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segunda-feira, 31 de julho de 2017



           A Guerra Lá e Cá

           Conto de Cyro de Mattos


Em primeiro de setembro de 1939. A Alemanha nazista, liderada por Adolfo Hitler, invade a Polônia. Dois dias depois, a França e a Inglaterra declaram guerra aos alemães. Não se fala de outra coisa na cidadezinha perdida no interior baiano. Enquanto dura o conflito, os habitantes são tomados pelo medo. Quase seis anos de fogo. Sombras. Pesadelos. Ventos chegam com seus gritos de horror até o lado de cá, todos os dias. A  qualquer momento, o rádio dá a notícia de como anda o monstruoso sofrimento nos campos da Europa. Conta histórias de luta, fome, desemprego  e perseguições. 
O farmacêutico Ligori espera sua vez na barbearia de seu Nô para  fazer o cabelo e a barba.  O dono da barbearia, um negro de nariz achatado, lábios grossos, treme as pernas quando ouve falar na guerra. Seu Ligori lembra que Hitler, o pequeno homem de bigodinho irascível, quer fundar  o império duma raça branca na Europa  e ser o dono do mundo.  Se ele, na sua crença de ser superior,  conseguir a vitória, o Brasil onde a maioria do povo é formada de pretos e mulatos  será  fatalmente um dos países submissos ao  império do ditador.
Alemanha, Áustria, Itália e Japão. Países do Eixo ou quinta colunistas, como pessoas do  povo gostavam de chamar.  Em compensação, como observa seu Ligori, boa parte do planeta apoia os países aliados, liderados  por França, Inglaterra e, mais tarde, também Rússia e Estados Unidos. O Brasil  não está  entre as exceções. Adere à causa aliada, depois do afundamento de navios de bandeira nacional na costa brasileira por submarinos alemães.
Pela voz do locutor Timóteo, no alto-falante da praça,  a multidão hipnotizada  escuta a notícia de que  milhares de judeus são eliminados pelos alemães num ritmo implacável. Seguem  nos vagões do trem, apertados, amontoados, alguns morrendo sufocados ou de fome no meio do caminho. Faziam no vagão as suas necessidades fisiológicas.
Selecionam homens, mulheres e crianças. Pais são separados dos filhos,  as mulheres dos maridos.  Criaturas indefesas desaparecem sem que possam  dizer adeus com esperança. O locutor Timóteo fala, em sua voz entristecida,  daquelas criaturas que partem nos vagões como boi para o matadouro. Por sua vez, os que participam da missa dominical estão ouvindo atentos  o padre Messias em sua prédica. Ele fala aos borbotões. Suas  veias do pescoço sanguíneo latejam como cordões grossos. A voz alta fere o tímpano dos fiéis, ressoa na igreja em silêncio.
Ele pede para que os fiéis rezem com fervor, roguem  a Deus para que aprisione os quatro cavalos do Apocalipse, ilumine os aliados com o seu espírito salvador para que  o Anti-Cristo seja derrotado em pouco tempo. Só Deus pode impedir que o mundo não acabe  agora em dias de fogo. Ele termina a prédica com os braços abertos,  como querendo proteger  a todos em suas mãos compridas  e aconchegantes.  
O professor Marcelino, ex-seminarista, recebe aplausos em certo trecho de sua conferência que está sendo proferida no salão do ginásio. Sua palavra segura,  próxima da realidade trágica, ressalta  que o ser humano está sendo recuado  para os subterrâneos mais indignos. O bem e o mal coexistem  numa vizinhança das mais imprevisíveis quanto mais niilista. O mal não tem  limite.  Corpos são usados para experiências absurdas. Almas sem clamor e pequenos corações  vivem aterrorizados sob a expectativa de que só vão sair dos campos de extermínio  pela chaminé reduzidos a cinzas.
Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, crateras, escombros. Na  enchente a morte. As pessoas imaginam que tudo está acontecendo na Europa de maneira diabólica. A fera ressurge da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concede a trégua, bane  a pomba na légua, só quer a selva. O amor é uma coisa inútil, um absurdo a relva. A vida,  sem o som da fúria,   não tem qualquer possibilidade de ser livre, está em ruínas,  numa condenação sem sentido. O que torna possível a construção do monstruoso absurdo? O rádio não para de informar acerca de ganhos e perdas nos dias assoberbados por intermináveis cargas de fogo.
  Em 27 de janeiro de 1945, diante dos soldados do exército vermelho, muita gente morta, pessoas fuziladas,  mutiladas, corpos queimados.
  Naqueles idos de 1945, o menino é  levado pela mãe para aprender as lições de Instrução Moral  e Cívica no prédio escolar. Havia escutado o vizinho dizer para o pai no dia anterior que  uma grande passeata vai  sair pelas ruas clamando pela liberdade, os manifestantes sustentando cartazes de apoio aos países aliados e aos pracinhas brasileiros que estão no conflito.
Um dia,   o sorriso que alarga o rosto  aparece na rua com os habitantes da cidade pequena. Todos eles irradiam alegria por causa da fuga das sombras feitas de horrores nos bombardeios e penúrias de rostos com fome.  A notícia  voa levando por todos os cantos a informação de que as bombas inimigas estavam caladas para sempre nos campos da Europa. Já não existem mais as horas do mundo  cheias de grito  e agonia.  E o menino vai assistir todo feliz  a vitória do amor através do desfile sonoro do povo nas ruas. Os sinos tocam sem parar a canção constante de paz,  antiga, bem antiga,  belíssima. Bonecos, caricaturas,  charges  de Hitler, Mussolini e  o imperador Hirohito  estão nas ruas como monstros ou demônios. A chuva grossa que cai de repente não desanima os manifestantes que percorrem as ruas principais.
O Tiro de Guerra, os colégios, os escoteiros. Associações de classe, autoridades de mãos dadas com o povo. Tambores rufam pelas ruas de chão batido, arrancando intensos    vivas de quem veio participar da festa. As pessoas vibram intensamente nos passeios, portas e janelas. O ponto alto das manifestações acontece com  o comício na praça da Beira-Rio. O coreto do jardim  iluminado tem  um “V” grande da vitória. Foguetes pipocam no céu cintilante de estrelas. As bandeiras do Brasil, da Bahia e da cidade tremulam na  noite agitada. A Filarmônica toca a Marselhesa, hino da resistência dos aliados franceses. Toca depois  canções e marchas militares brasileiras. É ovacionada quando termina de tocar  o Hino Nacional.
 Os oradores desfilam no palanque enfeitado de bandeirolas, cada discurso mais inflamado do que o outro. Felício Brasigóis, o poeta da cidade, octogenário bigodudo, é o último dos oradores. Suas palavras escorrem mansidão por entre rostos atentos,  erguem  um mundo que cativa  com  o braço ao abraço. Segundo os versos do poema que ele diz,  sem a paz é o caos, nada mais vale tanto do que os dias livres das botas impassíveis, os jardins com crianças, os ares frescos da noite bem dormida. Anônimo para muitos, tão perto agora de todos,  o poeta de cabelos brancos, encurvado, recusa  uma senhora diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a maravilha, mata a esperança, tritura a ternura. Com suas manadas enfurecidas, pisoteia tudo que nasce do amor.
            Ainda permanece na memória a figura daquele homem, baixote e gordo, à frente da passeata. Levava uma tabuleta com esses dizeres: AUSCHWITZ NUNCA MAIS. Era o gringo Leone Leibowitz, judeu lituano que tinha uma loja de calçado, chapéu e tecido, na rua do comércio. Fora obrigado a migrar  para o Brasil antes de começar a guerra,  vindo  morar  com a mulher no interior da Bahia.                                                                                                                                                               
 Lembro-me dele vendendo as coisas com um preço barato na loja. Ninguém entrava na  Loja Bonamigo  para sair de mãos vazias, sem comprar  um sapato, chapéu, capa, gravata ou tecido. O gringo tinha uma maneira engraçada de cativar o freguês, “tudo aqui é barato, dinara não importa, gringo Leone é bonamigo.” Tornava-se mais engraçado quando falava ligeiro misturando o lituano  com o português das gentes do interior baiano. O freguês demorava entender o preço exato que ele dava a um chapéu ou sapato. Gostava de fumar  “yolanda azul”. O cigarro apagado, esquecido no canto da boca, enquanto atendia o freguês. Todo mundo na cidade sabia  que ele não fazia mal a uma mosca.
Os meninos de meu tempo gostavam muito do gringo Leone. Queriam  acompanhar os pais quando iam fazer compras na Loja Bonamigo. O gringo dava balas de jenipapo ao menino quando o pai ou a mãe terminava de fazer as compras. Um dia recebi uma mão cheia das gostosas balas de jenipapo, que a mulher dele fazia. Acho que eu era  o que mais gostava do gringo Leone, entre todos os meninos. 

*Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro titular da Academia de Letras da Bahia e Pen Clube do Brasil. Comenda da Ordem do Mérito da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Rússia, México, Dinamarca e Estados Unidos. Pertence à Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. 

terça-feira, 25 de julho de 2017






                            Dia Nacional do Escritor





Hoje, 25 de agosto, é dia de homenagear os escritores brasileiros e toda produção literária do Brasil. É também por estas obras que ganhamos experiências e nos empoderamos de conhecimento.
Recebi de minha filha Josefina uma mensagem que muito me comoveu. Transcrevo-a abaixo:

Meu pai,
Hoje comemoramos o dia do escritor.

Parabéns àquela pessoa que torna as nossas vidas mais leves e que consegue transformar o cotidiano em poesia, contos, crônicas, romances.

Parabéns àquele que consegue nos transportar de nossas vidas medíocres e vazias para contos de fadas, para aventuras, para romances,  para viagens distantes, siderais, espaciais. 
Parabéns especial a você meu pai, que não deixou esse sonho morrer, que lutou por ele e conseguiu transformá-lo em realidade.
Por isso, meus sinceros e maiores parabéns.
De sua filha,
Josefina





terça-feira, 18 de julho de 2017



           Versos na Pulseira do Tempo
                       

                               Cyro de Mattos


O baiano Renato Prata nasceu em Itabuna, como sua irmã Heloísa Prazeres, que também é poeta.  Em Breve antologia poética (2017) publica dessa vez uma seleção de poemas extraídos de seus quatro livros:  Sob o cerco de muros e pássaros (2003), A quinta estação (2007), A pulseira do tempo (2012) e Mar Interior (2015), além de outros retirados das antologias  Poetas da Bahia II e III (2003, 2015) e  Outros Riscos (2013). Organizada por Heloísa Prazeres, essa Breve Antologia Poética, prestes a ser publicada pela editora Mondrongo, é  uma amostragem poética da vida em seu claro parentesco com a música, a considerar espaços da  significação ideal do mundo através do verso.
De marcante presença na lírica contemporânea da Bahia,  o poeta de gestos recatados preferiu conviver com o seu projeto estético, em exercício qualificado, durante décadas até que comparecesse em livro. Recolhido ao silêncio de suas criações, não optou  por conviver em grupos, forjar alianças, para desfrutar de certo comércio no setor, muito comum aos elogios mútuos e fáceis. Tornou-se o principal crítico de sua produção poética antes de fazer sua estreia  como um poeta maduro, privilegiado, na sua expressividade, por meio das construções de  formas líricas, tanto nos versos livres como nos de estruturas fixas.
Conquistou alguns prêmios literários importantes na Bahia. Um de seus livros teve a edição do próprio  autor, já  outros três foram publicados por editoras  baianas de porte pequeno, sem atuação no circuito nacional. Mas o que vale é a sua  poesia, que,   de livro a livro, apresenta-se  integrada de linguagem e vida. 
Poeta de ritmo melodioso, desde a estreia em Sob o cerco de muros e pássaros revela que,  se procede dos deuses, viaja com tropeços na claridade. Lê-se no poema “O passado investe nossos passos” que os versos da juventude nem chegaram a ter escritura, “gastaram-se no limbo por decênios”.  Sem cantar “as efusões de um dia,  amadas inúteis, o primeiro encontro com a morte”, a certa altura  indaga da razão dessas impressões líricas, guardando sonhos no que sabem o quanto viver, no fluxo e refluxo do prazer,  têm o passado que investe nossos passos. Leva-nos  à conclusão de que um clima é formado de acréscimos líricos,  que a cada momento formam um corpo concentrado em si de sentimentos, escavações no interior, que são expostas aos ventos. 
É nesse tom essencialmente lírico, participante de momentos com aguda sensibilidade,  que encontramos  um poeta inventor do poema com lastros da miragem, ternuras, purezas, maciez e algum presságio. Toca em nossos ouvidos uma poesia orvalhada de emoções, trinado de pássaro, jogo das ondas no vasto mar de  ideias, que   no seu timbre ritmado de cores, sutilezas várias, corre e voa com a musicalidade de sua composição quando escalavra o vento.  Tece com sabedoria o silêncio marcado pela ilusão, que se  impôs nas trilhas do sonho através do intercâmbio da palavra capaz de  esclarecer o  mundo.
De arguta leitura da vida, compartimentada no verso, como no poema “Rastrear os deuses”, Renato Prata  expõe sua crença na poesia quando afirma que elabora o verso para atravessar divisas da solidão, maneja-o com precisão para capturar sentidos que revelam o mundo.

Eu faço versos mais cedo
Quando arfa o silêncio pela casa
Olhos de neblina e entressonho
Rastreando os deuses da poesia.

         Na poética construída com paciência e consciência do ofício,   nota-se como  o poeta em si concebe esse sujeito que tem veias de vidro para refletir o mundo, esse habitante daquela ilha verde com a aridez dos anos,  expedindo canção e danação, mas desprovido de cupom fiscal. Quando dotado de sensibilidade arguta, constrói belas e verdadeiras estrofes, tentando equilibrar-se entre espantos,  na direção constante de quem incorpora novas opiniões perante a experiência humana no mundo.  

Não guardo moldes e cálculos
Soletro tempos e pássaros
Mas tudo exponho aos ventos.

         Nessa Breve Antologia Poética, de novo percebo as qualidades de um discurso que vaza lucidez, pulsando nas intimidades de suas estações com a pulseira do tempo o eu lírico, em procedimentos de teor filosófico, até mesmo nas  incursões  expressivas metalingüísticas. Nessas suas maneiras alusivas da vida, que são apenas ondas antes de alcançar o cume e espraiar na metáfora, prova ser a sua força a de um lírico autêntico,  a ação quase não se fazendo perceptível,  o poeta caminhando  pelo  interior de espaços que existem independentes de sua forma instrumental,  manifestando-se    com imagens  que se ajustam a uma inventiva formal que só os  poetas experientes dominam.

Contra o silêncio de seres e objetos,  em suas relações instransponíveis ao primeiro golpe de vista, emerge esse  poeta de sentidos e visões  penetrantes do que importa deixar-se ficar, vale tocar e decifrar. Revela, em sua legítima impressão digital, sinais que reverberam solidões, estados de alma por entre cenas  do cotidiano, plasmadas pelas luzes da memória, transes e emoções de quem sabe ser isso a veia e o veio para dialogar com o outro nas incompletudes do tempo,  indiferente ao que nos envolve e habita no trânsito da existência.  Desse ponto de vista, existe sem dúvida uma proposta formulada que chamo de pulsações líricas  no labirinto de Orfeu, que comove nessa coisa afável, diáfana, feita de versos e estrofes para suportar a vida.             

quarta-feira, 28 de junho de 2017




Escritas em Trânsito retorna em 2017, trazendo a Salvador Alice Ruiz
Autora de mais de 20 livros e parceira em letras de sucessos da música popular brasileira ministra oficina  de 26 a 28 de julho. Inscrições abertas



O projeto Escritas em Trânsito chega à quarta edição. A retomada do projeto se dá justamente a partir de julho, em comemoração ao Dia do Escritor, 25 de julho. Entre os meses de julho a setembro serão realizadas oficinas literárias gratuitas, ministradas por renomados autores de língua portuguesa. Alice Ruiz ministra a primeira oficina da série, HAIKAI, de 26 a 28 de julho, no Memorial do Teatro Castro Alves. Inscrições gratuitas pelo https://goo.gl/reEpbQ até o dia 7 de julho.

Poeta, haicaísta, letrista, tradutora, publicitária, com mais de 20 livros de poemas e haikais publicados, participa também em várias antologias nacionais e internacionais. Como letrista, Alice tem parcerias musicais com Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Waltel Branco, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Alzira Espíndola, Chico César, Zé Miguel Wisnik, Iara Rennó, Na Ozzetti, Luiz Tatit, Estrela Leminski, João Suplicy, Natalia Mallo, Rogéria Holtz, dentre outros.
A oficina que ela ministra em Salvador se propõe a familiarizar os participantes à técnica e prática do haikai - poesia mínima de origem japonesa. Com introdução à “filosofia” zen, preparando o espírito para que os participantes se coloquem emestado poético”, passando pela abordagem da técnica e forma, o que inclui algumas noções da escrita ideogrâmica, até chegar aos exercícios de tradução e criação em conjunto e individual.

Inscrições - As inscrições para as oficinas da quarta edição do projeto ficarão abertas desta segunda-feira, 26 de junho, até 7 de julho. O formulário está em https://goo.gl/reEpbQ. O Escritas em Trânsito é uma realização da Coordenação de Literatura/Dirart, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).
Autores de diversas origens e representantes de vários estilos e formatos vêm participando do Escritas em Trânsito, qualificando o trabalho de escritores baianos, bem como de novos interessados em desenvolver habilidades na área. Nas edições dos anos 2012, 2013 e 2014 foram realizadas 23 oficinas em Salvador, para um total de 432 participantes.

Artistas do interior – Para participar das oficinas da próxima edição, os interessados devem se inscrever através do formulário disponível na página www.fundacaocultural.ba.gov.br. As vagas serão limitadas, com turmas de até 30 pessoas. A carga horária de cada oficina será de 12 horas.
A novidade deste ano é que “serão reservadas quatro vagas para efetivar a possibilidade de participação de artistas da palavra do interior do estado, nas oficinas”, anuncia Karina Rabinovitz, coordenadora de Literatura da Funceb. Serão arcados custos com transporte e diária destes participantes do interior.
Os critérios que serão considerados para o preenchimento das quatro vagas reservadas são que o artista da palavra candidato realize atividade literária em sua cidade; e que seja multiplicador de literatura, em sua cidade.

Diálogo com sociedade – O projeto é resultante do diálogo entre a Coordenação e a sociedade civil, em diversos encontros setoriais e eventos literários, nos quais foi enfatizada a necessidade de se ter acesso às discussões e diálogos que movimentam a cena literária nacional.
Consideradas em sequência, as oficinas realizadas em 2012, 2013 e 2014 equivaleram a uma formação continuada inédita para novos escritores, que experimentaram várias turmas desta diversificada oportunidade de troca de conhecimentos.
Até agora alguns autores (as) que passaram pelo Escritas em Trânsito: Ricardo Aleixo, Fabrício Corsaletti, Carlito Azevedo, Angélica Freitas, Verônica Stigger, Ricardo Chacal, Marcelino Freire, Marina Wisnik, Allan da Rosa, José Luiz Passos, Noemi Jaffe, Paulo Henriques Britto, Carol Bensimon, Ricardo Domeneck, Marília Garcia, Antonio Cícero.
As próximas oficinas serão divulgadas a partir de julho.

Serviço
Escrita em Trânsito
Oficina de HAIKAI, com Alice Ruiz
Onde: Memorial do Teatro Castro Alves
Quando: 26, 27 e 28 de Julho
Inscrições gratuitas:
https://goo.gl/reEpbQ
Mais informações: Coordenação de Literatura
(71) 3324-8507
literatura.funceb@funceb.ba.gov.br


Assessoria de Comunicação
Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB
asc.funceb@gmail.com |(71)3324-8565
Claudia Pedreira - claudiapedreirajornalismo@gmail.com | (71) 98879-7994
www.fundacaocultural.ba.gov.br


domingo, 25 de junho de 2017

                   



                        A Única Briga
                   
                       Crônica de Cyro de Mattos



Só brigou uma vez no internato. Foi com um menino que jogava de ponta-esquerda no time de camisa branca. Jogando como lateral direito no time de camisa azul,  ele dava uma marcação implacável àquele menino troncudo, baixo, braços musculosos.  Em compensação era menor do que ele, que sempre se antecipava para tomar a bola dele, um  atacante arisco, bom no drible curto, precisando ser marcado de perto.
 Era um duelo à parte entre os dois quando o time de camisa azul enfrentava o de camisa branca.
Na última partida, o marcador e o atacante  chocaram-se na grande área, temeu-se que os dois contendores tivessem se machucado gravemente. Houve bate-boca, dedo em riste no rosto, da próxima vez eu lhe quebro a canela, jogadores dos dois times apartaram os dois para evitar a briga. Terminado o jogo, atracaram-se e a briga não continuou porque o Irmão Já-Morreu trilou o apito várias vezes, pedindo a seguir  que os dois rivais lhe acompanhassem.
Adiante, no campo vazio, ao lado da parede alta atrás de um dos pavilhões do colégio, o Irmão ordenou:
- Agora podem brigar à vontade. Ninguém vai apartar.
Brigaram mais de uma hora. Nos lances com murros desfechados um ao outro, ele procurava evitar que o rival agarrasse o seu corpo. Se tal acontecesse, seria derrubado, e, no chão, dominado,  massacrado,  não teria  a mínima chance para vencer a briga.
A certa altura do duelo, os brigões mostravam cansaço, mas nenhum deles  recuava, não pensava em correr.  O irmão mais velho disse para ele que, se um dia brigasse com um dos meninos internos, fosse até o fim, nunca corresse. Tomasse pancada, mas agüentasse, mesmo que tivesse de ser o  perdedor. Quem corria em qualquer briga, era chamado de frouxo, ficava sem merecer o respeito dos outros. 
Exatamente o que ele fez, retirou forças de onde não mais existia,  e, com as recomendações do irmão na cabeça, desferiu  uma saraivada de golpes na barriga do menino troncudo, que não resistiu, rodopiou e caiu, gemendo.
O rosto inchado, corte na boca e no supercílio. Apresentou-se com o rival  ao Irmão Já-Morreu, que ordenou, vão  tomar banho e mudar de roupa, depois desçam  para o refeitório.  Aconteceu depois que o derrotado  na briga ficou proibido de sair do internato quatro domingos,  o mesmo castigo foi dado a ele.

O tempo que ficou no internato, o menino troncudo evitou falar com ele. Passava de cara enfezada  quando o  encontrava  em qualquer lugar do colégio. Ao contrário, ele não guardou raiva  do seu adversário, até estava disposto a fazer as pazes com ele, deixando a rivalidade para dentro do campo quando o  time de camisa azul fosse jogar mais uma partida contra o de camisa branca. 

sábado, 10 de junho de 2017

                                A Casa de Heloísa Prazeres
                          
Cyro de Mattos
                                                 
          Depois da estreia com Pequena História (2014), antologia pessoal, a baiana (de Itabuna)  Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, A casa onde habitamos (2016),  formado de consistente união entre inspiração e transpiração,  intuições e reflexões, imaginações  e registros. Nesse segundo volume, com a  ilustração da consagrada arte fotográfica de Jamison Pedra, a poeta usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o  entendimento no mesmo chão de suas origens.
            Há nos oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para  o preenchimento dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor é a boa literatura mesclada com instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa  ver que aqui estamos diante de uma construção poética  segura, de signo adornado pelo som na cadência musical própria do poema,  que diz de emoções chegando da  memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o ser.   
        Numa lírica moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro,  a boa referência a poetas e escritores de predileção pessoal, mas  em especial o tempo que, na alma enlaçando afetos e afinidades,  busca outro tempo, marcado  através de experiências,  revelações tantas  perante a existência.  Dividido em quatro partes, Trabalhos de Bastidor, Antessala de Sonho,  Sob o Teto da Terra e Mesmo Chão, podemos dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos delimitados pelo assunto  ou tema, que homenageia à vida,   está na epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto luminosa contista, quando diz:

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
                
         Quando a reconstrução do mundo no verso é convincente,  faz pensar logo como a vida é falha, repleta de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da  ambigüidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o poeta  recorre à   linguagem literária para inaugurar  novos sentidos, lembrando assim que na quimera  e na divagação, na pureza  de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por isso  lições plasmadas em  linguagem específica para discorrer  sobre o espanto da vida e assim prosseguir     na litania do verso,  que em si mesmo se sustenta e encanta. 
              O poeta quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes escuras  que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de limitações,  que envolve aos humanos perante a experiência da vida em que entra a solidão, o tédio, o azar  e a tristeza.  Embora existam as flores, sabe-se que elas somem, mal surgem. Ao  poeta Heloísa Prazeres, o  milagre para que sempre sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito entendimento das altiplanas  montanhas de Nevada,  como as encontramos no afetuoso “Poema para os meus Amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e profunduras,  em  mínimas cosmovisões de ternuras, disse  Neruda que a flor da alma na alma flora.
          Na geografia íntima da casa abandonada,  Heloísa Prazeres  não sabe “dizer se havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o mandato da aventura.” E, porque o desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o  tempo dos legítimos poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos  com “mala fixa e estética”,  emoções e conceitos movendo sempre a permanência de surpresas, cismas e perplexidades.  É o que percebemos, por exemplo,  no discurso singular do poema  “Trópico do Capricórnio”.
         Até mesmo no poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, quase automáticos, de uma rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer Italo Calvino,  fixam a cena com assunto moderno, extraído do mundo internético de hoje, o qual, instalado  no grupo, faz com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC - Tecnologia da Informação e Divulgação.
        Esse modo de estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico  que não se ajusta ao sol  na manhã com esperança,  só comprova que  nessa casa de Heloísa Prazeres, aqui e agora, com leveza e graça,  densidade e clareza, a poesia está em tudo. O  poema não engole o poeta quando  provido de linguagem adequada e percepção  do mundo.







sexta-feira, 2 de junho de 2017




Contos Bem Exemplares

          Cyro de Mattos
         

Retorno em tarde sem Sol (2016) é o  décimo livro de ficção do escritor baiano Aramis Ribeiro Costa.  O volume reúne quinze narrativas  de desenvolvimento ficcional breve,  mas com larguras e profunduras no que o autor diz sobre  a condição humana com as suas dimensões trágicas, desencontros patéticos, desapontamentos nos quais não se vê caminhos para a solução de situações impregnadas de contradições  na vida diária.
Cada autor tem sua marca digital na massa do que foi escrito. Aramis Ribeiro Costa é desses contistas que envolvem o leitor com uma linguagem sedutora, que flui com espontaneidade e, na sua simplicidade encantatória,  vai dando prazer a quem lê. De trecho para  trecho a linguagem prende,  na exposição de cenas convincentes e movimentação dos personagens que interferem no momento oportuno. De conto para conto,  não é preciso fazer o intervalo para tomar fôlego e seguir na leitura, como ocorre no diálogo que o leitor crítico estabelece com o texto de uma  escrita complexa. Em sua construção formal, os contos de Aramis Ribeiro Costa sempre  operam a generosidade  de transmitir com espontaneidade a comoção final da escrita bem cadenciada, desenvolta, harmoniosa, na qual revela quase sempre as tristes notas de uma experiência humana.  
Mas não se trata apenas de um autor prazeroso nas suas criações, como se vê novamente nesses  quinze contos reunidos em Retorno de tarde sem sol.  Se o fetiche da linguagem nas formas novas de narrar uma história não o atrai, longe de estarmos diante de um autor pobre no uso da palavra e pueril no universo criativo da ideia. Tudo em Aramis Ribeiro Costa funciona nos modos estruturais de inventar uma historia, nada é inútil, do título à palavra, da linguagem  à ideia, do ritmo ao assunto, do personagem à circunstância inusitada. Nada é gratuito na enunciação do texto, que depois de enunciado faz pensar, às vezes chega a continuar  com  outra  história no pensamento do leitor. Isso é visto em “Cabaré”, quando podemos indagar qual seria a história verdadeira de Norma Morales, a rainha da noite,  aquela  em  que é vista nas suas exibições de bailarina que se despe,   de causar pena na cena nua e crua,  ou a que se oculta nos seus interiores, como dá a entender  quando, aos gritos, a personagem alega que estava sendo perseguida, algozes vão lhe matar,  e na fuga desesperada  encontra a morte  ao ser atropelada por um pequeno caminhão.      
O contista logra tirar bons efeitos do recurso de deixar no vazio uma história que poderá ser o desdobramento da que é exposta aos olhos do leitor,  acontecendo na realidade exterior, vivida  pelo personagem  em vários casos,  com os acordes  ásperos     de uma música chamada solidão. Essa técnica de embutir na história narrada  outra história, que fica por conta da imaginação do leitor, encontramos também em “Dona Amália”, uma mulher viúva e solteira, que só tem uma amiga íntima, a   Estelinha. O que acontecerá quando a sua empregada doméstica anunciar que vai deixar o emprego para se casar? O drama da situação adversa que irá provocar na viúva solitária, quando a notícia nada agradável for dada,  fica no vazio para que o leitor de novo volte a imaginar outra história.
Vida, morte, solidão,  os temas focados nesses contos  primorosos de Aramis Ribeiro Costa, reunidos agora no volume Retorno em tarde sem sol. A tragédia estampada nas tintas do horror está presente em “Partida”, conto que deixa entrever como viver é arriscado, vive-se sob um cerco perigoso, de imprevistos e cenas absurdas, que podem ser desfechadas no ímpeto inconcebível quando menos se espera. Em alguém, por exemplo,  que decidido a partir para sua cidade de origem, no interior, em busca de dias mais sossegados,  é assassinado naquele instante de despedida, pelo simples fato de gostar de tirar fotos e um indivíduo não gostar de estar sendo fotografado.
Dolorosa também é a nossa precária condição humana que se mostra no quadro em que o pai se sente apunhalado pelo filho quando soube que o mesmo havia dado um desfalque na firma do padrinho. “Sentia-se traído. De nada tinham valido as lições, os conselhos, o exemplo da própria honradez, de nada valera ter construído  um nome honesto e respeitado.”  Um mundo sólido feito de princípios e atitudes éticas, inabalável,  veio abaixo devido à vergonha, que  não tinha tamanho,  como nunca o pai havia sentido. O filho disse que ia embora, esperando que houvesse o milagre do perdão. Do lado de fora da casa, “o filho colocava as malas no seu carro quando ouviu o estampido”.
São contos exemplares esses reunidos em Retorno em tarde sem sol, não porque abracem uma ética em que o autor busque transmitir lições baseadas em ideias e princípios moralizantes, lições corretas de vida para que sejam impingidas ao leitor, no intuito de contribuir para a formação de padrões,  visões e leituras fundamentais da experiência humana. Não estão aqui enfeixados como exemplos para se ter consciência do bem e se afastar do mal, optar pelo correto no lugar do errado.  Esses contos são bem exemplares em razão de uma estética do comportamento humano sustentado pelo autor através da amostragem de instantes agudos da existência com os seus grandes conflitos. È sobre a condição humana circunstanciada pelas contradições da vida, com seus eventos inusitados, que esses contos demonstram, sem nunca forçar a nota,  o quanto a vida perturba na sua estupidez. Daí, como não poderia deixar de ser,  a presença da solidão em vários deles,  da morte, da incomunicabilidade, do trágico, do patético, das convenções estereotipadas para se comemorar uma data,  e outros momentos críticos que nos acompanham e esfacelam  no difícil gesto do viver. Todas essas falhas da vida estão presentes  nesses contos de fatura exemplar, tanto na concepção como na execução, na forma espontânea da linguagem,  no clima absurdo que geram cumplicidades que ferem  o diálogo estabelecido entre leitor e personagem, intensamente permeados  de tristeza e golpes duros, armados pelo ilógico da existência.  
Demonstram que a literatura é forma de aludir à vida como forma solidária, como ela sabe transmitir beleza e verdade  quando nos faz cúmplices da fraqueza que nós os  humanos protagonizamos na experiência de cada existência.  Ela tudo dá e nada toma, devolve a nós mesmos o que nos pertence, razão e emoção da  união geral  na constante canção do viver. 
Entre os excelentes  contos desse Retorno em tarde sem sol, dois chamaram-me mais  a atenção: “Dinamarca” e  “O Aniversário da Avó”. No primeiro,   o tema da insatisfação humana faz-se visível na comemoração de cem anos de um velho bem-sucedido, orgulho do bisneto, alvo de admiração de parentes e de muitos que estão na festa, esbanjando alegria, brindando uma data redonda, rara de ser alcançada, a não ser pela  proeza daquele homem, já decrépito, trazido ao salão numa cadeira de rodas, juntamente com a esposa, também idosa e numa cadeira de rodas.  Um homem ímpar,  que, juntando uma fortuna, tornara-se uma pessoa  importante.  “Um homem que vivera um século e construíra alguma coisa grande” e que naquele ambiente de entusiasmo só podia estar feliz.  Quando a repórter de televisão, insistindo na pergunta, procurou  saber se ele estava feliz, rodeado de tanta alegria, surpresa escutou um não, um grito de quem afirmava ser um homem incompleto porque não tinha ido à Dinamarca.  A desconcertante resposta,  em sonoro não,  mostrava o quanto a vida é curta e falha, incapaz de realizar tudo que desejamos, indiferente ao que pensamos e atuamos segue marcada de frustrações,   traumas constantes que consegue imprimir na rotina de cada um.
Em “O Aniversário da Avó”, narrativa para homenagear “Feliz Aniversário”, famoso conto de Clarice Lispector, incluído no livro Laços de família (1960),  revela o quanto um contista singular trata de assunto já desenvolvido por escritora maior, tornado clássico em nosso conto, sem que se faça  um imitador, um infrator indevido da imaginação do que veio  primeiro para ficar em texto  original sobre assunto projetado  de maneira pessoalíssima. Nessa variação de conto sobre a eterna velhice, a   ética do comportamento criativo de Aramis Ribeiro Costa salta à vista,  começando  na epígrafe que retira do conto de Clarice Lispector, É preciso que se saiba que a vida é curta. Que a vida é curta,  e coloca no seu,  antes de expor a sua leitura secreta em torno da infelicidade,  que se apresenta com as cores da  felicidade nas cenas formadas naquele dia especial  de aniversário.
Em “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector, ao invés de  uma comemoração prazerosa, nota-se  que não só Zilda, mas todos os parentes, os familiares estão apenas cumprindo tarefas, todos também estão sendo manipulados pelo dever. Em “O Aniversário da Avó”, de Aramis Ribeiro Costa, a solidão vem acompanhada na ausência de ternura por partes de filhos, que não comparecem, nem tampouco os filhos deles,   para abraçar a aniversariante na data em que completava oitenta anos. Como fere a atitude humana quando se faz necessário o afeto para que a vida acorde no coração  o encanto no lugar do desencanto.  É o que se afere nas entrelinhas desses dois contos magníficos, que mergulham fundo na relação complexa da solidão acompanhada, vivida em família. 
Em ambos os contos,  a vida é recortada em instantes perturbadores e brutais  do que somos em nossos relacionamentos, como é enganosa no que parece se mostrar à primeira vista. São dois contos que colocam à mostra os grandes conflitos do ser humano, explorando-se  com muita sutileza as regiões mais profundas e inexprimíveis da alma, aliando a   razão à  sensibilidade nos seus pontos mais graves,  por meio de uma linguagem visceralmente  poética em Clarice Lispector, cativante em Aramis Ribeiro Costa.  Ressalte-se que cada contista nas  histórias similares  tem a sua voz, seu acento, sua impressão, sua invenção que resulta da capacidade que tem a literatura de fixar as imensas proporções da  experiência humana.  Nesses dois casos, do micro no macro através do conto. 
A literatura opera desses milagres em que às  vezes nos deparamos com a ficção e a realidade entrelaçadas naquele ponto nodal em que a mentira, beleza da ilusão projetada com a palavra, não passa da verdade a pulsar sensibilidades provenientes dos nervos da vida concreta. Sensação que passamos quando da leitura dos contos bem exemplares enfeixados por Aramis Ribeiro Costa nesse  Retorno em tarde sem sol.


REFERÊNCIAS


COSTA, Aramis Ribeiro. Retorno em tarde sem sol, Editora Kalango, Simoes Filho, Bahia, 2016.

LISPECTOR, Clarice. Laços de família, contos, Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1960.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

                    


                    Dois Irmãos
                  
                     Cyro de Mattos
     
        Os  irmãos Josias e Josevandro  nasceram  num lugar qualquer desta terra,  numa hora qualquer, num ano qualquer. Cresceram juntos. Eram  muito  unidos e se gostavam. Dormiam juntos. Quando amanhecia, cedo iam procurar os pássaros, escutar seus cantos alegres. Paravam no caminho  para ver a beleza das flores. Nadavam, mergulhavam, pescavam  nas águas doces e puras do rio. Sorriam de pura alegria quando  pegavam um peixe grande na rede.
     Quando ficaram grandes, cada irmão procurou ser na vida o que lhe pareceu a melhor atividade  para sobreviver  com dignidade. Josias   tornou-se pastor de ovelhas,  Josevandro  foi ser agricultor.
       Josias viu seu rebanho de ovelhas prosperar a cada ano, já pensando em  ser um criador de gado, um dia. Dava de presente ao pai uma ovelha no final do ano.  Josevandro não prosperava nas lavouras que plantara de milho e feijão. Ora a chuva pesada e continuada estragava tudo, ora a praga  não deixava nada. Percebeu que o pai e a mãe gostavam mais do irmão. Começou a ter ciúme de Josias.
      Josias tocava a flauta de bambu para os carneiros e as ovelhas, que serenas comiam o capim verde do pasto. Josevandro irritava-se com os parasitas e as ervas que se intrometiam no plantio causando estragos. Esbravejava, xingava nomes pavorosos, revoltava-se contra Deus, que não era justo com ele, só beneficiava o irmão.
         Certa vez Josevandro chamou Josias para uma pescaria, o que já não faziam  juntos  há alguns  anos. Era  como se de repente procurassem viver separados, cada um tomando seu rumo no campo. Cada um se encarregando da atividade escolhida para que sobrevivesse no esforço dos dias.
         De repente Josevandro pegou a pedra grande e bateu com força na cabeça  do irmão. O sangue jorrou forte e manchou as águas rasas do rio. Josevandro  jogou o corpo de Josias no rio com uma pedra amarrada no pescoço.  O corpo desceu e ficou lá no fundo do poço.
         Josevandro contou aos pais que Josias tinha morrido afogado. Mergulhou várias vezes tentando  achar o corpo do irmão, mas  não  conseguiu.
      O pai descobriu que Josevandro estava mentindo. Depois de várias tentativas, já pensando em desistir,  descobriu o corpo do filho com uma pedra amarrada no pescoço no fundo do poço. 
     Josevandro foi expulso de casa pelo pai.
    A mãe soube que  com a morte de Josias  havia perdido seu  único filho.
      Até hoje Josevandro rola pelo mundo, em busca de uma paz que lhe devolva o sono, depois de um dia duro de trabalho.
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terça-feira, 16 de maio de 2017

                                



                                     Mãe e Filho
                              
                                  Cyro de Mattos
             
           Nada era pior do que saber  que a mãe não  voltaria mais a andar. Ficava prostrada na cama, a doença arrancando-lhe o sorriso do rosto na pele sem cor. O momento de alívio era quando conseguia reconciliar o sono. Na rotina do medicamento, a  agulha furava a veia do pulso, por onde o soro era levado para reforçar o sangue enfraquecido no sistema de defesa do corpo.  O  irmão trazia para junto da cama o suporte de aço  quadripé com rodízios,  o soro no tubo pendurado no gancho, descia lentamente pela mangueira, gota a gota, seguindo para penetrar no corpo da mãe. O tempo enfadonho se repetia no corpo abatido, lambia os minutos demorados no quarto.   
        A moça que cuidava da mãe mudava seu corpo com cuidado para o outro lado. Limpava as feridas com algodão embebido na água oxigenada. Tentava atenuar as dores nas costas por ter o corpo permanecido tanto tempo na mesma posição. A mãe acordava gemendo, as costas queimando, os olhos umedecidos.
        Tentava consolá-la, não perdesse a fé em Deus, todos nós estávamos  esperançosos de que um dia ela voltasse a  andar com as suas pernas incansáveis,  os passos seguros, dando vida ao corpo.  Os dias voltariam ao ritmo  normal, sua voz esbanjando afeto pelo apartamento, de suas mãos,  até certo ponto divinas,   chegariam até à mesa  as comidas deliciosas para os filhos, doces e bolos com confeito,  como  ela gostava de fazer. 
         Como não lembrar os ensinamentos que na infância a mãe tanto lhe dera?
      “ Menino, já para dentro   Que vem o vento ventoso   Levado, levando cisco! Menino, já para  dentro! Boa romaria faz quem em sua casa está em paz. E essas  adivinhas: O que é,  o que é, o ano todo no deserto o mais quente é.  Responda certo, menino esperto. Como esquecer essa de pura carícia: Da noite o beijo. A melhor sombra de dia. Quem é? A  casa era pequena, mas em tudo os dias tinham  tuas mãos zelosas.  Colocavas nos vasos aquelas  rosas, como sonho na manhã perfumando esbanjavam pelos ares  ternura. Davam vida à máquina de costura tuas pernas ativas. Os bordados, beleza tecida,  sempre admirados por quem visse. Como o mundo de Deus era grandão. Dizias que  primeiro a obrigação, depois,  filho, é que vem a diversão.”
           Nada era pior do que saber  que a mãe não  voltaria mais a andar.  O tempo usurpava sem dó a beleza dela,  não havia revolta enquanto durava a agonia. O amor por ela dobrava porque o filho sabia disso.

  

sexta-feira, 12 de maio de 2017

          

         Devoção da Virgem Maria
          
                         Cyro de Mattos

          A imagem da Virgem Maria era guardada no nicho de cedro. Permanecia no altar, embaixo de Jesus crucificado. A mãe forrava o pequeno  altar  com um pano de linho branco. Havia no oratório  jarros com flores, velas nos castiçais, eram acesas quando a mãe ia fazer suas orações.
       A mãe organizava a  pequena procissão, ela conduzia à frente a imagem da Virgem Maria, as outras mães seguiam  formando duas filas nas laterais da rua,  uma de cada lado, no meio as crianças levavam flores nos braços. As velas acesas, os cânticos e as rezas pela rua. A procissão saía da casa  onde a mãe morava e terminava em outra, que podia estar localizada na rua de cima. Ali, a imagem da Virgem Maria era entregue à dona da casa, que estava pagando uma promessa. O filho havia sido lembrado pela santa, fora salvo de uma doença que atacou o fígado da criança, já estava desenganada pelos médicos. A mãe em desespero não sabia mais o que fazer. Rogou à Virgem Maria pela salvação do filho e fez a promessa. Obteve a graça.
       Os rostos contritos, as rezas e os cânticos  na rua por onde  passava a pequena procissão, atraindo pessoas, que apareciam no batente das portas ou vinham até  as janelas.

                 Ave, ave, ave, Maria!
                 Ave, ave, ave, Maria!
               
                Aos treze de maio
                Na Cova da Iria
                Aos três pastorinhos 
               Apareceu a Virgem Maria.

               Ave, ave, ave,  Maria!
                Ave, ave, ave,  Maria!

      Soltavam fogos coloridos, adrianinos e foguetes  quando  a  imagem da Virgem Maria era entregue pela mãe à dona da casa, que havia  alcançado a graça  e estava pagando a promessa.  A imagem da Virgem Santa permanecia nove dias na casa da dona casa, quando então era rezado à noite o terço  com as filhas de Maria. Quando a imagem da santa regressava  para a sua casa de origem, a mãe vinha recebê-la na porta. Rezava-se o terço. No final da reza soltavam-se de novo fogos coloridos.
       Com os corações contritos, terminada a reza, os que participavam da devoção à Virgem Maria regressavam  às suas casas. No outro dia a imagem da Santa era guardada no nicho. Era assim que, na cidade de vinte mil habitantes, a mãe e outras mães demonstravam o seu amor e a sua fé por Nossa Senhora. Todos os anos.  


*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pertence às Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês e russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.