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sexta-feira, 31 de março de 2017

                                    

                                  Passeio de Bonde

                                     Cyro de Mattos

               O bonde não era apenas um meio de transporte para ele, mostrava-se como uma diversão, curtição que fascinava no passeio. O uniforme cáqui do motorneiro, que usava chapéu e  gravata borboleta,  o barulho do condutor ao recolher o dinheiro das passagens, batendo as moedas umas contra as outras na mão, a figura marcante do vendedor de balas e bombons, com sua cesta de vime, a sensação deliciosa de viajar pendurado no estribo. Havia o desafio de subir e descer do bonde ainda em movimento. Num domingo azul de verão,  chamou-lhe a atenção, entre os passageiros,  dois homens bigodudos no bonde, de fraque, gravata borboleta  e chapéu da última moda. 
      No passeio de bonde, tinha a sensação de que a cidade andava nos trilhos, avistando-se o mar por algum recorte ao largo. Sentado no banco de madeira, na medida em que bonde rolava pelos trilhos  o olhar curioso dirigia-se para casarões, sobrados, igrejas e jardins. Na orla, o mar espumejava com as suas jubas brancas perto da praia,  vidrilhando nos dias de verão. O mar era como uma piscina enorme na Praia do Porto da Barra.
     O melhor lugar para contemplar o cenário da Baía de Todos os Santos, que a natureza ofertava de graça no cenário azulado,  era de uma das balaustradas laterais ligadas à plataforma do Elevador Lacerda,  dando  acesso à Praça Tomé de Sousa, também conhecida como Municipal.    
      Sentava na cadeira de uma das mesas postas no passeio, como extensão da lanchonete A Cubana, na saída do elevador. Depois de tomar o copo de vitamina de abacate acompanhado dos deliciosos Bolinhos da Cubana,  da balaustrada avistava  o Forte de São Marcelo lá embaixo na baía, encravado nas águas mansas do mar. Lanchas na Marina, embaladas como berços pelo vento,  barcos ancorados na tarde preguiçosa do mar, o porto no vaivém do embarque e desembarque de gente, o cais  com seus guindastes gigantescos,  navios de carga como casas de ferro,  vindos de mares longínquos.
         Não se cansava de olhar  a paisagem bonita, na península de Itapagipe, longe, a colina sagrada do Bonfim no alto,  onde ficava a igreja do padroeiro da cidade. A igreja ia ficando a cada ano pequena para  o grande número de fiéis vindos dos lugares mais distantes.  Fascinados os olhos,  querendo pegar a paisagem com o seu forte brilho,  contornos e  desenhos, iluminada em cima com   um céu azul, embaixo com um  mar azul, só existentes na Bahia.  Insinuada nas linhas do horizonte, lá para os longes das ilhas de Itaparica e Mar Grande.  

            Depois de colorir os olhos com a paisagem esplêndida, retornava para a sua casa, pendurado no estribo do bonde.

sábado, 25 de março de 2017





O Menino Fujão

          Cyro de Mattos


           Permaneceu escondido atrás do poste. Dali espreitava o sobrado onde os pais moravam, as janelas da parte térrea estavam abertas e iluminadas. O  reflexo forte das luzes do sobrado iluminavam a rua. Os olhos receosos enxergavam o pai agitado conversando no passeio com dois homens. Um deles  era o funcionário do banco do estado. Depois que jantava, ele tinha o costume de ficar dando voltas no pátio da casa onde morava, dizendo que era um exercício útil que fazia para ajudar  na digestão do alimento que ingerira na refeição da noite.  Tinha uma gargalhada demorada e metálica, dando a entender que estava sempre  de bem com a vida.  Em noite de lua clara, gostava de fazer sabatina  no passeio de sua casa com os meninos  sobre as capitais  dos países da América, Europa e Ásia. O outro homem era o dono  da casa de ferragens. Baixote, de pouca conversa, dizia-se que era um homem triste porque a mulher nunca lhe dera um filho. Na  mocidade havia sido ferreiro na vila de Ferradas onde tropeiros vindos do sertão faziam pouso e ali trocavam a ferradura dos animais carregados de mantimentos.
           Lá dentro do sobrado a mãe impaciente.  Chorava e perguntava a todo instante por onde andava seu filho àquela hora da noite. Zangado, o pai não parava de andar pela sala. Não se  conformava com a ausência do filho, que saíra pela tarde quando o sol ainda estava quente, até àquela hora da noite não dava sinal de vida.
         Pensou no plano para entrar no sobrado, sem que ninguém percebesse.  Pularia o muro pelo lado esquerdo do sobrado, o que seria fácil. Não era alto. Ultrapassado esse obstáculo, alcançaria a janela do banheiro nos fundos, que dava para o quintal. Abriria a janela do banheiro, que havia deixado  sem o  trinco travado para o caso de voltar tarde da noite para o sobrado. Dentro do sobrado, com os passos macios pela cozinha, precavidos, usaria a escada estreita que saia da cozinha  para os quartos do pavimento superior. Iria se acomodar no seu quarto.
         Quando pensou em dar o primeiro passo para a execução do plano, saindo com cuidado  por detrás do poste, um braço forte agarrou o seu corpo magro. O soldado sorriu de contente por ter agarrado o fujão. Do rosto negro do soldado saiu um sorriso que se abriu demorado na dentadura branca, mostrando um dente de ouro que alumiava a boca quando ele falava.
        - Achei o menino, Seu Homero! Olhe o fujão aqui comigo! 
         Certamente ia receber do pai um castigo pelo comportamento que deixou os de casa  bastante aflitos.

*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pertence à Academia de letras de Ilhéus. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).


sábado, 18 de março de 2017





CATEDRAL DE SÃO JOSÉ   
                     
                     Cyro de Mattos

Sermão de enxó
na santa Sé,
verde formão
a quem vier.

Gestos humildes
de carpina é
toda a cidade
nessa onda a pé.

Romaria essa,
não marcha a ré,
plaina com luz
sal da maré.

Erguido o templo
de São José,
forte a canção
de amor e fé.


quinta-feira, 16 de março de 2017

MANIFESTO DE DESAGRAVO DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA

                                    


           Os membros da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, signatários desta nota pública, vêm manifestar seu repúdio às atitudes injuriosas e difamatórias do acadêmico e blogueiro  Rilvan Batista de Santana contra  a instituição e seus diretores atuais, sendo ele um dos integrantes do quadro associativo da entidade.
           Entendemos que uma academia de letras deva pautar-se pela postura ética de seus membros, afetividade e lealdade, promoção e defesa da liberdade de expressão como uma de suas metas principais. Se a ALITA não está sendo eficiente nas suas funções, merece a crítica da sociedade, do formador de opinião, mas em um julgamento pautado em princípios éticos, antes de tudo, com base em elementos verdadeiros e construtivos.
           O membro que renega seu perfil acadêmico e vai ao público para difamar sua entidade, melhor faria se, por coerência, pedisse o afastamento e, desligado da instituição, emitisse sua opinião agressiva sobre a atuação dos demais membros, ou mesmo da instituição como um todo.
           É inadmissível que a crítica nutrida na aleivosia, ressentimento e perseguição seja levada ao público por um dos seus membros contra a própria instituição e os integrantes de sua Diretoria, pessoas honradas, que vêm prestando serviços positivos à sociedade local ao longo dos anos. O plantel de membros da Academia de Letras de Itabuna é constituído de expressivos escritores e poetas, comunicadores, juristas, competentes professores universitários, valorosos atores, gestores culturais.
           Desprovida do bem, a crítica insensata, praticada reiteradas vezes por um dos membros da Academia de Letras de Itabuna à própria instituição, da qual o ofensor faz parte, não merece crédito, levando-se em conta vários aspectos. Quando usa seu blog, o acadêmico em foco o faz no afã de difundir o terrorismo cultural, ferindo a ética, maltratando a verdade, tornando a vida tumultuada e feia. Demonstra, com isso, a natureza de alguém que, na condição de órfão do mundo, quer aparecer a qualquer custo e enganar os incautos.
           Desde 2011, quando foi instalada, até a presente data, a instituição vem prestando serviços relevantes à comunidade. O registro da memória das atividades desenvolvidas faz parte do noticiário local e dos assentamentos arquivados na ALITA, inteiramente à disposição de quem queira consultá-los.
           A Academia de Letras de Itabuna foi criada pelo idealismo do promotor Carlos Eduardo Lima Passos, dos  juízes de Direito Antonio Laranjeira e Marcos Bandeira, do professor universitário e escritor  Ruy Póvoas e do escritor Cyro de Mattos. Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade. Não se trata de um valhacouto de idosos como ofende injustamente o acadêmico inconformado e blogueiro Rilvan Batista de Santana.
           Em razão dos fatos expostos, os signatários desta nota pública, de maneira constrangida, vêm manifestar seu repúdio geral e irrestrito às acusações inconsequentes e infundadas do confrade Rilvan Batista de Santana contra a Academia de Letras de Itabuna e sua diretoria atual.

                                                                        Itabuna, 10 de março de 2017

Sônia Carvalho de Almeida Maron, Ruy do Carmo Póvoas, Lurdes Bertol Rocha, João Otávio de Oliveira Macedo, Cyro Pereira de Mattos, Carlos Eduardo Passos, Marcos Antonio Bandeira, Sione Porto, Janete Ruiz Macedo, Silmara Santos Oliveira, Maria Delile Miranda de Oliveira, Maria Palma de Andrade, Raquel Rocha, Margarida Cordeiro Fahel, Ary Quadros Teixeira, Maria de Lourdes Netto Simões, Carlos Valder do Nascimento, Maria Luísa Nora.


terça-feira, 14 de março de 2017

Um Gol Incrível

                  
                  
                   Cyro de Mattos

            Tinha a pele amarelada, os dentes miúdos, os olhos como dois pequenos caroços  nas órbitas fundas.  Talvez fosse apelidado de Quebradinho por causa das pernas. Como dois cambitos, tinham dificuldade em sustentar o corpo magro com aquela barriga grande,  pesada. Quando andava, as pernas pareciam que podiam quebrar a qualquer instante,  uma corrida, até mesmo pequena,  era impossível para ele. Suas pernas mal agüentavam andar quanto mais correr.
          Ninguém queria que ele jogasse no time dos meninos lá da rua. Nem para ficar na banheira, na ponta-esquerda, nem para isso servia, era um inútil como jogador de futebol em qualquer posição.  Insistia em querer jogar em um  dos times formados pelos meninos lá da rua. Achava-se graça do seu pedido e da sua insistência. Não era aceito nem como juiz.
         Era filho adotivo de um abastado fazendeiro e comerciante próspero,  com lojas de artigos para campo e  cidade instalada na avenida do comércio. Como  o fazendeiro e comerciante não tinha filhos,  ele recebia do pai adotivo um tratamento especial. Não lhe faltava dinheiro para guloseimas, comprar gibi e guri,  comparecer quantos vezes quisesse  para se divertir  à vontade no parque ou em algum circo que havia chegado à cidade.
        Disse um dia, vocês me pagam, ainda vou ser o dono de um time porreta, uniformizado com calção e  camisa com numeração atrás nas costas. Esse time seria chamado de Expressinho do Vasco. Não demorou de cumprir o que apregoara.  Apareceu no campinho da Praça Camacã, nas imediações do rio Cachoeira, anunciando que havia comprado o jogo de calção e camisa do Vasco da Gama e uma bola de couro novinha.  Acrescentou  que queria que o maior número de meninos bons de bola estivesse presente ao campinho da Praça Camacã no sábado quando iria  escolher os  onze jogadores e mais quatro reservas para compor o  Expressinho do Vasco.
                 No sábado, os jogadores escolhidos por ele para compor o elenco do Expressinho do Vasco da Gama ouviram assustados o que ele afirmara sério,   mas  não contestaram. Quebradinho comunicou que  entraria para jogar as partidas como centroavante, aos 30 minutos do segundo tempo, estivesse ganhando ou perdendo o Expressinho do Vasco. Ninguém contestou. Afinal, ele era o dono da bola de couro e do jogo de calção e camisa do  Vasco da Gama. E qual o menino que não queria jogar  num time de futebol que usasse calção e camisa  numerada nas costas, como se estivesse atuando num time verdadeiro de futebol?
        A partida contra o Bangu valeu taça, melhor dizendo, Taça Rio Cachoeira. O Expressinho do Vasco da Gama venceu o Bangu por um a zero, depois de uma partida acirrada até os quarenta e quatro minutos do segundo tempo. No último minuto o gol salvador. Gol de quem? De Quebradinho, a bola chutada da linha de fundo pelo ponta-direito Magrelo raspou na sua barriga e entrou. Foi a sua consagração. Quem poderia imaginar aquele gol incrível por um jogador que mal conseguia andar?  
                                                                                                                          
·        *Cyro de Mattos é escritor e poeta. Primeiro Doutor Honores Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 


domingo, 5 de março de 2017





Antologia Poética da Não Resignação da Mulher

                                                        
                                                  Cyro de Mattos



Sob a coordenação de Alfredo Perez Alencart, enorme poeta que é também professor universitário, promotor cultural de larga extensão,  foi publicada no ano passado em Salamanca, Espanha, a antologia No Resignación, obra que reúne  136 poetas. 72 mulheres e  64 homens, de  35 países representando cinco continentes. A antologia é um depoimento contundente ante o ultraje vergonhoso que vem sendo praticado contra a mulher, ao longo dos séculos,  e, entre os poetas,   estão  presentes os  brasileiros  Álvaro Alves de  Faria,  Helena Parente Cunha, Alice Spíndola, Marcia Barroca e Rizolete Fernandes.
       Obra de flexões poéticas diversas, de nobre alcance em sua problemática existencial, testemunha a vergonhosa atitude machista contra quem, sendo a outra parte do homem,   alimenta a criação, afasta o sal da terra, a tristeza e a agonia. Acende os risos. Traz na forma do sol o fruto sazonado. De onde vem o leite para  causar o espanto e adoçar as cores do mundo. Sem teus fluidos, sabemos, que o mundo seria luto, a  natureza sem matriz perdida de sentido.  Ninguém saberia da alegria  na casa onde se ouvirá : “Morre, noite!” 
       Essa antologia, com ilustração do pintor espanhol Miguel Elias, o selo editorial do Ajuntamento de Salamanca, merece divulgação sob vários aspectos. Contra uma situação lamentável, vitimando a mulher sob a violência, o preconceito, a desigualdade de oportunidades, o desempenho inferior  e a exploração sexual, Álvaro Alves de Faria diz “Sueño, mujer, tu espacio, tus alas”, Yolanda Izard versifica “Las voces de las mujeres se escriben en el silencio de la cocina”, Hiroshi Tomita “Que no se desangre el amor/en la sombra,/en la niebla”, Gioconda Belli escribe: “El hombre que me ame/no dudará de mi sonrisa”,  Gloria Sánchez: “¡Esclava del horror!”.  Horror é o que oferece os telejornais diários, notícias nas quais o telespectador acostumou-se  recebê-las sem  pensar na dor, na desgraça de quem supõe ser uma vida de todos e para todos.          

         Sinto-me enriquecido em participar, como brasileiro,  dessa antologia com inúmeras vozes poéticas expressivas. Em  meu   “.Poema da Mulher Não Resignada”,  observo: “ Para onde vá sem voz/ Deixa que seja levada./Maneira de ser conduzida/Expressa o espaço inútil. /Golpeada na afronta,/Indisponível de si mesma. /Pousa vazia de sentidos /No rito de cama e mesa./Rolam anos de vergonha, /O que podemos achar nela?/Amanhecer é preciso/ Apesar das opressões...  “

quinta-feira, 2 de março de 2017

                                          


                                                     Tempo de Carnaval        
                                                                                                  Cyro de Mattos

Tempo de carnaval. O banco, o escritório, a indústria e o comércio eram substituídos por uma máquina de fazer alegria. O corso passava pela Avenida Sete numa maravilhosa ventura em torno do tempo perdido na história.  Improvisava figurações diversas, tinha feições de cores e luxo, uma ópera no desfile do carro alegórico  lembrava a Grécia antiga, Veneza. O êxtase e riso invadiam a Rua Chile. Havia a guitarra elétrica na fóbica, puxava atrás pequena multidão, formada por gente do povo nos  prazeres, vibrações de corpo que insinuavam uma dança frenética.   
       O bar Cacique, antes Bob’s, vizinho ao Cine Guarani e ao cabaré Tabaris, era parada obrigatória do folião para o chope.
      Ele se impregnava no carnaval  daquela forma de viver, que não queria saber do mundo rotineiro, fantasiava a onda humana para cantar e dançar na avenida. Blocos antigos, afoxés, batucadas. Na tanga do índio, na mortalha  suada da moça, no amor da colombina. Ventos da utopia. A vida suavizada pela passagem mística do bloco Filhos de Ghandy.
           Tempo que transformava o branco no preto, o pobre no rico,  o sacro no leigo, com o padre e a freira. Não havia vencedores e vencidos, viver era igual a se divertir.
       Pelo salão com a espada de pau. O olho tapado na cara de mau. E a cigana que fingia ser definitivo o amor passageiro no carnaval.  O chão cheio de confete, serpentina colorindo o ar, a lança que perfumava a melindrosa em  cada volta. Risos com mais de mil palhaços no salão, pierrô fazendo suas juras,  arlequim chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. 
            Vestido de marujo, viajando  pelo mundo de uma só cor, a da euforia. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral silenciava, sem o apito da alegria,  descia da nau, que chegava ao porto no jardim da Piedade. Chegava de madrugada, polvilhada de fadiga pela cauda, puxando a manhã  fresca e pura.

                                                                                

sábado, 11 de fevereiro de 2017


POETAS DOS ANOS 30
Fernando Py
É bom iniciar o Ano Novo falando de vários poetas, como os que aparecem no livro Poetas dos anos 30 (Brasília: Thesaurus/ANE, 2016; org. de Joanyr de Oliveira; apresentação de Fabio de Sousa Coutinho). Na Introdução da coletânea, o poeta Joanyr de Oliveira (1933-2009) destaca principalmente os mais de sessenta poetas arrolados, todos nascidos entre 1930 e 1939, e afirma que estão representados no volume poetas de todas as regiões brasileiras, com maioria bastante expressiva do Sudeste – Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Ademais, Joanyr explica: “Motivos alheios aos propósitos do antologista impossibilitaram a inclusão de outros autores (…).” e cita os nomes dos principais, destacando, entre outros, Adélia Prado, Armindo Trevisan, Mauro Gama, Teresinka Pereira e Ymah Théres. Dentre eles, alguns já eram falecidos: Lélia Coelho Frota, Mário Chamie, Sebastião Uchoa Leite e Samuel Penido, p. ex., o que dificultou e impediu o seu aproveitamento.
De todo modo, a coleta é bem expressiva: além de Joanyr de Oliveira, estão presentes quase trinta nomes importantes para a nossa poesia: Affonso Romano de Sant’Anna, Alberto da Costa e Silva, Anderson Braga Horta, Astrid Cabral, Carlos Nejar, Cyro de Mattos, Fernando Mendes Vianna (1933-2006), Ferreira Gullar (1930-2016), Florisvaldo Mattos, Francisco Marcelo Cabral (1930-2014), Gilberto Mendonça Teles, Hilda Hilst (1930-2004), Ivan Junqueira (1934-2014), Jorge Tufic, José Jeronymo Rivera, Lina Tâmega Peixoto, Lupe Cotrim Garaude (1933-1970), Mário Faustino (1930-1962), Marly de Oliveira (1935-2007), Miguel Jorge, Nauro Machado (1935-2015), Octávio Mora (1933-2012), Olga Savary, Renata Pallottini, Reynaldo Valinho Alvarez, Sânzio de Azevedo e Walmir Ayala (1933-1991). Como vêem, muitos deles, alguns amigos meus, já desertaram.
Esta seção não comenta aqui o valor e a excelência da obra destes poetas, porém é imperioso reparar  que se trata de uma seleção que atende, precipuamente, ao gosto pessoal do organizador e que, assim, poderia acolher outros nomes. De todo modo, é uma antologia exemplar, valiosa não apenas para o estudioso da literatura brasileira, mas para qualquer amante da boa poesia.


·        Fernando Py é ensaísta, tradutor e poeta,  Mantém uma coluna literária no “Diário de Petrópolis”, Rio. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017


            

           O Goleiro Leleleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol


O livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol deu-me em 2002  o Prêmio Hors Concours da União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro. Mas o melhor prêmio tem sido as várias edições que o livro vem tendo pela Editora Saraiva, de lá para cá. Chegou ao ponto da UOL anunciar que foi um dos livros   mais vendido para crianças nas livrarias brasileiras, ao lado de Harry Porter, o que me deu um susto tremendo.
A paixão que grande parte do povo brasileiro tem pelo futebol está presente nas histórias “O Bahia contra o Brasil”, “O Goleiro Galalau”, ‘O Dia em que Vi Garrincha Jogar’ e ‘O Goleiro Leleta’,  que formam o livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol. A emoção que o autor teve quando menino, em  Itabuna, no sul da Bahia, cidade onde nasceu, com os queridos amigos  nos jogos de futebol, disputados nos campinhos  espalhados pelas ruas e margem do rio, aparece  nestas histórias, que também mostram lances incomuns, como o da bola chutada forte, que cai no rio,  é levada pela correnteza e  torna impossível o final da partida.  
E mais:  o juiz que é padre,  apita o jogo de batina e dá uns tiros  para o alto quando sua mãe é ofendida com palavrão da torcida; o goleiro com lombrigas que passa mal embaixo da trave  e  o lance inacreditável  com o garoto que entra no segundo tempo do jogo e, no final, dribla a defesa inteira para fazer o gol da vitória de seu time  contra o tradicional rival.
A admiração pelo drible genial, a transformação de garotos desconhecidos em heróis fugazes em  jogos disputadíssimos no campinho de grama maltratada,  o goleiro que joga a última partida do seu time no campeonato, sabendo que seu pai, que era o diretor, o roupeiro, o massagista e o técnico,  não pode comparecer porque  está sendo velado  e, assim,  não teria a imensa alegria de ver o filho defender o  pênalti,   que daria o primeiro campeonato à agremiação  do  Burburinho do Paraiso. Tudo isso dá cores a essas histórias que acontecem no apaixonante mundo do futebol, três delas  com as marcas de uma inesquecível infância, tendo como  personagens craques que jogam com os pés descalços, quando o jogo é entre os   meninos, ou de chuteira, meia, calção e camisa vistosa quando a partida é disputada no velho e acanhado  Campo da Desportiva, ou até mesmo em outra praça extraída do imaginário popular.     
Quando era dia de clássico, não se tratava de um clássico qualquer. Era partida para entrar na história. Mais uma na história do futebol. O time da Rua do Quartel Velho, que era assim chamada a Rui Barbosa, onde eu morava, jogava contra o time da rua de cima, a  Duque de Caxias.

Procurei cativar o leitor com estilo simples, ágil,  modéstia à parte, e, ao mesmo tempo, resgatar certos jargões da gíria futebolística.  Sem querer, mas querendo, fazer propaganda do livro, digo que ofereço  agora ao leitor momentos de prazer e encanto  da bola rolando nos pés de heróis anônimos ou consagrados,  naquele jogo bem brasileiro, que de tanta paixão transpira, inspira e faz a alegria da galera. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017




Poeta Italiano  Lorenzo Cioce
Aproxima o Brasil e a Itália
Através da Ponte da Poesia




Na cidade eterna de Roma,  na célebre Livraria Mondadori , da via Piave, número 18,  a Poesia aproximou Itália e Brasil.  O poeta italiano Lorenzo Cioce lançou a sua obra "Hai mai corso tra le nuvole?" (Já Correu entre as Nuvens?), publicada pela editora  Minerva. Além de poemas traduzidos para o italiano pela brasilianista Antonella Roscilli, o  livro  "Jà correu entre as nuvens?"  contém também a seção "Squanderink" com poesias traduzidas para o inglês por Gaia Celeste.

Na festa de lançamento do livro, a atriz  Sharon Alessandri interpretou poemas do autor, enquanto a professora e crítica literária  Daniela Carmosino, a tradutora Antonella Roscilli e o poeta Lorenzo Cioce participaram de um debate com o  público. A brasilianista, tradutora e doutora em Letras, Antonella Rita  Roscilli declamou a poesia  "Culla di civiltà" (Berço da Civilização), dedicada a Roma antiga, e que foi ouvida pela primeira vez na língua de Camões

Entre os poemas traduzidos por Antonella Roscilli para o português, no livro "Hai mai corso tra le nuvole?" (Já Correu entra as Nuvens?), figuram   "Respirar", "A justiça pinta o coração do rebelde"e "Queria, simplesmente queria". Para a tradutora e crítica literária, a poesia de Lorenzo Cioce é etica e universal, "seus versos remetem ao conceito da Beleza e da Leveza de Italo Calvino. Espalham valores positivos, mas ao mesmo tempo educam e criticam o perigo do vazio da sociedade na época do mundo virtual".

Na oportunidade do lançamento, Antonella Roscilli, que é membro correspondente da Academia de Letras da Bahia, biógrafa de Zélia Gattai, na itália, com dupla nacion alidade,  discorreu sobre o valor da poesia contemporânea no Brasil, ressaltando o seu trabalho de autora e tradutora que acredita firmemente  na importância das pontes culturais. Nessa direção, destacou que as  nuvens, como metáfora, estão presentes em obras de autores brasileiros contemporâneos, algumas das quais ela  traduziu para o italiano. Referiu-se ao grande  poeta e romancista Carlos Nejar, autor de   "A engenhosa Leticia do Pontal" (editora  Objetiva), São Paulo , que tem como  protagonista uma nuvem. Por fim lembrou que as nuvens também estão presentes no livro de contos do escritor baiano Aleilton Fonseca, que ela teve o prazer de traduzir e que foi publicado em edição bilingue: "O Sabor das Nuvens" ("Il Sapore delle Nuvole"), da Editora Via Litterária.  


A brasilianista Antonella Roscilli acabou de traduzir  para o italiano  o livro “O Menino Camelô” (Il Bambini Camelô”, poesia  infantil, de Cyro de Mattos, outro escritor baiano, que com esse livro conquistou em 1992 o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos  de Artes. De lá para cá, o livro  já teve  doze edições, pela Editora Atual, (SP), do Grupo Saraiva, vendeu mais de 100 mil exemplares e tem sido muito  estudado em sala de aula das escolas brasileiras. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

            

           Adonias Filho no Rio de Janeiro

                  Cyro de Mattos


Adonias Filho (1915-1990) preferiu deixar as terras do Sul da Bahia, a cidade de Salvador e o mar como cenário privilegiado de suas criações, escolhendo o Rio de Janeiro como o espaço ideal onde irão acontecer as ações do drama na pequena novela Amor no catete e no romance Noite sem madrugada. A densidade dramática ligada à ambiência primitiva da Região Cacaueira Baiana, aos mares de Luanda e Beira, na África, de Ilhéus e Salvador, na Bahia, ou ainda ao logradouro do Largo da Palma e à casa mágica povoada de espíritos e histórias de um forte, na capital baiana, irá ser conduzida agora pelo ficcionista seguro e estilista fino por onde o frio e o vento de inverno fazem a sua morada. Gente nos ônibus, lojas, passeios, imprimem o ritmo da vida diária.

Amor no Catete conta uma história que se passa em um lugar do Rio de Janeiro, dando-nos a sensação que aquele cenário carioca bem tocava a sensibilidade de Adonias Filho. A Rua do Catete com sua gente nas esquinas, discutindo futebol e política, as luzes dos postes iluminando os bondes que passavam, a hora dos gatos que fugiam dos velhos casarões para correr nos passeios desertos constituíram um cenário que permaneceu na memória sensitiva do escritor e no coração que acordava com saudade do tempo em que ali morou, quando então era um rapaz vindo do Sul da Bahia, cheio de esperança e sonho para assumir o compromisso de se tornar escritor um dia.
Em Amor no catete, o cenário de uma rua, com o vento trazido do mar pelas ruas do Flamengo, povoada de bares, lojas, estudantes que se recolhiam nas pensões, serve como o local de um encontro casual que culmina em amor, vivido entre um rapaz vindo do campo e uma mulher idosa, marcada pelo trauma da morte do filho.

Já em Noite sem madrugada, em uma das primeiras passagens, a personagem Vilma e os filhos encontram cedo a Rua do Catete com o movimento grande.

“Um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, as bancas de jornais”. (p.14)

Outros locais do Rio, como Jacarepaguá, Praça Quinze, Niterói, Icaraí, Leblon, servem como referências por onde Vilma, um dos personagens centrais do romance, em seu percurso permeado de esperança e aflição, transita na busca de provar a inocência de Eduardo, o marido, um homem bom, manso como um cordeiro, que não fazia mal a uma mosca, acusado de repente de ter participado de um assalto ao banco e assassinado um homem e uma mulher.

Em Amor no Catete, o local onde os personagens aparecem com suas ações fundamentais que conduzem a trama, a Rua do Catete, é aproveitado como elemento da realidade exterior com mais ênfase do que em Noite sem madrugada, mas em ambos os casos está longe de ser o espaço frequente que se configura como fundamental, marcado de simbolismo, por exemplo, no romance O forte e nos contos de O Largo da Palma ou ainda nos mares trágicos de Luanda, Beira Bahia, e em todas as histórias que acontecem no Sul da Bahia.

Adonias Filho ocupou cargos importantes na administração pública brasileira e exerceu significativas atividades culturais. Foi nomeado diretor da Editora A Noite (1946-1950), do Serviço Nacional de Teatro (1954) e da Biblioteca Nacional (1961-1971). Em 1966, foi vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa; de 1969 a 1973, exerceu a função de membro do Conselho Federal de Cultura; em 1972, presidiu a Associação Brasileira de Imprensa; e de 1977 a 1990, o Conselho Federal de Cultura.

Sua formação jornalística desenvolveu-se no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi colaborador em jornais importantes, como Correio da Manhã e o Jornal do Comércio. Participou como crítico literário do jornal Hora Presente, A Manhã, Jornal de Letras, Diário de Notícias, O Estado de São Paulo e na Folha da Manhã. Exerceu a crônica na Última Hora. Tanta atividade em suas trilhas de vida, dedicada à imprensa e à gestão cultural, que poderia ter se afastado de sua vocação literária. Tal não ocorreu porque tinha uma vocação legítima para ser escritor, um raro talento que não permitia que fosse diferente o homem que escolheu a literatura como leitura da vida.

Jamais recorreu ao pai para sobreviver. Como tradutor e jornalista, buscou os meios para subsistir com dignidade. Alcançou cargos importantes por méritos. Nunca cobiçou, nem procurou confundi-los com a sua carreira de escritor.

NOTA:
 A novela Amor no Catete faz parte da antologia Histórias dispersas de Adonias Filho, organizada por Cyro de Mattos, da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz,sul da Bahia.