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sábado, 30 de agosto de 2014

O Fantástico Julio Cortázar

  Filho de argentinos, Julio Cortázar nasceu  na Embaixada da Argentina, em Ixelles, distrito de Bruxelas, na Bélgica, em 26 de agosto de 1914.  Com quatros anos de idade voltou à terra natal, passando maior parte de sua infância em Banfield. Não foi uma criança feliz. Vivia com freqüência na cama, lendo livros que o faziam mergulhar nas zonas de duendes, de elfos, dando-lhe um sentido de tempo e espaço diferente da realidade em que nós vivemos.  E isso iria influenciar sua obra de contista e romancista.
Em 1935, formou-se Professor em Letras e nessa época costumava frequentar lutas de boxe.   Em 1938, numa edição de 250 exemplares, publicou  Presencia, livro de poemas, sob o pseudônimo Julio Denis. Lecionou em algumas cidades do interior do país, foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia  e Letras da Universidade Nacional de Cuyo. Aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na  Argentina, partiu para Paris onde se casou com Aurora Bernárdez,  uma tradutora argentina, em 1953.  Viveram em París sob condições econômicas difíceis.
Em 1959 saiu o volume Final de Jogo,contos. Publicou Histórias de Cronópios e Famas em 1962.  O  ano seguinte  marcou o lançamento de O Jogo da Amarelinha,  seu grande sucesso, que  teve cinco mil exemplares vendidos no mesmo ano
Autor de uma escrita ampla e notável, Julio Cortázar é o escritor mais importante da literatura hispanoamericana, o de maior projeção internacional, ao lado de Jorge Luís Borges. Dono de um texto inovador, inventivo na forma, revolucionário  na estrutura,  que exige um leitor íntimo das questões estéticas ligadas à vanguarda,  sem pressa, oferece em seus livros de contos e romances múltiplas possibilidades de leitura.  O Jogo da Amarelinha  representa para a literatura hispanoamericana o que  Ulisses, de Joyce, significa para a britânica e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, para a brasileira. Com Morelli, personagem desse  romance  articulado com várias linguagens, pode-se deduzir  uma teoria romanesca do romance moderno, na qual o escritor argentino não está interessado na narrativa que vai colocando os personagens na situação desenvolvida  linearmente em torno do enredo, mas na que propõe o inverso, instala a situação nos personagens. Com o que estes deixam de serem  personagens para se tornarem pessoas.( p. 438)
 O jogo da Amarelinha apresenta-se com uma divisão tripartida. Na primeira parte vemos o argentino Oliveira em Paris, à procura de Maga, a mulher amada e desaparecida; a segunda tem como espaço  Buenos Aires e o reencontro com Talita. A terceira parte é formada por capítulos sobressalentes, citações e recortes. A leitura pode ser feita sem essas citações, segundo o autor.  O caráter autobiográfico do livro é identificável  com o personagem Oliveira,  um escritor argentino;  através dele o autor empreende a peregrinação interior, na obsessão de questionar  a vida e persegui-la nos seus desvãos  como uma substituição constante de comportamentos.
Cortázar não é apenas um romancista ensaísta, alimentado por ideias, concepções filosóficas e literárias em sua visão da existência e contemplação do homem diante do real cotidiano.  Não é só o escritor ambíguo que constantemente recorre ao informe,  à desordem, ao acaso para extrapolar conteúdos dialéticos, recortes do homem indefinido ante o absoluto.  É também um narrador que comove quando toca nas emoções do amor e deixa escapar sentimentos, que são de todos  nós ante situações adversas, feitas de dor e lágrima.  Isso é visto no trecho da carta do pai ao filho, Bebé Rocamadour,  e em outras passagens de  O Jogo da Amarelinha.
       O realismo de Cortázar por ser mágico desconhece a realidade factual. Seu discurso  está embebido numa atmosfera alucinante,  que se move em vários planos:  consciente, poético, fantástico, inconsciente e humorístico. Embora permaneça  com os elementos que são inerentes ao homem na realidade cotidiana, o mundo projetado de Cortázar decorre  da eterna contradição  entre a razão e a crise, a lógica e o absurdo, o real e o imaginário.
       Diferente do que ocorreu com o romance regionalista latinoamericano, no qual se objetiva com veemência  a humanização  de grandes presenças  telúricas, a selva, o lhano, a zona andina e, no Brasil, as terras nordestinas da cana do açúcar, das secas no agreste, da civilização do cacau no sul da Bahia, o romance contemporâneo  tenta suplantar a visão esquemática do naturalismo. E Cortázar, como em Joyce e Faulkner,  procura mergulhar-nos no mundo em processo, em que a imagem do homem substitui a geografia, o protesto contra as dominações e situações locais  adversas.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
      Carol Dunlop, sua última esposa, faleceu em 2 de novembro de 1982, o que causou a  Cortázar  uma profunda depressão.  Ele faleceu em 12 de fevereiro de 1984, em Paris, vítima de leucemia.  Em sua tumba se ergue a imagem de um cronópio, personagem criado pelo escritor.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Admirável Ângelo Roberto

                                 Cyro de Mattos

Diante dos desenhos de Ângelo Roberto, baiano de Ibicaraí, radicado em Salvador desde 1948, a primeira impressão que se tem  é de que a vida é ato de amor. Figuradas no real, criaturas simples sugerem o visual cativante através  de uma poetização imaginativa. Mãos e pés enormes não representam detalhes encaixados de maneira inteligente no humano que se pretende figurar. É mesmo o jeito próprio de imaginar o humano em seu excesso de pobreza, a nos atingir com amor em sua simplicidade. Podemos  perceber  isso  na imagem do menino, abraçando o cavalo amigo com todo o calor do coração. Em são Francisco de Assis e seus pássaros que acendem o dia, levando fraternidade pelos quatro cantos cardeais. Ainda na lágrima    da criança triste, riscada no instante do trauma causado  pelo passarinho morto na gaiola.
Ângelo Roberto, como se vê, é um poeta do traço expressivo. A  imaginação rica que possui lateja no drama  como um feixe de nervos numa só ritmação. Sensorial, intensa, sutil nos pontos que o artista sabe imprimir com mestria nas linhas. Nos poros abertos de sua verdade sentida pela vida. Linha, ponto e movimento pulsam com amor ao mesmo tempo, numa só projeção do drama. Flagrado no episódio tendo às vezes a configuração no mais exterior uma significação interna, de dor e cisão súbita feita na existência rústica. Acontece assim a concentração de forças que vibram na expressão oculta do vaqueiro baleado.
Já se disse que poesia é concentração, iluminação do ser e verdade no seio da linguagem plasmada. Então percebemos assim que Ângelo Roberto oferece com freqüência ao desenho momentos de poesia significativa. O gesto simples do artesão por suas criaturas, fraterno e doce tantas vezes nas emoções captadas configura na superfície branca o espírito pontilhado e delineado com o traço leve quando corporifica a matéria. Diríamos que a vida nesse instante flutua ou se flagra naquela zona suspensa do azul, que há muito tempo coabita dentro de nós, naquela aderência mansa de certo clima poético em nossa paisagem íntima.
Vagares de ternura, revelação solidária da tristeza, instante cálido da mulher com  flor no seio. Tudo idealizado por meio de pontos e linhas que determinam  um ritmo suave. Configuram na expressão segura o tema real do imaginário com objetivo de transmitir valores emotivos. Representam com habilidade a arte de riscar uma geometria que se projeta no tempo do viver, do sentir e do amar, para ocupar determinado estado onírico.
Posso dizer que os trabalhos desse artista humaníssimo que é Ângelo Roberto, de rica vocação para o traço poético, mostram outra vez que a Arte é necessidade fundamental da vida como forma de conhecê-la. Concordância de verdade e beleza, vínculo de gravidade e jogo, pode até não ser substitutivo da vida, não tendo mais importância do que comumente lhe é dada. Porém, útil compartilha a solidão, cativante aproxima as criaturas, dá prazer e faz meditar dentro daquele entendimento  tácito, que a vida no ritmo feroz de conflitos e abismos das civilizações atuais é destituída de sentido efetivamente.
Feita com amor e talento, de maneira humaníssima, reveladora do ser na existência, pode não salvar o indivíduo no conturbado lado de animal social, mas é ato que torna a vida suportável, sensível e essencial.
E viver sem ela seria mesmo impossível.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Livro Infantil de Cyro de Mattos  
na Bienal do Livro de São Paulo   




           A Bienal do Livro acontecerá neste ano em São Paulo,  no período de 22 a 31 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, e terá  mais uma vez a participação da Editora Biruta, que ocupará o Estande G700 no qual apresentará o livro O que eu vi por aí, de Cyro de Mattos, entre os grandes lançamentos do ano.  O livro traz ilustrações vivas e coloridas da polonesa  Marta Ignerska.   
           
        O que eu vi por aí é  a história de uma criança sonhadora passeando pelo mundo. Aquilo que seus olhos enxergam pode se transformar em um cenário  magnífico, onde as ondas do mar são leões com jubas brancas e os raios de sol são as pernas finas e compridas de uma aranha dourada. Indicado para crianças a partir de 8 anos, o autor Cyro de Mattos aproxima os pequenos (e grandes) leitores de um universo mágico e divertido.

       Outros grandes lançamentos do ano da Biruta que estarão na Bienal são O dia em que b apareceu, de Milu Leite, O gigante Maracanã, de Cesar Cardoso, Primavera, de Oskar Lits, Piscina, Já!, de Luiz Antonio Aguiar, Quissamo – o império dos capoeiras, de Maicon Tefen, Como encontrar uma linda princesa, de Ricardo Viveiros, e Poemas para os meus netos, de Vitor Hugo, tradução de Laurent Cardoso.
         

      Considerada a editora dos livros infantojuvenis brasileiros, por oferecer o melhor texto, ilustrações criativas e projetos instigantes, a Editora Biruta promete chamar bastante a atenção das  crianças  na Bienal,  pois criará um ambiente descontraído no seu estande, cheio de figuras coloridas e interativas, levando um pouco dos personagens birutas para mais perto do público. Além disso, promoverá o Concurso  Cultural “Um Mundo sem Livros”, em que a pessoa enviará uma carta para a editora  mostrando  por que não se pode viver sem livro. Cada carta será fixada  em um expositor para no final ser sorteada uma delas, cujo autor receberá como brinde  o livro 2083 da Biruta. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Romance de Cyro de Mattos Será Lançado na Academia de letras da Bahia




O escritor Cyro de Mattos (baiano de Itabuna) estará lançando o seu primeiro romance, Os ventos gemedores, na Academia de Letras da  Bahia, em Salvador,  no dia 2 de setembro, às 18 horas. O livro é uma publicação da Editora LetrasSelvagem (SP) e traz  posfácio assinado pela  ensaísta Nelly Novaes Coelho, doutora em Letras e professora emérita da USP.

Em Os ventos gemedores, Cyro de Mattos penetra vulcânicos labirintos no coração da terra e  transmuda  o território do sul da Bahia no condado imaginário  do Japará.  Desenvolve nesse território bárbaro  o conflito movido por dramas, ambições, opressões e misérias da terra, vividos pelos por  Vulcano Brás e Edivirgem,  vaqueiro Genaro e    Almirinha,  os irmãos Olindo e Olívio, entre outros personagens marcantes  cujas ações conferem permanência ao romance,  terminada a sua leitura.  

Autor de ampla escrita, entre volumes de contos, novelas, poemas, crônicas e livros infantojuvenis, Cyro de Mattos é publicado em Portugal, Itália, Alemanha e França. Sua obra vem sendo aclamada por escritores e críticos, além de  ter o reconhecimento através dos vários prêmios conquistados pelo autor, no Brasil e no exterior.

        Como prosador e ficcionista publicou para o leitor adulto: Os brabos, contos, Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras; Duas narrativas rústicas, contendo “Inocentes e Selvagens”, Prêmio Internacional Miguel de Cervantes, da Casa dos Quixotes, Rio de Janeiro, e “Coronel, Cacaueiro e Travessia”, Menção Especial no Concurso Internacional de Literatura da Revista Plural, México; Os recuados, contos, Prêmio Leda Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, Prêmio Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, Menção Honrosa no Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro; Berro de fogo e outras histórias, Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, O mar na Rua Chile, crônicas, Finalista do Prêmio Jabuti;  Alma mais que tudo, crônicas,  O Velho Campo da Desportiva, memórias e crônicas; Um grapiúna em Frankfurt, crônicas, e Natal das crianças negras, narrativa, em cinco idiomas. 

 

domingo, 10 de agosto de 2014

POEMETO DO PAI de Cyro de Mattos


                                         
                                                          Amar/desamar
 absolver/acusar


      Doce-amarga boca,
         humanamente lá e cá.


                                                         Ido rei, ido réu
          noutro verso do vento.


       De repente os gomos
     da vida absorvemos.


                                                        O sal lambemos,
    disso tudo sorrimos.

sábado, 9 de agosto de 2014

JOÃO UBALDO VIVO por Aramis Ribeiro Costa


A avaliação intelectual de João Ubaldo Ribeiro vem sendo feita de forma bastante expressiva desde seu primeiro êxito literário, a novela Sargento Getúlio, ampliando-se grandemente com o monumental  romance Viva o Povo Brasileiro, livro que o consagrou, colocando-o definitivamente no panteão da literatura brasileira, e alargando-se a cada obra lançada no mercado.
Isso deve continuar. A obra completa do autor d’O Albatroz Azul, seu último romance, uma obra-prima cheia de sutilezas e sugestões, integrará para sempre o catálogo daquelas permanentemente visitadas pelos ensaístas, críticos e professores de literatura.
O momento, porém, aqui na Bahia, pelo menos, não é de analisar ou estudar a sua obra, mas de juntar depoimentos de todos aqueles que o conheceram em vida, e que possam trazer aspectos novos, curiosos, mas principalmente esclarecedores dessa personalidade marcante e altamente querida das nossas letras. Em outras palavras: de reconstruir e preservar João Ubaldo, o homem, vivo.
Há muito que dizer e escrever a esse respeito. A prova disso foi a sessão que realizamos na Academia de Letras da Bahia no dia 24 de julho, a primeira sessão ordinária após sua morte, na qual acadêmicos falaram informalmente sobre ele, em depoimentos que deveriam ser escritos, tal a riqueza de informações.
Ouvimos Cyro de Mattos, João Eurico Matta, Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, Florisvaldo Mattos, Carlos Ribeiro, Evelina Hoisel, Luís Antonio Cajazeira Ramos e Joaci Góes, numa sessão que foi iniciada  às 17 horas e estendeu-se por duas horas e meia porque de fato  precisávamos terminá-la, já que, pela necessidade de depor e pela emoção dos depoentes, continuaríamos ali, noite adentro, falando dele.
De minha parte, quero testemunhar a alegria e a emoção de João Ubaldo ao ser eleito para a cadeira número nove da Academia de Letras da Bahia. Seu discurso de posse não obedeceu ao protocolo habitual da Academia, que determina a homenagem a todos  os antecessores. Limitou-se a citá-los, detendo-se um pouco em Cláudio Veiga, seu antecessor imediato, que ele conheceu pessoalmente e admirava.
Entretanto, foi uma bela página de declaração de amor à Bahia, e confesso que a considero um dos mais belos discursos de posse que ouvi na ALB com afirmações que me tocaram profundamente, e não apenas a mim, mas a todos que ali estavam naquela noite histórica, e o ouviram dizer, com sua voz grave e cheia, os olhos iluminados pela emoção;
“Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos.”
Uma lição de baianidade, sem dúvida. Mas, sobretudo, uma página de larga compreensão da civilização brasileira, e particularmente do universo misterioso, encantador e singular do povo da Bahia, que escritores como Jorge Amado, Vasconcelos Maia e ele próprio recriam com talento nas suas obras imortais.


*Aramis Ribeiro Costa é ficcionista e poeta. Presidente da Academia de Letras da Bahia. Nessa condição deu posse ao Dr. Marcos Bandeira como presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) na sessão solene de instalação, em  5 de novembro de 2011. O discurso que pronunciou, na oportunidade, é histórico. É também membro correspondente da ALITA.   

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão dedicou Sua Vida na Pesquisa dos Mistérios do Universo


Ronaldo Rogério de Freitas Mourão nasceu a 25 de maio de 1935, no Rio de Janeiro. Publicou seus primeiros artigos de divulgação científica na revista Ciência Popular (1952). Entrou em 1956 para a Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), onde obteve, em 1960, os títulos de Bacharel e Licenciado em Física pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras. Astrônomo, escritor, membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), da Academia Carioca de Letras, da Academia Luso-Brasileira de Letras. Fundador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Escreveu cerca de l00 livros, entre os quais se destaca: O Livro de Ouro do Universo (Ediouro Publicações SA, 2000). Em janeiro de 1995, foi eleito membro titular do PEN Clube do Brasil pelo conjunto de seus ensaios científicos e literários. Ronaldo Mou-rão faleceu em 25 de julho no Hospital Quinta D'Or, no Rio de Janeiro.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cyro de Mattos no que houve

Cyro de Mattos no que houve
                Henrique Fendrich*

cyrodemattos

É preciso ter vivido muitos anos para saber que a recordação de certos fatos e coisas nada mais é do que saudade da vida que passa com os dias, semanas e meses. As pessoas, bichos, casas e ruas fogem como nuvens, ninguém pode retê-los. Infelizmente. Nesse tempo de mim procuro juntar fragmentos para me suavizar um pouco com essa saudade permeada de fatos, seres e coisas. De longe retorno agora no que houve para latejar sentimentos para mais eu em mim. (Cyro de Mattos)

A introdução da crônica “Esse tempo de mim” bem pode servir como argumento para as outras que compõem “Um Grapiúna em Frankfurt” (Dobra Literatura, 2013), coletânea de Cyro de Mattos, também cronista da RUBEM. Suas crônicas são, justamente, fragmentos em que o escritor, impossibilitado de reter o tempo, suaviza-se através das recordações de histórias e pessoas que lhe marcaram a vida.
Assim é que o cronista revive episódios de uma infância no sul da Bahia, onde os desbravadores e, por extensão, os seus descendentes são chamados de grapiúna (o nome, de origem indígena, pode se referir a uma pequena ave preta que vive às margens do rio ou a um riacho preto, encontrado nas fazendas de cacau da região).
Nesta infância, sem jogos eletrônicos e com ruas pouco movimentadas, quando o trem ainda fazia parte da vida da cidade, Cyro de Mattos se lembra de antigos Natais, dos doces de sua avó Ana, do seu encantamento por Monteiro Lobato, de sua prima Gringa, de um singelo episódio de dor de dente. Mais crescido, o escritor se lembra da Boate ID e, através de uma fotografia amarelecida, recorda-se dos colegas da faculdade de Direito.
Estas são memórias mais pessoais, mas o livro também está recheado de pequenas biografias que contam episódios com personagens locais – às vezes célebres, como o amigo Jorge Amado, às vezes tipos locais, como o doido manso de apelido Jipe. Cyro de Mattos ressalta virtudes e aprendizados que encontrou através dessas convivências, através dessas amizades – e ele tem boas amizades que vêm desde a juventude e outras que nasceram graças ao milagre operado pela literatura.
Nem sempre, é claro, o cronista tem a felicidade de encontrar tipos tão admiráveis. Exemplo disso são os personagens de “Quatro mosqueteiros do mal”, todos tocando forte a clave da vaidade, conforme a metáfora usada pelo escritor em um dos textos mais significativos do livro, a crônica “A negação do outro”.
Embora reconheça que não é um político militante, Cyro de Mattos se diz alguém que teima em dar palavras aos sonhos, como faz em “Utopia dos Palmares”. É também com indignação que comenta a morte do rio de sua cidade enquanto os vereadores não mostram a menor preocupação com o dinheiro público. Em “A cereja do bolo”, faz uma importante defesa da cultura, normalmente vista com miopia pela classe política.
E, não fosse a natureza, é possível que Cyro de Mattos desanimasse de tanto desgosto que encontra o mundo. Mas ele ainda ouve o clarim da garrincha anunciando que a noite chegou ao fim, admira o canto mavioso do sabiá, pergunta-se o que seria de nós se não existissem os passarinhos soltos no embalo festivo da natureza. São pequenos seres que, certamente, também latejam sentimentos para mais Cyro em Cyro.

*Henrique Fendrich é jornalista, editor da revista de crônicas online RUBEM, em homenagem a Rubem Braga


domingo, 27 de julho de 2014

Onde Está Minha Cidade?

Sigo pela cidade a pé. Acompanha-me um  menino outrora afoito, magro,  que fazia da vida uma expressão da liberdade. “Primeiro a obrigação, depois a diversão”, a mãe dizia, ele cumpria a regra sem pestanejar.  Era um dos primeiros da classe.  Tinha gosto de fazer  os deveres escolares e de estudar as lições na semana. Depois disso ia se encontrar  com os amigos em algum local antes combinado  para vasculhar os cantos da cidade, em busca da melhor brincadeira que os dias pudessem oferecer. Roubar fruta madura nos quintais era uma deliciosa aventura.
Esse menino está vendo agora o quanto mudou sua cidade. Já não  existe mais a pequena casa onde morava com os pais e o irmão. Ficava na rua estreita por onde não passava carro, perto da delegacia.  O melhor mirante  da cidade era o alto do telhado, de onde se via a vida acontecer no céu e na rua, por onde passavam personagens e fatos importantes que iriam marcar a sua vida  para sempre.
Outro é o cenário  da rua do  comércio. Onde antes era lama no inverno e poeira no verão agora é uma avenida bem comprida, asfaltada. A sinaleira acende os sinais vermelho e verde,  controlando o movimento intenso dos carros e dos pedestres, que atravessam a avenida pela faixa, de um lado para o outro.   Guardas fiscalizam os motoristas, multam aqueles que estacionam os carros em locais proibidos, rompem os sinais de trânsito de maneira imprudente. Lojas, bancos, lanchonetes. Meninos de rua, guardadores de carro, mendigos. Gente no passeio indo e vindo.
O menino quer saber por onde andam as tropas de burros, que desciam carregadas de cacau seco ensacado, na direção dos armazéns de portas largas. O desfile dos animais deixava alegres os meninos, que paravam para ver os burros andando  com os passos cadenciados. Chegavam puxados pela madrinha, a mula da frente, enfeitada de guizos no peitoral, o chocalho no pescoço. Naquele desfile de cascos cadenciados,  som de guizo e chocalho, a tropa dos animais inaugurava o dia com um canto metálico,  que se propagava festivo na manhã luminosa.
O menino pergunta por que as tropas perderam-se na estrada, depois que dobraram a curva e  nunca mais retornaram. Mudo, fico sem saber como responder à pergunta, convencido de minha impossibilidade para saber do tempo por que razão tudo tem que acontecer assim no seu curso invariável. Ontem seres e coisas ali estavam nítidos, definidos, eram vistos e alcançados. De repente, sem que fosse percebida a mudança, fugiam para outra paisagem, perdiam-se por trilhas e atalhos, encobertos para sempre na estrada desconhecida. Obedeciam assim a um ritual de indiferença desde não sei quando, sem que pudessem retornar das terras do sem fim.   
Insiste, esse menino de olhos espertos,  em ver o  campinho na margem do rio onde jogava futebol com os amigos. Ele me diz que quando a bola rolava pelo barranco ia cair no rio. O jogo ficava interrompido até que um dos meninos fosse procurar a bola lá embaixo, às vezes era encontrada boiando nas águas. O jogo então  recomeçava nos lances aguerridos.  No lugar do campinho do futebol encontramos o cais, que foi construído em cada margem do rio para evitar com isso que as águas derrubassem nas cheias as casas ribeirinhas,  causando estragos e até mortes.  Onde estão as pedras pretas que eram cobertas pelas roupas coloridas quando  as lavadeiras estendiam para secar  ao sol. Espetáculo vistoso de cores que os olhos nunca cansavam de ver. As  lavadeiras, os areeiros, os pescadores, os canoeiros? As   águas do rio ficaram poluídas, não existe mais peixe, ninguém se atreve a tomar banho no rio,   tomado de baronesas. E o Campo da Desportiva, lugar festivo  aos domingos, com seus jogadores habilidosos no trato com a bola?  A seleção amadora da cidade foi oito vezes campeã do Intermunicipal.
            O menino está com os olhos úmidos e vermelhos. Desiste de continuar no passeio com o homem  calvo, de  rosto tristonho, que também busca um tempo que se foi com suas vozes, cores, brincadeiras. No jardim da Beira-Rio havia um coreto, fontes luminosas, árvores que abrigavam os namorados, conversando sentados no banco. Flores, muitas flores. Para não ficar mais triste com o que vê agora na paisagem com outro visual, revestido de ausências íntimas, o menino afasta-se desse  homem idoso, que tem o rosto coberto de uma pequena nuvem cor de sombra.






Orlando Mattos Nos Deixa

Faleceu com 79 anos de idade,   no sábado (26) ,  José Orlando Pereira de Mattos,  vítima de complicações cardíacas. Orlando Mattos, como era conhecido,  foi médico cirurgião durante muitos anos em nossa cidade,  provedor da Santa Casa de Misericórdia, agricultor e  um dos fundadores  da Sociedade Itabunense de Cultura, entidade que fomentou as artes e a cultura locais  quando ainda não existiam órgãos públicos e privados dando apoio ao desenvolvimento destes setores. 
Além disso, foi artista plástico  e secretário de Turismo do Município na primeira administração  do prefeito Fernando Gomes.  Seu falecimento deixa consternados a  viúva e professora Celeste Cotrim Mattos, os filhos Catarina, José Orlando,  Lorena, o genro Guilherme, parentes e amigos da família.  Era irmão do escritor Cyro de Mattos, do advogado Humberto,  agente cultural Dário e  universitária Marta. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Despedida de João Ubaldo Ribeiro





Por Cyro de Mattos  

Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o  escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento,  do bairro  Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista,  tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio),  Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica  deixa uma obra de  altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se  na sua vasta produção os livrosSargento Getúlio (1971),  Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto,romances,  e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia. 
Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963).  O romance Sargento Getúlio,  que virou filme e, há pouco tempo,  foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira.  O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França.  Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna  com incursões  nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia. 
Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance,  com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de  linguagem e fala brasileira,  vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.  
           É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia,  no período compreendido entre 1958 e 1962. 
         Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias,  visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro.  Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o  primeiro sem segundo, sorriso largo e franco,  olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com  tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana. 
       E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim  o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era  encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários,  de tão bela. Lá mesmo na  cantina  contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales  e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era  para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado.   
           Uma vez fez uma prova  de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum  espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.  
         Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas.
  

sábado, 19 de julho de 2014

JOÃO UBALDO NOS DEIXA


O escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, no Leblon, Rio, vítima de embolia pulmonar. Tinha 73 anos de idade. Jornalista, contista, romancista, cronista,  tradutor e roteirista de cinema. Premiado com o Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro do Rio,  Prêmio Camões, para autores de língua portuguesa, entre outros. Nascido na Ilha de Itaparica, deixa uma obra de  altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Na sua vasta produção, destacam-se Viva o povo brasileiro, Sargento Getúlio, O sorriso do lagarto e Livro de histórias. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em 1962, nunca exerceu a advocacia. O governo da Bahia e a Prefeitura de Salvador decretaram três dias de luto pela morte do grande escritor.

sábado, 12 de julho de 2014

Cyro de Mattos lança livro sobre o universo mágico do mundo infantil


“Aí, eu vi o sol que acordava lá onde o céu faz uma curva. Abria seu olho enorme para ver se ainda restavam algumas sombras da noite nos passos da madrugada”.

Essa é a história de uma criança sonhadora passeando pelo mundo. Aquilo que seus olhos enxergam pode se transformar em um cenário magnífico, onde as ondas do mar são leões com jubas brancas e os raios de sol são as pernas finas e compridas de uma aranha dourada.

Em O que eu vi por aí, indicado para crianças a partir de 8 anos, o autor Cyro de Mattos aproxima os pequenos (e grandes) leitores de um universo mágico e divertido, com direito às ilustrações vivas e coloridas da polonesa Marta Ignerska. Cada página traz um novo ângulo de visão, onde o texto se mistura com a arte e conduz o leitor como se fosse o guia de um city tour.

Sobre o autor
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, sul da Bahia. Contista, poeta, cronista, organizador de antologias e autor de livros infantojuvenis, já publicou mais de 30 livros. Foi laureado com a Medalha do Mérito do Governo da Bahia. Está presente em antologias importantes no Brasil, em Portugal, Alemanha, Itália, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Integra o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e a Academia de Letras da Bahia.

Sobre a ilustradora
Marta Ignerska é uma importante designer gráfica e ilustradora polonesa. Nasceu em 1978 e formou-se na Academia de Belas Artes de Varsóvia, em 2005. Ilustrou e fez o projeto gráfico de muitos livros e já ganhou diversos prêmios, cinco deles pelo livro O Tamanho do Meu Sonho, publicado pela Editora Biruta em 2010.


O que eu vi por aí, Cyro de Mattos, R$ 35, ISBN 978-85-7848-131-5, a partir de 8 anos, 44 páginas.

Biruta lança "O que eu vi por aí"


terça-feira, 8 de julho de 2014

Gol

Leva a galera ao delírio, milhares de vozes numa só garganta, corações saem atônitos pela boca. Pelé, um rei, esmurra o ar, abraço festivo dos companheiros e bei­jo nas alturas. A bola passou lá onde a coruja dorme, co­menta o locutor. Que felicidade ver a rede balançar. Ban­deiras desfraldadas, orgasmo de milhares, o estádio es­tremece com o grito geral. Desferido o chute, a bola ro­lou normal, bateu no montinho artilheiro e enganou o goleiro. Óóóóóóó! Que fatalidade!
Observa um torcedor: "Nada melhor do que um gol aos 45 minutos do segundo tempo". Nada mais prazeroso no último minuto, a conquista do campeonato assim nada é igual. No torcedor derrotado um soco na barriga, como dói, quando a partida é uma final de campeonato. É como um nocaute que derruba todos no abismo. Rosto cabis­baixo, bandeira enrolada, queimada. No gol de impedi­mento xingam o homem do apito vestido de preto e, de quebra, a mãe deixa de ser pura. Vociferam, ameaçam Deus e o mundo, nada mais terrível na alma do que a dor de não ser campeão. Estava escrito nas estrelas. Os deuses tinham escrito há milênios. De um lado o sol tão claro, do outro amargura e solidão.
Obra-prima dos pés, oferta divina que o craque fes­teja no topo da pirâmide humana. O torcedor ama as co­res do momento azul, chora e ri. Reação em cadeia dos que mergulham em depressão. Certeza de guerra vencida, tudo por causa de um lance bobo do zagueiro. A bola ia sair pela linha de fundo, ele foi cortar com a mão. Agora não tem mais jeito. É sair pra outra, bola no pênalti só milagre pra não ser gol.
Gol engraçado, chapliniano, nascia da trama genial daqueles dribles desconcertantes. Comovia, encantava, fazia rir o estádio com a sua boca enorme. Garrincha dribla toda a defesa, pernas se enrolam no tapete verde, passa pelo goleiro que fica babando na grama. Com o pé na bola, espera que eles se levantem, o espanto da galera vai de canto a canto. Huuuuuuuuuuuuuu! E como uma criança irresponsável Garrincha toca a bola devagar para o fundo do gol. O que é isso torcida brasileira! Desmaios, risos, beijos. O estádio quase vem abaixo, o sol partindo-se em gargalhadas sonoras. "Este gol aí foi pra matar a mãe de qualquer um!"
Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeo­nato mundial no Rio. O Brasil joga pelo empate. Um gol faz estremecer um estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenam para os valentes uruguaios. É campeão! É campeão! Todos os brasileiros cantam o grito de glória numa só corrente de irmãos. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetra ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável acontece aos 34 minutos. O ponteiro Gigia chuta a bola e a grama. Ninguém acredita no que vê, a bola entra entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenam. Aquela coisa que só infunde medo, estupidamente sem tamanho, percorre todo o estádio. Domina o ar de milhões de brasileiros. Ninguém pode reverter o capricho dos deuses. Encerrado o jogo, a procissão de mortos sai do Maracanã, o país das chuteiras, que pensa e ama pelos pés, em caos desencan­ta-se.
Na cidade pequena o menino vê as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não reza a missa das oito à noite. Daí pra frente o canto amargo da memória vai lamber chagas daquele que ficou frustrado no cais, esquecido de si, preso ao nada. Precisou que vi­esse a Suécia, em 1958, para explodir na garganta o grito com a força de granadas. O Brasil sagrava-se pela pri­meira vez campeão mundial de futebol. Em 1962, no Chi­le, outra vez o grito profundo é bisado, assim como no tricampeonato do México. Depois de vinte e quatro anos de espera, o grito volta a irromper nos Estados Unidos da América, através da conquista do tetracampeonato mun­dial de futebol. Sem dúvida, esse grito que faz sair atôni­to o coração pela garganta vai retornar em outros mo­mentos de delírio do torcedor brasileiro. Nas disputas dos campeonatos mundiais de futebol. Melhor será com o tí­tulo de campeão para a nossa Pátria amada.


domingo, 29 de junho de 2014

Futebol

Febre. Religião. A nossa maior paixão popular. Que bonito é a torcida no estádio superlotado. As bandeiras desfraldadas. Apoteose de não sei quantas gargantas que explodem no ar um só grito de gol. Delira a torcida, ven­do a rede balançar, que felicidade!
Em 1958, a nossa maior conquista. Fomos campe­ões mundiais nos gramados da Suécia. Com um rei que surgia. Um garoto chamado Pelé. Magia na intimidade com a bola. Fenômeno que pensa pelos pés. Emoção mai­or em todos os estádios. Atleta do século, com as estrelas descendo do céu, todas elas iluminadas vindo beijar-lhe os pés.
Surge também Garrincha, o Mané das pernas tor­tas, alegria do povo. Na escrita certa os dribles desconcertantes. Garrincha e mais dez canarinhos bisando o feito de cam­peões mundiais nos estádios do Chile, em 1962. A marchinha dizendo que com o brasileiro não há quem possa, é bom no samba, é bom na bola, a taça do mundo mais uma vez era nossa.
No México, em 1970, todo o Brasil voltava a vibrar com o olho na telinha da televisão. Olho no lance. Radinho de pilha colado no ouvido atento. Goleada histórica na Itália, quatro a um, na partida final. A marchinha agora dizia que somos uma corrente pra frente. Todos juntos vamos saudar a seleção tricampeã mundial. Nesse cordão do amor, nesse delírio geral, nessa emoção dada de graça por todo o País, que tem um só coração.
Em 1994, após vinte e quatro anos de rações duras, o grito de tetracampeão de futebol ressoava em gramados norte-americanos e pelos quatro cantos do Brasil. "El! El! El! Vai que é sua, Tafarel!" Zero a zero no tempo normal de jogo e na prorrogação, vinha a certeza da guerra vencida com a cobrança de penalidades. A Itália protagonizava o lado dos rivais derrotados mais uma vez, perdendo três penalidades. Um dos pênaltis foi defendido pelo herói Tafarel.
Mas tivemos derrotas que até hoje ferem a memó­ria do torcedor tetracampeão. A primeira delas, a mais triste, quando jogávamos pelo empate e ganhávamos o jogo no primeiro tempo por um a zero. Perdemos por dois a um. Inauguração do Maracanã naquele campeonato mundial realizado em 1950, vencido pelo Uruguai. O país do fute­bol todo coberto de silêncio. Naquela tarde trágica, dei­xam o Maracanã os torcedores como uma procissão de rostos cabisbaixos, por que não dizer de mortos, sem sa­ber para onde ir.
A segunda pior derrota acontece na Copa do Mun­do da Espanha, em 1982. Uma seleção feita de craques, como Zico, Sócrates, Junior, Eder e Leandro. Tudo dava errado. As bruxas estavam soltas outra vez. Não passa­mos pelas semifinais. Outra vez jogávamos pelo empate. Final de jogo: Itália 3 e Brasil 2. A dose de amargura que se aloja no peito do torcedor brasileiro retornaria na Copa do Mundo de 1986, de novo realizada no México. O Bra­sil não passa outra vez pelas semifinais. Eliminado nos pênaltis pela França. No último deles a bola bateu na tra­ve, em seguida nas costas do goleiro Carlos e foi para o fundo das redes. Era demais para qualquer coração brasi­leiro suportar.
Minha paixão pelo futebol vem desde menino, jo­gando peladas nos campinhos dos terrenos baldios da ci­dade natal. Havia o "Campinho do Fole" no outro lado do rio. Ali eram jogados aos domingos as partidas mais im­portantes. O time de garotos da rua de cima com o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas fortes. Termi­nado o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas se­renava os ânimos. Uma amizade feita de relações natu­rais logo se refazia com mergulhos e saltos do barranco íngreme.
O pai levava o menino para ver a seleção amadora de sua cidade jogar no Campo da Desportiva. Cercado com folhas de zinco no início, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. Lá, naquele campo de grama mal tratada, o menino viu o drible de Puruca como o maior de sua vida. O gol de Juca. A defe­sa de Asclepíades. A matada de Santinho. A catimba de Tombinha. O nó de Carrapeta. A investida do ponta Fernando Riela como um raio fulminante na defesa adversária. O engraçado torcedor Rodrigo Bocão. E o cracão de bola Léo Briglia, sem igual. Viu o menino a Seleção Amadora de sua cidade como o maior time de sua vida. Ah, os roletes da Desportiva como o melhor doce de sua vida. E sentiu esse tiro na memória, que seria, inevitavelmente, o gol mais triste de sua vida.