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segunda-feira, 28 de abril de 2014

HOJE: GUERNICA, 77

“Perdoar, sim; esquecer, jamais”

Florisvaldo Mattos

Precisamente hoje, transcorrem os 77 anos do bombardeio da cidade de Guernica, situada ao norte da Espanha, por caças da Legião Condor, a mando de Adolf Hitler, prenunciando a sangueira da segunda guerra mundial que iria ser por ele deflagrada pouco mais de dois anos depois (1939), com a invasão da Polônia.
Quase como eco fatal de um verso de Lorca (“Eram cinco da tarde em ponto” – “A captura e a morte”, em Pranto por Ignácio Sánchez Mejías, 1935), a tragédia de Guernica começou exatamente às 16:45 horas de uma segunda-feira, em 27 de abril de 1937, dia de feira na cidade, a cujas ruas estreitas naturalmente afluíam pessoas comuns, a maioria camponeses dos vales vizinhos com seus produtos para venda.
Por duas vezes, estático e hipnotizado, prostrei-me diante de Guernica, a célebre pintura mural do catalão Pablo Picasso, que retrata a densidade trágica do episódio. A primeira, em 1978, em Nova York, a obra então dominando amplo salão à entrada do MoMA (Museu de Arte Moderna), onde permaneceu de 1942 a 1991, por expressa e cautelosa vontade do pintor; a segunda, em 1994, já em Madri, no museu Casa Del Arte Reina Sophia, para onde a obra se transferira depois de breve período num anexo do Museu do Prado, agora ocupando quase inteiramente vasta parede cercada de vidros blindados e severo aparato de segurança.
Em ambas as ocasiões, entre perplexo e tenso, pude sentir o halo de admiração, reverência e pasmo que envolvia o semblante de cada um dos que, mirando-a, se dispunham em longas filas, reproduzindo-se talvez, num e noutro momento, sensação semelhante à de que se tomaram os visitantes da grande exposição internacional de Paris, ao se deparar com a obra, medindo 3,51m x 7,52m, que ornava a entrada do pavilhão da Espanha, ainda em 1937.
Uns, segundo relatos da época, sem conter as lágrimas, sacudidos pelos ecos da ignominiosa luta fratricida que se travava na Espanha; outros, esses jovens pintores, impactados com o desfile da violência por todo o painel, e talvez pela premonição do futuro sombrio que viria logo a seguir, em 1939, a segunda grande guerra mundial. Deixava ali Guernica o modesto e lúgubre atelier de Pablo Picasso, na RuedesGrands-Agustins, para entrar na história da humanidade.
Por isso mesmo, o episódio trágico de Guernica e a monumental obra de Picasso, que se tornaria um ícone na história da arte e da luta ideológica do século XX, comportam duas narrativas, nas quais a guerra sobressai como palco de carnificina e símbolo de morte e horror: a do bombardeio covarde de uma pacata cidade basca no norte da Espanha, em frente ao golfo de Biscaia, pelos aviões da famosa Legião Condor, a mando de Adolf Hitler, e a da célebre obra pintada por um artista extraordinário, na qual, remontando à concepção de Homero, na Ilíada, se reafirma que a beleza emerge do sofrimento e do desastre.
Hoje, ante o espetáculo planetário da dissolução de valores, com o terror e a guerra instalados, atomizados e quase familiarizados no cotidiano de cidades, países e povos, com mortes diárias, mutilações, humilhações e dor generalizada, pode-se ter uma ideia do que significaram a tragédia da pequena cidade basca e a sua memória pelas mãos de um gênio, nesta obra encomendada pelo governo, quando a República da Espanha já definhava.
Anos depois de ter estado no MoMa, e concomitante com a visita ao museu Reina Sophia, redigi um poema à memória de Guernica, que integra o conjunto de ACaligrafia do soluço (1996), adiante reproduzido.
(Em tempo: o texto acima é adaptação e resumo do publicado em “A Tarde Cultural”, em 2007, pelos 70 anos da tragédia, e o título foi retirado de um registro jornalístico. Visitando Guernica em 2000, o americano Herbert Mitgang, em artigo para o The New York Times, anotava, sintetizando observações e contatos que lá fizera, o sentimento que sobrevive naqueles corações resignados: “Perdoar, sim; esquecer, jamais”).


REVISITANDO GUERNICA
(Via Picasso; Madri, 1994)

Florisvaldo Mattos

Onde álacres campinas de recreio
Abriam-se a canto e alarido escolar;
Onde antes havia o tempo sem abismos,
Coruscantes ruas, comércio lucrativo,
Familiar convívio de pacatos rostos,
Ah, tudo desapareceu na hora agra:
Algo se transmudou em chão rugoso,
A seara insone de insaciadas fomes.

Foram mil seiscentos e cinquenta
Mortos; oitocentos e oitenta e nove
Feridos e aleijados. Em Guernica,
As platibandas antes imponentes
Testemunharam o furor do sangue;
Enquanto avança o vento assoviando,
Fendas no chão de crenças, sonhos
Súbito de pedra viram coágulos.

Aquartelados nos oitões da sombra,
De alumínio e aço centuriões desatam
Os arsenais de mortas dinastias –
Metálico tropel, inferno a vômitos.
Meteoro cravado a ferro e fogo
Sobre chaga ainda incólume sem idade,
Guernica: Troia em terras de Numância;
Canudos no caminho de My-lai.

Como que pendentes das estatísticas
E dos noticiosos radiofônicos,
Milhares de pássaros em pânico,
Mulheres e homens por aqui passaram,
Sem olhos e mãos aos céus clamando.
Ao marulho de pés acorrentados,
Marcham por vales e nevados montes.
Marcham, e marcham para a eternidade.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nosso Amigo Livro
                         

Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna,  com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar  a existência e conhecer  o outro ficam menos falhos. 
O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala,  um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho  que a  fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu  li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir  O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois  para a vida rejuvenescido.
De cabeceira ou de bolso, o livro é esse  fiel amigo por vias e arredios, capaz  de  dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita. .
Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu o  romancista do mundo Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha,  os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.
No outro dia, eu encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão  Além dos Marimbus,  de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado”, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes, Obras Completas, de Franz Kafka,  Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um  sol tímido.
À noite  peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me  ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva  extrair sentidos  da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.  
De uns tempos para cá, a incorporação dos meios eletrônicos pela sociedade fez com que o nosso amigo livro mudasse o suporte.  A versão digital de um livro  impresso é o livro eletrônico. É adquirido por meio de download para ser lido no monitor do seu micro e impresso na sua impressora. Entre as vantagens dessa migração do nosso amigo, você tem com a biblioteca arquivada em seu micro. Ou com o uso do dicionário em instantes durante a leitura. E ainda mais: encontrar trechos com rapidez de segundos.
Não se pode deixar de considerar que, por motivos alheios à sua vontade,  em caso de uma pane no circuito de energia elétrica, você pode perder sua biblioteca digitalizada no abrir e fechar do olho.

    

sábado, 19 de abril de 2014

Morre o Notável Romancista Gabriel García Márquez



Considerado um dos mais importantes escritores do século 20, o  colombiano Gabriel García Márquez morreu  na quinta-feira última,  17 de maio,  aos 87 anos, na cidade do México, vítima de um câncer nos rins. Seu corpo foi cremado em uma cerimônia privada e restrita à família. Metade das cinzas ficou com o  México, a outra  com a Colômbia, Gabriel Garcia Márquez, chamado de Gabo pelos amigos, nasceu no dia 6 de março de 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia, não muito distante de Barranquilla.

García Márquez ganhou sucesso internacional após a publicação do romance "Cem anos de solidão", em 1967. Para o grande romancista peruano Maria Vargas Llosa, o livro foi considerado o maior acontecimento da novela depois de “Dom Quixote”, de Cervantes. Exemplo máximo do realismo fantástico – gênero característico do boom latino-americano da segunda metade do século XX –, "Cem anos de solidão" se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha, ao longo de gerações, a saga da família Buendía.

Dalton Trevisan, um dos mais importantes autores brasileiros no século XX,  não conteve seu entusiasmo ao ler “Cem anos de  solidão”, chegando a afirmar que  o Brasil merecia um romancista como Gabriel Garcia Márquez. A obra-prima de García Márquez  vendeu, até hoje, mais de 50 milhões de exemplares. Foi traduzido para 35 idiomas. Enquanto isso, entre os títulos mais conhecidos do autor de “Cem anos de solidão”, estão ainda  "A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada", "O outono do patriarca", "Crônica de uma morte anunciada", "O amor nos tempos do cólera", "Do amor e outros demônios", "Memórias de minhas putas tristes", “Ninguém escreve ao coronel”, “O Veneno da Madrugada” e “Olhos de cão azul”.

Sobre “O amor nos tempos do cólera”, Garcia Márquez comentou ter sido a época em que foi quase completamente feliz. “Gostaria que minha vida fosse como naqueles anos em que escrevi 'O amor nos tempos do cólera'", afirmou ao “New York Times”, três anos após a publicação do romance. Nesta obra,  o autor resgata a verdadeira história da paixão de seu pai, também Gabriel, por Luiza, sua mãe. O pai dela  não aceitava a relação e conspirava contra a união. No romance, o casal se chama Florentino e Fermina. "Todas essas coisas para mim são parte da nostalgia. Nostalgia é uma fonte incrível para inspiração literária e para inspiração poética”, observou na mesma entrevista ao “New York Times".


Além de romancista,  Garcia Márquez é contista e novelista de fatura exemplar. Imaginação fecunda e narrativa fluente são marcas definitivas no comportamento de sua escrita. Tem inúmeros contos que participam em importantes antologias internacionais do gênero. Certa vez declarou que suas influências são Virgínia Woolf. Ernest Hemingway, “As mil e uma noites” e seu pai. É dele a frase de que é fácil lembrar quando se tem a memória. Difícil é esquecer quando se tem o coração.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Um Fotógrafo Exemplar





Emerson Trindade Carregosa, o nome de batismo, mas é conhecido como seu Emerson, o fotógrafo mais antigo da cidade.  Aquele que vem há muito tempo gravando a vida de gente e paisagem urbana  na foto, mas que bem sabe ser a melhor imagem a que a mente grava. O coração recolhe para sempre,  dado que essa imagem de tão sensitiva detém o tempo e com suas cores próprias pulsa dentro de nós enquanto dure a vida.
Nascido em 30 de junho de 1918, na cidade de Paripiranga, Bahia. Perdeu o pai aos quatro anos de idade. Começou a trabalhar com o seu tio quando tinha apenas doze anos de idade. O tio era dono de uma fábrica de calçados. Antes de se dedicar à arte de fotografar, foi modelador de calçados, vendedor de apólices de seguro da previdência e capitalização, escrivão do júri e execuções  criminais.
Veio para o Sul da Bahia em maio de 1948 quando então passou a vender ampliações fotográficas. Foi residir em Itajuípe e, na antiga Pirangi,  casou com Estelita. Dessa união teve sete filhos. Montou uma fábrica de calçados em Itajuípe. Desquitou-se mais tarde e retornou com os filhos para a sua terra natal, pensando em criá-los junto à sua família. Tempos depois resolveu voltar para o Sul da   Bahia, onde passou a residir em Itabuna e aqui encontrou sua segunda mulher, Bernadete, que o auxilia até hoje em sua atividade cotidiana de fotógrafo.
De primeiro abriu uma loja de calçados  na avenida Cinquentenário, no prédio onde está instalado o Lord Hotel. Anos mais tarde passou a exercer a profissão de repórter fotográfico. Nenhum dos filhos seguiu essa última e definitiva profissão do pai. Inclinação vocacional que o levou a fazer um projeto de vida. Fez como fotógrafo importantes coberturas de eventos. Eleição da itabunense Maria Olívia Rebouças como Miss Brasil., de Telma Brandão como Miss Bahia e a enchente do rio Cachoeira em 1967, que derrubou casas ribeirinhas e invadiu a avenida do comércio, alcançando a marquise dos prédios.  
  Para um homem de oitenta anos de idade, seu Emerson mostra-se lúcido, encontra-se bem de corpo e alma. Sua lucidez, que emerge de um homem simples,  sem qualquer vestígio de truculência com os ressentimentos da vida,  une-se  sem esforço à ausência da intriga  e ambições pessoais desmedidas, que se direcionam na trama do caráter negativo para anular os outros. Sem rancores e pesares, não procura destruir quem tem valor no exercício da arte de fotografar.  É bom aprender com ele que qualquer um pode viver e alcançar metas sem atropelar os demais. Reconhecer o que o outro traz de positivo  à vida deve ser  um das posturas éticas  de cada um,  comprovando-se por isso mesmo que somos de fato humanos, seres dotados da razão e  emoção,  diferentes dos bichos. Amar o outro gera a flor sonora da solidariedade, verdade e honestidade, nesses tempos tão banidas do convívio humano.  Os gestos de seu Emerson, assim desprovidos de ventos malignos,  causam admiração a quem vê.  Sabe-se que as mais antigas fotos que ele logrou tirar da cidade  formam um acervo muito rico. São bonitas e  naturais,  nelas são vistos fatos marcantes que aconteceram na cidade ao longo dos anos.  
 Com tantos anos dedicados à arte da fotografia, mais de cinqüenta, é justo reconhecer que o fotógrafo Emerson tornou-se  uma personalidade cultural importante na cidade. Ele vem prestando serviços relevantes à comunidade e por isso recebe o apreço dos concidadãos, que o consideram um mestre na arte de fotografar os itabunenses,  sob os instantes da vida que passa, debaixo de sol ou chuva.  
Seu Emerson manteve funcionando durante quarenta e sete anos  seu estúdio, localizado na Avenida Cinquentenário, 437. Fechou o estabelecimento há três anos. Funciona hoje na própria residência, situada na Rua Francisco Ferreira da Silva, 517, bairro de Fátima. Lá continua  fotografando a vida para iluminar seres e coisas ao redor de nós mesmos. Sua arte tem o privilégio de apresentar  um momento  de nossa existência nos ritos do cotidiano ou de flagrar a paisagem exterior  como reprodução agradável  do que vemos.
De tal sorte ela consiste em preservar  nossa humanidade salva   durante muito tempo,  isenta do esquecimento pelos ossos do tempo.   






                            

terça-feira, 8 de abril de 2014

Os 100 Anos da Saraiva


 Este ano, no dia 13 de dezembro, o Grupo Saraiva completará 100 anos. Em comemoração, está  elaborando algumas ações que serão realizadas ao longo do ano. Uma delas é a criação de um hotsite para divulgação dessas ações. E, nele, irá  também publicar depoimentos de pessoas que fizeram parte dessa história. Maria Regina de  Mello, do departamento de Marketing, solicitou-me um depoimento, contando brevemente um pouco de minha  história como autor publicado pela Saraiva e o que representa fazer parte desse centenário.

Leia, a seguir, meu breve depoimento.
“Publicar um livro por uma editora tradicional e expressiva como a  Saraiva  torna-se um prêmio dos mais importantes para o autor de livros infantis. Quando o autor está em começo de carreira, esse prêmio é ainda mais fascinante. Foi o que aconteceu comigo. O fato ressoou dentro de mim como algo que de repente se transformou de sonho em realidade, envolvendo-me com suas ondas cheias de alegria.
Tudo começou quando enviei  para o conselho editorial da Saraiva  os originais de O Menino Camelô  em 1991. Tive a grande satisfação de saber que meu livro havia sido aprovado para participar na Coleção Mindinho e Seu Vizinho, a qual estava sendo criada à época  pela doutora Samira Youssef. Ano depois, tive uma surpresa agradável.  O livro ganhou o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes, considerado como o melhor do ano nas letras infantis brasileiras.
  De lá para cá, O Menino Camelô  já alcançou mais de  doze edições. Vendeu mais de 120 mil exemplares. Circulou nas livrarias e na sala de aula de escolas brasileiras. Foi adquirido por programas de órgãos de educação e cultura do governo brasileiro. Foi assim o livro que me lançou como escritor nacional e me incentivou a continuar na jornada literária.
Já publiquei cinqüenta livros,  quarenta e dois no Brasil e oito na Europa. Desse conjunto quatorze  são para crianças.  Além de O Menino Camelô, de poesia, publiquei mais quatro livros infantis  pela Saraiva, todos eles com reedições:  O Circo do Cacareco, Histórias do Mundo que Se Foi, O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol, O  Menino  e O Trio Elétrico,  que foi também publicado na Itália. Vários poemas meus foram extraídos desses cinco livros e estão inclusos em antologias e livros de didática infantil.
Um autor é mais conhecido quando mais divulgado por editora séria no circuito nacional. É o que sempre acontece comigo quando o selo editorial no meu  livro é da Saraiva.   
Felicito o grupo Saraiva pelos 100 anos de existência, de intensa divulgação e celebração do livro, numa amostra exemplar  de que o mesmo continua vivo, embora sofra a mudança de suporte hoje. A contribuição exemplar do Grupo Saraiva em prol da nossa cultura ressalta que o Brasil é possível,  com pessoas e livros, como já dizia Lobato”.   

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Livro “O Goleiro Leleta
Nas Escolas Brasileiras”



O livro "O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol", de Cyro de Mattos, Editora Saraiva, que ganhou o Prêmio Adolfo Aizen Hors Concours da União Brasileira de Escritores (Rio), em 2002, foi adotado pelo Colégio Militar de Itabuna para ser estudado em sala de aula, neste ano de Copa do Mundo,  perto de ser realizada no Brasil. O livro que já vinha tendo várias reedições pela Saraiva,  está sendo adotado dessa vez em escolas do sul da Bahia, Salvador e São Paulo. No Museu do Futebol da Arena Maracanã, Rio, “O goleiro Leleta” encontra-se em exposição permanente, ao lado de livros sobre futebol, de Ziraldo e Bartolomeu Campos Queirós, mestres da literatura infantil brasileira.  

terça-feira, 25 de março de 2014

FALECEU O EDITOR E POETA RENZO MAZZONE

Faleceu, no dia 13 de março, na Sicilia, Itália, o editor e poeta Renzo Mazzone, diretor da Editora Ila Palma, em Palermo. Residiu vários anos no Brasil, nas décadas de setenta e oitenta, continuando a vir a São Paulo periodicamente, até o final do século. Tinha muita afeição pelo Brasil e aqui, ligando-se particularmente à União Brasileira de Escritores, fez amizades no meio intelectual. Traduziu e publicou muitas obras de escritores e poetas brasileiros, lançando livro de autoria do então Presidente da República – José Sarney – e de autores novos. E através da revista trimestral Spiragli publicava, praticamente em todos os números, poetas e contistas brasileiros.
Embora doente e alcançando os noventa anos de idade não deixava de levar ao italiano trabalhos dos nossos escritores e poetas. Preparava atualmente uma antologia de poetas nacionais, um mapeamento de valores do norte ao sul do País.
A União Brasileira de Escritores promoveu-lhe uma merecida homenagem em sua sede, no dia 18 de setembro de 2013, quando do lançamento do livro de poesias da poetisa Maria de Lourdes Alba (vertido para o italiano) pelo muito que ele fez e continuava fazendo para divulgar, na Itália, a moderna literatura brasileira.
Prometia sempre rever o Brasil, que considerava sua segunda pátria.
A União Brasileira de Escritores, em nome da sua diretoria e associados, registra, com pesar, o falecimento desse editor e poeta italiano, que tanto fez pela divulgação das nossas letras na Itália.
E continua a UBE a manter contato com os herdeiros para que essa vinculação permaneça viva.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Dois Lembretes
Florisvaldo Mattos

  
  O GRANDE SOM ENTRE SURDOS

O artista, poeta e compositor Bené Fonteles publica artigo hoje (A Tarde, Opinião, llA3) de máxima clarividência, amplo conhecimento de técnicas e história musical e maior ainda oportunidade, no qual lamenta não estar vendo ou sentindo qualquer iniciativa de dimensão à altura em comemoração ao centenário de Dorival Caymmi, um ícone da música popular brasileira, de expressão nacional  e internacional  (inicialmente pela voz de Carmen Miranda e dele próprio, e depois de Dick Farney e de um sem-número de intérpretes, inclusive o grande artista da bossa-nova e também baiano, João Gilberto. O texto é um libelo contra as faltas de memória e desídias, público e privada. Cita algo calamitoso que pelo menos a mim me passou, lembrando que “Caymmi não foi homenageado no carnaval deste ano”, e diz desconhecer se “há alguma mostra dedicada a ele, como se fez para Luiz Gonzaga em 2012 no Palacete das Artes”.
Embora em nível com a dimensão merecida, eu sei de uma programação: em agosto, mês de transcurso do centenário de nascimento de Caymmi, serão promovidos na Academia de Letras da Bahia um seminário sobre ele e sua obra e uma cerimônia solene em homenagem  à sua memória. Mas, mesmo reconhecendo a altura desse gesto da ALB, convenhamos que é ainda muito pouco, em face da altitude significativa da data.
Invoco os préstimos de quem bem maneja esses trabeculados de internáutica, que eu, pobre troglodita virtual, não possuo, para tentar reproduzir na íntegra o precioso texto de Fonteles, aqui no Facebook. Como mero antepasto, limito-me a transcrever a sua peroração final, para que se perpetuem as canções e a memória de Caymmi, filho  e obá de Xangô,  para as novas gerações:
“Fazê-lo renascer em nossa memória, recriar de forma instigante e contemporânea suas criações e avivar sua voz forte e original é dever de todos nós”.
Eu completo, parafraseando, um slogan presente em miríades de placas e propagandas de TV:
“Por uma Bahia de todos nós”.  Mesmo cheia de nós, os reais e intrincados...

POETA JACINTA PASSOS

E vem mais aí, não mais um chamamento aos surdos, mas à própria inteligência de arte literária, e espero que, neste caso, os setores públicos não mais se enrosquem em metros de arame farpado. Em novembro, ocorre o centenário da poeta Jacinta Passos (1914-1993), a mais expressiva voz poética da esquerda brasileira, primeiro pondo a sua voz no combate ao nazifascismo e, simultaneamente, por ser figura de proa do Partido Comunista Brasileiro, com vários livros publicados nos anos 40 e depois. É filha de Cruz das Almas (por isso, talvez por lá não a esqueçam). Eu fico a cavaleiro nisso, pois em 1989, quando presidente da Fundação Cultural no governo Waldir Pires, por ingerência dos fados, como disse em um artigo, empenhei-me pela reedição de seu principal livro "Canção da Partida", de 1945, e estava totalmente esquecido, com uma poesia que falava diretamente, em nível lírico, aos sentimentos populares. É hora de o pessoal se movimentar para render homenagem à memória dessa grande poeta, pioneira da poesia feminina de esquerda no Brasil.


sexta-feira, 21 de março de 2014

       Copa do Mundo 70

                    Carlos Drummond de Andrade
I

Meu Coração no México


Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:
Que é do meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,
instalou-s, discreto, num cantinho
qualquer, entre bandeiras tremulantes,
microfones, charangas, ovações.,
e de repente, sem que eu mesmo saiba
como ficou assim, ele se exalta
e vira coração de torcedor,
torce, retorce e se destorce todo,
grita: Brasil! Com fúria e com amor.


II

O Momento Feliz

Com o arremesso das feras
e o cálculo das formigas
a seleção avança
negaceia
recua
envolve.
É longe e em mim.
Sou o estádio de Jalisco, triturado
de chuteiras, a grama sofredora
a bola mosqueada e caprichosa
Assistir? Não assisto. Estou jogando.
No baralho de gestos, na maranha
na contusão da coxa
na dor do gol perdido
na volta do relógio e na linha de sombra
que vai crescendo e esse tento não vem
ou vem mas é contrário... e se renova
em lenta lesma de replay.
Eu não merecia ser varado
por esse tiro frouxo  sem destino.
Meus onze atletas
são onze meninos fustigados
por um deus fútil que comanda a sorte.
É preciso lutar contra o deus fútil,
fazer tudo de novo: formiguinha
rasgando seu caminho na espessura
do cimento do muro.

Então crescem os homens. Cada um
é toda a luta, sério. E é todo  arte.
Uma geometria astuciosa
aérea, musical, de corpos sábios
a se entenderem, membros polifônicos
de um corpo só, belo e suado. Rio,
rio de dor feliz, recompensada
com Tostão a criar  e Jair terminando
A fecunda jogada.

É gooooooooool  na garganta florida
rouca exausta. Gol no peito meu aberto
goll na minha rua nos terraços
Nos bares nas bandeiras nos morteiros
gol
na girandolarrugem das girândolas gol
na chuva de papeizinhos  celebrando
por conta própria do ar: cada papel,
riso de dança distribuído
pelo país inteiro em festa de abraçar
e beijar e cantar
e gol legal é gol natal é gol de mel e sol.

Ninguém me prende mais, jogo por mil
jogo em Pelé o sempre rei republicano
o povo feito atleta na poesia
do jogo mágico.
Sou Rivelino, a lâmina do nome
cobrando fina, a falta.
Sou Clodoaldo rima com Everaldo.
Sou Brito e sua viva cabeçada,
cm Gerson e Piazza  me acrescento
de forças novas. Com orgulho certo
me faço capitão Carlos Alberto.
Félix, defendo  e abarco
em meu abraço a bola e salvo o arco.

Como foi que  esquentou assim o jogo?
Que energias dobradas afloraram
do banco de reservas interiores?
Um rio passa em mim ou sou  o mar atlântico
passando pela cancha e se espraiando
por toda a minha gente reunida
num só vídeo, infinito, num ser único?

De repente o Brasil ficou unido
contente de existir, trocando a morte
o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste
por um momento puro de grandeza
E afirmação no esporte.
Vencer com honra e graça
com beleza e humildade
é  ser maduro e merecer a vida,
ato de criação, ato de amor.
A Zagalo, zagal prudente
e a seus homens de campo e bastidor
fica devendo a minha gente
este minuto de felicidade.

sábado, 15 de março de 2014


                        Gente Pobre de Dostoievski
                          
                           (Cyro de Mattos)
             
            Dostoievski era homem da cidade, um intelectual pequeno-burguês, que possuía  uma alma espiritualista ligada à interpelação da vida sob as manifestações do bem e do  mal. Nessa dicotomia religiosa era que concebia os caminhos de uma libertação com base  no evangelho e nas visões filosóficas de um cristianismo angustiado. Segundo Otto Maria Carpeaux, “a sua obra inteira é um protesto apaixonado contra o determinismo que lhe parecia o fundamento do materialismo ateu.” (Conf. História da Literatura Ocidental, V, pág. 2532)       
         Gente Pobre, romance de estreia de Dostoievski, foi considerado o  primeiro romance social da literatura russa. O livro causou sensação no meio literário e cedo trouxe a glória ao autor, que  passou a fazer amigos com gente da alta sociedade. As obras que vieram depois de Gente Pobre foram consideradas de nível inferior: O Sósia, A Hospedeira e O Senhor Prokharttchine.
        Em Gente Pobre, os primeiros passos de um escritor com uma arte voltada para o psicologismo das camadas  inferiores transitam por entre as pulsações que exprimem a aflição e a humilhação de uma gente infortunada. Nesse romance de autor estreante   é percebido, em  nível expressivo de criação literária, uma das tônicas da ficção que Dostoievski iria desenvolver ao longo de sua obra,  associada ao que há de dramático e sofrido no curso doloroso da vida. Na inventiva do jovem romancista,  aflora o sofrimento de uns pobres diabos participando  de um cenário retirado de um dos bairros miseráveis de São  Petersburgo.
         Ficou bastante  conhecido  o que disse Dostoievski ao jovem Merejekowski, de quinze anos, que ao lhe visitar  leu seus versos: “Para escrever bem, é preciso sofrer, sofrer.” Dostoievski sempre soube que dor é vida, os outros sofriam como ele porque todos estavam na vida. Certa vez, na voz de um de seus personagens, chegou a  um desabafo quando disse que lá embaixo, na outra terra, não podemos amar senão com dor, e somente através da dor.
         Este sofrimento integral conheceu Dostoievski em longa pena de trabalhos forçados, durante os  anos  que passou  na prisão da Sibéria, quando então teve conhecimento pela primeira vez de  todo tipo de criminoso. Experimentou  nas regiões infernais do jogo, na danação das dívidas, na falência, na humilhação, na doença da epilepsia, nas desilusões de uma vida amorosa, nas verdades pessimistas  que iriam formar seu espírito inquieto e atormentado, inclinando-o, na progressão de sua obra,  às auscultações místicas, à exacerbação do  psicológico e ao credo permanente na Arte.                                    
        Gente Pobre é um romance de estrutura simples com uma narrativa também de fácil apreensão. Descreve o que são  os dias de desalento vividos pelo funcionário Makar, um homem de meia-idade, e Varvara, moça desonrada e órfã.  Dostoievski faz uso da troca de cartas entre os dois personagens para que a vida como um espelho reflita o comportamento afetivo de duas criaturas tristes,  quase na indigência. Informa assim na aparente superfície das coisas  sobre duas vidas no infortúnio,  conscientes de que o pior era  viver na incerteza, sem saber nada do que seria deles em seu estado de penúria.
        As camadas superiores na Rússia desse tempo seguiam um ritual que anunciava  as pessoas vestidas em indumentária nobre, fazendo questão que fossem notadas  seu brilho no exercício dos privilégios. Era importante nas pessoas esse brilho quando  compareciam aos grandes e pequenos  acontecimentos. Marginalidade, pobreza, força do destino determinado por Deus, sobre todos esses parâmetros, fazem com que Dostoievski realize a cortante incursão na alma humana para transmitir nas entrelinhas as profundidades de um imoralismo social.  Longe de ser  panfletário, muito menos de ter uma escrita política afastada do estético, em Gente Pobre já acontece um Dostoievski imbuído daquela percepção de que a arte se torna plena de significados quando comprometida  com as verdades essenciais da vida, combinando as feridas sociais com as atribulações da alma, Sem dor e solidão, angústia e outros males da alma,   torna-se um produto fútil, que alimenta  vaidades e faz o elogio do ornamento.     

domingo, 2 de março de 2014

O Poeta Menelau

              Ainda não conhecia o fundador da Confraria dos Poetas de Burundanga. Exercia o mandato de presidente pela décima vez, sempre eleito por aclamação. Também com ele a regra era seguida à risca, só era poeta quem pertencesse ao ilustre quadro de membros efetivos da confraria.  Quem não tivesse o salvo-conduto, não imaginasse ser considerado como um verdadeiro poeta.
Era de estatura pequena, pescoço grosso, cabeça grande. Dentuço e nervoso. Tinha o sestro de sacudir a cabeça várias vezes quando estava dizendo um poema. Era amigo do prefeito, para quem  dedicava sempre dois ou três poemas no dia de seu aniversário. Assinava uma coluna no Diário da Burundanga na qual comentava livros de poesia, apenas os volumes dos confrades. Contente, ali era um espaço ideal para publicar seus comentários literários ou  poesia de dez a vinte estrofes. O que não deixava de ser uma boa oportunidade para disseminar sua glória, quase dizia vaidade, mas isso não calhava com seus brios de poeta talentoso, segundo ele.
 Gostava muito de fazer poemas longos, curtos só os de circunstância. Detestava o hai-cai, coisa insignificante, de poeta minimalista, sem inspiração, habilidade no estro, alienado, cultor de fórmulas orientais para  compor o verso. De outras gentes que nada tinham a ver com a magnífica poesia cultivada por ele e os poucos leitores, que eram os mesmos integrantes da confraria.   
Quando se dirigisse a ele, só admitia que fosse chamado  poetão Menelau. Vá lá, poetastro, nada de poeta ou poetinha, isso não condizia com a grandeza de seu estro, que tinha como marca supimpa as rimas mais instigantes. Por exemplo, coração com mamão, tesouro com besouro, presepada com batucada, cachoeira com besteira, facão  com anunciação, porrete com macete, camaradagem com garagem, alegria com pirataria, jereré com pontapé.
Estava abastecendo o carro com gasolina no posto. De súbito apareceu aquela cabeça grande na janela do motorista, os olhos rutilantes como se quisessem saltar do rosto ossudo.
Disse com entusiasmo:
-  Soube que você publicou um livro de poesia na França.
- Sim – eu disse.
Emendou sem pestanejar:
- Mas isso não é a glória. Não é trunfo para se achar  um verdadeiro poeta.
Meio assustado, disse que a glória não me preocupava. A imortalidade era uma fórmula usada pelos membros de uma academia.        
- Você precisa aparecer lá na confraria dos poetas da terra, retornou e insistiu na lembrança. - Precisa se filiar ao grupo. Se não tiver em nosso meio, nem se considere poeta.
E recitou o que ele chamava do mais recente poema de sua imbatível inspiração. Uma zorra com versos que rimavam coração com cheiro de manjericão, pele morena com embriaguez serena, e por aí seguia. Informou que os versos candentes desse poema ou o que fosse lá o que fosse tinha inspiração na sua bela Aurora, mulher,  companheira e eterna musa.
        -  Quer ouvir outro poema?
        Comecei a suar, apressando-me  em ligar o carro para  me livrar das investidas poéticas do Menelau.  Para sorte minha, ouvi o frentista dizer, no outro lado,  para que ele tirasse seu carro, que o tanque já estava cheio. Ele não deu ouvido. Começou a dizer outro poema, apesar de meu conselho para que fosse tirar o seu carro, o frentista já estava irritado de tanto pedir isso, tinha gente na fila querendo abastecer o veículo.  Foi o que me salvou. O poeta Menelau, o grande, antes que me esqueça, saiu chateado com aquela inconveniente interrupção à sua elevada dicção para soltar a verve,  que emergia, naquele instante, do encontro não marcado com um simples fazedor de versos.
         O poeta Menelau ainda lembrou antes de sair:
          - Apareça lá na confraria dos poetas.
          E arrematou com o peito cheio e cabeça nervosa:
          - Junte-se a nós e vá em frente como um verdadeiro poeta.