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sábado, 13 de agosto de 2022

 

Peripécia de Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

Eu te louvo pelos oprimidos

nos subterrâneos da liberdade,

teu pulso erguido com amor

fale da seiva de servos,

calo sem orvalho na trama

do ouro vegetal com rifle na curva.

Teu verde galope sem sono,

na seara vermelha tua face

carregando sede e fome,

o olho do sol crepitando

céu de fogo na aurora,

fósforo aceso no crepúsculo.

Teu riso leonino fendido

com os capitães da areia,

esse trauma de ladeiras

e ruas do mundo sem teto

manchado na hora da ciranda.

Numa tenda dos milagres

toda a Bahia mestiça cabendo,

no sumiço de uma santa

a arte incrível de um feiticeiro. 

Eu te louvo no peito lírico,

a garra de Teresa Batista,

fome de Dona Flor, agreste Tieta,

rosa de Gabriela, cravo de Nacib.

Quem te fez pastor da noite,

Vasco Moscoso, flor do povo,

Pedro Bala, amado guerreiro,

boêmio, malandro, meretriz, violeiro,

guardador de chaves africanas,

verdade absoluta em Pedro Arcanjo,

duas mortes de Quincas Berro Dágua,

gargalhada da Bahia ao infinito?

Ó meu capitão de longo curso,

para te louvar com aplausos,

risos grandes e muitos vivas, 

 tua cidade de mares e santos

amanhece repetida de foguetes,

de estrelas e atabaques anoitece,

nos terreiros orixás estão descendo.

 

 

 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

             Cyro de Mattos e Jorge Amado: um encontro grapiúna*

                  Por Nelson Cerqueira

 

É um encanto o encontro temático que Cyro de Mattos realiza com Jorge Amado ao apresentar em seu livro de ensaios um rico conjunto de saberes sobre a obra do famoso romancista baiano. Nas leituras de romances e de outros aspectos importantes, o ensaísta aborda primeiro a infância do romancista quando era ainda um menino grapiúna, na época da conquista da terra. Incursiona depois   sobre o universo do cacau, prossegue com os comentários sobre o fazer literário, no qual contempla estudos sobre os temas, personagens, invenções com base na realidade popular, enfim, em tudo que da narrativa prazerosa possa expressar uma forma de biografia da vida no ato da escrita.

 

No aspecto construtivo do uso do saber da vida transposto para o plano do fazer literário, o ensaísta dá-nos uma visão humanista da criação e da vida existencial do célebre escritor.  Suas leituras assim sobre o legado amadiano facilitam o entendimento de uma obra de valor inconfundível para os novos e velhos leitores. Estão tão bem urdidas acerca do comportamento feito de saberes na escrita sensual e no imaginário do romancista que bem poderia esse livro de ensaios funcionar como um manual literário para alunos da escola secundária, das faculdades de letras e até mesmo para estudiosos que se disponham a rever e refazer conceitos assumidos e propalados. 

 

Sem falar na contribuição que poderia prestar a muitos segmentos da crítica formalista que impera no meios acadêmicos e universitários, nas mentes tradicionais às vezes tendenciosas, através de interpretações engajadas, padrões de dominância analítica  municiadas pelos preconceitos, situados esses no discurso crítico conforme concebe Hans Georg Gadamer, em Wahrheit und Methode, e até mesmo Francis Bacon, em seu Novum Organum, quando nos alerta para os ídolos cultivados na escuridão, nas imagens pelas quais se pode ficar aprisionado, sem ver a claridade dos seres e coisas nem vislumbrar uma face da verdade.

 

As narrativas de juventude, junto com o universo do cacau, pela primeira vez aparecendo na obra de Jorge uma incursão romanesca em Itabuna, se constituem em capítulos capilares para a hermenêutica de romances como Cacau, Terras do Sem Fim, Gabriela, Cravo e Canela, São Jorge dos Ilhéus, A Descoberta da América pelos Turcos e Tocaia Grande. Os saberes são apresentados aqui pelo ensaísta de forma erudita, referidos em crítica textual eclética, na qual são selecionadas personagens como testemunhas reais e fictícias, de acordo com o que se encaixa melhor para o resultado desejado no estudo. Nenhum personagem ou momento existencial descrito recebe favorecimento teórico, ao invés disso o ensaísta sempre vai descrevendo e provocando a reflexão do leitor, auxiliando-o na fixação de sua opinião, para assim ir mostrando o texto impregnado de lucidez interpretativa com os elementos extrínsecos e intrínsecos necessários à elucidação da escritura em conexão com a vida, tanto na forma quanto no conteúdo para conseguir o efeito. 

 

Parece que Cyro está abraçado com o melhor da crítica do século XIX quando se escrevia sem viés de preferência diante de um manuscrito, com uma disposição poética e alexandrina que impressionavam. Conscientemente usa elementos de muitas teorias literárias e filosofias da interpretação da obra e assim permite que as ideias se interconectem com a fatura romanesca de Amado, com sua existência, seu conhecimento abundante dos seres e das coisas, valores, razões, pensamento mágico e lógico, linguagens literárias e populares. Os saberes são apresentados, passo a passo, como numa atitude rosácea, conduzida por uma variedade de estilos, que nos lembram a lição de Hume quando observa que não existe um único caminho para se chegar à beleza, e pode ser, por isso mesmo, o que Cyro preferiu nesse modelo de práxis literária com diversos prismas para comentar os saberes de Jorge. O ensaísta debruça-se principalmente sobre fontes primárias do saber e do fazer, ao mesmo tempo que cobre o espaço de uma cultura mestiça do povo baiano com a variedade de ângulos que elaborou com felizes descobertas e achados importantes no correr do estudo.

 

O capítulo analisando Capitães da Areia está tão bem urdido que me trouxe de volta a análise que fiz das apropriações de Amado do universo medieval, a narrativa centrada em Pedro Bala, louro com sua cicatriz vermelha, a liderar o grupo, fugindo da tentativa bastarda de transformá-lo em negro, para atender a supostos preceitos do politicamente correto, tão em voga nesses dias de desvario em que se deseja até queimar todo o acervo de Monteiro Lobato. O enfoque desse romance de aspirações sociais mostra como nesses pobres meninos abandonados na areia acontecem mazelas, que são as de hoje, e que já existiam na década de 30, mas ainda recalcitrantes quase cem anos depois, no novo século.

 

Em certo momento da leitura que fiz preferi também ficar com o ângulo idealizado de Amado no que diz respeito à imagem de personagens com a dimensão dos contrastes raciais, dentro das discussões da época, lideradas por Gilberto Freire em sua tese de estudos multirracial, escrita sob a orientação de Franz Boas, vinculada a uma época em que se buscava novas ideias sobre raças para dar uma resposta ao crescente arianismo defendido por Adolf Hitler.

 

As narrativas de pesquisas e memórias, contidas nesses saberes de Jorge Amado, abordando a cidade da Bahia assentada numa cultura popular mestiça e sua preferência pela vida urbana, com feitiçarias e heróis míticos como os de Os Pastores da Noite e Tenda dos Milagres, assim como os ensaios sobre as mulheres heroínas e guerreiras com suas imagens impregnadas de ousadia e coragem,  são todas elas excelentes leituras para compreender a dimensão do ficcionista e seu compromisso com as questões sociais, lutas de classe e escárnio à burguesia dominante.

 

É magnífica a interpretação do ensaísta sobre a realidade da vida popular  no romance de Jorge Amado, como um dos saberes configurado na expressão mística, fantástica, mágica, socialista, enfatizado em Tenda dos Milagres, Os Pastores da Noite, O Sumiço da Santa e Dona Flor, mas que navega em toda a narrativa do romancista, desde País do Carnaval, a englobar, até mesmo, seu relato de caráter autobiográfico, onde existência e imaginação se misturam como vinho e água durante certa navegação de cabotagem.

 

O ensaísta Cyro de Mattos teve a iluminação para tratar de todas as variações de realismos e estilos literários usados por Jorge Amado de uma forma poética e grapiúna, dialogando com os pés na terra, viajando por toda complexificação do flutuar de teorias, usando aqui a ali alguma fonte teórica, mas mantendo em suas leituras dos saberes a base maior para o entendimento do autor: sua fortuna crítica literária. Do ponto de vista crítico é marcante como esse conjunto de ensaios ou crônicas teorizantes sobre o amado escritor baiano adote como pano de pesquisa as obras do romancista e uma dose de referências a muitas ações conjuntas, de amizade, advindas das relações sociais, vivências e convivência no mundo grapiúna, no universo pré-místico do cacau, e que também inclui nelas a religiosidade trazida pelos descendentes de africanos, sobretudo a religião dos orixás, ijexá e dos Bantus de Angola e sul da África.

 

Os capítulos sobre o criador de personagens, o prosador e o poeta, não podem deixar de ser apreciados com cuidado, em razão de sua riqueza de detalhes.

 

Resulta esse livro de um conjunto de ensaios que produzem uma análise clara e imprescindível para o conhecimento da obra de Jorge Amado. O ensaísta Cyro distribui também farto conhecimento sobre os personagens masculinos e femininos. Aponta como ocorre a fusão entre engenho e arte para traçar o modo de construção desses protagonistas, tanto no romancista estudado como em outros da grandeza de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Tem razão quando pergunta como esquecer Baleia, de Graciliano Ramos, Moby Dick, de Melville, Dona Flor ou Pedro Archanjo, do autor de Tenda dos Milagres, personagens que ocupam lugar de destaque na galeria das fascinantes criações de todos os tempos, eternizadas como referências obrigatórias na literatura ocidental.

 

Por fim, lembremos que Jorge Amado rompeu com o partido comunista, mas permaneceu, em toda sua dimensão de construção narrativa, ligado às verdades essenciais de um sistema organizado com feição igualitária. Podemos ver isso na delimitação de personagens, dentro da estética com mensagens de teor libertário conduzido para um mundo melhor. Escreveu neste sentido a fábula infantil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, tão bem lembrada por Cyro em um de seus lúcidos ensaios. 

*Grapiúna é assim chamado o pioneiro ou o que nasceu no tempo da conquista da terra.  Ao longo dos anos, o termo passou a significar aos que se identificam com as tradições e valores de uma civilização criada com bases na lavra do cacau, no sul da Bahia.   

**Nelson Cerqueira é escritor, tradutor, poeta, professor doutor em Letras.

 

 

 

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

               Um Homem Bom

                Cyro de Mattos

Homem alto, forte, voz grossa e mansa. Gostava de usar boné. Era sempre visto na feira do Centro Comercial aos sábados. Cedo recolhia com a pequena cesta donativos para a feira dos pobres. De porta em porta, na semana, pedia ajuda para a construção de mais leitos no albergue.

Dormia pouco, o tempo disponível era dedicado ao próximo. Dor é vida, sofremos porque estamos na vida, li no poeta Jorge de Lima. O homem que usava um boné ensinou que a vida torna-se leve quando habitada com amor. Há milênios que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói. Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo. Com uma escrita às avessas, desviada da ternura, mais para urubu do que para curió. O que sabe hoje o nosso pobre coração humano de Deus? Do enigma, da dor e do amor?

Essa lição fácil, dar alpiste aos desvalidos, pássaros tristes com as penas doídas, aquele homem de coração solidário ensinou no dia a dia. Por onde andou o seu coração foi para dizer que Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro. A flor do coração sente-se em outros que a ele se juntam. O semeador de esperança no país dos frutos dourados, no chão onde o emblema da vida consiste em perseguir o dinheiro como a chave de todas as coisas.

Homem filho de um território onde no início o ser humano matava e morria por um pedaço de terra fértil, numa fome sem precedentes. Ensinou que a vida tem sentido com excesso de pobreza. Como pode vencer léguas do chão áspero e construir grande abrigo para centenas de pássaros sem voo e canto? Recolhidos aos dias tristes? Acreditava que a morada neste planeta é possível com todas as mãos numa só comunhão.

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Gandhi lembra que a cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um de nós tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo. Ninguém morreria de fome. O genial Charles Chaplin fala do caminho da vida com beleza e liberdade. Lamenta que tenha ocorrido o desvio da ternura. A cobiça envenenou a alma dos homens, ergueu muralhas de ódio no mundo, fazendo-nos marchar a passos de ganso para a miséria e horror dos morticínios.

Aquele homem, que usava um boné xadrez, gostava de oferecer uma rosa a qualquer um quando percorria a cidade, em seu rito de recolher donativos para os pobres. Em linguagem simples dizia que todos nós somos missionários. Consistia a prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede. Ele, Bionor Rebouças, o pai, o filho, o irmão. Um homem como outro qualquer. Um libertador para os enfermos do Albergue Bezerra de Menezes. Um anjo que desceu do céu.

 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

 

Dísticos

Cyro de Mattos

 

O bandolim

Tocou tanto para a lua no jardim

que ficou com as cordas de prata

 

A Garça

Em cima da pedra

a noiva pernalta

 

Infância

O mundo é uma criança

com palhaço e lambança

 

O Grilo

Todo o peso terrestre

nesse cricri constante

 

O Beija-flor

Beijar e amar

essa a vida do ar

 

A Isca

Quando vem à tona

como se arrisca

 

Adivinha

No avião faz proezas  

e é o rei da criação?

 

A Poesia

Sentimento e pensamento

nos fios sem fim do sonho

 

O Cais

Água batendo

pedra em saudade

 

O Rio

Morrendo de sede

Cachoeira o seu nome

 

O Canário

Pinga cantiga no paraíso

começando de novo.

 

A Canção

Doce como a chuva

venha comigo se molhar

 

A Casa

As flores no vaso

a mesa só ternura 

 

A Harpa

Cativante nos céus

enquanto as nuvens sonham

 

O Pinto

Minúsculo amanhecer

no pio no trisco

 

Os Janeiros

A cidade de brinquedo

um tempo de frutas

 

As Formigas

De folhinha em folhinha

o amor pela natureza

 

 O Campeador

No meu burrico

venço a solidão

 

A Hiena

Gargalhada anuncia

o espectro da fome

 

O Cão

O meu cão em hino

músculos me festejam

 

A Avó

Saudade assim

fixa o ouro na memória

 

O Coqueiro

Abano do vento

  carícia de lenço

sábado, 9 de julho de 2022

 

Cento e doze anos

 

Cyro de Mattos

 

 


Ultrapassou a barreira comum de nosso saco de tripas, superando a linha de chegada que Deus programou para nossa sobrevivência neste planeta. Ele fez cento e doze anos de idade. Seu nome: Benevenuto Jesus dos Santos.

No aniversário do patriarca, festa que começou a ser programada há dez meses, compareceu gente da prole que se espalhou por todos os cantos do Brasil. Filhos, netos, bisnetos e tetranetos. Gente que vive do Oiapoque ao arroio Chuí. Saibam os poucos que lerem essa crônica que ele tem vinte e cinco filhos, oitenta e seis netos, cento e dezoito bisnetos e, de quebra, dezesseis tetranetos. Sem dúvida, trata-se de um fato incomum, feito de vitalidade, otimismo e alegria. Serve como exemplo aos seus mais jovens descendentes e também para os jovens dos atribulados dias de hoje. Um homem viver tanto tempo e manter sua crença na vida.

Como eu disse, veio gente dos confins para o aniversário do patriarca. Gente de toda cor. Branca, preta, mulata, loura, sarará, cafuza, parda. E o que também impressiona nessa prole imensa e vária é ela se encontrar aí pelo mundo bem viva. Confiantes, alguns dos filhos do patriarca observaram que irão superar a marca do pai, um deles adiantou que essa proeza de fazer que a vida seja longa não vem só do lado paterno. A mulher do patriarca, Dona Filomena, perfumada, ruge no rosto, boca pintada de batom, o cabelo amarrado com uma fita azul, vestido com peixinhos no tecido rosa, não fica por menos, esse ano apagou noventa e cinco velinhas.

O que deve passar na cabeça de um homem com mais de cem anos de idade e que atravessou um dos períodos mais conturbados da humanidade? Foram duas grandes guerras mundiais, dezenas de guerras localizadas, muitas revoluções, inúmeras práticas de genocídio a povos e grupos discriminados, apogeu e desaparecimento de estadistas que a história conheceu como heróis.

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O patriarca nunca fumou, só veio tomar alguns goles de cerveja quando se aproximava dos cem anos. Devoto de Santo Antônio, sempre acordou às quatro da madrugada, logo indo abrir as janelas para evitar que os filhos ficassem perdendo tempo na cama.

Mais de trezentas pessoas transformaram a cidade onde o patriarca nasceu numa festa como nunca houve igual. Uma missa foi concelebrada ao ar livre pelo padre da cidade e dos municípios vizinhos.

Lá estava toda a prole em ritmo de alegria, vestindo camisetas com a foto do patriarca. Desde o filho caçula, com cinquenta e nove anos de idade, até o mais velho, com oitenta e seis anos. O padre da cidade mostrou-se feliz por ver uma família conseguir manter-se em unidade sob princípios cristãos. Destacou a fibra do patriarca, que, não sendo rico, educou os filhos numa vida de trabalho, sacrifício, honradez e sabedoria.

Os instrumentos de trabalho do patriarca, os arreios de sela, a capa contra chuva e o chapéu de couro foram doados durante o ofertório na missa. O largo da igreja estava lotado de pessoas entre felizes e curiosas. Terminada a missa, um churrasco para quatrocentas pessoas foi servido em outro local, ao ar livre. O velho Benevenuto Jesus dos Santos teve dificuldade em soprar as cento e doze velinhas.

Sabem do que o patriarca mais gosta atualmente? De dormir e comer, mas nada de alimentos enlatados. Sua alimentação é natural. Entre as poucas atividades que exerce, ensina aos mais jovens como melhor cultivar a terra, mostrando-lhes o tempo certo para arar e plantar. Ele disse que dormir cedo e acordar de madrugada todos os dias, comer sem exagero o alimento natural, não fumar, não beber, trabalhar a terra com a enxada, andar sempre e nunca se enervar nos momentos difíceis tem sido a fórmula que usou para chegar tão longe.

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

 

Soneto do Cavalo

Cyro de Mattos

 

Músculo, suor, galope, cadência;

vento, porteira, campina, relincho.

No passo picado rude elegância,

maneira de cascos: trote, compasso.

 

Incansável crina em qualquer distância;

se selvagem, vence quem vem com o laço.

Nervoso fere com uma espada ígnea,

coito na seda, tremura, entrelaço.

 

Na chuva grossa, forte estiagem,  

que de melhor pra montar no cavalo?

A amizade? Na manhã a aragem?

 

Na sela agora surgem do que falo

coisas de ontem como se hoje fossem...

ele, relva quadrúpede, o cavalo.

 

(Do livro Cancioneiro do Cacau, Prêmio Nacional Ribeiro Couto, União  Brasileira de Escritores (RJ), um dos vencedores do Prêmio Emílio Moura da Academia Mineira e Letras, Segundo Lugar no Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Genova, Itália, e Finalista do Jabuti.)

terça-feira, 14 de junho de 2022

 

MACHADO DE ASSIS: ESTÁTUA VIVA

                                                               Raquel Naveira

                                  

 

        A pessoa que mais tenho visto e de que me lembro aqui no Rio de Janeiro é o escritor Machado de Assis. Não foi à toa que vim morar na rua das Laranjeiras. Algumas vezes caminho rumo ao Largo do Machado, com suas barracas de livros usados, de flores (e eu “por flor tenho loucura”, como dizia uma música de Cássia Eller); suas mesas de pedra, onde idosos jogam baralho e xadrez; sua entrada do metrô, conduzindo filas intermináveis   de gente pelos subterrâneos que levam aos bairros, às florestas, aos estádios, às favelas e às praias. Passo antes pelo concorrido sinaleiro em frente à suntuosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, que lembra a de St. Martin em Londres. Às vezes, quando fecho os olhos por alguns instantes, pois creio em viagens no tempo, imagino o espaço entre a Igreja e o Largo forrado de antigos tílburis, aqueles carros de aluguel de duas rodas, dois assentos, com capota e sem boleia, puxado por um só cavalo, que servia de condução na época da corte. Dona Carlota Joaquina passando com sua luxuosa carruagem rumo à Chácara Botafogo. E mais tarde, o próprio Machado de Assis, apoiado em sua bengala, andando apressado em direção às palmeiras.

       Mas o Largo do Machado não tem esse nome em homenagem a Machado de Assis como algumas pessoas afirmam. O Largo já era do Machado, quando Machado de Assis tinha apenas quatro anos de idade, pois o escritor nasceu em 1839. A versão mais aceita hoje em dia é que no local existiu um açougue que exibia na sua fachada um machado de madeira. Um nome pobre, popular, que marcou aquele terreno outrora pantanoso e cheio de moluscos.

        Subindo um pouco mais, entre as ruas do Catete, Marquês de Abrantes e Conde de Baependi há uma bela estátua de outro escritor, José de Alencar, um dos expoentes do Romantismo brasileiro. É uma escultura de Bernardinelli, uma estátua viva, pois José de Alencar foi grande e mereceu virar estátua. Suas obras não cessam de surpreender sucessivas gerações.

                      Machado de Assis proferiu um comovido e saudoso discurso na cerimônia do lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar, um homem que foi acima de tudo seu amigo e seu mestre. Disse Machado:

 

 “Agora que os anos vão passando sobre o óbito do escritor, é justo perpetuá-lo pela mão do nosso ilustre estatuário nacional. Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar esta palavra melancólica: ‘A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.’ Senhores, a filosofia do livro não podia ser outra, mas a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra.”

       Subo pelas ruas do Catete em direção ao centro da cidade, chego à Academia Brasileira de Letras, local onde Machado de Assis, seu fundador, também virou uma estátua viva. Uma estátua feita pelo escultor Cozzo, bem na entrada do charmoso Petit Trianon, local onde são feitas as sessões semanais, as palestras, os chás, as cerimônias de posse. Lá está ele sentado, quieto, pensativo, de bigode e pince-nez. Às vezes ele me parece tão perto, às vezes tão distante, mas sinto sempre na pele o seu olhar de bruxo.

            “_ É, meu caro Machado, digo-lhe baixinho, a literatura é mesmo ideal que eleva, honra e consola. As letras são boas amigas para quem tem a alma enojada e abatida como eu. A arte é a minha liberdade, meu remédio. É assim que venço as tristezas do coração e continuo amando. Você entende, não é?”

        Há manhãs, quase todas de sol, que caminho em sentido oposto, orientada pelo abraço do Cristo Redentor. Vou em direção ao Cosme Velho, ao número dezoito, último endereço de Machado de Assis e de sua esposa, dona Carolina. Foi de lá que saíram a cama do casal, a penteadeira, a mesa de jantar, fotos e objetos que hoje estão no Petit Trianon. Quando passo pelo casarão onde viveu Austregésilo de Athayde e pelo Largo do Boticário com seus casarões coloniais, azulejos e paralelepípedos, penso que poderei topar com Machado na primeira esquina. Talvez ele me falasse:

           “_ Você veio de tão longe, de um lugar cheio de pássaros, rios, cachoeiras, céus estrelados, boiadas, campos de vacaria, mas tenho certeza de que lá a natureza humana é a mesma: perigosa, sempre. Entre, Carolina nos fará um café.”

        Aí eu o abraço e deliro:

         “_ É verdade, vim lhes fazer uma visita aqui no Cosme Velho. Queria vê-lo de perto, escrevendo, debruçado sobre seus papéis avulsos. Queria andar por esses corredores, observar esses retratos. Ah! Como é linda essa “Dama do Livro”! Sabe, eu o acompanho quando o senhor vai pela rua do Ouvidor, entre alfaiates, floristas e joalheiros até chegar à livraria Garnier. Sigo-o pelas repartições, pelos gabinetes, pelos jantares e reuniões. Conheço sua ironia tranquila, sua piedade por todos, vítimas e algozes. Presenciei tudo, vi todos os vermes que roeram os cadáveres em suas ressacas de pessimismo.”

        Depois do café oferecido por dona Carolina, vestida de preto, beijo as mãos de meu   amigo e volto para minha casa, gruta ou caverna de aço. O Cristo agora é uma sombra projetada em minhas costas.


* Raquel Naveira é graduada em Direito e Letras, cronista, poeta, autora de uma vintena de livros.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

 

                Tanta dor, poesia  

                Cyro de Mattos

 

Adelmo Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, sul da Bahia. Sua família constituída de retirantes da seca retornou às origens no sertão da Bahia, na época da Segunda Guerra Mundial. Publicou: O canto da hora indefinida (1960), O som dos cavalos selvagens (1971) , Cântico para o Deus dos ventos e das águas (1987), Espelho das horas (1991), Canto mínimo (2000), Poemas da vertigem (2005) e Antologia (2012) na coleção Poesia Seleta, da Editora Mondrongo.

Em Cântico para o Deus dos ventos e das águas, prossegue na jornada de andarilho da ilusão pelo “reino das estrelas eternas”, como ele mesmo diz em um de seus versos. Retorna ao espaço da emoção e reflexão ritmado com a  palavra que  expressa seu sentimento de mundo,  testemunho de seu tempo e lugar.   

Este livro está dividido em quatro partes:  Silêncio & memória, Grito & silêncio, O menino & o sonho, O homem & o sonho.  Com seus ventos e águas de eternas datas, esse cântico revela um poeta que em seu navegar solitário assume o gosto lírico da tristeza. Dotado de irmandade em   “Pássaro, humanismo político em “As bodas da morte”, moralizante em “Bilhete a um poeta”, ingênuo em  “O menino & os pássaros”, luto e dor  em “Elegia dos deuses”, sagrado no grave ritual de  “Confissão”. A dicção se compraz em guardar no tom pungente o que é fundamental moldado com a marca das distâncias. Na flauta que toca a música de tristes claridades, a expressão lírica filtra ausências por entre sombras, queixas de muitas solidões, isolamento, cais, despedida. Longe de desesperar, afirme-se com o poeta no seu ermo que “esse pranto e ponteio num poço de ondas e mágoas” redime, conforta.  Elucida no silêncio a rosa quando nasce ade pesares na paisagem solitária.

É uma poesia que se vincula à linhagem de tradição universal em seus elementos mais presentes: o verso, a rima, a imagem, o uso do soneto, o subjetivismo. E, moderna em sua expressão lírica, sem os desvios técnicos de certa vanguarda experimentalista. No ritual de dor, tristeza e solidão, conduz sua mensagem por “caminhos de orvalho”, através de uma dicção confessional que converte o poeta “a uma seita antiga para o culto de deuses invisíveis.”

O cântico que Adelmo Oliveira fere nessas águas de sal é vazado com solidariedade, equilíbrio de ventos ofendidos no tempo interior, doloroso e intenso, que corre no mundo. Sua música não é artificial. Há, em notas agudas,  o eu profundo que resiste a um mundo despido de ternura, em ritmo veloz que pulsa  no absurdo, impele a criatura para uma zona ausente  de esperança e compreensão.

É um cântico que comove, dado que nele submerso está o sujeito  como alguém triste, em  armadura frágil nos limites do próprio casco, com “um pé no chão e outro no espaço”, eis que emerge  daquela região fincada de pureza, apesar de perdida, na qual gravita  de si mesma a memória de cenas episódicas  eternamente nuas. A voz que escorre assim desse cântico mostra que na canção do viver e morrer lirismo e o lado social do homem como ser gregário podem conviver de mãos dadas, solidárias.

Pode-se dizer que em Cântico para o deus dos ventos e das águas o poeta resgata o homem com mãos cheias de amor no apito sonoro das extensões e fragmentos doloridos latejando na memória. Com voz subjetiva eficaz, tom suficiente de queixa na vida que passa, suporta no seu ermo o mito da inocência perdida. Navega nessas águas feridas, caminha nesses ventos ofendidos, diz do eco de vozes oprimidas. Guarda na melodia de rude mar rumores de madrugada, que se anuncia solitária e indefinida.

Na Antologia (2010), organizada por Gustavo Felicíssimo, Coleção Poesia Seleta, da Mondrongo, a poesia de Adelmo Oliveira é como uma estrela fixa que revela o mundo em órbita de ventos contrários. Constata de que estamos enredados com o peso do enigma, representados no atrito dos  seres e as coisas, até mesmo quando o cenário é a infância, que entre fissuras e rupturas forma fragmentos de uma fruta que de súbito acaba  com a idade adulta. Simbolizada por questões e momentos agudos, essa poesia é   algo que sempre está se fazendo e implica na criação de nós mesmos. Ora como feridas, que, no desencontro da passagem do tempo, deixam marcas profundas, próximas de verdades. Ora é a guerra que anula, a paz que marcha na esperança para colher a felicidade.

Ocorrem cismas dentro da alma do poeta:

 

Vértice no tempo

De tanta dor

Meu pensamento

É só amor

 

 

 Eis aqui uma poesia que, também, veste-se de coragem e dignidade no espelho das horas. De ritmo que agrada, conduz sem pressa quem a lê  por meio de discurso elegante,  sem a  dicção para  esquivar-se  da vida na colheita das dores. Não teme os desafios, nunca recua em suas constatações do que não agrada e oprime. Não se envergonha  de mostrar   como   dolorida  é a memória do eu pronunciado, vertido por meio  de insinuações e motivações na  lágrima feita de sal.

O mundo está dentro do poeta e o poeta dentro mundo. Essa é a sua  maneira  de  circular na existência, como um “filho errante da poesia.“ Os últimos versos de  “Monólogo de uma  rapsódia ligeira”, poema incluso na antologia, deparo-me com a certeza da crença desse poeta,  em voz viva:

 

  Só confio nas palavras

 Ainda que inutilmente revelem

 A verdadeira face da noite

                        

                         da noite

 

          Da grande noite de nossa inexorável miséria

 

A poesia acompanha decididamente os passos do poeta no seu ofendido ser-estar do mundo, enredado na ilusão sob o peso do enigma, condição que lhe é cobrado pelo tempo na morte dos dias. Ao ler a poesia de Adelmo Oliveira, escuto o poeta T.S. Eliot quando diz que o rio flui dentro de nós, o mar cerca por todos os lados. Escuto no poeta baiano a sua voz  que se abre com as palavras , soltas na garganta como canto de  pássaro,  retirando  de dentro a fala, o grito, que  diz:

 

Sou um eco de silêncio do infinito

que perturba a razão deste enigma.

 

Neste enigma vestido no silêncio dos desertos, o poeta medita o quanto o peito desesperado fala do homem habitado de sofrimento. As palavras são nítidas, cortantes, constatam, servem às feridas que não se fecham. Revelam sempre na metáfora do cérebro que tudo explode nos caminhos onde a cruz está fincada e abalam ideias no pensamento com incansáveis cavalos em   irascível galope. 

 Jogo e drama são movimentos de sondagem dessa poesia que pulsa em nervos e sentimentos, são vísceras do mar salgado da vida. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai este solitário coração. Com ele, no itinerário  de armazenadas solidões, salta o  pássaro riscado nas penas com pesares, desconfiado de sombras. Assim é que o poeta acha o equilíbrio por  entre os medos  e os vazios, delírios e sonhos. E se vê como um intervalo que não chega a compreender, não consegue decifrar o código cujas pontas estão atadas entre o primeiro vagido e o último suspiro. 

Da infância, o poeta lembra o Rio do Ouro que secou, os caminhos que não se completaram, as veredas compartilhadas com o destino que deságua em um leito de águas mortas, nesse súbito estuário escuro. De outras vezes romântico ou assumido realista, toma emprestado a voz de figuras fundamentais na crença de uma sociedade justa. Mostra-se engajado na poesia social, solidária, de alto nível, humanista, suportando dores refeitas na esperança do mundo melhor, seguindo na marcha de esperança. 

O poeta libertário, em “Pequena canção do porta-estandarte distribui versos cantantes para comover e unir todas as mãos em uma só cantiga:

 

Não é sede de vingança

Não é ânsia de terror

Não é fuga ao desvario

Não é escape de angústia amorosa

Nem murmúrio de sentimentos dissolutos.

 

E já podemos concluir com ele que a liberdade, o bem mais forte dos humanos, só é a força pura da vida, legítima, quando se escreve o seu nome  “como quem prega a paz e busca a felicidade.”

No exercício do soneto, faturado com sinceridade, verdades, dá mostras de certa morte que é puro fingimento. Vertido de vertigens e fantasia, enuncia uma de suas estações prediletas a perdurar segredos e desejos do mito que circula na rota da ilusão:

 

Aqui perto de mim, na minha vida

Meus olhos ficam cheios de poesia

- A estrela se debruça na janela

E a lua troca a noite pelo dia.

 

O poeta só emprega palavras que não desmentem o que sentiu e colheu nas dores da vida. Em Adelmo Oliveira, o universo verbal do poema não é feito com os vocábulos do dicionário, não se trata de ornamento que serve de mero passatempo. Quer dar no auge dos conflitos um sentido mais puro da vida.  (Ensaio que participa do livro Prosa e Poesia no Sul da Bahia, Editora Via Litterarum, Ibicaraí, Bahia, 2020)

 

 

Referência  

 

OLIVEIRA, Adelmo. Antologia, Coleção Poesia Seleta, Editora Mondrongo, Itabuna, Bahia, 2012.