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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Esse tempo de mim

 

                         Esse tempo de mim                                               

                             Cyro de Mattos

 

O Rio

 A cidade toda sabia que o rio era uma dádiva. Tão ser, tão pedra, tão água. À margem o efêmero ante o eterno que passava. Pelas mãos do areeiro a argamassa das casas era feita de fibra específica: calo, suor e areia.

 

Boi São Bernardo

Foi vendido velho para cumprir seu destino de boi: pasta em conserva de lata. Mas nunca ficou longe de mim. Com seu mugido ausente ecoando no verde.

 

King

Acompanhou-me nas incríveis aventuras. Tinha o melhor salto, o melhor olfato, o melhor agrado. Tempos depois se tornou uivo em hino. Até hoje patas no meu peito me festejam.

 

O Aguadeiro

Quando chegava o aguadeiro, o pessoal lá de casa não sabia o que era melhor. Se a água fresca e boa que o jumento trazia nos pequenos barris ou a limpidez de sua voz, amiga, anunciando a manhã cristalina.

 

O Trem

Não ficou fogo morto, nem sucata quando o trem deu o último apito. Permaneceu aquele percurso de vagões em trilhos festivos. Bandeirolas nas janelas interligando estações coloridas. Vales e morros, matas e roças, criaturas simples nos vilarejos e cidades pequenas repletas de surpresas generosas.

 

A Idade Pequena

Embora eu brincasse por todos os cantos da cidade, de maneira afoita e intensa, sujas não passavam minhas roupas pelas mãos da lavadeira.  No sol das manhãs claras certamente havia um fragor de espumas. Certamente as horas com música sem a impressão das impurezas.

 

O Leiteiro

Ensinava o preto velho a leitura do leite. Do seu amor, sua paz; sua generosidade,  sua alegria; de sua justiça, sua sabedoria; de seus sabores brancos e líquidos nunca me esqueço. De seu canto geral para matar todas as sedes no bebedouro da vida. Das manhãs sem mácula na cidade fresca.

 

O Areeiro

Quando homem passava com os jumentos carregados de latas de areia, cochichavam as casas que a areia sem a pá não seria dádiva e a pá sem a areia não seria inventiva. E tomavam contritas a sua bênção  ao velho rio, ajoelhando suas fachadas.

 

 

Doceira

Velhas doceiras de minha cidade, cativando com açúcar. Minha mãe era uma delas. Em suas mãos de mel, até certo ponto divinas, lambuzando-me com sorrisos, as amargas nunca.

O Sábio

Um dia, o homem mais velho da cidade, beirando  cem anos,  disse-me: “Sábio é o que descobre a importância da vida nos seres e coisas comuns”. No rosto enrugado pelo tempo, com a voz serena, disse  mais:  “A inveja, o ódio, a mentira e a intriga são as bebidas preferidas dos que bebem                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            os dias como cães. Roubam a  beleza da vida. Buscam matar Deus”. 

 

O Campeador

De verde gibão,  cruz no chapéu, nas manhãs acesas pelo sol do verão,  montado no meu burrico sempre vencia a solidão.

 

A Mãe: Sempre dizia, primeiro a obrigação, depois a diversão. Em tua partida, não regresso, não ouvi mais aquela voz suave, que me abrigava da chuva cortada por relâmpagos e trovoadas. Até hoje continuei apalpando-me nessa viagem pelo chão de forasteiro.

 

A Chuva

A chuva agora, em meu tempo adulto, quando escorre nas telhas já não  conta  uma boa história, não me traz  o sono com o sonho temperado de verdes e azuis,  tomado emprestado à aventura da vida pelos campos de vento e flor. 

 

Viver

É estar no que eu fui, no que sou e no que serei. É perder o presente em cada instante. Enquanto o tempo repete-se, não muda. Mudo eu, muda você, para isso fomos feitos, passamos, como esse vento que aqui apareceu e sumiu num instante. É isso mesmo, vê nascer, vê morrer, nada se pode fazer. Ai de mim. E Deus? Deus é. 

 

O Velho Rio

E dizer que este rio, antes de ser um esgoto a céu aberto, ofereceu água de beber das suas fontes límpidas à cidade quando não tinha um sistema de abastecimento como hoje. Havia peixe em abundância.  Gente simples que coloria o visual com cantigas de amor no esforço dos dias. A lavadeira, o tirador de areia, o pescador, o aguadeiro. Os meninos faziam dos barrancos trampolins improvisados.  Por que desceram todos eles na canoa rumo ao mar de Ilhéus e nunca mais retornaram? Cachoeira o teu nome, do rio morto de sede, que chora água.

 

Amada

Bastou encontrar-te para tornar-me campeador no campo dos dilemas. Sem temer os que não querem aceitar um homem desse feito, inventor de ingenuidades.  Que nada ambiciona, um pobre homem, do mundo só deseja o belo.

 

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

 

TRÊS INFORMAÇÕES DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA - ALITA

 

FELLINI

 

Toda a Itália festeja este ano o centenário de um dos maiores gênios do Séc. XX, o cineasta Federico Fellini, de tantas obras-primas, patrimônios da Sétima Arte. São muitas as manifestações, e uma delas, talvez a mais significativa, será a inauguração do Museu Internacional Fellini, em Rimini, sua cidade natal, na costa adriática da bota italiana. E o mundo também o homenageia: aqui em Salvador, a Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba, dirigida por Flávia Goulart Rosa, acaba de lançar "Diálogos com Fellini", organizado por Cássia Lopes e Paulo Henrique Alcântara. O livro reúne textos deles, de Antonella Rita Roscilli (de Roma) e Mauro Porru, entre outros, num total de 11 artigos.

 

ATELIÊ FRANCÊS

 

Um grupo de jornalistas internacionais da APE, que é a Associação da Imprensa Estrangeira de Paris, já tem encontro marcado após as férias de verão, na capital francesa: vão visitar o fantástico ateliê da Reunião dos Museus Nacionais da França, e do Grand Palais que fica nos Champs-Élysées. É onde técnicos e artistas moldam e fabricam cerca de seis mil peças conhecidas mundialmente, a partir das obras-primas, e que ficam à venda nas butiques desses museus. Será no dia 19 de setembro, e à frente da iniciativa está a diretora de comunicação das butiques da RMN, Sophie Mestiri.

 

 

PROSA E POESIA

 

 Membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna,  publicado também  no exterior, Doutor Honoris Causa da Uesc - Universidade Estadual Santa Cruz, autor de extensa obra, de vários gêneros, o escritor e poeta Cyro de Mattos acaba de publicar pela editora baiana Via Litterarum o livro “Poesia e Prosa no Sul da Bahia”, com capa do consagrado desenhista Juarez  Paraíso,  também membro da Academia de Letras da Bahia. Na obra, estuda autores que enfocam em seus textos a civilização cacaueira ou mantém com ela  laços de origem,  sintonizados na raiz com  um contexto de natureza, cultural, singular e importância histórica.
           Segundo Cyro, esse livro de ensaios, alguns escritos ao longo do tempo,  reúne  nomes consagrados que  ultrapassaram as fronteiras nacionais, outros que  são reconhecidos em nível nacional e alguns que  são retirados   dos limites de seu município, onde se encontram,  por certas circunstâncias,  fora de uma circulação literária  mais abrangente, o que nem sempre parece justo.  A obra funciona como testamento crítico valioso sobre a produção de uma região poderosa no campo das letras,  que  vem contribuindo para a expansão do acervo cultural e literário da Bahia e do Brasil.  
            No volume de 350 páginas, Cyro de Mattos estuda obras de 47 autores sulinos do Estado da Bahia. Entre eles estão: Jorge Amado, Adonias Filho, Sosígenes Costa, Telmo Padilha, Valdelice Soares Pinheiro,  Sônia Coutinho, Ricardo Cruz, Lilia Gramacho, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita,  Piligra, Abel Pereira, Jorge Medauar, Ildázio Tavares, Euclides Neto, Afrânio Peixoto, Adelmo Oliveira, Hélio Pólvora, Fernando Leite Mendes,  Margarda Fahel,  Jorge Araújo e  Minelvino, dentre outros.

Para Gerana Damulakis, “uma coisa admirável nos  ensaios de Cyro de Mattos  é o fato de não ficar citando Roland Barthes, Deleuze, Derrida etc etc etc. Seus ensaios são verdadeiros ensaios, como os compreendo, como José Paulo Paes compreendia. Atualmente, os ensaístas se preocupam apenas em citar vários nomes que estão na moda. Na verdade, não dizem nada, reproduzem os outros. Seus ensaios plasmam o resultado de sua reflexão após a leitura e, como escritor que ele é,  oferece ao leitor uma percepção aguda da leitura realizada.”

 Gerana Damulakis é  crítica com vários livros publicados, durante dez anos assinou a coluna Leitura Crítica do Jornal A Tarde, pertence à  Academia de Letras da Bahia.

 

 

 

 

domingo, 16 de agosto de 2020

 

                    O  cego Marujo

                       Cyro de Mattos

                    

                 Na minha infância conheci criaturas interessantes que, na maneira de ser de cada uma delas,  davam cores e sons à cidade. Faziam parte do espetáculo da vida onde  quer que se apresentassem.  O cego Marujo era uma delas. Fazia ponto com a sua viola inseparável no estacionamento  de ônibus, que ficava no centro da cidade, atrás do prédio do Instituto de Cacau da Bahia, perto do Ginásio Divina Providência. 

         As marinetes, assim chamados os ônibus de cadeira dura daquela época,  chegavam e saíam daquele local  movimentado com  gente próspera e modesta. Ali,  os carregadores entregavam  os embrulhos grandes pelas janelas aos passageiros que  retornavam  a alguma cidade circunvizinha. Não importava o tempo, chuvoso ou de estio, lá estava o cego Marujo dedilhando a viola ao peito, a cuia ao lado.

         Ficava no passeio, embaixo da marquise, junto à entrada  para os guichês onde os passageiros compravam a passagem.  Antes que o ônibus partisse,  passageiros gostavam de ouvir o cego Marujo dedilhando a viola, que gemia ao peito. A cuida ia se enchendo de cédulas de dinheiro e  moedas na medida que ele ia tirando  suas cantigas, dizendo de coisas alegres e tristes, das ocorrências rotineiras que serviam de alimento à memória da cidade.

     .  Desfiava na viola a história que falasse de algum assunto  bastante comentado na cidade, como o da mulher  que foi esfaqueada pelo marido ciumento quando o casal atravessava a Ponte  Velha.  O marido acusava de estar sendo traído pela mulher com o vizinho.  A pobre coitada só fazia cuidar dos  afazeres da casa e fazer a comida gostosa para o marido ciumento. No meio da discussão acirrada, o marido golpeou a infeliz com várias facadas. Melado de sangue,  sem saber o que fazer depois da cena alucinada,   o marido ciumento  jogou da ponte o corpo da mulher no rio e saiu disparado rumo ao centro da cidade,  gritando que era um homem desgraçado.

      Outra vez o cego Marujo desfiou a cantiga da mulher que pariu no meio da Ponte Velha. Teve sorte. Deu à luz com a ajuda de duas mulheres idosas,  que cedo  iam fazendo a travessia na ponte.  Pariu um menino graúdo. Não deu um gemido durante o parto, não chorou, , não  fez cara feia.  Levantou-se com a ajuda das duas mulheres  que fizeram o parto. Saiu andando como se nada de mais tivesse acontecido, o menino nos braços, no rosto alegre o sorriso gordo.  

            Se o cego Marujo não enxergava, os olhos estavam submersos nas sombras,  como era que conseguia gravar aquelas histórias,  que pareciam  publicadas nos  cordéis escritos pelos  trovadores da cidade?  Comentava-se que o seu guia, um menino negro, esperto,  era quem lia as histórias de cordel  para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição. Ele fazia a música e encaixava a letra no  cordel  cujo conteúdo  mais o marcava. Mas também improvisava com  cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.

           Gostava de fazer o  público sorrir quando estava  aglomerado  diante dele. Certa vez, ouvi o cego Marujo  falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, era pescador que saía cedo  para pegar o peixe  nos longes do mares bravios.

 

          O barco parecia brinquedo

          Nas mãos da onda gigante,

         Que assombrava a tripulação,

          Marujo não tinha medo,

         Quanto maior fosse o perigo

         Causando enorme  aflição.

 

       Não viesse pescar comigo   

       Nos mares longes  de Ilhéus

      Homem que fosse frouxo,

     Goste de sombra fresca,   

     Dormir gostoso na cama,    

    Comer mulher de bunda gorda.  

              

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

 

Poema en gratitud de mis amigos

 

 

Para Cyro de Mattos, David de Medeiros Leite

y Alfredo Pérez Alencart

 

La fe se me olvida, no la encuentro.

La noche se me cierra en los ojos,

me deja desmayado en mis despojos.

No sé en qué vacío, quedo, entro.

 

Me voy a las orillas, no es el centro

el sitio al que tiendo. Mis enojos

preceden mi llegada. Son muy flojos

los deseos del bien que llevo dentro.

 

Mas siempre mis amigos me acompañan.

No dejan que me duerma en mi sueño.

Me escriben y me enseñan cómo dañan

 

las sombras de las dudas mi empeño.

A quienes son de Dios no los engañan.

Vivimos si lo hacemos nuestro Dueño.

 

 

Xalapa-Equez., Veracruz, México, 10 de agosto de 2020

Juan Angel Torres Rechy

 

terça-feira, 4 de agosto de 2020



Minhas Palavras


Cyro de Mattos 


Ontem foi Joca,

Luís Henrique

Logo depois,

Agora o Jorge

De sobrenome

Portugal

Mas na verdade

Outro Jorge da Bahia.

Quantas perdas

De gente  amada,

Que nos ensinou

Que mãos nas mãos

A vida é possível.

Só nos deram amor.

Que Deus receba

Nesta  hora o Jorge

Santamarense

No seu amor de Pai.

 

 


sexta-feira, 31 de julho de 2020



Fernando Riela: um mito na ponta-esquerda

 

                                                 Cyro de Mattos

             

           Divorciado, pai de três filhas, o ponta-esquerda Fernando Riela tornou-se um mito na história do futebol amador de Itabuna. Foi disparado o melhor ponta-esquerda que jogou no Campo da Desportiva. Para muitos que conheciam o futebol do Rio e de São Paulo, com seus grandes times, Fernando Riela foi o melhor ponta-esquerda do futebol brasileiro. Pode a afirmação soar como exagero, mas é que naquela época os meios de comunicação eram outros, sem as condições de hoje, não havia televisão, os jornais como O Globo e Estado de São Paulo, bem como A Tarde, de Salvador, não chegavam a Itabuna. As rádios da capital não eram ouvidas também na cidade. Escutava-se apenas a rádio Nacional, do Rio, um pouco a Tupi e Tamoio.

            Essa ausência de comunicação, entre uma cidade do interior da Bahia e os centros mais desenvolvidos do país, fazia com que vários craques do futebol de Itabuna fossem desconhecidos pela imprensa do Rio de Janeiro, São Paulo e até certo ponto de Salvador. Se fosse hoje, tempos de globalização do planeta, não há dúvida que Fernando Riela estaria vestindo a camisa de um grande clube do Brasil e até mesmo da Europa. Futebol de craque aquele inesquecível ponta-esquerda tinha de sobra para isso. É sempre lembrado com admiração e carinho pelos companheiros de geração e torcedores.

         Começou muito cedo, aos 14 anos de idade já jogava no time principal do Fluminense. Jogou também  no Flamengo, mas ao retornar para o Fluminense, de onde nunca mais saiu, sagrou-se campeão em várias temporadas, inclusive invicto em 1960. Para Fernando Riela, o melhor jogador de seu tempo foi Santinho. Um jogador completo. Tombinha, Carlos Riela, Santinho e o goleiro Luís Carlos, qualquer um deles poderia fazer carreira no futebol profissional de hoje, em grandes clubes do Rio ou São Paulo, se tivesse sorte, observou o craque. Fernando contou que Santinho, muito mais do que um amigo, era um de seus ídolos. “Foi ele que me ensinou muita coisa, inclusive a ser uma pessoa correta dentro e fora do campo.” Foi também a Santinho que o pai de Fernando confiou quando ele passou a jogar pelo Fluminense, em sua primeira partida, em Ipiaú, aos 14 anos de idade.

O time amador daquele tempo treinava na semana, com um programa que devia ser seguido rigorosamente. Mas sempre tinha um ou outro jogador que não se interessava em seguir as regras para que tivesse bom desempenho no campo. Uma coisa era certa, ninguém bebia na semana que ia ter no jogo de domingo. O próprio Fernando contou que ele mesmo só experimentou cerveja pela primeira vez aos 18 anos de idade. “Um exemplo que o atleta de hoje deveria seguir”, declarou, acrescentando que essa disciplina que o jogador mantinha contribuiu para que a seleção do Itabuna fosse campeã do Intermunicipal por seis anos consecutivos.

Ficou comovido quando se lembrou da seleção de Itabuna e dos bons tempos do futebol amador. Com jogadores como Francisquinho, Zé Maria, Nininho, Santinho e o goleiro Carlito, homens de ouro de um futebol igualmente brilhante, nos anos de 1957 e 1958. Houve um período em que o campeonato amador ficou parado no Campo da Desportiva. Fortes chuvas cortadas por relâmpagos e trovoadas causaram grandes danos no estádio. Derrubaram a parte da arquibancada, o muro e fizeram do campo um grosso lamaçal.

 Durante anos, a cidade ia ficando com ares sombrios pela tarde, sem os jogos de futebol que aconteciam aos domingos no velho Campo da Desportiva. Até que o empresário  Veloso e o pecuarista Rebouças decidiram recuperar o Campo da Desportiva, contando com a ajuda de alguns desportistas, comerciantes e fazendeiros de cacau. A velha Desportiva voltou a funcionar como o palco de grandes partidas de futebol pelo campeonato amador. Para soerguer o interesse pelo futebol, times do Rio eram contratados para jogar na Desportiva contra o Bahia de Salvador. Numa dessas partidas amistosas, o Bahia venceu de dois a um o Flamengo. Veio primeiro o Fluminense, depois o Flamengo,  América,  Bangu,  Vasco e  Botafogo.

         Fernando criticou a construção do Centro de Cultura Adonias Filho no terreno onde existia o Campo da Desportiva. A ideia do prefeito Ubaldo Dantas foi boa quando quis dotar a cidade de um centro cultural, mas que deveria ser construído em outro lugar. E o pior de tudo foi que prometeu construir um novo estádio para times amadores e nunca isso aconteceu.  Fernando ressaltou que o América, um time tradicional de Minas Gerais, tem um estádio no centro de Belo Horizonte, um pouco maior do que era a Desportiva, mas nem por isso foi demolido para dar lugar a um prédio com finalidade cultural ou pública. Continuava até hoje no mesmo lugar, servindo para jogos do campeonato juvenil mineiro, sendo preservado como patrimônio esportivo da cidade.

Em sua época, Itabuna contava com mais de dez campos de várzea. Ele citou, entre eles,  os campos no bairro Banco Raso, Fátima, Fuminho, Borboleta, o de Melquiades e o da Rua de Palha, no distrito de Ferradas. Tinha campo até no cemitério. A garotada fazia suas peladas nos terrenos baldios espalhados pela cidade, na beira do rio e na praça Camacã, antes que se tornasse um jardim com o nome de Otávio Mangabeira. Nessa época, as cidades de Ibicaraí, Buerarema, Camacã, Coaraci, Uruçuca e Itajuípe não tinham o campeonato local. Ubaitaba, Ilhéus e Itabuna eram as praças esportivas onde se praticava o futebol amador mais animado da região cacaueira. Os jogadores que se revelavam como bons naquelas cidades circunvizinhas sonhavam jogar um dia no futebol de Itabuna.

        Fernando também foi um dos fundadores do time profissional do Itabuna. Ele contou que, quando a Federação Baiana de Futebol acabou com o Intermunicipal para descentralizar o campeonato profissional, realizado somente com times de Salvador, o futebol amador ficou meio sem graça. Perdeu o brilho e o espírito competitivo entre os clubes da cidade. Ilhéus decidiu participar do campeonato baiano de futebol profissional com três clubes: Flamengo, Colo-Colo e Vitória. Foi aí que um grupo de desportistas locais reuniu-se na Cooperativa Rural e fundou o Itabuna Esporte Clube como um time profissional,  aproveitando a maioria dos jogadores da seleção amadora.

        Ele participou desse grupo de fundadores, que teve o pecuarista Zelito Fontes como uma figura importante para que a iniciativa se tornasse realidade. Esse dirigente de futebol deu três mil cruzeiros para cobrir as despesas da inscrição do time na federação baiana, em Salvador. Nove amadores da seleção amadora de Itabuna foram jogar no Itabuna profissional A primeira partida foi contra o São Cristóvão, vencida por um a zero. A segunda lotou o Campo da Desportiva. O Itabuna empatou de dois a dois com o Galícia. A renda alcançou doze mil cruzeiros, uma enorme soma de dinheiro na época.

        Muitas pessoas passam na vida e deixam boas lembranças nos outros, que jamais se apagam. Algumas dessas pessoas permanecem em cada um de nós pela sua humildade ou dedicação ao que fazem. Como esquecer Arnaldo, o roupeiro da seleção; Alfredo, o enfermeiro, Gil Néri, o técnico, o médico John Leahy e Gerson Souza, o Marechal da Vitória? – ele perguntou e ficou sem saber como responder sobre a razão de que tudo na vida é uma passagem sem retorno.

             Ele, o craque inesquecível do futebol amador sul baiano, com suas investidas fulminantes, dribles rápidos e desconcertantes, deixou-nos e sua querida Itabuna no último dia 22, quarta-feira,  e foi jogar futebol nos campos do eterno. Quem o viu jogar, sente-se um torcedor privilegiado, nunca é demais lembrar.   


quinta-feira, 23 de julho de 2020


        



           Torcedor na Desportiva    

                                                   Ao amigo Fernando Riela,
                                                               que tantas alegrias nos deu.           

Cyro de Mattos


Penso que um futebol amador de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos da nossa memória seja valorizada.  Sirva  para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  Explico melhor.  É imperioso que o futebol amador de uma cidade de interior, que teve fase  áurea,  seja mostrado aos conterrâneos e visitantes, curiosos e estudiosos. Como nasceu e se desenvolveu  com tão boas qualidades técnicas durante  seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção.
Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Cito três: Léo Briglia, Déri e Fernando Riela. Como aconteceu com o Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu e os mais antigos desportistas de minha terra natal, vários  deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar a saga da seleção amadora,  campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram outras boas seleções do interior baiano. 
             Publiquei um livro sobre esse futebol amador  para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. Promovi quando gestor cultural da cidade o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”. Sua exibição foi um sucesso. Tocou os corações de muitos,   familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador,  curiosos de ontem e hoje. Na tela do palco do Centro de Cultura local,  uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar  uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra,  classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que nos  deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, com os momentos fascinantes, agradáveis e divertidos,  não  devo esquecer. Inspirei-me naquele mundo que se foi e escrevi  o poema  que transcrevo abaixo.

:  
Soneto do campo da Desportiva 

 De zinco era coberta a arquibancada,
A cancha tinha um piso esburacado.
 Nem um pouco essa chuva demorada
Conseguia deixar desanimado

O torcedor, que curtia a jogada
 Do seu ídolo na bola passada.
Dos pés a mágica mostrava ser
 Tudo um sonho para nunca esquecer.

 O gol de placa do atacante quando
 A partida já chegava ao final
 E a marca da seleção que venceu

 Tantas vezes o intermunicipal
 Não se desligaram do torcedor 
De antes pelos estádios do  mundo.   


sábado, 18 de julho de 2020




Tempos da Coronavírus

Cyro de Mattos

Ninguém imaginaria que as cidades fossem interrompidas no seu fluxo de vida com essa guerra da coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá  comprar algo necessário na farmácia ou supermercado. Cuidado, cuide-se com os demais, lave sempre as mãos, com álcool ou sabão, mas não esqueça o ritual, se viver é perigoso, agora é muito mais. Esse tipo de cautela pode ser providencial, vai  salvar a sua vida.   
Em nossas casas vivemos  recolhidos nessa repetitiva e irritante  quarentena,  que tem como um de seus propósitos fazer com que  nossa roupa fique apertada com os quilinhos  que de repente ganhamos.  A notícia na televisão informa  os estragos que a coronavírus  vem fazendo aos frágeis seres humanos. As cidades estão vazias. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento.
As ruas desertas.  Impiedosa, sorrateira, veloz,  a coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas fatais que vem fazendo a todo instante.Não bastasse exigir  o nosso confinamento, proibir  abraçar o amigo, impedir que o beijo em carícia de lenço não seja dado ao ente querido e a flor não se entreabra no rosto com a expressão do sorriso. 
Horrível, infame, impiedosa, essa coronavírus. De onde veio essa minúscula criatura que não é vista a olho nu com  sua fábrica da morte no lugar da vida? Para onde quer levar  nossos assustado e triste coração? Por causa dela, os pais ficam sem o filho, o marido sem a esposa, o neto sem a avó, o vizinho sem a vizinha. Ela  não tem limite, até criança é agarrada  por suas pinças venenosas. Quanto aos idosos nem é  bom  falar, são os que  são levados mais depressa na onda dessa assassina,   que mata e não enterra, de tão estúpida com a sua  traiçoeira invenção da morte. 
.  Maneira de forjarmos uma estratégia com vistas a diminuir suas investidas pusilânimes,  é ficarmos de quarentena,  recolhidos em nossas casas, não  formarmos grupos, evitarmos  sair como antes, só mesmo quando necessário.  É preciso  cautela até que se ache o antídoto para mandá-la para as funduras do pior abismo. Lugar que ela merece habitar para todo o sempre,   dormir e se alimentar de nadas, como é de sua predileção. 
Como penso que a linguagem literária é a mais completa  como leitura do mundo e a literatura é  forma de conhecimento da vida  fundamental como o amanhecer, além de ser fonte de prazer, quando se tem em mãos um bom livro, bem escrito, que conte uma história com surpreendentes sentidos,  sugiro que alguns que  vão me ler nessa crônica reserve um pouco de seu tempo de quarentena e tente escrever histórias, crônicas, poemas,  como forma de conversar no seu estar no mundo,  tomando a palavra emprestada do sonho.  Mostre à esposa, ao filho, ao amigo, as histórias, as crônicas  ou  poemas que você escreveu. Qualquer um pode tentar. A beleza e o encantamento da vida estão em tudo. |Com a arte da palavra, você também irá descobrir isso, tenho certeza.     
Afinal, todos nós, de poeta, médico e louco temos um pouco. Por que não de escritor, seja o nosso canto alegre, triste  ou rouco?








domingo, 12 de julho de 2020


                               A Crônica

                           Cyro de Mattos 


O estofo literário na crônica  retira-lhe a condição estrita de texto jornalístico quando então a linguagem objetiva procura informar o fato com precisão e rapidez.  Com  linguagem concisa e útil,   pretende aproximar  do evento os  seres humanos  onde quer que estejam,  para que tomem  conhecimento do que acontece no mundo. A crônica ameniza a notícia ou o episódio levado ao leitor sobre a vida diária, de forma que sua atividade subjacente na escrita o cative ou encante com sutilezas e imprevistos.       
         Na crônica de humor, o autor modifica  com graça  a comédia do cotidiano. Na de ensaio, tece crítica ao que acontece no sistema organizado, detectando falhas nas relações sociais e de poder. Na filosófica logra extrair  reflexões  sábias  a partir de um fato. Na jornalística enfoca aspectos particulares de notícias ou fatos, que podem acontecer na área esportiva, policial e política ou  em outros campos da atuação humana. Na poética toma emprestado a palavra ao sonho  para dizer da vida  com a sua face que ilumina o ser.    
      Segundo o poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, de notícia e não notícia faz-se a crônica. Daí se pensar que pode ser atemporal, se o  assunto,  extraído da realidade exterior sob bases sentimentais, revestir-se  de arcabouço  literário, servindo para ser lido tempos depois   desgarrado do seu contexto  e ainda assim causando emoção.  Sempre dando  tratamento agradável ao assunto,  que descreve,  a crônica, de argumento ou  digressiva,  aviva  o evento com graça,  tornando-o poético pelo eu lírico que  tudo recorda. Anota com o relógio do coração. Fundamenta a ideia que na poesia da solidão é compartilhada com os que  irão fruir o prazer da leitura, os que não se colocam à distância, em razão da disposição anímica que alimenta a cumplicidade.    
     A crônica no seu arcabouço de escrita híbrida, entre o jornal e o literário, não apresenta limites muito definidos. Usa a oralidade na fala dos personagens e o coloquial na escrita, a sua linguagem é  simples. Alguns querem que seja   como  poesia espontânea  no seu discurso em  forma de prosa, outros acham que deve ter a feição de uma história curta. De uma maneira ou de outra,  não deve desprezar a linguagem amena a possibilitar o  seu  encantamento, nem  o modo que seduz e torna o leitor cúmplice da beleza quando emerge em devaneios ou digressões anímicas.   
Propensa a retirar o assunto do factual,  o espaço que melhor  achou a crônica para morar e se expandir  foi  o jornal. Rápida no que descreve, o jornal foi o lugar que escolheu  para demonstrar  leveza na informação do fato e a um só tempo produzir na escrita ágil aquela sensação que os ingleses chamam de human interest story.
Os entendidos acham que a crônica é um subgênero literário,  não possui expressão  significativa no sistema verbal,  se comparada  à poesia e ao conto.  Nenhuma literatura se faz grande com livros de crônicas, argumentam.  Não possui meios para que a  razão e a  emoção aprofundem a leitura do mundo. Não tem o lugar e o espaço do texto que se serve de olhares oblíquos  para focar a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Mas não  se pode deixar de reconhecer é que a crônica quando  escrita por boas mãos contribui para a imaginação e a transcendência do mundo