Páginas

domingo, 13 de novembro de 2016





                                
POEMAS DO NEGRO
      Cyro de Mattos


Canga

Não se logra extrair
Os ossos dessa massa,
Os músculos mutilados
No esforço dos anos.
Tuas mãos, escravas,
Alimentadas na turva
Ferida, dor sem cura.

A atrocidade no ferro
Que furou o coração,
 A enchente na vala
Que transbordou de mágoa,
Nuvens não tocadas. 
Nunca será paga a conta
Na mancha que envergonha.

Como herança os rastros
Dessa noite escura na pele
Que te lança nos muros,
Agarra-te  nas  manhãs
Com sua claridade vista
Apenas pelos não pretos.
Até quando barreiras
De tua  cor opaca farão
Da vida  uma coisa qualquer, 
Desigual, desvão sem canto?

Pelourinho

Como suportar?
Treze... trinta... cinqüenta...
Até o último gemido.

Os outros olhando
Cada chibatada. Tristes,
Sem nada fazer.    

Ladeiras gastas.
E esse vento que recusa  
Ao largo a desgraça.


Escravo

Uma mão
Feito casca
Não lava
A outra
Feito lixa.

Ásperas
As duas
Feito bucha
Limpam
As duas
No esmero
Do senhor.

Limpam
As sobras
Ou  largura
Depois de lá
De dó em dó.

Perto
De o dia
Clarear
Até o sol 
Se pôr. 


Ferro de Passar Roupa

Passa minha roupa 
Lembrando outros tempos.
Vai fazendo estragos
Na pele dos meus bisavôs.

Ferro nos pés,  mãos
Na carne viva chiando,
O coração sangrando.
Do ventre e de velhice
Um dia foi  banido.
Afinal teve as asas
Pra voar sem marcas? 

Nas fendas acumuladas
Impregnado de aversão.
No caco,  no estômago
Mal surge cada manhã,
No prato lavado na pia.
Empoeirado na lata,
Nas unhas corroídas, 
Com urubus pelo lixão.

Pra findar eternidades
Desses gestos caóticos
A natureza inventou
Uma escultura jovem,
 No caldo uma mistura
Doutra ginga  infiltrada.
Sem fissura, amargura,
Pisando no chão,  solta,
Com a pulseira do amor. 


domingo, 6 de novembro de 2016


Dentro das Letras

Cyro de Mattos

Fiquei comovido e me senti honrado quando soube que a Academia de Letras da Bahia elegeu-me para ocupar a cadeira 22 da instituição, com 27 votos dos 28 acadêmicos, membros  efetivos, que compareceram à eleição. A cadeira 22 tem como patrono o juiz de Direito José Maria da Silva Paranhos, como fundador Rui Barbosa e o seu último ocupante foi o poeta Clovis Lima. Estarei ocupando-a no próximo dia 10 de novembro.
       Fui empossado como sócio correspondente da Academia de Letras da Bahia em 18 de novembro de 2002. Naquele momento, os estatutos proibiam que o candidato residente no interior fosse eleito membro titular. O convite para me tornar sócio correspondente da instituição foi feito pelo escritor e acadêmico titular Luís Henrique. Com a mudança nos estatutos, a mencionada proibição foi eliminada.
     Mudaram-me de lugar na valorosa Academia de Letras da Bahia. Jorge  Amado, Itazil Benício e  Hélio Pólvora foram outros escritores itabunenses que ocuparam o quadro de membros efetivos da Academia de Letras da Bahia.  Atualmente, o jornalista Samuel Celestino, que assina uma coluna política no jornal “A Tarde”, é também outro itabunense que figura como  membro efetivo dessa tradicional instituição de letras. Do sul da Bahia, a instituição tem ainda como   membros efetivos o poeta Florisvaldo Mattos (de Uruçuca) e o escritor Aleilton Fonseca (de Firmino Alves).  O ilheense James Amado era outro filiado a seu quadro de membros titulares. 
      A Academia de Letras da Bahia sempre cuidou em ter em suas hostes intelectuais da mais alta qualidade. Nesta instituição figuram juristas, poetas, ficcionistas, jornalistas e professores doutores de universidades. Ressalte-se os nomes de  Rui Barbosa, Luís Viana, Zélia Gattai, João Ubaldo Ribeiro,  Orlando Gomes, Thales de  Azevedo,   Vasconcelos Maia, Guido Guerra, Myriam Fraga, João Carlos Teixeira Gomes e  Aramis Ribeiro Costa,  entre tantos. A instituição estará comemorando o centenário de fundação em 2017. A atual presidente é a Professora Doutora Evelina Hoisel.
     Durante cinqüenta anos,  a minha vida está ligada permanentemente à literatura. Desde que publiquei meu primeiro conto, “A Corrida”, no suplemento literário do “Jornal da Bahia”, dirigido por João Ubaldo Ribeiro, naqueles idos de 1960, nunca mais deixei de publicar artigos, volumes de contos, poemas, novelas, romance e  literatura infanto-juvenil. Cada vez mais tenho amado  às letras, que me ajudam a sobre viver. A literatura tem demonstrado    que gosta de mim. Reconhece meu trabalho. Alguns de meus livros receberam prêmios importantes, no Brasil e exterior. Nove deles foram publicados no exterior. Recentemente, a Universidade Estadual de Santa Cruz outorgou-me   o título de  primeiro Doutor Honoris  Causa.  A solicitação do pleito  foi encaminhada e fundamentada em meu currículo   pela Professora Doutora Reheniglei Rehem. O processo de “canonização” de minha vida literária durou mais de ano, em segredo de procedimento estatutário da UESC. No final a aprovação da concessão da honraria,  por unanimidade. Que honra, quanta alegria!    

           Sou casado com Mariza há 48 anos, pai de três filhos, avô de seis netos.  Agradeço a Deus ter chegado até aqui. Confesso que o mundo das necessidades materiais, que gera essa guerra de cada um só pensar em si, e que continua a fazer estúpidos estragos na maravilha da vida, desviando os seres humanos da ternura, há milênios,  nunca me apeteceu.    Como se diz, “o mundo de Deus é grande, eu trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus  é nada.”

sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Brasilianista Antonella Roscilli fala sobre a menor distância entre Brasil e Itália

De passagem pelo Brasil, a brasilianista Antonella Roscilli fala sobre a relação entre os dois países a partir da obra e da vida da escritora Zélia Gattai

Brasileiros são profundamente gratos aos italianos pela pizza e a macarronada que assimilamos no paladar nacional. Mas a relação entre Itália e Brasil vai muito além da mesa – ou dos estereótipos. Esta convicção é a matéria-prima do trabalho da romana Antonella Rita Roscilli, brasilianista, escritora, pesquisadora, jornalista e tradutora especializada em estudos sobre literatura brasileira e sobre a imigração italiana no maior país da América do Sul.
Antonella esteve no Brasil para lançar seu mais recente livro, Zélia Gattai e a Imigração Italiana no Brasil entre os Séculos XIX e XX, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte. O evento fez parte do programa Conversas Ítalo-Brasileiras, realizado desde 2015 pela Casa Fiat de Cultura, em parceria com o Consulado da Itália em Belo Horizonte, e conta com apoio da Embaixada da Itália em Brasília e da Associação Cultural Ítalo-Brasileira de Minas Gerais (ACIBRA-MG).
Zélia Gattai (1916-2008) foi uma das mais lendárias escritoras brasileiras, autora de clássicos como Anarquistas graças a Deus e Um chapéu para viagem. Filha e neta de imigrantes toscanos, esposa de Jorge Amado por 56 anos, Zélia também teve grande atuação política. Com sua família, participou do movimento político-operário anarquista que tinha lugar entre os imigrantes italianos, espanhóis, portugueses, no início do século 20.
Antonella conversou com nossa reportagem pouco antes de sua conferência em Belo Horizonte. A brasilianista é formada em Literatura Brasileira e Países da África Lusófona na Universidade La Sapienza, de Roma, e tem mestrado em Cultura e Sociedade na UFBA. Confira abaixo os melhores momentos da entrevista:

Como surgiu seu interesse para estudar o Brasil?
Surgiu há quase 25 anos e por isso acompanhei muitas transformações. Eu também já trabalhava com literatura latino-americana e tinha um programa em uma rádio no qual eu apresentava um livro de literatura caribenha e mexicana toda semana. Depois fiz uma viagem ao Brasil e de lá comecei a conhecer mais a literatura e música brasileira. Fui ao Rio, Búzios e interior da Bahia. Foram dez dias, e isso despertou meu interesse para conhecer mais. Já trabalhava na RAI (Rádio e Televisão Italiana) e, então, me apaixonei e comecei a ler, claro, Jorge Amado e Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, que adoro. Depois disso, me formei em literatura brasileira, comecei a escrever sobre o Brasil, me especializando – e continuo fazendo isso, porque acho que nunca terminarei, porque o país é imenso, existem muitos “brasis”. A partir disso também comecei a escrever sobre música brasileira, cultura em geral e história. Sem querer, fui a primeira pessoa do mundo – tenho até vergonha de falar – a fazer uma dissertação sobre Zélia Gattai, não sabendo que eu estava fazendo um trabalho piloto.

A visão da Europa e dos europeus têm sobre o Brasil está transformada nesse tempo?
Agradeço por essa pergunta, pois há mais de 20 anos luto contra os estereótipos, porque o Brasil sempre tem uma imagem muito reduzida na Europa e na Itália, simplificando, por exemplo, em carnaval, futebol e samba. Claro que isso faz parte, mas sempre fica essa imagem. Então isso faz parte da minha luta cotidiana e foi por isso que depois de muitos anos como pesquisadora, jornalista e escritora decidi abrir a Sarapedge, uma revista que me desse, primeiramente, a possibilidade de escrever sobre várias temáticas. Escrevi sobre a Guerra de Canudos, a Maria Quitéria, até sobre imigração italiana por um caminho pouco explorado.

Então você acha que ainda hoje há muitos estereótipos sobre o Brasil?
O estereótipo existe no mundo inteiro. Os brasileiros também estereotipam os italianos com a tarantella, a pizza etc. Por um lado,isso serve para identificar. Por outro, é uma grande limitação e redução que ainda persiste. Devo dizer que nesses anos todos, a política cultural no Brasil para o exterior melhorou muito. Então pessoas que imaginavam que aqui houvesse apenas índios, começaram a conhecer exposições de artistas contemporâneos.

O que motivou essa mudança? Foi como o Brasil que aprendeu a se vender ou com o fato das pessoas estarem estudando mais o país?
É muito mais fácil escrever sobre uma festa de carnaval do Rio, que é lindíssima. É muito mais fácil vender uma matéria como essa para um jornal italiano do que, por exemplo, outra sobre o carnaval de Olinda ou sobre a história da invasão holandesa com o italiano que lutou aqui. Um pouco, eu acho, é porque o discurso comercial é mais fácil, mas como gosto de desafios decidi abrir essa revista cujo nome de termo ioruba significa “Mensageiro”. Ou seja, não queria uma revista que fosse só de cultura brasileira para a Itália. Eu queria a troca. O que eu faço também como pessoa é essa ponte. Existem colaboradores do Brasil que mandam matérias para lá e tenho também italianos que escrevem, mas tudo em dois idiomas (italiano e português), porque acho que para lutar contra o estereótipo é preciso usar um pouco. Quando vale a pena falar de outras temáticas, por exemplo, em Minas Gerais o Aleijadinho, por que não abrir isso para o exterior? Claramente, a primeira vez que você fizer a proposta de uma matéria sobre ele (Aleijadinho) é difícil encontrar um diretor de um jornal que aceite. Mas depende também como você aborda ou como você causa o interesse de conhecer mais.

 Diante do que você já falou e conheceu, o que você acha que mais retrata a cultura brasileira?
Acho que esse país é imenso, não existe um só Brasil. A Bahia é um, Minas é outro, em São Paulo é outro Brasil. Eu ainda não sei qual é a constante. Então não sei. Depende.

Como você avalia a imigração italiana? Quais foram as marcas no Brasil e para a própria Itália?
No meu terceiro livro, que publiquei para o centenário de Zélia Gattai que conclui a trilogia sobre ela, tem um capítulo dedicado à imigração italiana entre os séculos 19 e 20. Porque por meio da obra dela e de outros autores, você percebe a importância de como os italianos contribuíram muito, principalmente no Sul. Não só os italianos, mas outros povos também. Eles povoaram terras no Brasil como no Paraná e ajudaram muito, na minha opinião, e no que conheço até agora, com a lutas operárias, direitos sociais, a importância da família, o valor do trabalho, o valor de pensar hoje mas para fazer alguma coisa amanhã. Quando vou para São Paulo, onde passei agora 15 dias e fiz um evento no Instituto Italiano de Cultura, me sinto na Itália. A cidade é diferente, é uma megalópole, mas eu me sinto assim, sinto a alma italiana de São Paulo. Percebo também na Bahia, porque Salvador recebeu ao longo da história, sobretudo nos séculos 17 e 18, muita imigração italiana. Ao mesmo tempo tudo isso se repercute na história italiana. Ou seja, nas pesquisas que tenho feito vejo que há muitos laços históricos que ainda quero desenvolver. Tem, por exemplo, um grupo de italianos que vieram para o Brasil e eram deportados políticos do Estado Pontifício, que chegaram em Salvador e que participaram da Revolta de Sabino e depois muitos deles ficaram lá.

Você  fala bastante sobre militância política de Zélia Gattai. Você pode falar mais um pouco sobre isso?
A imigração teve duas vertentes: econômica e política e Zélia cresceu em uma família que vivenciou esses dois lados típicos. A causa econômica era fome, pobreza, miséria. Então a família da mãe veio por isso, para trabalhar em uma fazenda em Cândido Mota no estado de São Paulo em 1890. A família do pai, Ernesto Gattai, veio de Florença, na Toscana, por motivos políticos. Ele e a família eram anarquistas e eles receberam muitas influências de Mikhail Bakunin que viajou para a Itália. Na época, aquela parte de Toscana tinha muita gente que lutava. Tinha um jornalista e biólogo que queria fazer um experimento socialista com uma colônia comunitária e recebeu terras do Imperador Dom Pedro II no Paraná e veio para o Brasil. O avô de Zélia decidiu embarcar com a família e a mulher, Ardia Fanonni – faço questão de dizer, pois conheci um descendente lá em Florença – com cinco filhos, entre eles o Ernesto Gattai com cinco anos. Então, Zélia respirou desde criança palavras italianas e ideias de justiça, democracia, igualdade. Isso impregnou a vida inteira dela. Ela mesma escreve no livro Anarquistas, graças a Deus, que quando era criança no domingo os italianos se reuniam e faziam festas, tinha a Aliança Nacional Libertadora e ela vendia jornais como La Plebe, ou seja, jornais de resistência.

Você acha que as lutas sociais no Brasil foram mais intensas?
Eu acho que não se pode fazer uma comparação, pois são dois países distintos. Não gosto de fazer comparação porque o contexto é outro, cada país tem histórico e história diferentes. O Brasil teve muita colonização – só no estado de São Paulo há cinco milhões de descendentes de italianos. Mais que Roma inteira! Então, a história

foi muito diferente. O tamanho também é diferente.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016


O Mundo É Uma Criança Com Palhaço e Lambança

Cyro de Mattos


No domingo azul eu vou.
Vou ao circo do Perneta,
Sou um grande torcedor
Do palhaço Maçaneta
Que é chorão e domador,
Pugilista e trapezista,
Tem calombo na careca
E faz tram com a trombeta.
Vou vibrar com Baioneta,
O mais doido jogador
Que eu já vi neste planeta,
Com o canhão enganador
Ele acerta cada bola
Bem no alvo lá no alto
E aos gritos da galera
Marca mais de cem mil gols
Deixando mudo e trombudo
O elefante marcador.
Vou brincar com Mexe-Mexe,
Palhacinho bem legal,
É preciso ver pra crer
Do que ele é capaz
Quando pega o tamborete
E de jeito fulminante
Faz sumir da sua frente
O gigante Barrabás
Numa cena sem igual
E depois bem serelepe
Canta e dança e mexe-mexe
E com seu revólver Bum
Que dá um tremendo estampido
Quando ele aperta o gatilho
Adivinha o que faz?
Dispara para todo lado

Balas de mel e chiclete.

sábado, 8 de outubro de 2016

                

          

                                  Bilhetes Guardados no Coração:  
  

          Do romancista Jorge Amado - “Duas obras-primas os dois pequenos livros que Cyro de Mattos escreveu para crianças de todas as idades, “O Menino Camelô” e “Palhaço Bom de Briga”. Uma beleza, melhor dito, duas belezas.”

Da poetisa Stella Leonardos  - “Lendo Cyro de Mattos – Além de ingênuas lorotas/ E irreverentes caretas/ Das gaiatas cambalhotas, /Dos saltos mortais e piruetas,/ Cômicas acrobacias,/ O coração pura música/ Dos palhacinhos – poesia/ Do Cyro da infância lúdica/ Desenhando com mestria.

Do poeta Telmo Padilha: Os Brabos é essa obra-prima, revolucionária, no texto e na idéia.”

          Do contista Hélio Pólvora: Em Cyro de Mattos sente-se sem esforço a vontade de escrever e a paixão de escrever. Por isso,  seus contos trazem a marca das coisas sofridas, pensadas, remoídas, cristalizadas.

Do romancista José Cândido de Carvalho - “Com “Violentos e Desalmados”, Cyro de Mattos cria gente e linguagem.”

Do poeta Carlos Nejar - “Poeta de voz límpida como o seu rio, de música e sabedoria do silêncio.”

Da poetisa  Olga Savary -“Poesia tão bela, consciente, límpida, plena de vida e cor. O livro todo – “Ecológico” – é esplendoroso.”

Do poeta Carlos Drummond de Andrade - “ Uma notícia irrompe desta árvore/ e ganha o mundo:/Verde anúncio eterno./ Certo invisível pássaro presente/ Murmura uma esperança a teu ouvido.”

Do tradutor Curt Meyer-Clason - “Li e reli seus poemas, com os sentidos encantados e admirado pelo seu talento mágico. (Ich habe Ihr Werk gelesen und wiedergelesen mit dem Entzücken der Sinne und der Bewunderung  für Ihr magisches Talënto)”.

Do poeta Fernando Mendes Viana - “É um lírico autêntico. Canto social sem demagogia.“Viagrária” é puro como o chão, depurado verso-semente, livro digno de um verdadeiro poeta.”

          Do poeta  Alfredo Pérez Alencart: “Un poeta brasileño que merece un ciertísimo aplauso: Poesía y Vida, un largo camino que ahora se acopia para que no exista destierro: y tampoco olvido. ¡Purifica la emoción, Poesía!”

Da ensaísta Nelly Novaes Coelho:  “Rio Morto é uma bela e nostálgica visão do que os homens estão fazendo hoje com o mundo em que lhes cumpre viver. É belo e doloroso esse poema... Que os homens sintam tocados por ele!”.

Do crítico  Carlos Felipe Moisés: “Para além dos localismos mais ou menos exóticos, o lugar da poesia é qualquer lugar onde o poeta circunstancialmente esteja, disposto a permitir que a “cor local” se transforme em paleta multicolorida – como o faz, com maestria, o poeta de Itabuna.

          Do poeta  Marcos Lucchesi: “A alegria de um rio me captura na altitude dos desejos,  na grande satisfação de uma obra de encantamento, fino!”


Do romancista Antonio Torres: “Tive o prazer de ler o seu livro "Poemas Iberoamericanos", encontrando nele, entre líricas memórias, encantatórias leituras e releituras, um texto que se insere perfeitamente nas atualidades nacionais: o poema "Pátria Amada", que parece reescrever, ao mesmo tempo, o de Gonçalves Dias que lhe serve de mote, e o "Pátria minha", de Vinícius de Moraes. Bela sacada.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016


                 O impeachment da presidente
                                    
                                    Ives Gandra Martins
  
 processo de impeachment não foi um subterfúgio político, com embasamento jurídico, para afastar a presidente Dilma Rousseff por ter derrubado o PIB brasileiro, em 2 anos (quase 10%), gerado 11 milhões e 400 mil desempregos, elevando a inflação para a casa dos dois dígitos, governado o país com 113.000 não concursados, que propiciaram o maior assalto às contas públicas, em nível de corrupção jamais visto na história do mundo. O impeachment decorreu do fato de a Presidente Dilma, no ano de 2014, ter mentido para o povo brasileiro, dizendo que as finanças públicas estavam em ordem, com o objetivo de reeleger-se, mas utilizando de uma monumental ilegalidade, qual seja, pegar dos bancos públicos 40 bilhões de reais, o que é proibido pela lei de responsabilidade fiscal, para cobrir os furos orçamentários e apresentar-se como candidata que bem administrava o país. Quarenta bilhões de segundos representam em torno de 1.200 anos. Foram 40 bilhões de reais.
O Tribunal de Contas da União, por unanimidade, rejeitou suas contas pela violência praticada à lei de responsabilidade fiscal que vedava tal procedimento e ela sofreu o processo de impeachment por esta razão. Não houve qualquer golpe, pois 367 deputados entre 513 e 61 senadores entre 81 consideraram que o impeachment é legal e legítimo, supervisionados por 11 Ministros da Suprema Corte.

Se golpe houve, foi da Presidente Dilma contra a verdade, contra a lei de responsabilidade fiscal, contra a boa administração das Finanças Públicas e, fundamentalmente, contra a nação brasileira, pois se reelegeu, exclusivamente, por força desta mentira apresentada aos eleitores.

É de se lembrar, além disto, que, em recente “Resolução do diretório nacional do PT”, após o afastamento da Presidente, seus dirigentes lamentaram o fato de não terem alterado as estruturas da Polícia Federal, do Ministério Público e das Forças Armadas, assim como o financiamento da Imprensa. Não modificaram porque não puderam, pois são instituições do Estado e não do Governo e a Imprensa é livre. A corrupção do seu governo foi detectada por tais órgãos, que não estão subordinados ao Palácio do Planalto.

O Instituto dos Advogados de São Paulo e o Colégio de todos os Institutos de Advogados do Brasil publicaram livro onde consta, inclusive, trabalho do relator da Constituinte, Bernardo Cabral, em que 21 renomados juristas mostraram os inúmeros atos de improbidade administrativa praticados, dos quais só um serviu de base para o impeachment. Mais do que isto, disponibilizaram, esses Sodalícios, seu acesso (http://www.iasp.org.br/livros/impeachment/). O Conselho Federal da OAB ingressou com um pedido de impeachment, ainda pendente na Câmara, com a descrição de outros atos de improbidade não constantes da petição acolhida. É uma acusação muito mais ampla.
A tentativa, pois, de desfigurar a democracia brasileira no exterior, dizendo que é golpe, sem dizer o nome dos golpistas (367 deputados? 55 senadores? 11 Ministros do STF?), foi profundo desserviço à nação, além de ostensiva violação à Lei de Segurança Nacional.

Lamento que a Presidente afastada, em vez de se defender, procurando explicar por que permitiu que o seu governo se tornasse o mais corrupto da história do mundo, tentou desfigurar os fundamentos da democracia brasileira, cujas Instituições funcionam em estrita obediência à lei e à Carta da República.
Por fim, quero lembrar um aspecto jurídico, de particular relevância para compreender o impeachment presidencial.
O artigo 85 da CF, inciso V, declara que o ato de improbidade administrativa justifica o impeachment.

Por outro lado, a lei de 1992, que elenca os atos de improbidade administrativa, estipula que “ato ou omissão” constitui improbidade administrativa, sendo certo que essa lei, contestada na Suprema Corte foi considerada constitucional.

Ora, houve impressionante omissão presidencial em permitir, durante oito anos, isto é, desde que era presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, um assalto à maior empresa do país, reduzindo-a, na Bolsa, a pouco mais de 10% de seu valor, para financiar as campanhas de seu partido. É difícil acreditar que não sabia de nada. É de se lembrar que todos os que se apropriaram do dinheiro público eram pessoas de seu partido, objetivando financiar sua campanha e enriquecer-se simultaneamente.
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica no sentido de que tanto o dolo como a culpa (imperícia, negligência, imprudência ou omissão) são atos de improbidade. (Fonte, El País,
A improbidade administrativa da presidente está plenamente justificada, não só face ao direito, quanto à ética. Mereceu ser afastada.
Num país parlamentarista, há muito tempo que já estaria fora do governo. (Fonte jornalEl País, 1 de setembro de 2016)

Ives Gandra da Silva Martins é professor Emérito das Universidades Mackenzie, UNIP, UNIFIEO, UNIFMU, do CIEE/O ESTADO DE SÃO PAULO, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército - ECEME, Superior de Guerra - ESG e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região.  É também poeta expressivo.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

                      Contos dos Mares da Bahia  
                                    
                                   Gerana Damulakis
                             
      Histórias dos Mares da Bahia é uma antologia específica e, como tal, seu organizador optou por planejá-la segundo uma circunstância comum: o cenário, ou seja, os mares da Bahia. As antologias literárias específicas não pretendem cobrir a produção literária visando abarcar um todo, porém miram determinado aspecto que reflita um interesse especial. É importante a organização de uma antologia de contos que guarde um ponto comum e essencial, presente em todos os textos. Mais interesse surge se pensarmos na extensão da costa baiana, pois o nosso é o estado brasileiro com o maior litoral, haja vista seu impressionante número, cerca de 900 km, que indica 12, 4% do litoral brasileiro.
     Diante dos números, fica óbvio que a arte baiana tem o mar como presença praticamente obrigatória. Mas isto não é verdade quando se trata da arte literária. O mar não está como cenário constante na maioria dos textos, quer se pense nos romances, quer a leitura se fixe nos contos. Talvez se faça mais cantado na poesia. É certo que na obra de Jorge Amado encontramos tanto o mar, quanto as plantações de cacau, como cenários recorrentes de seus romances, que são os romances da Bahia, como o próprio escritor os denominou. E Adonias Filho lançou seu personagem rumo ao mar, para se entregar à vida do mar, abandonando tudo o mais, em Luanda Beira Bahia. No gênero conto temos alguns exemplos, tais como “O Arpoador” e “A Noiva do Golfinho”, de Xavier Marques, como marcos importantes. De Vasconcelos Maia, com seu conhecimento sobre o mar, dono de saveiro que era, temos os contos “Cação de Areia”, “Tempestade” e “Um Saveiro Tem Mais Valia”. Mas, reparando bem, os escritores baianos preferem ver o mar da praia, ou no cais, em terra firme olhando o mar, só que, nesta altura, levantar tal questão não tem muita importância. De forma que o organizador Cyro de Mattos traz contos pinçados das obras de cada autor presente em Histórias dos Mares da Bahia.
      Sendo vários autores e, claro, vários estilos, a versatilidade que o livro apresenta pode ser entendida como exemplos da sabedoria que o mar deixou em cada autor, o que cada um arrebanhou ao longo de suas vidas e de seus contatos com a vastidão do Atlântico. O mais relevante nesta antologia são fatos reais: o fato primeiro de juntar os textos, depois o de registrar tais textos mediante a publicação, a exposição dos autores e, por fim, mostrar e chegar aos leitores mais uma produção que enriquece a literatura baiana. A roda da engrenagem avança mais um dente.

           
        (Salvador, olhando para o mar da Baía de Todos os Santos.)

*Gerana Damulakis é ensaísta e crítica literária. Ocupa na Academia de Letras da Bahia a cadeira que teve como último ocupante o escritor Hélio Pólvora.