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domingo, 23 de maio de 2021

 

Negrinha Benedita 

 

Por causa

dum frasco

de cheiro

apanhou

de chibata.

Os outros

assombrados

não puderam

fazer nada.

 

Sem andar

dias ficava.

Quando sarou,

falou ao vento

que ia embora.

Pelo mato

foi voando,

escapou

da cachorrada.

Teve sede,

teve fome,

levou espinho

pela cara.

 

Para trás

não olhava.

Com uma

espada afiada

que lhe deu

uma mão oculta

um dia viu

no quilombo

que ali era

a sua morada.

 

Aconteceu

que depois

a cabeça

da sinhá

amanheceu

decepada.

Ninguém viu

como se deu

na escuridão

daquela noite

a revanche

assim marcada.

Por causa

dum frasco

de cheiro

que ela pegou

pra ser cheirada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 16 de maio de 2021

 

                      Mais Um Título de Glória

                                      Cyro de Mattos

 

          O Bahia é tetracampeão do Nordeste no formato atual do campeonato. Ganhou dessa vez na disputa de pênaltis, dois a um no tempo normal, contra o Ceará, lá em Fortaleza, cancha do rival. É bom lembrar que quando a Confederação Brasileira de Futebol criou a Taça Brasil o Bahia foi o primeiro a conquistar o título inédito de campeão brasileiro. Derrotou quem, quem mesmo? O Santos de Pelé, na Vila Belmiro e depois  no palco lendário do Maracanã, na terceira partida melhor de três.   

Para disputar o título de campeão brasileiro com o Santos, o Bahia teve antes que se sagrar campeão do Nordeste. Várias vezes foi o vice-campeão da Taça Brasil e, em consequência, muitas vezes campeão do Nordeste. Naquele tempo era assim, o campeão do Nordeste disputava o título de campeão brasileiro com o time que vencesse o torneio   disputado entre os campeões do Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.

  Lá estava o Bahia no pódio da glória eterna. O primeiro time nordestino a pisar no tapete verde do Maracanã. O primeiro a se sagrar campeão brasileiro numa jornada épica.   

Outro feito notável foi aquele em que se sagrou campeão brasileiro na disputa do título contra o Internacional. Dois a um na Fonte Nova. Zero a zero no Beira-Rio. Sabe quem era o goleiro do Internacional? Tafarel. Ele mesmo, de quem o narrador Galvão Bueno gostava de dizer, sai que é sua, Tafarel! Aquele mesmo goleiro que tempos depois iria se consagrar como pegador de pênalti quando vestia a camisa da Seleção Brasileira. Seria para muitos o maior goleiro da Seleção Brasileira. Contra a Itália pegou até pênalti nas batidas para saber quem era o país campeão mundial.    

Bahia! Bahia! Bahia! Escuto do povo o clamor, o grito que salta de seu hino vibrante e lateja no meu coração.  Mais um Bahia, mais um Bahia, com glória é assim que escreves a história, pois nasceste para vencer, renascer das sombras quando as nuvens da vitória decidem se movimentar ao contrário. O torcedor não precisa se irritar, logo as nuvens do azar hão de passar. Não custa esperar, não precisa andar de cabeça baixa, torcedor do Bahia na derrota é como vara de bambu, enverga, mas não quebra. O grito conhecido certamente irá aparecer com todas as forças que o amor é capaz de reunir.  É campeão! É campeão! É campeão!

          Como esquecer a primeira vez que vi jogar esse time chamado pelo torcedor de esquadrão de aço? Foi no velho Campo da Desportiva, de minha cidade natal. Foi contra o Flamengo local. Bahia quatro a um. Não podia ser diferente, também pudera, um time profissional da Capital contra um time amador do interior. O resultado não podia ser outro. Nessa partida que até hoje ficou na mente como memorável brilhou no Flamengo o talento do craque itabunense Léo, que seria depois um atacante dos melhores no Fluminense carioca e campeão da Taça Brasil pelo Bahia.

           Foi aí que conheci pela primeira vez, naquela partida amistosa para comemorar o aniversário da cidade, alguns craques do tricolor baiano, como o lendário goleiro Leça, o incansável Gereco, um driblador impossível, o ponteiro-esquerdo Isaltino, dono de um chute violento, preciso, indefensável, o zagueiro Arnaldo, saía sempre da área com a bola tratada com fineza.  Foi naqueles instantes de domínio da bola com classe que o menino, torcedor do Flamengo local, ficou com os olhos arregalados, saiu encantado do estádio lotado com as jogadas dos craques do Bahia.

        Ah, meu Bahia, foi paixão que, no primeiro olhar, nascia de calça curta na cancha da Desportiva, um modesto campo do interior, e que seria levada tempos depois com grandeza e entusiasmo pelos estádios monumentais do Brasil.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

 

AS GARÇAS

                                                        Cyro de Mattos

 

Chegaram sem avisar e se instalaram em alguns pontos do rio. Ficam espalhadas sobre as pedras e nos locais onde existem baronesas cobrindo as águas empoçadas. Permanecem aos grupos, no trecho em que o rio dá uma volta grande e começa a se despedir da cidade, rumo ao mar, depois da  Ponte Velha. Dizem que escolheram para a dormida as árvores grandes de uma ilha no meio do rio. Falam que apareceram aqui para o acasalamento. Alguns discordam, achando que vieram em busca de alimento. Com o desequilíbrio que vem ocorrendo constantemente no ecossistema, comenta-se que tiveram de buscar novo pouso onde pudessem se alimentar.

O rio há meses está seco. Com as águas empoçadas, em muitos trechos coberto de baronesas, os peixes vêm à superfície em busca de ar, tornando-se presa fácil das garças. Se elas vieram em busca de alimentos como querem alguns, ou de novo sítio para o acasalamento como defendem outros, as divergências deixam de existir num ponto em que todos esperam que aconteça para sempre. As garças não devem mais sair do rio. Em seus perfis brancos e passos pernaltas, trouxeram novo visual ao rio, onde quer que estejam, nas pedras pretas, ilhotas e baronesas. Solitárias ou em pequenos grupos.

Essa é a primeira vez que elas aparecem por aqui. Com os seus voos serenos já fazem parte da vida da cidade. Em sua pose vertical para a foto ou quando uma delas desliza como nave em seu voo lindo, de noiva do azul.  É comum se ouvir falar sobre elas nos bares, esquinas, barbearias, ao longo das margens entre os ribeirinhos. São notícias nos jornais, rádios, nas duas emissoras de televisão.

Com a represa que fizeram próxima à ponte velha, o rio teve a sua paisagem modificada. Deixaram de existir as lavadeiras que estendiam as roupas nas pedras pretas e ofereciam de graça um espetáculo diversicolorido, sob a luz forte do sol de verão. Os tiradores de areia não passam mais com os jumentos carregados de latas de areia, rumo às construções próximas e bairros distantes. Com a represa, a paisagem do rio tornou-se monótona, principalmente no trecho em que o Cachoeira corta a cidade em duas partes. Agora, somente um extenso local d’água no curso sereno do rio, com a represa que construíram para evitar que o velho Cachoeira se espraiasse nas margens, invadindo a cidade, quando da cheias grandes.

Elas sobrevoam pela manhã esse extenso lençol d’água, dando um visual de encanto e paz. Amenizam a paisagem feia do rio, que, chorando água, recebe agora, em muitos pontos, uma matéria viscosa deixada pelos esgotos. Comenta-se que o rio já teve muitos peixes e que, há algumas décadas, a sua água nas correntezas era clara. Você via no leito do rio peixinhos e pedrinhas redondas.

Grandes e pequenas, bico amarelo ou preto, as garças vivem aos bandos. Moram nos rios, lagoas, charcos, praias marítimas, manguezal de pouca salinidade. Alimentam-se quase só de peixes. Branco caminho de trilhas aladas, sou daqueles que acreditam que as garças tenham trazido certa paz a algumas pessoas. Certo bem-estar, por alguns instantes, a algumas pessoas que andam com os passos sofridos nos dias atuais. Ante a onda de violência, corrupção, carestia da vida e fome.

Vertical foto anuncia ave ou asas no tempo vestido de branco, vejo as garças no voo suave, trazendo ondas pela campina amada. Levam-me nos dias sem mancha. Natural que eu me junte à vontade de muitas pessoas desejando que as garças fiquem no rio para sempre. Nunca nos deixe com essa canção branca, nesse sonho da manhã que alveja graça.

                                            

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 2 de maio de 2021

 

             


               A Saga Marinha de Fernando Pessoa*

                                 Cyro de Mattos

 

A saga portuguesa de expansão marítima é contada em versos por Fernando Pessoa no único livro que publicou em vida: Mensagem (1934).  Foi escrito entre os anos de 1920 e 1930, em forma de uma epopeia fragmentada, composta de quarenta e quatro poemas. Fernando Pessoa expressa neste livro o elogio de grandes vultos históricos, refere-se à vontade de Portugal de querer lutar contra as adversidades, ultrapassar os abismos que Deus ao mar deu.

 

            O sonho de ver as formas invisíveis

 Da distância imprecisa, e, com sensíveis

 Movimentos da esprança e da vontade,

 Buscar nas linhas do horizonte

                    A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -

                    Os beijos merecidos da verdade.

 

.      Nesses versos é visto o sentimento nostálgico mesclado de grandeza, enquanto em outros ocorre o apelo de além: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.”

       Mensagem divide-se em três partes: Brasão, Mar Português e o Encoberto. A primeira possui várias vozes, que se integram para celebrar a história de Portugal e enaltecer os seus fundadores. Estrutura-se como o brasão português, constituído por dois campos, um apresentado por sete castelos, já o outro formado por cinco quinas.  A coroa e o timbre estão no topo do brasão, a se apresentar com o grifo, animal mitológico que tem cabeça de leão e asas de águia.

       Com essa divisão, tendo o brasão como referência, os poemas versam sobre os grandes personagens históricos, desde Dom Henrique, fundador do Condado Portucalense, passando por sua esposa Dona Tareja e seu filho Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, até o infante Dom Henrique (1934-1460), fundador da Escola de Sagres, grande fomentador da expansão ultramarina portuguesa, e ainda aludem a Alfonso de Albuquerque (1462-1515), dominador luso do Oriente. Na galeria dos grandes personagens, os versos dispostos em uma partitura trinitária propõem até o mito de Ulisses, que teria fundado a cidade de Ulissepona, depois denominada Lisboa. O poeta usa o paralelo imagístico quando se refere a esse assunto:

 

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo.

         

          Em “Mar Português”, segunda parte do livro, o poeta investe contra o que fosse acaso ou vontade ou até mesmo temporal. Leia-se a propósito do assunto esse lamento cheio de dor, um dos mais pungentes da poesia portuguesa sobre o ciclo das descobertas marítimas:

 

                   Ó mar salgado, quanto de teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram.

Quantos filhos em vão rezaram.

Quantas noivas ficaram sem casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

      Depois de se perguntar se a jornada de natureza épica valeu a pena, o poeta em versos de saber eterno, que correm o mundo, levados através da linguagem coletiva, em nível de fala, responde que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.            

      Seu pensamento reflexivo acrescenta:

 

                   Quem quer passar além do Bojador

                   Tem que passar além da dor.

         

          Em “O Encoberto”, terceira parte de Mensagem, vemos o mito sebastianista do retorno de Portugal às épocas de glória. Alude o poeta agora ao misticismo em torno da figura de Dom Sebastião, rei de Portugal, que teve a frota dizimada em ataque aos mouros, em 1578. Muitas previsões, como a do sapateiro Bandarra e a do padre Antônio Vieira, formulam nesse trâmite espiritual o retorno de Dom Sebastião para resgatar o poderio de Portugal. Anunciam a nova terra e os novos céus, quando então fica criado o Quinto Império, que marca em definitivo a supremacia de Portugal sobre o mundo.

          O sentimento nacionalista permeia os poemas de Mensagem. Uma estrofação com base no elogio aflora da alma gentil do poeta, os versos ressoam uníssonos para ferir objetivos universalistas, como facilmente podem ser detectados nesse padrão de técnica literária. Classificada pela crítica como ode trinitária, nessa obra o poeta propõe sua mensagem com o cerne da nobreza, formula uma antítese na posse do mar, que antes existia com seus medos, mistérios e assombros, incide numa síntese através da futura civilização, com apetências e aderências por mares nunca antes navegados, de tal modo também nos informou Camões, representadas dessa vez na voz da terra que ansiou o mar.

          O eu poético em Mensagem prevê que o futuro da Europa está além-mar, o agente dessas descobertas marítimas será Portugal. O poeta imagina a Europa com um corpo de mulher. Estendida, ela tinha um de seus cotovelos, o direito, fincado na Inglaterra; o outro, esquerdo, recuado, na península italiana; cabendo a Portugal ser o rosto.  Pode não ter sido o rosto, mas a posição geográfica de Portugal, pequena faixa de terra voltada para a imensidão do Oceano, à sua frente, que condicionou seu destino ultramarino durante quase cinco séculos.

 

*In “Encontros com Fernando Pessoa”, do livro Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, Cyro de Mattos, no prelo da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

PESSOA, Fernando.  Obra poética, Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1960.

SIMÕES, Maria de Lourdes Netto (org.). Navegar é preciso, coletânea, Editus/UESC, Bahia, 1999.

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

 

Cyro de Mattos Doou Setenta

Livros de Seu Canto Poético

Para as Bibliotecas do Estado

 

 

O escritor e poeta Cyro de Mattos doou setenta exemplares do livro Canto até Hoje para as bibliotecas e espaço de leitura do Estado.  O livro reúne sua obra poética completa, em comemoração aos 60 anos da sua carreira literária. Tem o selo editorial da Fundação Casa de Jorge Amado e capa de Juarez Paraiso. Volume de 800 páginas, foi vencedor do Concurso das Artes Jorge Portugal, da FUNCEB/Lei Aldir Blanc, e contém  12 livros de poemas de Cyro, publicados no Brasil, cinco inéditos e mais seis editados no exterior.

           Traz no final um conjunto de ensaios sobre a sua obra poética, assinados por Jorge Amado, Nelly Novaes Coelho, Assis Brasil, Eduardo Portella, Carlos Moisés, Fernando Py, Heloisa Prazeres, Hélio Pólvora, Helena Parente Cunha, Maria Irene Ramalho dos Santos, Graça Capinha, essas duas da Universidade de Coimbra, Alfredo Pérez Alencart, da Universidade de Salamanca, e Juan Angel Torres Rechy, filólogo e poeta mexicano.

 

terça-feira, 20 de abril de 2021

 

                     Dez Anos da Academia de Letras de Itabuna

                                       

                                   Cyro de Mattos

 

A Academia de Letras de Itabuna, carinhosamente chamada ALITA, foi instalada em 19 de abril de 2011, data em que se comemora o Dia do Índio, esse primeiro habitante do Brasil, que com a sua gente indefesa foi usurpado e massacrado pelo colonizador europeu, e que até hoje caminha nos rastros da desgraça. Essa instituição está cumprindo hoje dez anos de atividades na área das letras e do saber. Tudo aconteceu quando, depois de exaustivas reuniões, na sede da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, da qual eu era o presidente, ela foi criada numa manhã de alegria, tendo como patrono o escritor Adonias Filho.  

 A ideia de sua criação veio em razão da dissidência que tive na primeira reunião para a instalação da Academia Grapiúna de Letras, pois não me sentia bem com as perspectivas na constituição do quadro de associados daquela primeira instituição. Logo depois os juízes de direito Marcos Bandeira e Antônio Laranjeiras afastaram-se também da Academia Grapiúna de Letras, e, com o promotor Carlos Eduardo Passos, voltaram a insistir comigo para que fosse criada outra academia de letras em Itabuna.

          Resisti a princípio quanto à minha participação na segunda academia, depois resolvi aderir à ideia por amor a Itabuna e devoção à literatura. Cedi a sala de diretoria da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania para as reuniões preliminares. Em nossos primeiros encontros discutimos a respeito do quadro de patronos e de membros efetivos, sobre a elaboração do estatuto e do regimento. As confreiras Sônia Maron e Sione Porto tiveram papel importante na confecção desses documentos.  Indiquei a maioria dos nomes para compor o quadro de patronos e de membros.

        A Academia de Letras de Itabuna vem se mantendo com dificuldades, ao longo desses dez anos. Sem recurso financeiro para responder aos seus propósitos, Deus sabe como teima em existir com base na determinação e sonho de alguns abnegados. Destacam-se, nessa fase de sua infância, entre as suas atividades principais, os eventos seguuintes:

            Solenidade de instalação no salão nobre da FTC, com o presidente da Academia de Letras da Bahia, o escritor Aramis Ribeiro Costa, dando posse aos novos acadêmicos   Janete Ruiz, Antônio Laranjeiras, Carlos Eduardo Passos, Cyro de Mattos, Rui Póvoas, Carlos Valder, Ari Quadros, Ceres Marylise, Sione Porto, Sônia Carvalho Maron de Almeida, Maria Palma de Andrade, Maria de Lourdes Neto Simões, Marcos Bandeira e Baísa Nora; a criação do site com  destaque para as atuações de Ceres Marylise no início e ano depois   Raquel Rocha;  programação especial do  Centenário Jorge Amado; Mês da Consciência Negra, com o tema Códigos da Pele, no terreiro de candomblé do professor e babalorixá   Rui Póvoas; comemoração do Dia do Índio; posse dos acadêmicos  Hélio Pólvora, Edivaldo Brito, Celina  Santos, Raquel Rocha, Jorge Batista,  Ritinha Dantas, Raimunda Assis, João Otávio, Silmara Oliveira, Delile Moreira,  Cristiano Lobo, Aleilton Fonseca e Renato Prata; criação da logomarca  “Litteris Amplecti”, Letras em Abraço; lançamento dos livros  Atalhos e Descaminhos” , de Ceres Marylise, Corpo e Alma, de Sione Porto,  Sendas e Trilhas, de Delile Moreira, Entre Margens, de Margarida Fahel, O Canto Contido, de Valdelice Soares Pinheiro, Histórias Dispersas de Adonias Filho,  Os  Ventos Gemedores, romance, e O Velho Campo da Desportiva, os dois  últimos livros de nossa autoria; o Natal da Alita no espaço cultural do Montepio dos Artistas; Projeto Roda de Leitura, de autoria de Raquel Rocha, com  contação de histórias pelos alitanos nas escolas; participação na comemoração do Centenário de Adonias  Filho em Itajuípe; e o lançamento de três números da revista Guriatã, da qual fui idealizador e sou o editor atual.      

           Nesses dez anos de ousadia e sonho, ressalte-se na presidência da Academia a atuação dos juízes de direito Marcos Bandeira e Sonia Carvalho e, atualmente, da professora Silmara Oliveira, que vem recorrendo à realização de “lives” para a discussão de assuntos internos e temas importantes, como o do legado de nosso patrono Adonias Filho e o da situação do menor na sociedade de hoje.                         

         Nesse percurso de dedicação e sacrifício, não se pode deixar de agradecer à Faculdade de Tecnologia e Ciência, na pessoa de seu diretor geral Cristiano Lobo, nosso confrade, pelos serviços que nos vem prestando em parceria generosa.  

        Apesar dos tempos difíceis, agravados com a traição da noite exercida sem piedade pelo coronavírus, e até mesmo como resistência em nossa cidadela do saber para ser, exorto nesse instante a caminhada árdua dessa instituição, dizendo contente, avante, ó Academia de Letras de Itabuna, com o seu espírito de corpo constituído de valores indiscutíveis e formas de conhecimento da vida  desde o seu amanhecer, andamento para o bem das letras e grandeza da cultura local, da Bahia e do Brasil. Concluo minha breve exposição, talvez com formato de crônica, lembrando os versos de Fernando Pessoa, o genial poeta português:

 

Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

 

domingo, 18 de abril de 2021

 

COIMBRA

 

Cyro de Mattos

        Para

                               João Paulo Moreira

                          

 Logo que conheci, tocou-me o coração. Fez lembrar a antiga Salvador. Grandes casas de muitas janelas nas encostas. Ruelas, becos e ladeiras. Tudo é relíquia preciosa nessa paixão secular, a vida aflora em ofícios de outros tempos. Transpira na pele do tempo aderência de seres e coisas numa sequência soberba de raridades arquitetônicas.

Na Alta de Coimbra a rainha do coração da cidade, a Universidade, fundada em 1º de março de 1290. A Torre desponta como o seu emblema e da própria cidade, mal o dia mostra os primeiros vestígios. A mulher no hotel disse-me que um dos sinos, numa das grandes janelas, chamado de “a cabra”, regulou a vida acadêmica e da cidade durante muitos anos. A Torre emerge num sobranceiro barroco, a sobressair na linha dos telhados.

A Biblioteca Joanina distingue-se também na Alta de Coimbra. Obra de artistas portugueses, com o seu portal nobre no exterior, de estilo barroco. Cobertos por sólidas estantes as paredes no interior. Ricamente decorado o andar superior com três amplas salas. Decoradas com talha lacada a verde, vermelho e dourado, comunicam-se entre si por arcos idênticos ao portal que na parede superior ostentam insígnias das antigas Faculdades. Formas arquitetônicas da ilusão impressionam, a revelar o milagre do fazer a vida além da morte, de maneira artística. O edifício começou a ser construído por ordem do Rei D. João V, entre 1716 e 1724. Abriga riquíssimo conjunto bibliográfico mundialmente famoso, superior a trezentos mil volumes.

A cidade cantada nas histórias que encantam guarda uma atmosfera de recolhimento. Altares em formas de tessitura humana artisticamente trabalhada e o órgão barroco. A Sé Velha assenta-se num monumento românico considerado o mais belo de Portugal. Ali, a Igreja de Santa Cruz. Fundada há mais de oitocentos anos pelo primeiro rei de Portugal,  D. Afonso Henriques, foi berço esplendoroso da renascença Coimbrã. Ali, a Igreja de São Tiago e a Praça do Comércio para onde convergem ruas medievais. E o Arco de Almedina e as escadinhas do Quebra-Costas e a Porta Manuelina do Palácio de Sub-Ripas e a Torre do Anto. E a silhueta monumental da Sé Nova e o Museu Nacional Machado de Castro, com suas admiráveis coleções de pintura, escultura, ourivesaria e tapeçaria. E, junto à margem esquerda do rio Mondego, a Igreja de Santa-Clara-A-Velha, abrigo maternal do imponente Mosteiro de Santa-Clara-a-Nova, onde repousa a Rainha Santa Isabel, a padroeira da cidade.

Estende-se belíssimo manto branco de casario na cidade cruzada por séculos e séculos de história, que aconchega nas serenatas de fado de Coimbra e suaviza em seus beirais floridos. Faz da noite criança adormecida de sono nas cantigas cantadas pelas vozes jovens de As Mondeguinas.

Comoventes vozes, alternância de vagas tristes e remotas, que batem e voltam e batem. No aceno da distância amanheço com esses raios de sol no quarto e vou até a sacada do apartamento no hotel. Ruídos acendem o dia, acontecem em geral com os humanos por todos os pontos da cidade cheia de vida.

Saudade e paixão, saber e beleza, labor e oração. Inteligência que se vê em líquido sentido no espelho real do rio Mondego. À margem o provisório tempo secular ante o eterno que passa por debaixo dos arcos da Ponte de Santa Clara. Melhor sabem isso as andorinhas que trissam no céu azul. Desfiam o vento ameno e propõe sobre os telhados outra manhã de verão.

 

 

 

 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

 Morre em São Paulo, aos 84 anos, o Acadêmico Alfredo Bosi


“A tanta dor, soma-se a morte do admirável acadêmico Alfredo Bosi. Sou tomado de profunda emoção. Nem encontro palavras. Escrevo com olhos marejados. Bosi: um homem de profunda erudição, humanista inconteste, um homem que estudou o Renascimento e que o representou. Realizou uma abordagem nova da cultura do Brasil. Dialética da colonização é um clássico desde o nascedouro. Sem Ecléa, sua querida companheira, o mundo ficou mais áspero, ele, o suave, o profundo e delicado espírito. Sabia Dante e Machado, com a mesma intimidade, Gadda e Guimarães Rosa. Em tanta dor, essa que nos fere. Jamais relegou a segundo plano os direitos civis e as liberdades. Amado amigo, fraterno, radical.”, declarou o presidente da ABL, Marco Lucchesi.
 
O Acadêmico e professor Alfredo Bosi faleceu na manhã do dia 7 de abril de 2021, em São Paulo, vítima de pneumonia associada a Covid-19. Diante da recomendação de se evitar reuniões e aglomerações por conta do coronavírus, não haverá velório.

“A tanta dor, soma-se a morte do admirável acadêmico Alfredo Bosi. Sou tomado de profunda emoção. Nem encontro palavras. Escrevo com olhos marejados.  Bosi: um homem de profunda erudição, humanista inconteste, um homem que estudou o Renascimento e que o representou. Realizou uma abordagem nova da cultura do Brasil. Dialética da colonização é um clássico desde o nascedouro. Sem Ecléa, sua querida companheira, o mundo ficou mais áspero, ele, o suave, o profundo e delicado espírito. Sabia Dante e Machado, com a mesma intimidade, Gadda e Guimarães Rosa. Em tanta dor, essa que nos fere. Jamais relegou a segundo plano os direitos civis e as liberdades. Amado amigo, fraterno, radical.”, declarou o Presidente da ABL, Acadêmico Marco Lucchesi.
 
O Acadêmico
 
Alfredo Bosi é o sétimo ocupante da Cadeira nº 12. Foi eleito em 20 de março de 2003, na sucessão de Dom Lucas Moreira Neves, e recebido em 30 de setembro de 2003 pelo acadêmico Eduardo Portella. O Acadêmico nasceu em São Paulo (SP), em 26 de agosto de 1936. Foi casado com a psicóloga social, escritora e professora do Instituto de Psicologia da USP, Ecléa Bosi, com quem teve dois filhos: Viviana e José Alfredo.
 
Descendente de italianos, logo depois de se formar em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), em 1960, recebeu uma bolsa de estudos na Itália e ficou um ano letivo em Florença. De volta ao Brasil, assumiu os cursos de língua e literatura italiana na USP. Embora professor de literatura italiana, seu interesse pela literatura brasileira o levou a escrever os livros Pré-Modernismo (1966) e História Concisa da Literatura Brasileira (1970).
 
Em 1970, decidiu-se pelo ensino de literatura brasileira no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, da qual foi Professor Titular de Literatura Brasileira. Ocupou também a Cátedra Brasileira de Ciências Sociais Sérgio Buarque de Holanda da Maison des Sciences de l’Homme (Paris).
 
Foi vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP de 1987 a 1997. Nesse último ano, em dezembro, passou a ocupar o cargo de diretor. Entre outras atividades no IEA, coordenou o Educação para a Cidadania (1991-96), integrou a comissão coordenadora da Cátedra Simón Bolívar (convênio entre a USP e a Fundação Memorial da América Latina) e coordenou a Comissão de Defesa da Universidade Pública (1998). Desde 1989 era editor da revista Estudos Avançados.
 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 

Amado Galileu

Cyro de Mattos

                                                             Para Alfredo Perez Alencart

          

                  Contam que nasceu numa manjedoura, o berço de palha. Foi anunciado por uma estrela, no céu toda acesa de Deus. Os bichos cantaram: Jesus nasceu! Jesus nasceu! Os pastores tocavam uma música serena nas suas doces flautas. São José, o pai, o que tinha mãos no labor de enxó, plaina e formão, soube que de agora em diante ia talhar a mais pura fé do seu constante coração. Virgem Maria, mãe do menino, dizia baixinho: Pobrezinho quando for um homem, de tanto nos amar, vai morrer na cruz.

      Os três reis magos foram chegando, vieram de longe, muito longe, atravessaram montanhas e desertos. Traziam, como presente para o menino, mirra, incenso e ouro. Ajoelharam-se. Não eram dignos de tocar naquela palha, mas bastava agora que fizessem o bem ao próximo seriam salvos. Abelhas com os seus zumbidos de ouro vieram colocar afeto e mel no coração de cada um dos reis.

    Contam mais que foi um menino que brincava como qualquer menino, mas que gostava de ficar às vezes sozinho, olhando para a linha do horizonte. Quando ficou rapaz, não teve dúvida, havia sido o escolhido entre os seres humanos para ultrapassar aquela linha. Para conseguir a façanha teria que fazer uma mágica em que disseminasse uma rosa na manjedoura dos ares. Juntar todas as mãos numa só mesa onde todos seriam irmãos.

     Teve que trazer as sementes dadas pelo Pai para plantar cirandas nas areias do deserto. Os sentimentos daquele homem com olhar de mendigo e profeta correram nas águas doces do rio, seguiram no vento manso, que soprou a flor sozinha na plantinha do brejo. Foram levados pela borboleta até o lugar onde o amor sempre permanece.

      Ora, vejam só, sair por aí de mãos dadas como criança e espalhar num instante só ternura nessa terra? Convencer os homens de que viver vale a pena desde que a vida seja exercida numa comunhão em que não haja desigualdade, injustiça, opressão? A vida sem solidão, a vida como uma dança, a vida sem agressão? Os bichos sem matança e a mata sem queimada? Sem veneno as nuvens na chuva despejando a poluição?

     Os donos do poder no sistema organizado não perdoaram a afronta. Traçaram o mais pérfido calvário. Fizeram que carregasse uma cruz pesada. Puseram uma coroa de espinho na cabeça, cuspiram, chicotearam. Ó desamor, quão amarga é a tua memória! Morra o rebelado, o falso profeta, o demolidor da ordem, o falso fazedor de milagre? Os que estavam cegos investiam, urravam, não se cansavam. Até que decretaram a crucificação. Não aceitaram que no seu lugar ficasse o ladrão, que para ali fora apenado com a crucificação pelos crimes cometidos.

      Mas o que se viu, depois de perversa infâmia, é que até hoje toca um sino na cidade e na campina, só para nos dizer que do menino se fez o homem, em duras pedras no caminho. Vestido de aleluias, ressuscitou, ressuscitou, por ser divino e eterno só nos quer o bem.

     Esse amado galileu.

segunda-feira, 29 de março de 2021

 

Obras de Myriam Fraga

são digitalizadas

 

A poeta e acadêmica Myriam Castro Lima Fraga (1937-2016), que muito engrandeceu a literatura baiana, terá toda a sua obra disponibilizada em site, uma escritora premiada e reconhecida pela força do seu texto poético, sendo a sua obra uma referência e objeto de estudos acadêmicos. Muitos de seus livros tiveram uma edição reduzida e há tempo se fazia necessária a criação de um site onde as publicações em formato de e-book ficassem acessíveis e a sua fortuna crítica estivesse contemplada.

Myriam deixou uma obra com mais de 20 livros publicados entre poesia e prosa, além da participação em dezenas de antologias, no Brasil e no exterior. Assim é que está sendo lançado o Selo Myriam Fraga, pela Editora Oiti, com curadoria de Bete Capinan, e Angela Fraga, sua filha e atual diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelô. Ele visa divulgar e perpetuar a obra da imortal baiana, especialmente diante da crescente demanda de interesse de estudos em torno da sua poesia e de sua trajetória.

O projeto conta com o apoio financeiro do estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon, pelo Programa Aldir Blanc Bahia, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Myriam conviveu com importantes escritores e artistas, em especial com o escritor Jorge Amado e o artista plástico Calasans Neto, que ilustrou seus livros e foi um de seus parceiros na criação da lendária Editora Macunaíma. Como administradora e de vida cultural intensa, ela foi uma das instituidoras da Fundação Casa de Jorge Amado, em 1986, e sua diretora por 30 anos; além de acadêmica, foi vice-presidente da Academia de Letras da Bahia, na gestão do centenário da instituição do Palacete Góes Calmon, no bairro de Nazaré, quando presidida pela professora e acadêmica Evelina de Carvalho Sá Hoisel.

quarta-feira, 24 de março de 2021

 

                 A Poesia com Afeto de Afonso Manta

                                                   Cyro de Mattos

                                         

Antologia Poética (2013), de Afonso Manta, é uma publicação da ALBA, editora da Assembleia Legislativa da Bahia, em parceria com a Academia de Letras da Bahia. O livro está inserido na Coleção Mestres da Literatura Baiana. Pela primeira vez um livro do poeta de Poções recebe uma publicação digna de sua lírica. Seus livros tiveram edições por gráficas e editoras pequenas do interior, fazendo com isso que sua poesia circulasse no ambiente de amigos e poucos leitores. Tornaram-se raridades bibliográficas. 

Essa Antologia Poética agora faz jus ao conhecimento e expansão de um poeta que tem um brilho inusitado, capaz de enlouquecer as flores, aprofundar as cores, tornando-se, no trânsito da ternura, como um anjo em voo do infinito.  Chegou a nos dizer que quando essa noite passar com o seu manto de trevas, numa “sinistra gaiola comendo o alpiste do dono... com seus frios caracóis de angústia e desesperança, praga dos que vivem sós... faz teu canto na manhã, que todo dia traz luz. E não é vã, não é vã.”

É fácil perceber que a poesia de Afonso Manta flui pelos caminhos da esperança, da ternura expressa por uma linguagem simples longe do vulgar, ao invés disso se apresentando com a palavra tomada emprestada ao encantamento. Toca-nos sem arroubos, nos versos simples sem pieguismo, encanta o pensamento e o sentimento com leveza, dizendo com nitidez sobre a tristeza diáfana. Nos momentos de sonho produz mel e ingenuidade, que confortam e possibilitam uma carícia de brisa. Em muitos casos usa a rima, a estrofe apoiada no verso que soa e fere a vida através das notas da contradição humana. Mostra a alma fragilizada de um homem sensitivo, que ao se ver no espelho flagra como está cansado de tudo.

Se a poesia no Brasil repercute no século vinte com o que tem de melhor na clave da solidão, intensa nos conflitos, em questões complexas, em Afonso Manta conserva-se nos ares ingênuos, embora de interioridades profundas, como na explícita certeza desses versos:

 

 Vale a pena viver, mesmo sofrendo.

Eu mesmo vivo assim, triste gemendo,

Escravo da ilusão e da beleza.

 

Essa é a maneira do poeta estar na vida com sinceridade, ter como base, apesar da dor, as construções de conteúdo inocente, guardadas pela alma de um cantor prisioneiro do menino, bebedor de umas doses de extravagância, mas sem maldades, a exalar a consciência do dever cumprido, banhar-se com as luzes de uma musa portadora de canários verdes na varanda. Entre a ordem e a vertigem, do viajante que transita para o último gemido, Afonso Manta tece seus poemas de versos harmoniosos. Escreve uma poesia clara, com a alma de um poeta que só precisa de um pouco de sonho para equilibrar-se em seus rumos e rumores loucos, de “estrelas na testa de rapaz” para que suas angústias fiquem serenas. Só assim, com a mansidão das amargas, o poeta se dará por contente.

Se tudo isso aqui onde vivemos é ilusão, para quem queira ler e ouvir a poesia de Afonso Manta vai saber como esse poeta foi um homem digno de seu estar no mundo, corajoso conforta-nos quando assume sua maneira de andar sozinho com os seus versos delicados para o alimento da alma, intenso de saberes, sustentando-o como um homem real, que transita na vida pela rua da solidão e do sonho com matizes do lilás. Vai senti-lo em dado momento aos frangalhos, mas consciente de que não precisa ser rico, nem ter crédito na praça, pois convive com o vento que o agita interior e largado. No poema “O Realejo do Vinho”, esse poeta sabe como a vida é falha, mas basta quando o torna com os cabelos devastados, rosto, sorriso e palavra.

Na fatura do soneto Afonso Manta é modelar, raro inventor de sentimentos na frase iluminada.  Qualquer um deles surpreende pela simplicidade da rima, condução nítida da ideia, o fluxo espontâneo que nos torna cúmplice da palavra simulada com emoção e simbolismo.  Libertos de sua camisa de força imposta pelo formato clássico, vemos como tamanha é a habilidade de sua elaboração por um mestre, que não se veste com a roupa compositiva de sua estrutura fixa. Faz com fluência que transmitam sentimentos doloridos, os ares do que é triste, que se encontrará sempre na paz do espírito redimido.   Assim o poeta procede em “O Rei Afonso”.

 

Aqui, o rei Afonso, o Derradeiro,

Vê naus que não são mais as naus do porto.

São já as naus febris do sonho morto

No mar tão vasto como traiçoeiro.

 

Aqui, o mesmo rei, também chamado

Restaurador do Império Agonizante,

Perde para o inimigo, doravante,

O reino duramente conquistado.

 

O rei, flor-de-lis santa e vulnerável

Ferido pela dor inevitável,

Perdoa a punhalada do assassino

 

E morre sem palavra de desgosto,

Mostrando paz até o fim no rosto,

A mesma paz dos tempos de menino... 

 

Louco esse poeta vestido do pôr do sol, mas que tinha uma rosa na cabeça?  Bicho estranho que não queria morrer enquanto existisse estrelas cintilando no céu e o pássaro cantando? Homem da lua, triste divagando pelas ruas da Bahia? O que tocava o violino nas solidões de sua cidade natal com as cordas do sorriso? Ousado guerreiro, dispersivo, que tudo arriscava num momento veloz e passageiro? Um detentor de humanas paixões, que morreu sereno e forte? 

 Era poeta que tinha um olhar vago, de mendigo e sonhador, de aspecto excessivo de profeta.  Banhava-se nas águas da esperança. Não há quem não desperte enriquecido quando se entra em contato com a sua lírica de alto nível, não se deixe encantar com o prontuário iluminado onde não morre a solidão solidária, imaginada nos toques do amor.  Quanta simplicidade em versos que enleiam, rumorejam com generosidade, primam por relâmpagos que nos mostram da vida verdades. Poeta de alma com doces soluços, brilhantes abraços da cor dos lírios, dos jasmins com seus inebriantes perfumes. Oferta, na chuva que bate nas orelhas, incandescentes ternuras naquele lugar onde a esperança não morre.  

No poema “De Um Rabisco”, de fino humor, os versos como se fossem para serem lidos em dia de riso, Afonso Manta alerta:

 

Há que deixar em paz o poema.

Ou o poema nos afeta.

O poema há de ser perfeito.

Ou ele come o poeta.

 

No seu caso, o poema, por ser perfeito, alimenta a alma, comete a catarse de curar como o melhor alento. 

 

Leitura Sugerida

 

*Antologia Poética, Afonso Manta, Editora da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia – ALBA, em parceria com a Academia de Letras da Bahia, Coleção Mestres da Literatura Baiana, organização, seleção e prefácio de Ruy Espinheira Filho, Salvador, 2013.