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sábado, 30 de outubro de 2021

 

                Nosso Amigo Livro

     Cyro de Mattos

 

O livro é esse amigo que nos acompanha há séculos, possibilitando o crescimento interior. Conhecemos outras vozes do mundo com esse amigo. Inauguramos a vida com novos olhares, superamos vícios e medos. Sabemos de casos que divertem, viajamos por longes nunca conhecidos. Damos voo à razão através da linguagem que usa para cada tipo de leitor. Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito de solidões, angústias e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filósofo, cientista ou poeta. É necessário o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo na sua companhia, a vida fica mais fácil. Matamos até a morte. 

Gosta de se mostrar nas livrarias. O lugar mais digno para acomodá-lo em nossa casa é a biblioteca. Quem não tem poder aquisitivo para adquiri-lo, pode achá-lo em uma   biblioteca pública. Lá está nas prateleiras o amigo solidário, esperando nossa visita para uma conversa útil. Mostra muitas coisas numa cumplicidade que informa, dá prazer, encanta. Faz aparecer paisagens impossíveis, que vão entrando na medida em que uma página puxa a outra.

Livro xilografado, impresso com pranchas de madeira gravadas. Em rolos de papiro e também de pergaminho, no Egito. Nas telas de seda da China. Recolhido em manuscritos, no trabalho paciente e anônimo dos bibliotecários de Alexandria. Livro da sabedoria, do Antigo Testamento. Filosófico, científico e literário. Repositório do pensamento humano, dos povos para os povos, de geração em geração, com seus rumores milenares.

Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna, com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar a existência e conhecer o outro ficam menos falhos. 

          O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho que a fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois para a vida rejuvenescido.

De cabeceira ou de bolso, o livro é esse fiel amigo por vias e arredios, capaz de dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita.  

Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu Jorge Amado, o  romancista do mundo, e o poeta Telmo Padilha,  os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.

No outro dia, encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão Além dos Marimbus, de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes, Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote, A Metamorfose, de Kafka, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva, que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um sol tímido.

Aqueles livros haviam sido adquiridos com o dinheiro da mesada que o pai mandava para o moço do interior na Capital, onde cursava a Faculdade de Direito. Outros foram comprados nos meus anos de jornalista no Rio de Janeiro. Meu coração sentia um tremor quando descobria um desses amigos na vitrina, balcão ou prateleira de livraria, acenando-me para que fosse adquiri-lo. 

À noite peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva extrair sentidos da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.  

De uns tempos para cá, a incorporação dos meios eletrônicos na sociedade fez com que o livro mudasse o suporte.  A versão digital de um livro impresso é o livro eletrônico. É adquirido por meio de download para ser lido no monitor do seu micro e impresso na sua impressora. Entre as vantagens dessa migração do livro, você pode ter uma biblioteca no seu micro. Usar o dicionário em instantes durante a leitura. Encontrar trechos com rapidez de segundos.

Por motivos alheios à sua vontade, em caso de uma pane no circuito de energia elétrica, você pode perder sua biblioteca digitalizada no abrir e fechar do olho. Uma pena.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

 

Luta, revolta e poesia em Os Ventos Gemedores

 

Raquel Rocha

 

O livro Os Ventos Gemedores, do escritor Cyro de Mattos, que ganhou o Prêmio Nacional de Ficção do Pen Clube do Brasil, relembra um Brasil de outrora, que de alguma forma ainda é o mesmo Brasil. Porque os tempos mudam, as armas mudam, as guerras mudam, mas os anseios e a ganância dos homens continuam os mesmos.

 

O livro é ambientado nas terras do Pati, pertencente ao território do Japará, condado criado pelo imaginário do autor, com todas as cenas, movimentos e personagens rústicas, mas que lembra o Sul da Bahia, na época de coronéis, jagunços, mata fechada, miséria e opressão. Nesta terra sem lei nos deparamos com o Vulcano Brás, senhor de todas as terras, e o vaqueiro Genaro que decide ir de encontro ao dono de tudo.  Uma luta entre as gentes de Vulcano Brás com seus cabras e os que trabalham na terra em regime de escravidão  é estabelecida numa demanda  em que o mais forte sempre venceu.

 

O mergulho psicológico que Cyro de Mattos faz nos seus personagens nos envolve na leitura: o conformismo de uns, a inocência de outros, a coragem de muitos.

 

Em um belíssimo trecho dessa obra conhecemos os medos de Almira e a revolta do seu esposo Genaro: “Que adianta fazer esta revolta, Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte”. Ele responde “A pior derrota é daquele que não luta”, acrescentando que “onde ninguém faz nada contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter nada na vida”.

 

Aparício Pança Farta vai de encontro à violência que se espalha no povoado: “Cada um nesse mundo cumpre sua sina. (...) Liberdade ganha com sangue não tem presteza.”, ele diz.

 

Na nona parte do livro, “Ultimas Ordens”, Cyro da Mattos revela o desejo do poderoso Vulcano Brás quando vê que lhe resta pouco tempo de vida, o de atingir a imortalidade de seu nome e de sua história: “As dores no peito aumentaram no último ano de sua vida. Numa dessas crises ele chamou Edivina e falou que queria ser enterrado no cemitério da Vila do Pati. Cuidassem de colocar na sepultura o seu busto para que todos se lembrassem dele, comentassem sobre suas andanças e audácias pelas terras do Japará. Morre o homem fica a fama. Era assim que se imaginava depois de morto, admirado em razão dos amplos domínios conquistados, coragem e pulso forte.”

 

O livro todo tem essa linguagem poética que é uma marca do escritor Cyro de Mattos.

Ele nasceu  no município de Itabuna, no Sul da Bahia, em 31 de janeiro de 1939. Jornalista, poeta, romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, autor de livros infantojuvenis. Diplomou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1962. Dentre seus 80 livros publicados, destacam-se: Os Brabos, O Menino Camelô, Cancioneiro do Cacau, Os Ventos Gemedores e Vinte Poemas do Rio. Seus livros são estudados em universidade, adotado nas escolas brasileiras e sofre reedições constantes. Vários deles foram adquiridos pelos programas educacionais do Governo. É também editado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha e Dinamarca. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.  

 

 

 

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 

Editora Universitária do Paraná

Publica Livro de Cyro de Mattos

Sobre Quinze Autores Universais

 

Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, de Cyro de Mattos, é o novo lançamento da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná. O livro reúne quinze estudos sobre autores clássicos universais, tem capa do desenhista Juarez Paraíso e prefácio de Gerana Damulakis.  Membro da Academia de Letras da Bahia, este é o quarto livro de ensaio do autor baiano, que já publicou oitenta livros de diversos gêneros.  

Autor editado também em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca, Cyro de Mattos faz neste novo livro de ensaios a análise dos autores seguintes: Tchekhov, Aldous Huxley, Fernando Pessoa, Dostoiévski, Kafka, Scott Fitzgerald, Gabriel García Márquéz, James Joyce, Jorge Luís Borges,  José Saramago, Julio Cortázar,  Miguel Torga, Sherwood Anderson, Sophia de Mello Breyner Andresen e William Faulkner.

Para Cyro de Mattos, esses quinze autores formam um conjunto de vozes sob a clave da solidão, que nas visões de mundo convidam-nos a habitar o imaginário por meio da contemplação dos sonhos. Nos vícios da solidão, remete-nos à impossibilidade da fuga no drama, à perda de identificação sob o domínio do ilógico, aos labirintos no curso sem saída, à convivência das neuroses, à catarse na dor, simbolizando o real pior do que ele é.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

 

                 DESENHOS DE ÂNGELO ROBERTO

                            Juarez Paraíso

 

Ângelo Roberto é conhecido na Bahia como um Mestre do Desenho. São mais de cinquenta anos de pratica intensiva na área do desenho de bico de pena, da ilustração e da caricatura. Embora tenha domínio da programação visual e da técnica de murais, pode-se dizer que Ângelo Roberto é essencialmente um desenhista, pela dedicação quase exclusiva e constante. Pertence à segunda geração de artistas modernos da Bahia, década de 1960. Realizou o curso oficial de pintura e os cursos livres de gravura, cerâmica e escultura da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, tendo convivido com   Riolan Coutinho, Helio Oliveira, José Maria, Henrique Oswald, Udo Knoff, Mendonça Filho, Mario Cravo Junior, Rescala, e muitos outros notáveis artistas, responsáveis, como ele mesmo, pela internacionalização da arte moderna na Bahia.

          O desenho é linguagem artística basilar, utilizada pelos artistas através dos tempos e em todas as áreas da realização plástico-visual. Como forma independente de linguagem plástica, emancipa-se a partir do Renascimento e com pontas de metal, grafites, tintas, luz, materiais tridimensionais, incisões, técnicas as mais diversas, tradicionais ou ultra modernas, realiza com os suportes apropriados a forma concebida pelo artista. Vencidos os preconceitos impostos pela ausência da cor e características do desenho acadêmico como expressão da forma sobre o suporte bidimensional, desenho linear, (do desenhista), de manchas (do pintor), de contrastes volumétricos, (do escultor), Picasso desenha com a luz e, na arte contemporânea, incluindo a fantástica contribuição do computador, vale qualquer recurso, vinculado ou não ao hibridismo reinante. Mas no momento em que são inventadas e disputadas as técnicas mais sofisticadas como desejo e marca de atualização técnica, o que mais seduz nos Desenhos de Ângelo Roberto é justamente a simplicidade dos meios, dos recursos técnicos. Prevalece a inteligência e a sensibilidade das soluções formais, transcendendo os limites do desenho tradicional para uma concepção comprometida com o conceito de design, pela presença constante da estruturação da forma, no sentido mais amplo do dualismo figura-fundo e da criatividade plástica.                          

Depois de desenhar os mais variados temas, Ângelo Roberto concentra-se no desenho de cavalos. São 30 desenhos de excepcional qualidade plástica, formando um indivisível conjunto pela atração mutua de suas unidades. É como uma sequência cinematográfica, onde cada fotograma tem a sua autonomia e independência estética.  Elegância, agilidade, força, beleza e expressividade plástica é o que simboliza o cavalo, tema que desde a pré-história tem sido constante na história da arte. Em perfeita sincronização com a natureza, o artista transcende a beleza do animal, eternizando-a através dos processos da abstração plástica.

          Ângelo Roberto é principalmente um artista da linha e do tracejado, das impressionantes tramas de bico de pena. O contraste elegido é simples, mas eficaz. O completo domínio artesanal do artista tece uma incrível tessitura gráfica, um incrível trabeculado, estrutura linear composta por traços pacientemente superpostos, com mais ou menos transparência, jamais obstruindo a passagem da luz que emana do papel. A volumetria é reduzida e controlada com sutileza e o segredo está no controle da transparência e da natureza da textura visual, na dependência da acumulação e posição espacial do tracejado retilíneo, sendo notável as passagens da luz entre as figuras e o fundo. Mestre do bico de pena, Ângelo Roberto já produziu centenas de desenhos de grande beleza plástica (gráfica). Com os atuais desenhos demonstra uma prodigiosa imaginação e memória visual no desafio de um só tema e com o máximo de economia dos recursos materiais. Um sensível e intenso sentimento de harmonia emana da conjugação de linhas, atraindo o movimento do olhar, seduzido pela suavidade do ritmo criado pelo artista. A expressividade plástica sobrepõe-se à simples configuração temática, graças ao desenho despojado e contemplado pelo talento do artista, pela depurada percepção seletiva e notável poder de síntese, próprio dos grandes desenhistas figurativos.

A anatomia natural é substituída pela anatomia artística. Assumindo a posição de frontalidade para as imagens naturais, o artista concebe a redução da cabeça conferindo mais força e elegância corporal. Com magistral interpretação, Ângelo Roberto utiliza-se do movimento continuo para a configuração básica da imagem virtual do cavalo, representando a  sua energia incontida, e, mesmo em posicionamento estático, o movimento dirigido cria as tensões visuais necessárias para a estruturação  rítmica do conjunto.  A dimensão do desenho torna-se espaço-temporal. O artista alcança a síntese dos movimentos pela constante modulação da linha, com dimensões e intensidades precisas e, ao contrário do congelamento da reprodução fotográfica do movimento, Ângelo Roberto pratica com talento e maestria os processos de abstração da forma natural, através da linha, das deformações dimensionais e da abstração monocromática.

Nos atuais desenhos, o artista introduz suavemente a cor em alguns desenhos, mas também como forte contraponto à estrutura gráfica, quando o círculo de cor intensa cria um novo e poderoso fulcro de atração visual, com tendência a monopolizar a atenção do perceptor, não fosse a atração irresistível da riqueza formal dos cavalos. Ao contrário, contribui para intensificar o jogo de tensões visuais, enfatizando as distensões e contrações do movimento dirigido, do ritmo criado pelo artista. O círculo também cria o espaço cenográfico e de integralização temática, definindo a concepção espacial dos desenhos em termos de dupla composição, pois a visualização plástica imediata realiza-se no bidimensional pela frontalidade das imagens e pelo suporte branco do papel, branco que também pode ser percebido como profundidade espacial expandida para os limites da imaginação, quando interpretado o círculo como o Sol.

 

Juarez Paraíso

Artista plástico, Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia, Membro da Academia de Letras da Bahia e da Associação Brasileira de Críticos de Arte

 

 

 

sábado, 2 de outubro de 2021

 

Livro O Gigante e a Bicicleta

de Fernando Leite Mendes 

Será Lançado pela ALI dia 14

 

           O livro O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas, de Fernando Leite Mendes, coletânea organizada por Cyro de Mattos e Ivo Korytowski para resgatar a memória e o valor do esquecido cronista ilheense será lançado pela Academia de Letras de Ilhéus, online, no dia 14 de outubro, às 19 horas.

O lançamento remoto contará com a participação de Pawlo Cidade (mediador), Cyro de Mattos, Ivo Koritowski, Jane Hilda Badaró e Wilson Leite Mendes, o filho do cronista.

O livro traz capa da desenhista Jane Hilda Badaró e tem o selo editorial da Via Litterarum, do editor Agenor Gasparetto. Para o escritor e poeta Cyro de Mattos, Fernando Leite Mendes, que nos deixou aos 48 anos, nada deve aos cronistas melhores de sua época, década de 50 no Rio de Janeiro, como Carlinhos Oliveira, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Drummond, Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz e outros astros da crônica brasileira. 

     A antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas é acrescida de prefácio, depoimentos e pesquisa iconográfica realizada pelos organizadores.   Cyro de Mattos é autor de vasta obra, de vários gêneros, membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, também editado no exterior, além de detentor de prêmios importantes. Publica quinzenalmente uma crônica na revista virtual da crônica RUBEM, de Curitiba.  

         Ivo Korytowski é jornalista, tradutor e romancista premiado pela União Brasileira de Escritores (Rio). Reside em São Paulo. É o editor dos conceituados blogs Literatura & Rio de Janeiro & São Paulo e Sopa no Mel. Para selecionar as crônicas que compõem esse livro póstumo, seus organizadores fizeram ampla pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. 

 

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

 

 

                  Cinco livros de Cyro de Mattos na

                  XIX Feira do Livro Editora UFPR

 

 

Com os livros Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Os Ventos Gemedores, romance, da Letra Selvagem, Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil, Pequenos Corações, contos, Nada Era Melhor, romance da infância, e O Discurso do Rio, poesia, os três últimos da Editus, editora da UESC, o escritor  baiano (de Itabuna)) Cyro de Mattos  participa da  XIX Feira do Livro Editora UFPR e a 40ª. Semana Literária & Feira do Livro SESC,

 

Entre os dias 28 de setembro e 1º de outubro, ocorre a XIX Feira Do Livro Editora UFPR e a 40ª Semana Literária & Feira Do Livro Sesc que tem como tema “Literatura: porque outro mundo é possível”. Por conta da pandemia, o evento acontece em formato virtual, com acesso gratuito. Nesta edição, participam 48 editoras entre universitárias e comerciais. A 40ª edição da Semana Literária tem transmissão pelo canal do Sesc PR no YouTube. Durante quatro dias, são promovidas palestras e bate-papos com grandes nomes da literatura nacional e autores de best-sellers.


 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

 

                Papo de Caminhoneiro

                              

                                 Cyro de Mattos

                

 

        (... os dois caminhoneiros estão no Restaurante Nego Bom, rodovia 301, em animado papo regado à cerveja.)

 

- você sabe quando vai acabar essa corrupção na Republica Pinapá do Piripicado? – pergunta o primeiro

- não faço ideia – responde o segundo 

- quando morcego doar sangue – responde o primeiro

- boto fé no novo presidente

- o que ele pode fazer com essa praga miserável?

-  com o presidente Louro-Brabo o jogo é outro,  corrupção não                         tem vez

- pode não ser corrupto, mas pra mim não passa de um doido

- o homem é militar, está cercado de ministros militares, com ele ou vai ou racha, só esperar pra ver

- ver o quê?

- o homem está decidido a botar até tanque com canhão nas ruas,  tropa armada de metralhadora e granada,  mas ninguém vai ouvir falar mais  em corrupção na República Pinapá do Piripicado, o dinheiro público é do povo,  com o povo, para o povo, fora do povo  não há salvação, Louro-Brabo falou tá falado!

- ando farto desse engodo, meu caro, sai presidente, entra presidente, com o vírus da corrupção não há vacina que dê jeito, onde está o bicho-homem tem o fedor da mentira e podridão

- oh! que saudades que eu tenho dos anos que não voltam mais

- que saudades? que anos?

- do presidente Militinho com a sua sabedoria

- o que é que ele dizia?

- à paz, ao progresso, à igualdade de oportunidades, à vida sem fome para o pobre, ele dizia sim, à corrupção não!

- isso é bom pra se dizer, quero ver fazer acontecer

- não tiro sua razão

 

*Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

 

CYRO DE MATTOS, POEMAS DE TERREIRO E ORIXÁS*

                        Por Gildeci de Oliveira Leite**

Degusto em uma qualificada barraca “Abará, acarajé/ adum, ajabô/ lelê, amalá/ arroz de hauçá/ caruru, vatapá/ xinxim de galinha/ aberém, acaçá/ bobó de camarão/ e ainda mungunzá.” Para produzir essas e outras especiarias, o chefe de cozinha precisa conhecer Palmares “ritmo da liberdade/ batuque da igualdade, manual de fraternidade”. Comidas assim, feitas de dendê e cereais, alimentam a alma e fazem a juventude saber que “Jesse Owens ganha de Hitler/ nas olimpíadas da Alemanha”, que Lima Barreto, Martin Luther King, Zumbi e Pelé possuem o “gingado, rebolado, a batida, / o canto. O riso escancarado/ na passarela da Sapucaí.” Eu bem sei como a felicidade vinda do axé incomoda!

Quando visitarem essa Barraca de “Poemas de Terreiro e Orixás”, saberão que há dois grandes tabuleiros diversos e coesos: um negro bazar. Lá se enaltece a “Abolição”, denuncia o “Pelourinho” e a “Escravidão”, lembra-se de ícones nossos como “Preto Domingos”, “Mestre Bimba”, “Severina Nigeriana”, “Negrinha Benedita”, “Rainha Menininha”, “Mãe Stella de Oxóssi”, Besouro, Samuel Querido de Deus, Algemiro Olho de Pombo, Feliciano Bigode de Seda, Pedro Porreta, Sete Mortes, Pastinha e Bimba. A leitura é uma delícia, pois os tabuleiros são fartos, de elevado nível, possuem visgo de jaca encantado, grudam de forma agradável desde a primeira palavra, é “Preceito, respeito”, diz de um jeito “Se for de paz, / venha cá, / vamos conversar com os orixás.”

Nos tabuleiros, há diversão e aprendizado, há sorriso e contestação, um chama-se “Poemas de Terreiro” e o outro “Poemas de Orixás”. A respeito do primeiro, passei umas dicas sobre as delícias, que podem ser encontradas. Já no tabuleiro, “Poemas de Orixás”, a poesia bela e didática diz que orixá “Ouve a queixa, / aconselha. Dá remédio, / concede graça. Abre caminhos / desfaz quizila. Rumo que clareia todas as tormentas”. Com Cyro de Mattos é possível ouvir poesia, abrir imagens em nossa cabeças, saber sobre Exu, Ogum, Xangô, Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Iansã, Oxalá, Boiadeiro, Vovó Maria Conga, Iroko, Nanã e outros encantados.

Cá entre nós, o grande escritor e vivo ancestral Cyro de Mattos é um bom e agradável matreiro. Em dois grandes tabuleiros de um único livro, o poeta oferece ao leitor um valioso patrimônio poético, trazendo aos mais curiosos e/ou didaticamente comprometidos, um glossário com os ícones citados e com nossas afro-brasilidades. Assim, o livro com seus tabuleiros, se apresenta como obra de arte que é acompanhada de suporte aos que desconhecem aspectos de nossa cultura. Sugiro o livro de Cyro de Mattos para o deleite, a fruição, para compromissos com a diversidade e com a cultura negra, para “cantar o canto negro com todas as notas.”. (Transcrito de “A Tarde”, 5.9.2021)

* “Poemas de Terreiro e Orixás”, Cyro de Mattos, Edições Mazza, Belo Horizonte, 2019.

** Gildeci de Oliveira Leite, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor do PPGELS/MPEJA — UNEB.

 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

                


                    O Coração Selvagem de Clarice Lispector

                                      Cyro de Mattos

 Quando estreou aos 23 anos com Perto do coração selvagem (1943), Clarice Lispector causou impacto no ambiente literário e na crítica especializada da época. É que o romance vinha com um discurso diferente do que a tradição costumava conceber e executar no texto com bases no psicologismo e nas referências dominantes da realidade social, fosse o contexto da narrativa no meio urbano ou rural.

 O romance abolia o tempo linear e usava o fluxo de consciência para que a personagem no pensamento exprimisse suas incertezas e tormentos. Nas circunstâncias do tempo exterior passava a ser vista por meio de outro discurso, que fazia indagações sobre um coração selvagem, pulsando sem encontrar algo que o fizesse em harmonia com o mundo. 

A ficcionista inovadora chegava para revolucionar na forma de contar a vida de Joana, personagem de caráter impulsivo, destemida, que tentava encontrar a sua verdade na vida. Não gostava de pessoas bondosas e de maneiras agradáveis. Desde pequena sente-se deslocada da vida exterior, adulta se vê tomada pelas incertezas de como aconteciam suas maneiras de ser perante a existência.    

Ao escrever sobre a vida de Joana, que ficou sem a mãe e o pai, a autora, sem o uso do tempo linear, mostrava com a aproximação do leitor às circunstâncias existenciais da personagem como se contraponteavam as relações críticas de uma mulher no contexto familiar. Clarice Lispector não queria mais a fabulação e a linguagem tecidas com a coerência da ordem exterior, mas como fatores mutilados pela desordem inventiva do sistema verbal, a frase construída com a veemência de inconsequências, incoerências formais que preferem dialogar no silêncio, meditar com o vazio, pois é no vazio que se passa o tempo. Como certa vez ela disse em Onde estivestes de noite?  (1974, página 34), “mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? – pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um.”

Tentando pôr em frases a mais oculta e sutil sensação, desobedecendo a necessidade exigente de veracidade, Clarice Lispector permitia-se em seu romance de estreia apenas a transmissão da continuidade do clima narrativo.  Com expressão própria e pioneira elaborava um discurso que conservava a linguagem dizendo o máximo no mínimo da frase, com cortes poéticos de dor pesada. Operava a palavra como lâmina, a causar profundidades na leitura arguta que empreendia sobre os seres vivos e as coisas permanentes, nas relações e nos estados de alma em que o coração selvagem vibra e emerge de desafios e anseios.  

 O romance de estreia de Clarice Lispector não se processa como simples relatório amparado por linguagem sedutora e enredo que prende para o entretenimento. Para a autora, até na lírica do trivial se requer do romance invenção na forma de romper com os meios tradicionais de narrar uma história, oferecer acontecimentos que nem sempre resvalam por caminhos previsíveis, fáceis de apreensão pelo leitor apressado, que não consegue vislumbrar o sonho quando o processo criativo usa de reticências para dizer da existência. Por temperamento, vê-se incapaz de tocar em assuntos como a náusea, por exemplo, com um enfoque provido de introspeção na frase, pois sempre transmite assim  sensação de que a história não tem desfecho lógico decorrente do feito extraordinário.

O desconhecido vicia em Clarice Lispector, o que revela é tão novo, surpreendente, que se tem a impressão de que raros ficcionistas entre nós tenham realizado como ela a proeza de falar do nada para desvendar o tudo. De descobrir pulsações onde existem reflexos da vida no estreitamento do peito, como se os batimentos do coração ocorressem com o seu brilho aceso para iluminar a parte noturna do ser, de tal modo as situações emergem de um espelho humano com suas possíveis refrações.  Para tanto é preciso meditar com o silêncio e dialogar com o vazio para extrair dessa ligação novos sentidos do mundo.

Não se queira em Clarice Lispector de Perto do coração selvagem uma história representativa de vida, que tenha começo na sequência cronológica do tempo, motivada pelos feitos extraordinários desdobrados para um final coerente.  A abstração na lógica do real se dá porque a criatura humana é o ser do tempo. É cíclica a existência, que não tem princípio nem fim.  Com seus personagens atormentados, agora procedem às avessas na órbita objetiva das circunstâncias abstraídas da realidade exterior. 

Vale lembrar que, no novo cenário herdado dos escombros de duas avassaladoras guerras mundiais, o existencialismo era a concepção de mundo que a filosofia oferecia para o ser humano caminhar no que parecia ser o abismo da razão. Dentro dessa nova corrente de pensar o homem na órbita de suas circunstancias existenciais, Heidegger tem a concepção de que a criatura humana é um ser do tempo, para Sartre um ser da morte. A concepção da vida nessas formas existenciais do pensamento iria ser aproveitada por alguns de nossos ficcionistas no plano de suas criações.

 Em Adonias Filho, o homem trágico era transportado da Grécia para viver na infância da selva situada no sul da Bahia, submisso às forças do destino, que o tratavam como um servo da morte em ambiente primitivo. O romancista de Memória de Lázaro reproduzia a concepção de Faulkner quando afirmava que o ser humano construía o seu destino trágico, era ele mesmo o agente da infelicidade e da loucura, das forças que o levam à dor e às paixões. Em Clarice Lispector, as essencialidades humanas permaneciam mergulhadas no silêncio e no vazio das coisas destituídas de datas.  Como ser do tempo, o homem não é divisível porque movimenta-se dentro do tempo, habita um território sem limites, em silêncio, quando e onde apenas ele é.

Como elo de um ciclo que existe entre as coisas vivas e as não vivas, transita ao largo de uma sofrida aprendizagem até se encontrar definitivamente na união sensual do dia para a sua hora mais crepuscular. 

 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

 

       Omissão na Cultura 

 

             Cyro de Mattos

 

A quem cabe zelar pela cultura de um povo e não corresponde aos seus apelos comete omissão imperdoável. A cultura alimenta a autoestima e reforça os laços identitários de uma sociedade nas suas relações com a vida.  Se a educação é o corpo da sociedade, que precisa ser bem alimentado, que dizer de sua alma, a cultura? Quem não valoriza a cultura de seu povo, contribui para que não haja resposta quando se pergunta qual é o seu nome, onde você nasceu e para onde você vai. Torna assim o ser humano um caminhante no vazio do estar para viver ou, se quiserem, cadáver ambulante que procria, como diz o poeta Fernando Pessoa.  

        O que vemos por aqui entristece. Ainda hoje viceja esse comportamento atávico para anular o que foi produzido para representar e permanecer como referência do nosso patrimônio cultural. O Museu da Casa Verde, por exemplo, que antes foi o espaço de convivência social da elite, com reuniões importantes de políticos, quando então eram debatidos assuntos relevantes de nossa cidade, encontra-se fechado há tempos. Seu patrimônio valioso, que muito diz sobre a história da burguesia cacaueira no tempo dos coronéis, está encoberto pelas sombras da indiferença do poder público, que assim contribui para que o visitante, o estudante e o habitante dessa terra desconheçam um capítulo importante da civilização do cacau, com seus costumes, valores, linguagens, suas relações políticas e sociais como marcas de uma maneira singular de proceder perante o mundo.  Não recebe o mínimo apoio do poder público, da classe empresarial e de clube de serviço, para que se torne um espaço movimentado com vistas ao conhecimento da história coletiva municipal e regional.

         O quiosque Walter Moreira, na praça Olinto Leoni, obra realizada na gestão do professor Flávio Simões, quando presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, está entregue ao léu da vida e ao sabor da sorte, caindo aos pedaços. Já serviu para exposições de artistas plásticos locais, comércio de artesanato, lançamento de livro e local como parte das comemorações no Dia de Cidade, com exposição de fotos históricas e dos prefeitos. Dá pena a quem vê o estado lamentável do Quiosque Walter Moreira. A memória desse artista da cor, que passou uma vida retratando na tela a paisagem humana e física dessa terra, não merece esse descaso.

           O Monumento da Saga Grapiúna, criado pelo artista Richard Wagner, itabunense de fama mundial, erguido nas proximidades do Supermercado Jequitibá, é uma homenagem aos elementos formadores da civilização grapiúna – o sergipano, o negro, o índio e o árabe, e não está tendo melhor destino. Monumento que remete as gerações de hoje e de amanhã à infância da civilização do cacau, em nossa cidade e na região, encontra-se também no descaso. O gradil protetor ao seu redor está danificado, lá dentro o seu interior serve de depósito de coisas imprestáveis e lixo. Não existe fiscalização nem proteção para preservar uma obra artística e cultural de valor inestimável.  

                         Com sua beleza rica de significados, em que se retrata a história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras, símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte genial de Genaro de Carvalho, instalado no prédio Comendador Firmino Alves, onde funcionava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinquentenário e a praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios artísticos de incalculável valor do  município onde nasceram o romancista Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha.

                            Essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de autoridades, ao longo dos anos.   Ficou sem alguns azulejos, na frente serviu para que camelôs fixassem seus produtos à venda no comércio informal. A FICC fez a reconstituição das avarias no painel, mas agora tudo volta como antes. Na frente do painel, camelôs armaram bancas e sombreiros para vender suas coisas. Dentro do gradil protetor jogam lixo. A poluição visual do painel prossegue com a faixa estendida de um poste a outro, na frente, para anunciar a venda de um produto novo chegado ao comércio local.  

                        Perdemos o Castelinho, o Cine Itabuna, o prédio do Ginásio Divina Providência, a casarão do coronel Henrique Alves dos Reis, o Campo da Desportiva, a fachada da residência onde morou o comendador Firmino Alves e sua família na praça Olinto Leoni está desfigurada. Até quando vamos continuar maltratando a nossa memória e o nosso patrimônio arquitetônico portador de rico simbolismo de nossa história?

                         Senhor prefeito, mostre que não concorda com tais atitudes negativas de uma administração municipal que se apresenta como legítima, mande corrigir tais ofensas à cultura. Ainda há tempo, basta boa vontade.

 

*Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Autor de 56 livros pessoais.  Primeiro Doutor Honoris Causa da UESC.  Publicado no Brasil e exterior. Muitas vezes premiado. Da Academia de Letras da Bahia. Foi presidente do Centro de Cultura Adonias Filho e Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

 

Atualidade de Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

Não é preciso esforço para compreender que Capitães da Areia é um romance social que tem uma força surpreendente na prosa que denuncia, comprometida com a vida miserável de certas minorias, que não entram na trama do texto vigoroso com suas particularidades fixadas como se fossem tipos curiosos, estranhos, diferentes. É romance que fere na dura lei da vida, sem cura aos que são vítimas de um sistema que privilegia uns poucos e se fortalece diariamente para esmagar a muitos.

É um romance que nas suas cores doloridas deflagra o tratamento violento que a vida dá a essas minorias de meninos que vivem em bando como imperativo da sobrevivência, maltrapilhos, rejeitados, vistos à luz distante, mas que em Jorge Amado, escritor engajado nos problemas sociais que afligem a vida, pulsam dentro, repercutem na compreensão afetiva que habita a personalidade do autor.  O quadro informativo em certo trecho do amor homossexual entre o negrinho Barandão e Almiro é visto como   atenuante do que é sublimado pela falta de carinho, na vida frequentemente espancada, aviltada, provocada pela sociedade que não se cansa de pisar. 

 Publicado há sessenta e três anos, com incontroversa atualidade, o romance presta-se ao juízo de que a situação do menor de rua continua preocupante, hoje como ontem é um problema difícil de ser resolvido sob vários entornos. Paulo Collen, em Mais que a realidade (Cortez Editora, 1988, página 124), relata sua experiência de menino de rua, que não teve família, procurava uma, e dos que tinham, mas que fugiam de casa por problemas emocionais, causados pelos conflitos insuportáveis dos pais.

 

A FEBEM deveria ser uma escola que educasse, transformasse e preparasse o menor para ser respeitado como qualquer cidadão brasileiro. Dando prioridade para a alimentação, a assistência médica e o lazer, a FEBEM só forma marginais. O que eu via nos olhos de cada criança era revolta, angústia e vontade de sair dali.  Cada cabeça ali dentro só ficava fazendo planos de fuga. Os funcionários só faziam espancar.”

 

Se o quadro não fosse esse, até mesmo com o emprego de uma metodologia pedagógica mais humana, como se insinua hoje, não se pode deixar de considerar que não se transforma uma criança, para que no futuro seja um homem, se não se lhe dá afeto, não a prepara com a ferramenta digna de exercer uma profissão, com meios que a façam confiante mais tarde, segura de si, para enfrentar a vida aqui fora.

O mundo é composto de ruins e bons, coisas uteis e inúteis.  O sol oferece sua luz para todos, os pobres, os famintos, os favelados, os mendigos, os abandonados, os loucos. Se o sistema oferecesse a esses desfavorecidos condições ideais para se erguerem na dureza da vida, não fizesse uso da desigualdade, indiferença, preconceito, perseguições, violências, a vida se movimentaria com a ocorrência de respostas decentes. Nas relações sociais alcançaria a autoestima dos que para render precisam da ferramenta necessária ao trabalho, na sua função, ação e reflexão, cônscios da liberdade preservada como o mais alto dos valores e o amor como o sentimento mais forte.

Em Capitães da areia, temos o exemplo de que nem tudo está perdido quando   o Professor, o intelectual do bando, vai para o Rio de Janeiro estudar pintura. Outras condições de vida são agora oferecidas, distantes daquelas que o negavam quando andava   como ladrão e fugindo da polícia na cidade de mais de trezentas igrejas.  Travavam seus pendores, que soltos agora com ideias e emoções fizeram dele um pintor famoso.

 

 

 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

 

     Carlitos

Cyro de Mattos

 

Chapéu-coco único,

 comove o abraço,

 este que se veste

na roupa do riso.

Pirueta constante,

bigode malandro,

numa só bengalada

 vencedor do gigante.

 

Do perigo fugindo,

ligeiros os passos,      

apesar disso a flor   

oferece ao velhote.   

Andarilho da aurora,

no jardim ou no ringue,

no salto ou na ginga

não há quem o imite.

 

Em busca do tesouro

que o vilão escondeu

no casarão abandonado,

surpreendente, incrível,

nada mais sensacional

 o que no final decide 

quando repõe a ternura

no coração de quem é

alegre quando o assiste.     

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

 

Erudição e Sabedoria em Rui Barbosa

                         Cyro de Mattos

 

Rui Barbosa nasceu em Salvador, aos 5 de novembro de 1849. Filho de Maria Adélia, moça de tempe­ramento calmo e bem educada. Seu pai, João Barbosa, fora um político atuante, jornalista inflamado, homem preocupado com as refor­mas humanas no ensino, um médico que aban­donara a profissão.

       Rui foi membro da Academia de Letras da Bahia e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo sido presidente quando Machado de As­sis faleceu. Era um homem de estatura baixa, franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas tinha uma voz poderosa quando ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada centelha a oratória incendiava com a argumentação fascinante, baseada na verdade.

Fora incapaz de conceber a vida sem um ideal. Liberal convicto, construtor da Repúbli­ca, deu-lhe o arcabouço jurídico inicial. Não aceitava a escravidão, clamava pela adoção das eleições diretas, reforma do ensino com méto­dos humanos, investia contra o poder papal, como defensor ferrenho da ideia de separação entre o Estado e a Igreja.

            A erudição adquirida ao longo do tempo era aplicada com brilho nas relações sociais, no intuito de construir a vida, só querendo fazer o bem. Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que fizeres, receberás do Senhor.” No elogio a José Bonifácio, falecido no fim de 1886, desabafou contra aquele mundo político, que o fizera sofrer várias derrotas e que era considerado por ele como meio louco e míope, espé­cie de divindade gaga, protetora do daltonis­mo e da surdez, uma combinação da esteri­lidade das estepes com a paisagem onde não se canta, supondo-se que assim  fosse inimiga da har­monia, contradição do belo, como tem sido neste país. E, numa intencional advertência ao poder monárquico, reafirmou como encarava a questão da escravatura na célebre fra­se, primeiro a abolição, nada sem a abolição, tudo pela abolição.

Amara de verdade duas profissões: o jor­nalismo e a advocacia. O jornalismo sempre foi a janela de sua alma, por onde se acos­tumou a conversar durante todo o tempo, todas as manhãs, para a rua com os seus compatriotas, como informa Luís Viana, seu melhor e mais completo biógrafo, em A Vida de Rui Barbosa. Advogado do povo, foi o patrono dos professores demitidos de suas funções na Escola Politécnica. Quando o Congresso decretou a anistia, julgando impossíveis de revisão as penas e os processos dos aparen­temente beneficiados, ele bate às portas dos tribunais para se opor à situação que feria a lei e maltratava a justiça.

Ao se dedicar à política, fora eleito De­putado Provincial em 1878 e no período de 1879-1884 exerceu mandato na Câmara dos Deputados do Império. Com o advento da Re­pública, nomeado Ministro da Fazenda, a polí­tica financeira que adotou caracterizou-se pelo abandono do lastro-ouro e a adoção de grandes emissões garantidas por apólices do Governo, visando fomentar o comércio, além da criação do Tribunal de Contas e delegacias fiscais.

       O conferencista falava mais de três horas, sem que houvesse um murmúrio desaprova­dor do auditório repleto de pessoas. Quan­do terminava, no meio das palmas demora­das ouvia-se: “Continue! Continue!” Pessoas riam, choravam, deliravam, indignavam-se, aplaudiam, acompanhavam o orador hipno­tizadas pelas emoções que a sua alma a todos transmitia.

           Designado pelo Senado para examinar o projeto do Código Civil, já revisto pelo filólo­go baiano Carneiro Ribeiro, essa tarefa sem na­tureza política revelaria ao Brasil um gramático conhecedor amiúde e melhor na colocação dos pronomes. Em pouco tempo, o seu parecer apre­sentou mais de mil emendas ao texto revisto por Carneiro Ribeiro, o antigo mestre do Ginásio Baiano, sendo corrigido agora pelo ex-aluno nas regras gramaticais.

         Em Haia, o assunto mais importante da Conferência era a organização do Tribunal Permanente de Arbitragem, com o palco pre­viamente armado para o papel de destaque das potências que governavam o mundo e manda­vam nos povos.

        A voz impetuosa e indignada de Rui apre­senta sua proposta para a Organização do Tri­bunal, onde todos os países terão assento. Fica ao livre arbítrio dos contendores submeterem as suas questões ao plenário do Tribunal. Falou em francês castiço, entre o silêncio geral, perante um auditório que o desconsiderava, mas que ficara espantado. No final fora reconhecido como uma das mais poderosas vozes da assembleia. Aque­le homem pequeno, de voz ritmada na verdade e no direito, derrotara os que representavam os direitos e interesses das grandes potências, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e Itália. Por seu desempenho superior fi­cou conhecido como a Águia de Haia.

O discurso de Rui surpreende pela va­riedade e nas expressões soberbas de suas leituras. Da palavra imantada nas imagens candentes emergem verdades que iluminam a vida, mas sua erudição não é apenas variada, de vocabulário ilimitado, domínio do idio­ma, citações e argumentos que impressiona­vam vivamente. Pode-se dizer desse paladino da liberdade que fora um erudito abraçado com um sábio.

Rui Barbosa, o que conhecia Vieira, lia Castilho, recitava Camões aos dez anos, santo Deus, o erudito e o sábio. Deixou este velho mundo em 1de março de 1923. Fora residir na morada do eterno.

 

Referência

A Vida de Rui Barbosa, Luís Viana Filho, Lelo & Irmãos Editores, Porto, Portugal, 1981. 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

 

Décio Torres sobre o livro As meninas do coronel de Aramis Ribeiro Costa

Passei três semanas na agradável e prazerosa companhia de Ernestina, Ludmila, Fabíola e Milceia, as filhas do coronel Mendonça que vieram me visitar. Com elas, conheci o músico Conrado, o major Silveira, o doutor Lustosa, Bibiana, Didá, seu filho João Rafael, Claudionor, Marcelino, o doutor Ariano Condé, Ziraldo Conceição e algumas outras figuras bastante interessantes. Pessoas simples e comuns que nos levam a refletir sobre nossas visões de mundo, nossos medos, nossos preconceitos, nossas paixões desencontradas, nossos desejos e sonhos postergados, realizados, irrealizados ou por se realizar.

As meninas do Coronel me levaram a cruzar a fronteira do tempo e passear pelas ruas tranquilas de uma Salvador ainda pacata, mas já com ares metropolitanos e suas mazelas. Revivi o tempo em que, ainda estudante de Letras, morei na casa de minha irmã Maria José Freire na Ribeira e andava despreocupadamente pela península itapagipana, já que elas eram minhas vizinhas. Foi um belo retorno ao tempo da delicadeza que tanto nos falta nos dias de hoje. Com elas, viajei mais um pouco para trás, para a década de 50, e fizemos ‘footing’ na elegante rua Chile e suas lojas chic. Com Conrado, andei de bonde da Ribeira à Praça Cayru, tomamos o Elevador Lacerda e saboreamos deliciosos sorvetes na Cubana. Depois seguimos para vê-lo tocar com sua orquestra no Palace Hotel, no Tabaris Night Club (onde hoje se localiza o Teatro Gregório de Matos), no Hotel da Bahia e no Clube Baiano de Tênis.

Todas essas experiências e emoções – com direito a um variado fundo musical, parte de uma trilha sonora que se gestava naquela época em bailes dançantes e emissoras de rádio que lançavam novos ritmos e modas como o rock e a bossa-nova – me foram proporcionadas pelo livro “As meninas do coronel”, terceiro romance do excelente escritor Aramis Ribeiro. Sua narrativa nos puxa pelo braço e ganha nossa atenção do começo ao fim através de uma técnica bastante sedutora que cria um grande suspense em relação ao desenrolar dos fatos e faz com que atravessemos tranquilamente suas mais de seiscentas páginas, sempre com gosto de quero mais. E é esta a sensação que sentimos ao final, uma vontade de continuar em companhia desses personagens demasiado humanos que o autor nos apresenta de forma magistral.

Aramis Ribeiro faz parte do rol de grandes escritores contemporâneos, com 28 livros publicados, e que merece maior divulgação, principalmente aqui na Bahia, sua terra de origem. Depois de ter comentado aqui no FB sobre o impacto que seu livro de contos “Reportagem Urbana” me havia provocado, tive o prazer de ser presenteado pelo próprio autor com este fantástico livro que acabo de ler e recomendo a todos que buscam uma excelente companhia de leitura. Abaixo encontra-se o link da editora para quem deseja encomendar. Tenho certeza de que irão gostar. Boa leitura e bom passeio por esta cápsula do tempo!

Décio Torres

Disponível em: https://viaeditora.com.br/acervo-literario/as-meninas-do-corone