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domingo, 16 de abril de 2017

                    



                         Páscoa
                       
Cyro de Mattos
      
Pai salvador,
Misericordioso,
Toca no meu peito
O sofrimento teu.
               
 Fadiga, sede, fome.
 Cuspe, espinho, sangue,
Chicotada, prego, 
Madeira feita cruz.

Meu Pai,  perdoai
Os pecados meus. 
Não sei o que faço
Com tanta rejeição.

Vinde clarear  
Meus cegos passos
 Amarrados sempre
Nesses ímpios nós. 

Sei que não mereço
Um grão dessa luz
Que ilumina o perdão
Do filho de Deus.

Ainda assim dizei
Apenas  uma palavra
Que serei um pássaro
Solto da garganta.

 O bico desfiando
A divina experiência
Sem os cravos da dor

Que Te  ofendeu.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

                          


                         Semana Santa

                     Cyro de Mattos


Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite,  a refeição era a mesma. Ainda bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Achava sempre um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe  soubesse. Ela dizia que as  pessoas   deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à morte do Cristo. O jejum era só naquela semana,  passava logo, ninguém ia morrer por isso.
            O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira. Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe  falou que um homem entendeu de tirar leite da vaca  na Sexta-Feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.
            Parecia que toda a cidade amanhecia vestida de roxo na Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira. Assistia ao filme sobre a vida, paixão e morte de Jesus Cristo  na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna. As pessoas saíam cabisbaixas  do cinema quando o filme acabava. Ninguém se conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada que o pobre coitado carregara  pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação ainda pregaram o filho de Deus  na cruz  de maneira cruel. Em vez de água, quando Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração.  Era demais o sofrimento de Jesus,  muita gente chorava.
            E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face  para entregar o filho de Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho da árvore seca. Nessa hora o  cinema quase vinha abaixo com as vaias da plateia.
           Tinha uma sensação na procissão da Sexta-Feira Santa que tudo era pecado, dor e lamento pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso Senhor Morto era levada no andor pelas ruas  principais da cidade sob os cantos que falavam de pesares  e perdão:

                             Perdoai,  Senhor, por piedade,
                             Perdoai,  senhor, tanta maldade,
                             Antes morrer, antes morrer
                             Do que  Vos ofender...

            A tristeza estava nos ares por onde a procissão andava com o Senhor Morto,  as pessoas sofrendo pelas pedras do caminho. Gente acompanhava a procissão descalça para pagar alguma promessa em razão da  graça alcançada através da bondade do Cristo salvador. Dona Olívia, a mulher do dono do Hotel Itabuna, vestida num comprido vestido  roxo,  que tocava  os pés, os cabelos compridos caindo nas costas, fazia o papel de Maria Madalena. A matraca tocava, a procissão parava enquanto ela exibia  o rosto do Cristo no sudário..
            Numa voz doída, ela arrancava suspiros e lágrimas dos fiéis, calados, rostos contritos,  naquele trecho de rua em que a procissão parava.
                             
                           
                          Pai salvador,
                          Misericordioso,
                         Toca no meu peito
                        O sofrimento Teu.                  
                        Fadiga, sede,  fome.
                       Cuspe, espinho, sangue,.                   
                       Chicotada,  prego,
                       Madeira feita cruz,
                       Meu  Pai, perdoai
                       Os pecados meus.


.Naquele ano em que caiu uma chuva rala durante a procissão, usava as botinas novas que minha mãe presenteou-me no aniversário. A procissão voltava pela avenida do comércio depois de percorrer algumas ruas. A imagem de Nosso Senhor Morto já ia entrar na igreja para ser colocada no altar  quando a beata Detinha teve uma crise de nervos, chegando a desmaiar. O padre passou um pouco de água benta na testa da beata, rezou  e pediu  que os fiéis cantassem com fervor. Os cantos entoados na pequena praça repleta de gente acordaram a beata, que começou a chorar alto e ao mesmo tempo agradecer ao Jesus Salvador por ter ali mesmo perdoado seus pecados.
No dia de procissão havia tanta gente na igreja e na praça que uma agulha não cabia lá dentro nem no lado de fora.  As  botinas novas apertavam  os meus  pés. Então pedi à minha mãe que me deixasse ir embora para casa, não queria ficar para ouvir a fala do padre encerrando a procissão. “ Os calos estão doendo muito, não agüento mais”,  disse  aporrinhado, ameaçando chorar. Ela ordenou baixinho no meu ouvido que ficasse comportado, acrescentando que a procissão já estava chegando ao fim.
Preferi não obedecer minha mãe. Esperei que ela se ajoelhasse  com os demais fiéis na igreja para fazer a oração do creio-em-deus-pai, de olhos fechados, para apressado tirar  dos meus pés as botinas. Em casa disse à minha mãe que tinha resolvido agir daquela maneira para evitar que acontecesse comigo uma situação pior do que a da beata Detinha. Como ela, desmaiaria ali mesmo na igreja. Mas a água benta que o padre passaria na minha testa, as orações  e os cantos entoados com fervor pouco iriam adiantar para que eu não ficasse desmaiado durante muito tempo.
Claro que minha mãe compreendeu. Em vez de sermão, da sua voz bondosa escutei que eu não me preocupasse. Não ia calçar mais aquelas botinas apertadas. Mas muita gente reparou e achou que menino mimado daquele jeito não daria certo no futuro.  



sábado, 8 de abril de 2017

  



Descoberta de Castro Alves

                      Cyro de Mattos


Saltou do bonde na parada próxima ao Restaurante Cacique e Cine Guarani, com o firme propósito de conhecer aquele monumento de mais de dez metros, um homem lá no alto encimando o pedestal. Aquele homem de cabeleira negra e basta devia ser muito importante para que fosse homenageado em monumento tão grandioso.
 Atravessou a rua e se aproximou do monumento. O olhar curioso viu que em um dos lados estava um livro aberto  com um sabre atravessado, tendo em letras douradas os versos:  “Não cora o sabre do ombrear com o livro”. Em placa de mármore,  numa das faces da base, lia-se:  “A Bahia a Castro Alves.”
Aquela estátua de bronze  assentada no alto representava  um poeta, muito querido pelo povo baiano, estava ali na atitude de fala, de quem declamava, tendo a cabeça descoberta, fronte erguida, olhar perdido no infinito, chapéu mole de estudante à mão esquerda, braço direito estendido. De um lado da coluna, viu um grupo em bronze, representando um anjo em posição de voo, a levantar uma mulher escrava pelo braço, erguendo-a ao alto.  Viu também um casal de escravos.
Quem era esse poeta que a Bahia dedicava imenso amor? Lembrou da biblioteca da agremiação estudantil no Colégio dos Irmãos Maristas. E foi lá,  durante a semana, na hora do recreio, folheando o livro ABC de Castro Alves, de Jorge Amado, que ficou conhecendo a vida e a obra daquele grande poeta.
        Era um rapaz esbelto, que vivera pouco. Nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima a Curralinhos, na  Bahia, em  14 de março de 1847. Tinha grandes olhos vivos, maneiras que impressionavam a quem o assistisse declamando versos de amor, às flores e em solidariedade aos escravos. Causava admiração aos homens e arrebatava paixões às mulheres. Seu estilo contestador contra a situação da escravidão dos negros na Bahia o tornou conhecido como O Poeta dos Escravos. Além de abolicionista exaltado,  foi um liberal atuante, que clamava  pela instalação da República no Brasil. Teve como colega Rui Barbosa no Colégio Abílio Borges, em Salvador, e na Faculdade de Direito do Recife. Faleceu aos 6 de julho de 1847, aos 24 anos, em Salvador, vítima de tuberculose.
          Depois de conhecer um pouco  a vida do poeta romântico, interessou-se por sua poesia. Foi ler, um a um, os livros desse poeta cantor do amor, da água, das pétalas, dos negros escravos e da liberdade. Publicara em vida apenas um livro: Espumas Flutuantes, em 1870. Seus outros livros,  A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876 ,  Os Escravos, 1883,  Hinos do Equador, 1921, tiveram edição póstuma. 
     Na medida em que fazia a leitura duma  poesia cativante e libertária, ia anotando alguns versos no caderno, que lhe enriqueciam a sensibilidade.  
      Como esses:    
                              
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...
          Ou esses:
                    
                       Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

       Ou ainda esses, escritos com graça e leveza:

                         Prendi meus afetos, formosa Pepita...
mas, onde?
No tempo? No espaço? Nas névoas?
Não rias...
Prendi-me num laço de fita!

       Perguntava-se como era que no coração de um poeta tão jovem como Castro Alves  cabia tanta afetividade e solidariedade aos excluídos.  Com a leitura de cada livro, sua alma foi-se impregnando da beleza e da verdade postas pelo poeta maior  em versos comoventes, escorridos com amor e talento raro, que só os gênios possuem.

      Castro Alves tornou-se em pouco tempo  um ídolo para o jovem do interior,  desses em que  a marca de uma época ou de um tema brilha com a individualidade manifestada numa espécie de criador que permanece sempre ante a vida que passa.  

sexta-feira, 31 de março de 2017

                                    

                                  Passeio de Bonde

                                     Cyro de Mattos

               O bonde não era apenas um meio de transporte para ele, mostrava-se como uma diversão, curtição que fascinava no passeio. O uniforme cáqui do motorneiro, que usava chapéu e  gravata borboleta,  o barulho do condutor ao recolher o dinheiro das passagens, batendo as moedas umas contra as outras na mão, a figura marcante do vendedor de balas e bombons, com sua cesta de vime, a sensação deliciosa de viajar pendurado no estribo. Havia o desafio de subir e descer do bonde ainda em movimento. Num domingo azul de verão,  chamou-lhe a atenção, entre os passageiros,  dois homens bigodudos no bonde, de fraque, gravata borboleta  e chapéu da última moda. 
      No passeio de bonde, tinha a sensação de que a cidade andava nos trilhos, avistando-se o mar por algum recorte ao largo. Sentado no banco de madeira, na medida em que bonde rolava pelos trilhos  o olhar curioso dirigia-se para casarões, sobrados, igrejas e jardins. Na orla, o mar espumejava com as suas jubas brancas perto da praia,  vidrilhando nos dias de verão. O mar era como uma piscina enorme na Praia do Porto da Barra.
     O melhor lugar para contemplar o cenário da Baía de Todos os Santos, que a natureza ofertava de graça no cenário azulado,  era de uma das balaustradas laterais ligadas à plataforma do Elevador Lacerda,  dando  acesso à Praça Tomé de Sousa, também conhecida como Municipal.    
      Sentava na cadeira de uma das mesas postas no passeio, como extensão da lanchonete A Cubana, na saída do elevador. Depois de tomar o copo de vitamina de abacate acompanhado dos deliciosos Bolinhos da Cubana,  da balaustrada avistava  o Forte de São Marcelo lá embaixo na baía, encravado nas águas mansas do mar. Lanchas na Marina, embaladas como berços pelo vento,  barcos ancorados na tarde preguiçosa do mar, o porto no vaivém do embarque e desembarque de gente, o cais  com seus guindastes gigantescos,  navios de carga como casas de ferro,  vindos de mares longínquos.
         Não se cansava de olhar  a paisagem bonita, na península de Itapagipe, longe, a colina sagrada do Bonfim no alto,  onde ficava a igreja do padroeiro da cidade. A igreja ia ficando a cada ano pequena para  o grande número de fiéis vindos dos lugares mais distantes.  Fascinados os olhos,  querendo pegar a paisagem com o seu forte brilho,  contornos e  desenhos, iluminada em cima com   um céu azul, embaixo com um  mar azul, só existentes na Bahia.  Insinuada nas linhas do horizonte, lá para os longes das ilhas de Itaparica e Mar Grande.  

            Depois de colorir os olhos com a paisagem esplêndida, retornava para a sua casa, pendurado no estribo do bonde.

sábado, 25 de março de 2017





O Menino Fujão

          Cyro de Mattos


           Permaneceu escondido atrás do poste. Dali espreitava o sobrado onde os pais moravam, as janelas da parte térrea estavam abertas e iluminadas. O  reflexo forte das luzes do sobrado iluminavam a rua. Os olhos receosos enxergavam o pai agitado conversando no passeio com dois homens. Um deles  era o funcionário do banco do estado. Depois que jantava, ele tinha o costume de ficar dando voltas no pátio da casa onde morava, dizendo que era um exercício útil que fazia para ajudar  na digestão do alimento que ingerira na refeição da noite.  Tinha uma gargalhada demorada e metálica, dando a entender que estava sempre  de bem com a vida.  Em noite de lua clara, gostava de fazer sabatina  no passeio de sua casa com os meninos  sobre as capitais  dos países da América, Europa e Ásia. O outro homem era o dono  da casa de ferragens. Baixote, de pouca conversa, dizia-se que era um homem triste porque a mulher nunca lhe dera um filho. Na  mocidade havia sido ferreiro na vila de Ferradas onde tropeiros vindos do sertão faziam pouso e ali trocavam a ferradura dos animais carregados de mantimentos.
           Lá dentro do sobrado a mãe impaciente.  Chorava e perguntava a todo instante por onde andava seu filho àquela hora da noite. Zangado, o pai não parava de andar pela sala. Não se  conformava com a ausência do filho, que saíra pela tarde quando o sol ainda estava quente, até àquela hora da noite não dava sinal de vida.
         Pensou no plano para entrar no sobrado, sem que ninguém percebesse.  Pularia o muro pelo lado esquerdo do sobrado, o que seria fácil. Não era alto. Ultrapassado esse obstáculo, alcançaria a janela do banheiro nos fundos, que dava para o quintal. Abriria a janela do banheiro, que havia deixado  sem o  trinco travado para o caso de voltar tarde da noite para o sobrado. Dentro do sobrado, com os passos macios pela cozinha, precavidos, usaria a escada estreita que saia da cozinha  para os quartos do pavimento superior. Iria se acomodar no seu quarto.
         Quando pensou em dar o primeiro passo para a execução do plano, saindo com cuidado  por detrás do poste, um braço forte agarrou o seu corpo magro. O soldado sorriu de contente por ter agarrado o fujão. Do rosto negro do soldado saiu um sorriso que se abriu demorado na dentadura branca, mostrando um dente de ouro que alumiava a boca quando ele falava.
        - Achei o menino, Seu Homero! Olhe o fujão aqui comigo! 
         Certamente ia receber do pai um castigo pelo comportamento que deixou os de casa  bastante aflitos.

*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pertence à Academia de letras de Ilhéus. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).


sábado, 18 de março de 2017





CATEDRAL DE SÃO JOSÉ   
                     
                     Cyro de Mattos

Sermão de enxó
na santa Sé,
verde formão
a quem vier.

Gestos humildes
de carpina é
toda a cidade
nessa onda a pé.

Romaria essa,
não marcha a ré,
plaina com luz
sal da maré.

Erguido o templo
de São José,
forte a canção
de amor e fé.


quinta-feira, 16 de março de 2017

MANIFESTO DE DESAGRAVO DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA

                                    


           Os membros da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, signatários desta nota pública, vêm manifestar seu repúdio às atitudes injuriosas e difamatórias do acadêmico e blogueiro  Rilvan Batista de Santana contra  a instituição e seus diretores atuais, sendo ele um dos integrantes do quadro associativo da entidade.
           Entendemos que uma academia de letras deva pautar-se pela postura ética de seus membros, afetividade e lealdade, promoção e defesa da liberdade de expressão como uma de suas metas principais. Se a ALITA não está sendo eficiente nas suas funções, merece a crítica da sociedade, do formador de opinião, mas em um julgamento pautado em princípios éticos, antes de tudo, com base em elementos verdadeiros e construtivos.
           O membro que renega seu perfil acadêmico e vai ao público para difamar sua entidade, melhor faria se, por coerência, pedisse o afastamento e, desligado da instituição, emitisse sua opinião agressiva sobre a atuação dos demais membros, ou mesmo da instituição como um todo.
           É inadmissível que a crítica nutrida na aleivosia, ressentimento e perseguição seja levada ao público por um dos seus membros contra a própria instituição e os integrantes de sua Diretoria, pessoas honradas, que vêm prestando serviços positivos à sociedade local ao longo dos anos. O plantel de membros da Academia de Letras de Itabuna é constituído de expressivos escritores e poetas, comunicadores, juristas, competentes professores universitários, valorosos atores, gestores culturais.
           Desprovida do bem, a crítica insensata, praticada reiteradas vezes por um dos membros da Academia de Letras de Itabuna à própria instituição, da qual o ofensor faz parte, não merece crédito, levando-se em conta vários aspectos. Quando usa seu blog, o acadêmico em foco o faz no afã de difundir o terrorismo cultural, ferindo a ética, maltratando a verdade, tornando a vida tumultuada e feia. Demonstra, com isso, a natureza de alguém que, na condição de órfão do mundo, quer aparecer a qualquer custo e enganar os incautos.
           Desde 2011, quando foi instalada, até a presente data, a instituição vem prestando serviços relevantes à comunidade. O registro da memória das atividades desenvolvidas faz parte do noticiário local e dos assentamentos arquivados na ALITA, inteiramente à disposição de quem queira consultá-los.
           A Academia de Letras de Itabuna foi criada pelo idealismo do promotor Carlos Eduardo Lima Passos, dos  juízes de Direito Antonio Laranjeira e Marcos Bandeira, do professor universitário e escritor  Ruy Póvoas e do escritor Cyro de Mattos. Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade. Não se trata de um valhacouto de idosos como ofende injustamente o acadêmico inconformado e blogueiro Rilvan Batista de Santana.
           Em razão dos fatos expostos, os signatários desta nota pública, de maneira constrangida, vêm manifestar seu repúdio geral e irrestrito às acusações inconsequentes e infundadas do confrade Rilvan Batista de Santana contra a Academia de Letras de Itabuna e sua diretoria atual.

                                                                        Itabuna, 10 de março de 2017

Sônia Carvalho de Almeida Maron, Ruy do Carmo Póvoas, Lurdes Bertol Rocha, João Otávio de Oliveira Macedo, Cyro Pereira de Mattos, Carlos Eduardo Passos, Marcos Antonio Bandeira, Sione Porto, Janete Ruiz Macedo, Silmara Santos Oliveira, Maria Delile Miranda de Oliveira, Maria Palma de Andrade, Raquel Rocha, Margarida Cordeiro Fahel, Ary Quadros Teixeira, Maria de Lourdes Netto Simões, Carlos Valder do Nascimento, Maria Luísa Nora.


terça-feira, 14 de março de 2017

Um Gol Incrível

                  
                  
                   Cyro de Mattos

            Tinha a pele amarelada, os dentes miúdos, os olhos como dois pequenos caroços  nas órbitas fundas.  Talvez fosse apelidado de Quebradinho por causa das pernas. Como dois cambitos, tinham dificuldade em sustentar o corpo magro com aquela barriga grande,  pesada. Quando andava, as pernas pareciam que podiam quebrar a qualquer instante,  uma corrida, até mesmo pequena,  era impossível para ele. Suas pernas mal agüentavam andar quanto mais correr.
          Ninguém queria que ele jogasse no time dos meninos lá da rua. Nem para ficar na banheira, na ponta-esquerda, nem para isso servia, era um inútil como jogador de futebol em qualquer posição.  Insistia em querer jogar em um  dos times formados pelos meninos lá da rua. Achava-se graça do seu pedido e da sua insistência. Não era aceito nem como juiz.
         Era filho adotivo de um abastado fazendeiro e comerciante próspero,  com lojas de artigos para campo e  cidade instalada na avenida do comércio. Como  o fazendeiro e comerciante não tinha filhos,  ele recebia do pai adotivo um tratamento especial. Não lhe faltava dinheiro para guloseimas, comprar gibi e guri,  comparecer quantos vezes quisesse  para se divertir  à vontade no parque ou em algum circo que havia chegado à cidade.
        Disse um dia, vocês me pagam, ainda vou ser o dono de um time porreta, uniformizado com calção e  camisa com numeração atrás nas costas. Esse time seria chamado de Expressinho do Vasco. Não demorou de cumprir o que apregoara.  Apareceu no campinho da Praça Camacã, nas imediações do rio Cachoeira, anunciando que havia comprado o jogo de calção e camisa do Vasco da Gama e uma bola de couro novinha.  Acrescentou  que queria que o maior número de meninos bons de bola estivesse presente ao campinho da Praça Camacã no sábado quando iria  escolher os  onze jogadores e mais quatro reservas para compor o  Expressinho do Vasco.
                 No sábado, os jogadores escolhidos por ele para compor o elenco do Expressinho do Vasco da Gama ouviram assustados o que ele afirmara sério,   mas  não contestaram. Quebradinho comunicou que  entraria para jogar as partidas como centroavante, aos 30 minutos do segundo tempo, estivesse ganhando ou perdendo o Expressinho do Vasco. Ninguém contestou. Afinal, ele era o dono da bola de couro e do jogo de calção e camisa do  Vasco da Gama. E qual o menino que não queria jogar  num time de futebol que usasse calção e camisa  numerada nas costas, como se estivesse atuando num time verdadeiro de futebol?
        A partida contra o Bangu valeu taça, melhor dizendo, Taça Rio Cachoeira. O Expressinho do Vasco da Gama venceu o Bangu por um a zero, depois de uma partida acirrada até os quarenta e quatro minutos do segundo tempo. No último minuto o gol salvador. Gol de quem? De Quebradinho, a bola chutada da linha de fundo pelo ponta-direito Magrelo raspou na sua barriga e entrou. Foi a sua consagração. Quem poderia imaginar aquele gol incrível por um jogador que mal conseguia andar?  
                                                                                                                          
·        *Cyro de Mattos é escritor e poeta. Primeiro Doutor Honores Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 


domingo, 5 de março de 2017





Antologia Poética da Não Resignação da Mulher

                                                        
                                                  Cyro de Mattos



Sob a coordenação de Alfredo Perez Alencart, enorme poeta que é também professor universitário, promotor cultural de larga extensão,  foi publicada no ano passado em Salamanca, Espanha, a antologia No Resignación, obra que reúne  136 poetas. 72 mulheres e  64 homens, de  35 países representando cinco continentes. A antologia é um depoimento contundente ante o ultraje vergonhoso que vem sendo praticado contra a mulher, ao longo dos séculos,  e, entre os poetas,   estão  presentes os  brasileiros  Álvaro Alves de  Faria,  Helena Parente Cunha, Alice Spíndola, Marcia Barroca e Rizolete Fernandes.
       Obra de flexões poéticas diversas, de nobre alcance em sua problemática existencial, testemunha a vergonhosa atitude machista contra quem, sendo a outra parte do homem,   alimenta a criação, afasta o sal da terra, a tristeza e a agonia. Acende os risos. Traz na forma do sol o fruto sazonado. De onde vem o leite para  causar o espanto e adoçar as cores do mundo. Sem teus fluidos, sabemos, que o mundo seria luto, a  natureza sem matriz perdida de sentido.  Ninguém saberia da alegria  na casa onde se ouvirá : “Morre, noite!” 
       Essa antologia, com ilustração do pintor espanhol Miguel Elias, o selo editorial do Ajuntamento de Salamanca, merece divulgação sob vários aspectos. Contra uma situação lamentável, vitimando a mulher sob a violência, o preconceito, a desigualdade de oportunidades, o desempenho inferior  e a exploração sexual, Álvaro Alves de Faria diz “Sueño, mujer, tu espacio, tus alas”, Yolanda Izard versifica “Las voces de las mujeres se escriben en el silencio de la cocina”, Hiroshi Tomita “Que no se desangre el amor/en la sombra,/en la niebla”, Gioconda Belli escribe: “El hombre que me ame/no dudará de mi sonrisa”,  Gloria Sánchez: “¡Esclava del horror!”.  Horror é o que oferece os telejornais diários, notícias nas quais o telespectador acostumou-se  recebê-las sem  pensar na dor, na desgraça de quem supõe ser uma vida de todos e para todos.          

         Sinto-me enriquecido em participar, como brasileiro,  dessa antologia com inúmeras vozes poéticas expressivas. Em  meu   “.Poema da Mulher Não Resignada”,  observo: “ Para onde vá sem voz/ Deixa que seja levada./Maneira de ser conduzida/Expressa o espaço inútil. /Golpeada na afronta,/Indisponível de si mesma. /Pousa vazia de sentidos /No rito de cama e mesa./Rolam anos de vergonha, /O que podemos achar nela?/Amanhecer é preciso/ Apesar das opressões...  “

quinta-feira, 2 de março de 2017

                                          


                                                     Tempo de Carnaval        
                                                                                                  Cyro de Mattos

Tempo de carnaval. O banco, o escritório, a indústria e o comércio eram substituídos por uma máquina de fazer alegria. O corso passava pela Avenida Sete numa maravilhosa ventura em torno do tempo perdido na história.  Improvisava figurações diversas, tinha feições de cores e luxo, uma ópera no desfile do carro alegórico  lembrava a Grécia antiga, Veneza. O êxtase e riso invadiam a Rua Chile. Havia a guitarra elétrica na fóbica, puxava atrás pequena multidão, formada por gente do povo nos  prazeres, vibrações de corpo que insinuavam uma dança frenética.   
       O bar Cacique, antes Bob’s, vizinho ao Cine Guarani e ao cabaré Tabaris, era parada obrigatória do folião para o chope.
      Ele se impregnava no carnaval  daquela forma de viver, que não queria saber do mundo rotineiro, fantasiava a onda humana para cantar e dançar na avenida. Blocos antigos, afoxés, batucadas. Na tanga do índio, na mortalha  suada da moça, no amor da colombina. Ventos da utopia. A vida suavizada pela passagem mística do bloco Filhos de Ghandy.
           Tempo que transformava o branco no preto, o pobre no rico,  o sacro no leigo, com o padre e a freira. Não havia vencedores e vencidos, viver era igual a se divertir.
       Pelo salão com a espada de pau. O olho tapado na cara de mau. E a cigana que fingia ser definitivo o amor passageiro no carnaval.  O chão cheio de confete, serpentina colorindo o ar, a lança que perfumava a melindrosa em  cada volta. Risos com mais de mil palhaços no salão, pierrô fazendo suas juras,  arlequim chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. 
            Vestido de marujo, viajando  pelo mundo de uma só cor, a da euforia. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral silenciava, sem o apito da alegria,  descia da nau, que chegava ao porto no jardim da Piedade. Chegava de madrugada, polvilhada de fadiga pela cauda, puxando a manhã  fresca e pura.

                                                                                

sábado, 11 de fevereiro de 2017


POETAS DOS ANOS 30
Fernando Py
É bom iniciar o Ano Novo falando de vários poetas, como os que aparecem no livro Poetas dos anos 30 (Brasília: Thesaurus/ANE, 2016; org. de Joanyr de Oliveira; apresentação de Fabio de Sousa Coutinho). Na Introdução da coletânea, o poeta Joanyr de Oliveira (1933-2009) destaca principalmente os mais de sessenta poetas arrolados, todos nascidos entre 1930 e 1939, e afirma que estão representados no volume poetas de todas as regiões brasileiras, com maioria bastante expressiva do Sudeste – Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Ademais, Joanyr explica: “Motivos alheios aos propósitos do antologista impossibilitaram a inclusão de outros autores (…).” e cita os nomes dos principais, destacando, entre outros, Adélia Prado, Armindo Trevisan, Mauro Gama, Teresinka Pereira e Ymah Théres. Dentre eles, alguns já eram falecidos: Lélia Coelho Frota, Mário Chamie, Sebastião Uchoa Leite e Samuel Penido, p. ex., o que dificultou e impediu o seu aproveitamento.
De todo modo, a coleta é bem expressiva: além de Joanyr de Oliveira, estão presentes quase trinta nomes importantes para a nossa poesia: Affonso Romano de Sant’Anna, Alberto da Costa e Silva, Anderson Braga Horta, Astrid Cabral, Carlos Nejar, Cyro de Mattos, Fernando Mendes Vianna (1933-2006), Ferreira Gullar (1930-2016), Florisvaldo Mattos, Francisco Marcelo Cabral (1930-2014), Gilberto Mendonça Teles, Hilda Hilst (1930-2004), Ivan Junqueira (1934-2014), Jorge Tufic, José Jeronymo Rivera, Lina Tâmega Peixoto, Lupe Cotrim Garaude (1933-1970), Mário Faustino (1930-1962), Marly de Oliveira (1935-2007), Miguel Jorge, Nauro Machado (1935-2015), Octávio Mora (1933-2012), Olga Savary, Renata Pallottini, Reynaldo Valinho Alvarez, Sânzio de Azevedo e Walmir Ayala (1933-1991). Como vêem, muitos deles, alguns amigos meus, já desertaram.
Esta seção não comenta aqui o valor e a excelência da obra destes poetas, porém é imperioso reparar  que se trata de uma seleção que atende, precipuamente, ao gosto pessoal do organizador e que, assim, poderia acolher outros nomes. De todo modo, é uma antologia exemplar, valiosa não apenas para o estudioso da literatura brasileira, mas para qualquer amante da boa poesia.


·        Fernando Py é ensaísta, tradutor e poeta,  Mantém uma coluna literária no “Diário de Petrópolis”, Rio. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017


            

           O Goleiro Leleleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol


O livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol deu-me em 2002  o Prêmio Hors Concours da União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro. Mas o melhor prêmio tem sido as várias edições que o livro vem tendo pela Editora Saraiva, de lá para cá. Chegou ao ponto da UOL anunciar que foi um dos livros   mais vendido para crianças nas livrarias brasileiras, ao lado de Harry Porter, o que me deu um susto tremendo.
A paixão que grande parte do povo brasileiro tem pelo futebol está presente nas histórias “O Bahia contra o Brasil”, “O Goleiro Galalau”, ‘O Dia em que Vi Garrincha Jogar’ e ‘O Goleiro Leleta’,  que formam o livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol. A emoção que o autor teve quando menino, em  Itabuna, no sul da Bahia, cidade onde nasceu, com os queridos amigos  nos jogos de futebol, disputados nos campinhos  espalhados pelas ruas e margem do rio, aparece  nestas histórias, que também mostram lances incomuns, como o da bola chutada forte, que cai no rio,  é levada pela correnteza e  torna impossível o final da partida.  
E mais:  o juiz que é padre,  apita o jogo de batina e dá uns tiros  para o alto quando sua mãe é ofendida com palavrão da torcida; o goleiro com lombrigas que passa mal embaixo da trave  e  o lance inacreditável  com o garoto que entra no segundo tempo do jogo e, no final, dribla a defesa inteira para fazer o gol da vitória de seu time  contra o tradicional rival.
A admiração pelo drible genial, a transformação de garotos desconhecidos em heróis fugazes em  jogos disputadíssimos no campinho de grama maltratada,  o goleiro que joga a última partida do seu time no campeonato, sabendo que seu pai, que era o diretor, o roupeiro, o massagista e o técnico,  não pode comparecer porque  está sendo velado  e, assim,  não teria a imensa alegria de ver o filho defender o  pênalti,   que daria o primeiro campeonato à agremiação  do  Burburinho do Paraiso. Tudo isso dá cores a essas histórias que acontecem no apaixonante mundo do futebol, três delas  com as marcas de uma inesquecível infância, tendo como  personagens craques que jogam com os pés descalços, quando o jogo é entre os   meninos, ou de chuteira, meia, calção e camisa vistosa quando a partida é disputada no velho e acanhado  Campo da Desportiva, ou até mesmo em outra praça extraída do imaginário popular.     
Quando era dia de clássico, não se tratava de um clássico qualquer. Era partida para entrar na história. Mais uma na história do futebol. O time da Rua do Quartel Velho, que era assim chamada a Rui Barbosa, onde eu morava, jogava contra o time da rua de cima, a  Duque de Caxias.

Procurei cativar o leitor com estilo simples, ágil,  modéstia à parte, e, ao mesmo tempo, resgatar certos jargões da gíria futebolística.  Sem querer, mas querendo, fazer propaganda do livro, digo que ofereço  agora ao leitor momentos de prazer e encanto  da bola rolando nos pés de heróis anônimos ou consagrados,  naquele jogo bem brasileiro, que de tanta paixão transpira, inspira e faz a alegria da galera.