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terça-feira, 21 de novembro de 2017



         



                          

Herói  dos Palmares

Cyro de Mattos

Falo Zumbi,
Digo Palmares,
Ritmo da liberdade.

Falo Zumbi,
Digo Palmares,
Batuque da igualdade.

Falo Zumbi,
Digo Palmares,
Canção da fraternidade.

Falo Zumbi,
Digo Palmares
Sem o açúcar insaciável.

Falo Zumbi,
Digo Palmares,
Grito de cor indignada.

Falo Zumbi,
Digo Palmares,
No abismo a África salta. 

Falo Zumbi,
Digo Palmares
Nessa dívida impagável.


*Cyro de Mattos é autor de 43 livros individuais. Organizou dez antologias. Tem doze livros publicados em várias editoras europeias. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)

sábado, 18 de novembro de 2017

           [



                   Torcedor na Desportiva    

                                                  Cyro de Mattos             


Penso que um futebol amador de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos da nossa memória seja valorizada.  Sirva  para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  Faz-se necessário  que o teor do que acabei de dizer seja explicado melhor. É imperioso que o futebol amador de nossa cidade, na fase áurea,  seja mostrado aos conterrâneos e visitantes, curiosos e estudiosos. Como nasceu e se desenvolveu  com tão boas qualidades técnicas, em seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção.
Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Cito três: Léo Briglia, Déri e Fernando Riela. Como aconteceu com Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu os mais antigos desportistas de minha terra natal, vários  deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar a saga da seleção amadora,  campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram outras boas seleções do interior baiano. .
             Publiquei um livro sobre esse futebol amador  para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. Promovi quando gestor cultural da cidade o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”. Sua exibição foi um sucesso. Tocou os corações de muitos,   familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador,  curiosos de ontem e hoje. Na tela do palco do Centro de Cultura Adonias Filho,  uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar  uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra,  classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que  deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, com os momentos fascinantes, agradáveis e divertidos,  não  devo esquecer.  Como neste poema que escrevi:

Soneto do Campo da Desportiva - De zinco era coberta a arquibancada /A cancha tinha um piso esburacado./ Nem um pouco essa chuva demorada/Conseguia deixar desanimado/ O torcedor, que curtia a jogada / Do seu ídolo na bola passada./Dos pés a mágica mostrava ser / Tudo um sonho para nunca esquecer./ O gol de placa do atacante quando/ A partida já chegava ao final/E a marca da seleção que venceu/ Tantas vezes o intermunicipal/ Seguiram-me na torcida de meu/ Time pelos estádios do  mundo.   













sábado, 11 de novembro de 2017




Senhoras acadêmicas,
Senhores acadêmicos,

Com grande pesar, comunico o falecimento do professor, historiador e cientista políticoLuiz Alberto de Viana Moniz Bandeira, membro correspondente da ALB, ocorrido  ontem,sexta-feira, dia 10 de novembro,  na Alemanha.
Um dos mais notáveis intelectuais brasileiros e um pioneiro no estudo das Relações Internacionais, Moniz Bandeira estava radicado na cidade alemã de Heidelberg e era cônsul honorário do Brasil. Em 2015, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores (UBE), em reconhecimento pelo seu trabalho como intelectual, dedicado a repensar o Brasil. Em 2016, foi homenageado na UBE com o seminário "80 anos de Moniz Bandeira", ocasião em que sua obra foi destacada por importantes personalidades do meio acadêmico, político e diplomático.
Além de influente intelectual, Moniz Bandeira teve uma importante trajetória de militância política, filiado ao Partido Socialista Brasileiro.
 Sua posse como membro correspondente na Academia de Letras da Bahia ocorreu em 8 de agosto de 2000.

Atenciosamente,
Evelina Hoisel
Presidente ALB

quarta-feira, 1 de novembro de 2017



Cyro de Mattos lança “A Casa Verde e Outros Poemas”

Com a presença de presidente da Academia de Letras da Bahia, professora doutora Evelina Hoisel, representante do Instituto de Letras da UFBA, professora doutora Denise Scheyerl, acadêmicos Joaci Goes, Aramis Ribeiro Costa e Florisvaldo Mattos, desenhista Ângelo Roberto, cineasta  Cicero Bathomarco, professora doutora Maysa Miranda, professores, jornalistas e  intelectuais, A Casa Verde e Outros Poemas é o novo livro do acadêmico Cyro de Mattos. lançado no dia 24 de outubro, na sede da Academia de Letras da Bahia, em salvador.  A obra – traduzida para o inglês pelo professor Luiz Angélico. da UFBA,  em um dos seus últimos trabalhos – compõe-se de duas partes. No primeiro momento, o escritor inspira-se na Casa Verde, hoje um museu desativado que revela o passado da conquista e do domínio dos coronéis do cacau, um tempo áureo da civilização grapiúna, especialmente na cidade baiana de Itabuna, local de nascimento do autor e sede do espaço cultural.
O segundo momento é formado pelos poemas “Canto a Nossa Senhora das Matas”, “Um Poema Todo Verde”, “Morcego”, “Boi”, “Galos”, “A Roda do Tempo”, “A Árvore e a Poesia”, “Passarinhos” e “Devastação” (I,II). “De linhagem telúrica são poemas que se inserem, também, nas questões ecológicas dos tempos atuais”, destaca Cyro de Mattos.
Mattos lamenta o não funcionamento do museu para o incentivo da cultural local. “Causa prejuízos de natureza histórico-cultural à comunidade e ao sul da Bahia, o que é lastimável. Documentos valiosos sobre a memória política da cidade estão ali guardados. Reativar, manter e disponibilizar ao público o Museu Casa Verde significa não só preservar a memória da civilização cacaueira com o seu modo singular de vida, mas também possibilita a construção de novos conceitos de manutenção histórico-patrimonial, em sintonia valiosa com o conhecimento autêntico do passado regional”, defende. A falta de incentivo financeiro é um dos principais motivos pelo o seu atual fechamento.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

       


         " A Casa Verde e Outros Poemas"
        de Cyro de Mattos Vai Ser Lançado
        na Academia de Letras da Bahia
        
       
       O livro A Casa Verde e Outros Poemas, de Cyro de Mattos, com tradução para o inglês do Professor Emérito da UFBA, Doutor Luiz Angélico, vai  ser lançado na Academia de Letras da Bahia, em Salvador, no dia 24 deste mês, às 17 horas.  Na oportunidade, o autor fará uma palestra sobre o Museu Casa Verde, que está há anos desativado.  O livro compõe-se de duas partes, como o próprio título indica. No primeiro momento, o poeta baiano Cyro de Mattos inspira-se na Casa Verde, que serviu de residência a Henrique Alves dos Reis (1861-1942), coronel do cacau, e sua esposa, dona Cordolina Loup dos Reis, a filha Elvira e o genro Miguel Moreira, que foi prefeito de Itabuna.
       O segundo momento  é formado pelos poemas “Canto a Nossa Senhora das Matas”, “Um Poema Todo Verde”, “Morcego”, “Boi”, “Galos”, “A Roda do Tempo”, “A Árvore e a Poesia”, “Passarinhos” e “Devastação” (I,II). São poemas de vibrante força telúrica, puros como o chão de quem possui um modo próprio de fazer poesia universal sem perder de vistas os muros da aldeia,  por meio de um  timbre nativo da origem tornada linguagem, como bem sublinhou o crítico e poeta Ledo Ivo. São poemas que se inserem, também, nas questões ecológicas dos tempos atuais.
      Cenário de Luxo
Com versos despojados, de lirismo puro, o premiado poeta baiano (de Itabuna) faz uma viagem no tempo perdido e busca recuperar sua alma através do diálogo que estabelece entre a poesia e a memória, que é o lugar de onde emerge a história com as pessoas, fatos e coisas. Local de importantes decisões políticas do município, reuniões sociais e festivas, a Casa Verde tornou-se cenário de luxo e requinte nos anos 30.

      Vale a pena lembrar que  A Casa Verde e Outros Poemas traz a tradução primorosa para o inglês realizada pelo poeta, ensaísta e Professor Emérito Doutor Luiz Angélico. Homem erudito, simples e fraterno, de uma atuação admirável como professor de inglês no curso de Letras da Universidade Federal da Bahia, tradutor renomado, sua tradução para a língua inglesa de A Casa Verde e Outros Poemas é possivelmente um de seus últimos trabalhos no setor, antes de nos deixar para outra dimensão. O poeta Cyro de Mattos ao dedicar-lhe o livro não só celebra a amizade e o apreço que tinha por ele como  presta justa homenagem a quem tanto se dedicou ao ensino do inglês na UFBA e à arte da tradução, desvendando com competência seus limites e modos para que muitos possam conhecer a linguagem de outros povos, com sua alma, seus costumes, seu cotidiano, suas dores e sonhos. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

              


                  Romance  da Infância 
          
                  Cyro de Mattos

Já vai longe o tempo da infância na cidade onde nasci. Tinha poucas ruas calçadas,  três ou quatro bairros, o jardim, o cinema, o ginásio e a igrejinha. Seu rio, chamado  Cachoeira, descia sereno no tempo de estio. Era brabo na cheia, derrubava as casas ribeirinhas,  alagava ruas, levava no lombo  até bicho grande morto. Dividia a cidade em duas partes. Uma gente pobre tirava dele o sustento de suas famílias: lavadeiras, tiradores de areia,  pescadores e aguadeiros.
Lá, naquela cidade distante,  joguei bola com a turma de queridos amigos nos campinhos improvisados dos terrenos baldios.  Roubei fruta madura nos quintais das casas perto da beira do rio.  Brinquei de mocinho e bandido. Fiz a primeira comunhão e tive a primeira namorada. Esbanjei alegria no meu primeiro carnaval pelo salão do clube social. 
Lá também criei vaga-lumes para vê-los à noite piscando no quarto. Nadei como um peixe ágil nos poços bem claros do rio que tinha as águas doces. Andei como um bicho solto, sem ter medo  de nada, nos caminhos do mato. Feito pássaro dava cada voo com o vento mais alto. Quando cresci, soube que  a infância tem um sabor de fruta doce  que acaba quando chega o tempo dos homens.
              Não querendo que aqueles dias vividos com aventuras, descobertas e sustos esplêndidos se perdessem no tempo que se foi, sem que eu percebesse de tão rápido, ficando na alma trancados pelos homens,  resolvi então escrever algumas breves ficções com pedaços da infância. Nesses episódios que reinventei  com os fios eternos do sonho, procuro   compartilhar com quem quiser ler  um pouco da aventura da vida. Percorro caminhos,  para encontrar o menino na fumaça do tempo, mas que ainda pulsa no meu coração porque não se cansou de ser menino. Assim, anuncio que acabo de escrever meu segundo romance, Nada Era Melhor, que se destina ao leitor iniciante, mas também adulto. .
Cada  episódio desse romance  pode ser concebido como uma história, já que  possui autonomia na sua narrativa, conduzida na trama  com  os elementos tradicionais do tempo desmembrado com princípio, meio e fim. Como cada um dos episódios  é protagonizado por um menino em sua pré-adolescência, tendo como espaço de  suas aventuras  a infância,  o lugar onde elas acontecem sendo  uma cidade do interior baiano, no caso a cidade onde nasci, na primeira  metade do século XX, com personagens secundárias que  participam algumas vezes de muitos eventos,  não se pode deixar de considerar que Nada Era Melhor é uma história representativa da primeira fase da vida. Um romance,  de iniciação, como alguns escritores já fizeram na literatura ocidental.  E de maneira fascinante.
Mas aviso aos navegantes da barca literária que longe de mim a  pretensão de querer ser um  desses admiráveis ficcionistas, tecedores  da infância  com pedaços coloridos duma aventura inocente e vibrante.  Estaria realizado como autor se, por exemplo,  tivesse assinado Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou  Menino no Espelho, de Fernando Sabino.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017



Um Museu Importante que Foi Casa
 de Coronel de Cacau Está Desativado

                                                 Cyro de Mattos

A Fundação Henrique Alves dos Reis foi forçada  a ficar desativada  em 1990, em razão da falta de recursos e, com isso, o município de Itabuna sofreu uma grande perda dentro do contexto cultural de seus espaços mais importantes. A Fundação era mantida com os rendimentos de 2.500 arrobas de cacau que a fazenda Sempre Viva produzia anualmente. O baixo preço do produto àquela época e a carestia imposta por uma inflação galopante fizeram com que  se tornasse inviável a sua manutenção. Em época mais recente, ainda como fator negativo para reativar a fundação Henrique Alves dos Reis, interferiu o advento da praga da vassoura-de-bruxa, contribuindo para a quase devastação da lavoura cacaueira.
Idealizada por dona Elvira dos Reis Moreira para perpetuar a memória do pai, coronel Henrique Alves dos Reis, desbravador e  chefe político de grande influência no município,  a Fundação foi instalada em 11 de setembro de 1978, mas em 10 de maio de 1974 já existia  o Museu Casa Verde, que passou depois a integrar o patrimônio da instituição. Funcionava no local onde,  no princípio do século XX, existia um armazém para a comercialização e  depósito do cacau.  Com a destruição do armazém, foi erguida em seu lugar a Casa Verde, datada de 1887, onde moraram o coronel Henrique Alves dos Reis e sua mulher, dona Cordolina Loup dos Reis, a filha Elvira e o genro, Miguel Moreira, que foi prefeito de Itabuna.
O Museu Casa Verde preserva o passado da conquista e do domínio dos coronéis do cacau, um tempo áureo da civilização grapiúna visível nas peças e indumentárias dos séculos XIX e XX, pertencentes à família do coronel Henrique Alves dos Reis. O mobiliário ali exposto é em madeira trabalhado na Áustria e em Portugal, conservando o museu um acervo constituído de mais de 2.500 peças de cristais de Baracat, prata, coleções belíssimas de biscuits franceses, aparelhos de  café e jantar de Limoges e da Inglaterra, conjunto de talheres de Cristophe, móveis em estilo Luís XV, bandejas, jarros,  e bacias em louça chinesa, floreiras em electroprata, além de objetos pessoais; fardamentos, espadas, moedas em prata dos primeiros anos do século XX, vestidos, chapéus e leques.
Documentos valiosos sobre a memória política da cidade estão ali guardados, assim como vários números do jornal O Intransigente, um dos primeiros veículos da imprensa local, cuja primeira página  do primeiro número foi impressa em seda pura.
A Universidade  Estadual de Santa Cruz  - UESC – e o seu Centro de Documentação e Memória Regional – CEDOC – assumiram no final do século XX  a administração do Museu Casa Verde, da Fundação Henrique Alves dos Reis, em Itabuna, contribuindo  assim para formar, por extensão, o diálogo entre a memória, que é o lugar de onde emerge a história, e as pessoas que forem visitar um espaço formador do desenvolvimento sócio-cultural da comunidade baiana e, em particular, da grapiúna.
Reativar, manter e disponibilizar ao público o Museu Casa Verde, criado em 1974, significou não só preservar a memória da civilização cacaueira com o seu modo singular de vida, mas também possibilitou a construção de novos conceitos de manutenção histórico-patrimonial, em sintonia valiosa com o conhecimento autêntico do passado regional. No Museu Casa Verde percebe-se e compreende-se que ali está manifesta uma linguagem que vem do começo da civilização do cacau, formada pelos falares  e fazeres no dia-a-dia, doméstico, urbano e religioso, dentro e fora  da residência dos pioneiros que conquistaram a terra coberta de mata virgem.
Naquela oportunidade, a  reativação do Museu Casa Verde foi, ainda, um modo  eficaz de desconstituir a postura ilimitada de que modernidade e progresso, nos tempos velozes  da internet, andam de mãos dadas como meios incontornáveis para a exclusão do que seja antigo. Deu-se  oportunidade através de uma universidade criativa, e que se tornou uma sólida instituição cultural do Sul da Bahia, para conhecer e apreciar, pesquisar e estudar, duas mil peças de aspectos com os seus significados, significantes e elementos da natureza histórico-social, os quais servem sobretudo para a compreensão mais abrangente da Região Cacaueira Baiana e da História do Brasil.
No entanto, depois de alguns anos de proveitosa atuação, a parceria foi dissolvida. E,  passados tantos anos,  o Museu  Casa Verde continua desativado, causando prejuízos de natureza histórico-cultural  à comunidade  e ao Sul da Bahia, o que é lastimável.



A Casa Verde

Cyro de Mattos

O sol partindo-se nas gargalhadas.
O tempo tendo os pulsos firmes, eis
O coronel Henrique Alves dos Reis.

Na selva indômita o fino bordado
De Dona Cordolina, leves asas
Do amor que na valsa voa e suspira.

Sombras caminham no aroma de noites
Gemidas, os lençóis rangem na alcova
De Dom Miguel e Dona Elvira. A cava

Hora do rebento que nunca veio.
Ai, solidões a sugar o triste seio.
Grave paisagem grava o relógio

Na parede. Em cada coisa que toco,
Em cada voz que escuto,  em cada traço
Que adivinho. Gestos longínquos há

De um certo pássaro agora, que canta
Em mim e invisível ganha o silêncio.
Estranha vertigem do verde,  ser

Esta casa, flor que já não trescala,
Rio que não passa. No exílio ser
Turvo sonho na poeira dos marcos.

Quem sabe por que razão os cristais
Foram a manhã dessa casa? A seda
Cativou com tão suave perfume?



( Poema inspirado na casa que  serviu de residência a Henrique  Alves dos Reis, coronel do cacau,  e sua família, em Itabuna (rua Miguel Calmon),  do livro Cancioneiro do Cacau,  Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Itália, e Prêmio Nacional  Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores/Rio).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017




       Painel Artístico Valioso e  Maltratado
                                  
           Cyro de Mattos
          
            Com sua beleza enorme em que se retrata a  história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras, símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte genial de Genaro de Carvalho, que fica no prédio Comendador Firmino Alves, e que alojava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinqüentenário e a praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios artísticos de incalculável valor pertencente ao  município.  
           Não se concebe como essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de prefeitos, secretários de educação e cultura durante décadas, sendo alvo de toda espécie de mazela. Sobre a sua superfície foram pregados  folhetos de propaganda comercial e política,  vários azulejos estavam quebrados ou rachados, outros tantos não mais existiam.  Havia uma banca de jornal e revistas na frente, erguida na rua,  junto ao meio fio, que obstruía sua  visão. Faixas estendidas de um poste ao outro, anunciando algum evento, poluíam a visão do painel montado na parede como um monumento de um povo, além do tempo.
           A recuperação do painel deveu-se  à nossa iniciativa quando exercíamos o cargo de gestor cultural da cidade. Atuou como parceiro desse desafio o Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural – IPAC, sediado em Salvador. Houve a intervenção diplomática para a remoção  da banca de revista e jornal, além  do comércio informal de vendedores ambulantes, que com a  exposição de seus produtos, pregados na superfície dos azulejos trabalhados, escondiam, também,  o painel. Reconhecimento maior deve-se à atuação de Richard Wagner, um mestre da arte em murais, artista com fama mundial. Usou seu talento, paciência, amor, técnica exemplar e material apropriado, adquirido em São Paulo,  para recuperar o painel.   
        Hoje, passados tantos anos da sua recuperação, o painel sofre os mesmos abandonos de tempos passados. Existem agora, em frente ao painel,  duas  mesas com guarda-sol de praia para proteger óculos e outros produtos vendidos por camelôs.  O gradil, erguido como protetor do painel, serve para que sejam expostos óculos pendurados em mantas para atrair eventuais compradores.  Por trás do gradil, guarda-se bicicleta;   papelão, cadeiras quebradas, jornal velho  e lixo  são jogados dentro.   As faixas, estendidas de um poste a outro,  voltaram com seus anúncios de algum produto novo e barato  para  aumentar a poluição visual sobre o painel. Ó quão amarga é essa agressão a uma peça artística tão valiosa, de inegável valor, do patrimônio de um município onde nasceu Jorge Amado, o autor mais lido da língua portuguesa. 
          Até quando  vai continuar essa indiferença, deixando o que é belo ao imenso largado ao sabor da sorte?  Só depende de boa vontade das autoridades responsáveis pelo setor para que se reverta o quadro.  Não requer muito esforço a mudança na atitude omissa, apenas uma vigilância atenta,  adicionada a uma política de educação cultural perante a comunidade. Como se diz, antes tarde do que nunca.
        Prefeito, por favor, dê uma chance ao painel artístico, que retrata a civilização do cacau nos tempos áureos,  do esplêndido Genaro de Carvalho.

·        Cyro de Mattos é autor publicado em vários países europeus, Estados Unidos e México. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Itabuna e Academia de Letras de Ilhéus. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

           








quarta-feira, 20 de setembro de 2017

         


           Inútil Biblioteca Municipal
                      

                                 Cyro de Mattos

O livro é esse amigo que está sempre pronto para dizer que  na sua companhia  a vida fica melhor  pensada, sentida,  esquecemos até a morte. O lugar de guardar esse amigo precioso é na biblioteca, que pode ser particular, comunitária ou pública. É lá que se preserva nossa memória. O livro é a abertura do mundo, a biblioteca o mundo onde estamos e somos.  
Penso que a  biblioteca pública hoje presta um papel fundamental à comunidade na formação do conhecimento. É espaço para atuar na produção de novos valores, possibilitando o crescimento das pessoas.  Daí não se poder aceitar  mais a biblioteca pública como apenas um espaço de leitura e pesquisa. Mais que isso, deve empreender atividades que sirvam à comunidade como aprendizado e conhecimento da vida. Você concorda comigo? Deve funcionar  como o cérebro, o coração e o pulmão de uma sociedade ou instituição,  constituindo-se no mais valioso patrimônio, no maior e mais caro laboratório implantado para a formação de cidadãos  e  a qualificação do futuro de um país.  
           Não é o que acontece com a Biblioteca Municipal da Itabuna, cidade onde  donde nasci e resido. Com mais de duzentos mil habitantes, além de celeiro de escritores e artistas, a cidade  possui uma rede numerosa  de estabelecimento de ensino, que alcança   escolas em nível  primário e secundário, curso científico e técnico, faculdades e universidades. Tem na  Biblioteca Municipal Plínio de Almeida o espaço indicado para funcionar  como guardião de livros e documentos,  centro de pesquisas e leituras. Esse espaço, longe do ideal,  vem sendo reduzido pela Câmara de Vereadores,  que de vez em quando por lá  aparece e lhe toma um bom pedaço.  Alega-se, a cada investida, sem qualquer constrangimento ou argumento plausível,   que é preciso  ampliar o espaço físico da Câmara de Vereadores em face das demandas. Não bastasse, durante décadas,  a casa do legislativo municipal  ocupar o prédio que pertence ao patrimônio da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.  E, pasmem os céus, não  paga nada pela ocupação indevida.   
        Há muito tempo qualquer  biblioteca pública  que se preze  tornou-se   um centro de conhecimento,  proporcionando seu espaço   à comunidade meios de   acompanhar a evolução do mundo. Se um país se faz com homens e livros, como disse Monteiro Lobato, o que se  espera de uma biblioteca pública condigna  é que seja dirigida por um técnico com nível universitário, como determina a lei, equipe modernizada e acervo atualizado. Cabe ao gestor municipal do  setor cuidar desses elementos para que esse  espaço seja intenso e melhor freqüentado. Com oficinas criativas, comemorações de datas especiais,  leitura compartilhada de obras infantis e juvenis,  lançamento de livro, teatrinho  e  contação das mais belas histórias, uma biblioteca pública poderá desenvolver uma agenda cultural significativa, não é mesmo?    

         Na situação precária em que se encontra, acervo pequeno, desatualizado, corpo de funcionário distante da realidade,  espaço físico reduzido, baixa freqüência, o  quadro da biblioteca pública de minha cidade dá pena a quem tem  um pouco de amor pela casa onde mora o amigo livro.        

segunda-feira, 18 de setembro de 2017




Teolinda Gersão na Academia de Letras da Bahia



Importante nome da literatura portuguesa, a escritora Teolinda Gersão fará palestra na Academia de Letras da Bahia no dia 21 setembro (quinta-feira), às 17 horas. A conferência abordará o seu novo romance “A Cidade de Ulisses”, recém-lançado no Brasil pela editora Oficina Raquel. A obra, muito elogiado pela crítica em Portugal, tem como contextos a antiga e a moderna cidade de Lisboa, envolvendo as artes visuais e as questões políticas. A história dos personagens centrais termina no Brasil. Após a palestra, haverá o lançamento e a sessão de autógrafos do livro. A entrada é gratuita.

No dia 20 (quarta-feira), ela falará ainda na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). A vinda da escritora à Bahia é uma parceira entre a ALB, o Programa de Pós-Graduação de Estudos Literários da Uefs e a Cátedra Fidelino de Figueiredo. A autora cumprirá agenda também nas cidades São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Petrópolis e no Rio de Janeiro, onde será recebida pelos imortais na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Sobre Teolinda Gersão

Uma das mais importantes contistas e romancistas da literatura portuguesa contemporânea, a obra de Teolinda Gersão é consagrada em Portugal – onde tem marcado o panorama literário nos últimos 35 anos – e no estrangeiro, com livros traduzidos para 11 línguas. Alguns críticos enxergam similitude literária de Teolinda com a escrita de José Saramago, no tom coloquial, que transparece em frases populares e provérbios que utiliza nas suas narrativas, aproximando o escritor do leitor.

Até 1995, Teolinda foi professora na Faculdade de Letras e depois na Universidade Nova, ambas em Lisboa, na cadeira de Literatura Alemã e Literatura Comparada. Estudou na Alemanha e também viveu no Brasil. Recebeu vários Prêmios Literários, dentre eles Grande Prêmio de Romance e Novela da APE (1995), Prêmio de Ficção do Pen Club (1981 e 1989), Prêmio Fernando Namora (1999) e Prêmio Vergílio Ferreira (2016).

A autora publicou Prantos, amores e outros desvarios (2016), Passagens (2014), As águas livres (2013), A cidade de Ulisses (2011), A mulher que prendeu a chuva (2007), Histórias de ver e andar (2003), O mensageiro e outras histórias com anjos (2003), Os teclados & três histórias com anjos (2012), Os anjos (2000), Os teclados (1999), A árvore das palavras (1997), A casa da cabeça de cavalo (1995), O cavalo de sol (1989), Os guarda-chuvas cintilantes (1984), História do homem na gaiola e do pássaro encarnado (1982), Paisagem com mulher e mar ao fundo (1982) e O silêncio (1981).