, Salim Miguel participou do movimento de renovação cultural de Santa Catarina, conhecido como Grupo Sul. Foi preso durante  o golpe militar de 1964. Transferiu-se para o Rio de Janeiro onde foi um dos redatores da revista “Ficção”. De volta a Florianópolis dirigiu  a editora da Universidade Federal  de Santa Catarina, de 1983 a  a 1991.  Com Nur na Escuridão ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes e Prêmio Zaffari &Bourbon. A Academia Brasileira de Letras agraciou Salim Miguel com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.
Segue abaixo depoimento do autor de Velhice e Outros Contos.
"Comecei a escrever antes de aprender a escrever. Naquela época, fim dos anos 20, começo dos 30, depois das estripulias diárias, a criançada se reunia ora na frente da casa de um, ora na frente da casa de outro, e cada um relatava como é que tinha sido o seu dia. As correrias, as brigas. Hoje, nós brigávamos; amanhã, éramos grandes amigos. Então, eu cortava uma folha de papel-embrulho da loja de meu pai, recortava palavras ou letras, juntava alguns rascunhos meus. Linhas na horizontal, na vertical, em círculos. E lia aquilo pra eles. Lia não, porque eu não sabia ler. Inventava que estava lendo. Ali estava surgindo, ao mesmo tempo, o jornalista e o escritor. Então meu pai, me vendo grudado em tudo que era papel impresso, vendo aqueles signos mágicos me fascinarem, me perguntou: “O que pretendes fazer na vida?”. Sem titubear, respondi: “Ler e escrever”. Minha mãe, que era uma mulher sensível, disse: “Não vai ser fácil”. E meu pai: “Fácil não vai ser, mas se ele persistir, conseguirá”. Então, uma palavra que me acompanha toda a vida é “persistir.

 Para falar a verdade, se eu tivesse uma formação acadêmica, gostaria de ter sido crítico e ensaísta. João Cabral dizia a mesma coisa. Mas acho que tive o bom senso de sempre escrever muito e rasgar mais do que publiquei. Rasguei muito mais do que publiquei. Tanto que, para os nossos padrões, pelo menos para os da minha juventude, comecei muito tarde. Passei a infância e a adolescência em Biguaçu — tanto que costumo dizer que sou um líbano-biguaçuense — e só comecei a publicar em Florianópolis. Nos anos 40, a capital catarinense tinha quatro jornais. Hoje, só tem um. (…) Ao mesmo tempo em que eu publicava algumas crônicas nos jornais, já começava a escrever o que chamo de “anotações sobre leituras”. De repente, me disse assim: “Já que estou fazendo crônicas — e a crônica é meio caminho para o conto —, por que não chego ao conto?”. Daí, comecei a publicar contos. Meu primeiro livro é de 1951. Chama-se Velhice e outros contos, pois sempre me preocupou o tema da velhice, da morte, do tempo e da memória. Devo esse livro ao IBGE. Não ganhei dinheiro trabalhando para o senso demográfico de 1950, mas cinco dos oito contos desse livro, inclusive os três Velhice — Velhice 1Velhice 2Velhice 3 —, resultaram de conversas com pessoas que fui recensear."

terça-feira, 12 de abril de 2016


Revista da Academia de Letras
da Bahia Inclui Textos de Alitanos

              A edição número 54 da revista da Academia de Letras da Bahia será lançada no dia 15 deste mês, na sede da instituição, em Salvador, a partir das 18 horas. Participam desse número os escritores Aramis Ribeiro Costa, Cyro de Mattos, Florisvaldo Mattos e Aleilton Fonseca, membros da Academia de Letras de Itabuna.  

         Nessa edição, a publicação traz também  textos de Edivaldo M. Boaventura,  Gláucia Lemos, Roberto Figueira Santos, Urania Tourinho Peres, Waldir Freitas Oliveira, Antonella Rita Roscilli, Ordep Serra, Evelina Hoisel, Yeda Pessoa de  Castro, Samuel Celestino, Roberto Santos, Carlos Ribeiro, Paulo Furtado, Antônio Torres, Gerana Damulaks e da poeta Myriam Fraga, que faleceu no último mês de fevereiro. Em breve, todo o conteúdo estará disponível para download em http://www.academiadeletrasdabahia.wordpress.com/revistas/.

sábado, 9 de abril de 2016




Editora no Sul da Bahia Publica
Três Livros de Cyro de Mattos


Dono de obra literária extensa, entre volumes de contos, novelas, romance, literatura infantojuvenil e organização de antologia, o escritor e poeta brasileiro Cyro de Mattos acaba de ser publicado pela Via Literarum, editora do sul da Bahia, no Brasil,  sediada no município de Ibicaraí,  com os livros  Fissuras e Rupturas: Verdades, contos, capa do artista plástico  Santescaldaferri,   Poemas da Terra de Rio, para o leitor adulto,  imagem da capa de Van Gogh, obra dedicada ao poeta Alfredo Pérez Alencart,   e O Circo  no Quintal, para as crianças, capa e ilustrações do desenhista Ângelo Roberto.   
Autor versátil, dominando várias linguagens, o escritor Cyro de Mattos  com esses três livros lançados pela Via Literarum  consegue atingir a marca de 54 livros publicados, no Brasil e exterior, vários deles com prêmios literários expressivos no âmbito nacional e internacional.  
Em O Circo no Quintal, o poeta das crianças mostra que, neste circo,  alegria e brincadeira é o que mais existe,  como na cena do músico Marreco e suas artes de tocar reco-reco ou na do Trio Banana com zabumba e sanfona. Já em um trecho do poema Canto a Nossa Senhora das Matas, do livro Poemas da Terra e do Rio, o poeta indaga: Quando a mata for deserta,/ não mais se colher a flor, /  o rio se esconder da chuva/ e de Deus não cair a lágrima/ será esta a triste música?                         
       O livro Fissuras e Rupturas: Verdades reúne vinte e dois  contos modernos de composição condensada para formar o quadro, o episódio ou o  flagrante no espaço reduzido,  diferente  do que o contista forjou em oportunidades anteriores com as motivações de sua gente e sua terra.  No conto Paixão, por exemplo,  encontramos o trecho seguinte:
     
     Chamados pelos vizinhos, os mesmo policiais prenderam Zé Amaro em flagrante. Já mais calmo, não esboçou qualquer reação quando recebeu a ordem de prisão e foi algemado. Ele admitiu na delegacia  que não tinha sido essa a primeira vez que encontra a mulher com algum desconhecido em sua residência. “A vida é assim mesmo, cada um cumpre sua sina, nada se pode fazer.” Completou, conformado: “Cada um no seu canto sofre o seu tanto.” Logo que saísse da cadeia, ia pedir perdão â mulher e tentar a reconciliação.


sexta-feira, 8 de abril de 2016



Copa do Mundo 70
Carlos Drummond de Andrade
  
I

Meu Coração no México

Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:
Que é do meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,
instalou-s, discreto, num cantinho
qualquer, entre bandeiras tremulantes,
microfones, charangas, ovações.,
e de repente, sem que eu mesmo saiba
como ficou assim, ele se exalta
e vira coração de torcedor,
torce, retorce e se destorce todo,
grita: Brasil! Com fúria e com amor.


II

O Momento Feliz

Com o arremesso das feras
e o cálculo das formigas
a seleção avança
negaceia
recua
envolve.
É longe e em mim.
Sou o estádio de Jalisco, triturado
de chuteiras, a grama sofredora
a bola mosqueada e caprichosa
Assistir? Não assisto. Estou jogando.
No baralho de gestos, na maranha
na contusão da coxa
na dor do gol perdido
na volta do relógio e na linha de sombra
que vai crescendo e esse tento não vem
ou vem mas é contrário... e se renova
em lenta lesma de replay.
Eu não merecia ser varado
por esse tiro frouxo  sem destino.
Meus onze atletas
são onze meninos fustigados
por um deus fútil que comanda a sorte.
É preciso lutar contra o deus fútil,
fazer tudo de novo: formiguinha
rasgando seu caminho na espessura
do cimento do muro.

Então crescem os homens. Cada um
é toda a luta, sério. E é todo  arte.
Uma geometria astuciosa
aérea, musical, de corpos sábios
a se entenderem, membros polifônicos
de um corpo só, belo e suado. Rio,
rio de dor feliz, recompensada
com Tostão a criar  e Jair terminando
A fecunda jogada.

É gooooooooool  na garganta florida
rouca exausta. Gol no peito meu aberto
goll na minha rua nos terraços
Nos bares nas bandeiras nos morteiros
gol
na girandolarrugem das girândolas gol
na chuva de papeizinhos  celebrando
por conta própria do ar: cada papel,
riso de dança distribuído
pelo país inteiro em festa de abraçar
e beijar e cantar
e gol legal é gol natal é gol de mel e sol.

Ninguém me prende mais, jogo por mil
jogo em Pelé o sempre rei republicano
o povo feito atleta na poesia
do jogo mágico.
Sou Rivelino, a lâmina do nome
cobrando fina, a falta.
Sou Clodoaldo rima com Everaldo.
Sou Brito e sua viva cabeçada,
cm Gerson e Piazza  me acrescento
de forças novas. Com orgulho certo
me faço capitão Carlos Alberto.
Félix, defendo  e abarco
em meu abraço a bola e salvo o arco.

Como foi que  esquentou assim o jogo?
Que energias dobradas afloraram
do banco de reservas interiores?
Um rio passa em mim ou sou  o mar atlântico
passando pela cancha e se espraiando
por toda a minha gente reunida
num só vídeo, infinito, num ser único?

De repente o Brasil ficou unido
contente de existir, trocando a morte
o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste
por um momento puro de grandeza
E afirmação no esporte.
Vencer com honra e graça
com beleza e humildade
é  ser maduro e merecer a vida,
ato de criação, ato de amor.
A Zagalo, zagal prudente
e a seus homens de campo e bastidor
fica devendo a minha gente

este minuto de felicidade.

quinta-feira, 31 de março de 2016

               

               O Leão da Copa

                Armando Nogueira


           Copa do Mundo de 58, na Suécia. Bons tempos. Repórter podia viajar no mesmo vagão, no meio dos craques. Assim foi na viagem de Gotemburgo  pra Estocolmo, onde o Brasil jogaria a semifinal contra a França. A França do respeitável Raymond Kopa. Me Lembro que sentei ao lado de Vavá. Ele ocupava dois bancos: o dele e o da frente, com encosto invertido, pra esticar a perna e acomodar o pé direito. Todo mundo sabia que Vavá tinha se machucado, chutando uma sola de chuteira, no jogo com a União Soviética, Brasil 2 a 0, os dois de Vavá.
         Mas eu não imaginava o tamanho do estrago. Agora, vendo, assim, de perto, a olho nu, eu posso compreender por que foi que ele não entrou contra o País de Gales. Não tinha como. No peito do pé, um talho de quatro centímetros, profundo, a carne desbeiçada. Parecia uma cratera. Foi quanto lhe custou a bola dividida do segundo gol do Brasil nos soviéticos. A sola do soviético, antes de cortar o pé, cortou a meia de lã e dez voltas da atadura que enfaixava o tornozelo de Vavá. Naquela partida, Vavá jogou uma barbaridade. Vavá tinha futebol pra qualquer preço: sabia tocar a bola, com finesse, mas sabia também dividir uma bola, com firmeza.
-       Vai dar pra jogar contra a França? - perguntei-lhe por perguntar.
Ele respondeu, confiante:
- Vai dar, tem que dar!
Fiquei na minha, mas não acreditei. O jogo seria dali a dois dias. Aquela ferida não cicatrizava em dois dias, nem com reza de terço na mão.
Vem o jogo. Vavá está ali, perfilado, ouvindo o hino nacional. Por sinal, revendo a foto, hoje, noto que Vavá é o mais compenetrado de todos. As duas mãos coladas no corpo. É a própria pátria em posição de sentido.
         Atrás do gol, eu só me lembrava da cena no vagão do trem. O pé inchado, um lanho enorme, todo borrifado do velho e manjado Polvilho Antisséptico Granado. E me perguntava, brasileirissimamente angustiado: como é que pode jogar futebol com uma ferida daquela no pé? Justamente, o pé de estimação. Vavá chutava com as duas, mas a preferida era a direita.
A bola corre e não me saía da cabeça a idéia de que Vavá será um a menos. Em campo ou fora de campo. É bom lembrar que, na época, não se podia substituir ninguém. É bem verdade que o moço era admirado pela turma por ser um guerreiro. Não foi por outra razão que lhe deram o lugar de Mazzola. Mazzola andou encurtando o passo contra os ingleses (zero-a-zero) e, em pleno jogo, levara uma tremenda bronca do capitão Bellini:
- Isso aqui é jogo pra macho! – explodiu Bellini, quando viu Mazzola deitado na grama, reclamando de uma entrada ríspida de um inglês.
Bom, amigos de hoje, eu só posso dizer a vocês uma coisa: Vavá jogou a partida contra a França como um bravo. Não refugou uma só disputa com os zagueiros franceses. Numa delas, a bola dividida, o central Jonquet levou a pior com Vavá e acabou saindo de campo com a perna fraturada. Os franceses não culparam Vavá. Ninguém culpou Vavá. O lance foi duro, mas na bola. Vavá nunca entrava maldosamente. Era leal. Atacante destemido de dois mundiais inesquecíveis.
Vavá fez um gol, dos cinco na França, e pelo que me confessaria depois, em nenhum momento pensou na ferida do peito do pé. Herói não tem pé.  É só coração. Pois três dias depois, sem que estivesse curado, Vavá metia o pé, aquele mesmo pé, em dois passes cruzados de Garrincha, marcando os dois gols da reação brasileira contra a Suécia, na final da Copa.
Até hoje, eu não sei quem foi que, primeiro, chamou Vavá de Leão da Copa. Mas, desde aquela partida contra a França, eu fiquei sabendo por que alguém teve a feliz idéia de batizá-lo Leão da Copa.
Quanta saudade!




*Armando Nogueira nasceu no Acre, na cidade de Xapuri, em janeiro de 1939. Comandou o jornalismo da rede Globo durante vinte anos. É um dos maiores e cronistas esportivos do Brasil de todos os tempos. Único jornalista que esteve presente, no local do evento, em 14 copas do mundo de futebol, de 1950 a 2002. Um mestre das palavras na crônica esportiva, demonstrando na escrita tudo o que se requer de um cronista exemplar: consciência artesanal, força imagística, leveza poética, traços épicos e dramáticos. Publicou, entre outros, “Na Grande Área” e “A Bola e a Rede”. O texto “O Leão da Copa” foi extraído do livro “A Ginga e o Jogo”, 2003. (Nota de Cyro de Mattos)

domingo, 27 de março de 2016

REPÚBLICA DE CURITIBA,
REPÚBLICA DA HONRADEZ
               
                  J.C. Teixeira Gomes

A maior tragédia do impasse nacional é a falta de lideranças confiáveis para a alternância do poder. O naufrágio ético do PT assanhou a presença, na mídia, de figuras reacionárias e ultrapassadas, posando de catões da moralidade pública, apesar da sua trajetória lamentável.
A chamada “República de Curitiba”, conforme Lula a batizou com ironia, incomodado com a firme ação do juiz Moro, é o único motivo de alento nos corações brasileiros. Nem mesmo a conduta do ministro Joaquim Barbosa durante o mensalão atingiu níveis tão altos de decência saneadora. Não surpreende que Moro esteja sendo alvo da fúria dos atingidos.
Os jornalistas petistas vociferam: “Estão acusando Lula sem provas!”. Queriam o quê? Que Lula assinasse e publicasse autorização para que Dirceu, Genoíno, Palocci, Delúbio, Vaccari Pixuleco, Erenice Guerra, Barusco, Cerveró, Renato Duque, Paulo Roberto Costa e tantos outros mafiosos continuassem saqueando o país? Que provas são hoje necessárias para confirmar o sinistro pacto do PT com os partidos que ajudaram a roubar o Brasil, produzindo os rombos do mensalão? Ou o mais sinistro ainda do PT com os empreiteiros que, durante anos, vinham assaltando a Petrobrás? Quem era o presidente da nossa empresa maior ou chefiava o seu Conselho Deliberativo durante a fraudulenta compra da refinaria de Pasadena? Quem colocou na direção da estatal Paulo Roberto Costa, Duque, Cerveró, Barusco e outros campeões da ladroagem?
    Se estão reclamando provas contundentes, em letra de forma, com autenticação e firma reconhecida, para comprovar crimes óbvios, lembremos que nada disso foi preciso para que o Tribunal de Nuremberg acusasse Hitler e demais chefes nazistas de responsáveis pelo extermínio dos judeus, apesar de nenhum deles ter deixado um único documento,  autorizando o Holocausto. Muitos anos penou a Justiça dos EUA para meter na cadeia Al Capone, que aterrorizava Chicago, sem oferecer registros de criminalidade, até que foi flagrado por um descuido no imposto de renda. Não poucos criminosos são mestres sagazes em dissimulações, contando com a cobertura dos seus beneficiários. Há uma solidariedade voraz na delinquência.
O juiz Sérgio Moro está sendo alvo da barragem de fogo do petismo e dos que ainda deliram com a miragem de que o partido é o refúgio da pobreza. Lembremos que muitas das acusações contra Moro  – estrelismo, excessos, agressões contra direitos – são exatamente iguais às que os inconformados jogaram no cangote de Joaquim Barbosa, quando o magistrado procurava descascar no Supremo a cebola podre do petismo, nas práticas (comprovadas) do mensalão. Cerca de sete anos suportou Barbosa as agressões da militância petista. Há dois anos, o injuriado Moro conduz a operação Lava Jato com absoluta competência, tanto assim que já conseguiu encarcerar expressiva cambada de ladrões poderosos, enfrentando a mais compacta coligação (nunca vista no Brasil) de advogados de excelência profissional. Apenas um dos empreiteiros presos é defendido por um time de 22 advogados. E continua preso!
Não é fácil dissuadir o fanatismo. Aos irredutíveis defensores de Lula e Dilma, porém, lembremos que, indignados com as traições do partido ao chegar ao poder, o PT foi abandonado por militantes do nível de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Chico Alencar, Carlos Nelson Coutinho, Frei Beto, Leonardo Boff e tantos outros expoentes. Em síntese: a República de Curitiba representa, hoje, as esperanças dos milhões de brasileiros que clamam por dignidade na vida pública. O grito das ruas não é o grito do golpe, mas sim o da honradez e da decência.


quinta-feira, 24 de março de 2016

       



       Poemas da Paixão

                 Cyro de Mattos



Uma Prece

Bomba a alvejar manso rebanho,
Fera branca que se achou Deus,
Cidade grande em galope amarelo,
Faces levando sede e fome,
Droga a matar a maravilha,
Sangue inocente de réu negro,
Lágrima extirpada de índio,
Mãos de metralha do menino,
Pai que apagou a luz do filho,
Mãe que não quis sentir a rosa,
Irmão que fugiu do outro irmão,
Rei que esqueceu a oração,
Veneno na água, chão e céu.
Cura-me, ó Deus de todos os perdões.


Este Cristo

 É maior que o mundo
Este andor feito na dor
Dos grandes rumores.
É maior que o mundo
Esta luz feita na cruz
Dos grandes tremores.
É maior que o mundo
Este amor feito no ardor
Dos grandes clamores.
Ó peso da terra,
Cuspe, chicotada, crivo.
E das chagas flores.


      Canto de Amor

E todo este peso
Terrestre perfurou
Na flor da comunhão,
De braços abertos
Clamas como cacto.
E dignos não somos
De olhar este rosto
Que pende no amor
Do sangue derramado.
E solitários caminhos
Da ternura os desviados
Na voz de tudo que é perdão.
O canto de amor prossegue
Pelos que têm fome e sede
E carregam o dilema do pacto.

  
Santa Cruz

Todo o peso da terra
Com ofensa e lenho
Aqui deste desterro.

      Pedras cor de vinho,
      Setas de veneno
      Dos que ladram.

      Lábios de sede,
      Botão que se abre
      Na flor do perdão.

      Até hoje a oferta.
      A ternura como meta
      Jogada na sarjeta.

    
         Sexta-Feira Maior

O sol morre.
Turva onda
O mundo em aflição
Molha-me de roxo.
Nada valho.
Nada sou de fato.
Prefiro Barrabás,
Crucifico o amor,
Sem dó e lágrima
Até o último gemido.



             Soneto da Paixão

Ao pé do Cristo todas as infâmias,
Ao pé do Cristo todas as insônias,
Ao pé do Cristo todas as intrigas,
Ao pé do Cristo todas as refregas.

Ao pé do Cristo todos os sedentos,
Ao pé do Cristo todos os famintos,
Ao pé do Cristo todos os horrores,
Ao pé do Cristo todos os clamores.

Ao pé do Cristo todos os insultos,
Ao pé do Cristo todos os corruptos,
Ao pé do Cristo todos os ladrões,

Ao pé do Cristo todas as prisões.
Nessa onda que nos leva como cães,
Cura-me, ó Deus de todas as paixões.


                
            Procissão do Senhor Morto



Tudo é roxo e ofensa e perdão.
A tristeza está nos ares,
já anda pelas veredas
e no perfume dos caminhos.
No ocaso da saudade ao longe,
na flor do cacau que é espinho.
E chega à igreja a procissão.
Tudo é clamor e cruz e paixão
porque uma coroa sensitiva
instalou-se em Itabuna
com fadiga e sede e fome
e escorre suas dores
pelas pedras cor de vinho,
mas no sábado tudo é verde
e claro sem o roxo e o espinho.
Os sinos repicam na cidade
e um dia novo está nas galhas,
no coro de milhões de passarinhos.