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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Carnaval
                                                         
                  O carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que irrompe na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, que se exibe na passarela do asfalto, desfilam passistas, ritmistas, fantasias, carros com alegoria,  samba enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baianas e comissões de frete. Aparecem figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente. Deslumbram. Arrancam palmas da plateia. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações do corpo, canto e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.
           Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso, varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo ventos da utopia  para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros. Suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandi”. Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo.
      Não se pode deixar de considerar que o Carnaval ativa o comércio informal.  É a oportunidade que muitos encontram para ganhar um dinheirinho e sobreviver na dura lei da vida. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral frenético silencia, o Carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Dezenas  nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.
      O Carnaval de Itabuna já foi o melhor do sul da Bahia durante muito tempo. Não acontece há anos. Autoridades argumentam que nessa época o surto de dengue é grande nos bairros carentes da cidade,  os recursos públicos  que seriam  fornecidos para animar  a festa devem ser  destinados para debelar, controlar ou atenuar   o surto da doença infecciosa,  que em alguns casos resulta em morte.
     Várias administrações municipais não vêm conseguindo derrotar ou pelo menos enfraquecer em níveis aceitáveis o surto da dengue nessa época, através da execução de um programa eficiente no setor da saúde comunitária, Assim, o Carnaval, que não é responsável pela dengue, é impedido de acontecer em nossa cidade. De onda eufórica para liberar a adrenalina passa a ser um vilão vil e repelente.  Nessa época, quando o Brasil usufrui uma de suas grandes paixões populares, o folião itabunense é jogado para escanteio. Fica a ver navios.  Tem como consolo  acompanhar a festa no Rio, Salvador e outras localidades pela telinha da televisão.
         Mais uma vez esse folião vibrante, antigo dono do pedaço quando passava e agitava na euforia, vai saber que na sua cidade não acontece nada no Carnaval, Nesses dias, a tristeza ganha da alegria.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Passeio pela Espanha

                                          (Cyro de Mattos)
           
            A estrada bem sinalizada nas curvas, encostas e cruzamentos. O ônibus desliza no asfalto, tem a maciez de um colchão. Dá sono esta viagem que atravessa planícies, uma paz que suaviza a alma. Campos de trigo como imensos lençóis até a curva do horizonte.   Uma família portuguesa, com certeza de classe média, rostos de cada um até certo ponto afável, ocupa poltronas  perto  da minha.  Um casal de velhos puxa conversa para saber o que aconteceu com o avião seqüestrado depois de decolar no aeroporto de Nova Iorque, levando cento e cinqüenta passageiros. O velho ouviu a notícia no quarto, estava arrumando a mala para a excursão a Madri. Plantão da TV Planeta.  A velha, com veias grossas nas mãos magras, cabelos alvos e sedosos, disse que o avião explodiu sobre o oceano. A mãe do menino põe  a mão na boca horrorizada. Santo Deus, que barbaridade! (o pai do menino).
            O ônibus faz a segunda parada nas imediações de Toledo. Trinta minutos para apreciarmos a cidade ali do alto. Da balaustrada podemos tirar fotos e filmar. No retorno de Madri, vamos conhecer Toledo por dentro. Puerta Bisagra, Castillo Visigodo, Calle de Santa Isabel, Casa del Greco, a Catedral famosa e outros locais importantes. O guia anuncia com sua voz ligeira. Alguns não escutaram direito o que a voz nervosa dele  acabou de dizer. Pedem para ele repetir, devagar, por favor. Toledo é um museu a céu aberto, você vai ver isso, o passado chegando da Idade Média em silêncio, a mulher de olhos azuis diz para o homem de cabelos cor de ouro, nariz comprido no rosto com o queixo saliente. A cidade foi construída sobre uma grande rocha, lá embaixo o rio contornando-a e seguindo com a sua enorme cobra grossa. Estratégia perfeita montada com a ajuda da natureza para impedir a invasão das hordas inimigas. A entrada da cidade fica lá em cima, no topo da rocha. Chega-se à grande porta atravessando por uma ponte sobre o fosso de garganta escura.
            Distante dos outros, numa das extremidades da balaustrada. Calado, arredio.   Espio as casinhas lá embaixo, próximas ao rio, num dos lados em que circunda a rocha. O guia informa que só podem ser construídas com a mesma arquitetura dos tempos medievais. De longe observo Toledo. Visão que se mistura com a sensação de uma fortaleza impenetrável, muralhas altas, circulando a cidade, construídas sobre o topo da rocha.  Torres dentadas onde outrora ficaram sentinelas, na ronda com espada e lança.  Noites expectantes sob a dura vigília à espreita da morte.
            O  ônibus cruza a Puerta d´Alcalar, em Madri. Ao desembarcar sigo atrás  dos outros turistas, que em grupos estão entrando no Hotel Washington, na Gran Via de Madri. O guia recomenda que só vamos ter  cinqüenta  minutos para descermos até o salão de refeição, fica  no primeiro andar do hotel. Entrega a cada um de nós  o cartão magnético, ensina como deve ser enfiado na fenda da porta do apartamento para abri-la. Ao ser enfiado na porta, o lado da tarjeta para baixo. Cuidado para não esquecer o cartão magnético enfiado na porta quando sair. Convite para o ladrão entrar no apartamento e ganhar o dia fácil (risos).
            Ficaria sem fazer a refeição do jantar, se não chamasse  o chefe dos garçons para saber o que estava acontecendo. Ali sozinho na mesa do canto, vendo os outros deglutir a sopa: são servidos com atenção especial por dois garçons que parecem irmãos  gêmeos. “Levo o caso para a Embaixada do Brasil para as providências legais”. Impaciente, voz um pouco alterada, absurdo o tratamento que estão me  dando. “Por favor, senhor, está havendo um mal entendido”, calmo o chefe dos garçons, “num instante o senhor será servido.” Um português de fala fina, o chefe dos garçons,  impecavelmente vestido no uniforme do hotel, cor de vinho.  O nome do hotel com letras douradas no bolso superior do paletó. Incumbe um dos garçons para me servir imediatamente.
O guia reúne todos no salão de recepção do restaurante, ao lado do salão de refeições. Vamos dar um breve passeio pelo centro da cidade agora à noite. Fontes de Cibelis e Netuno, Porta do Sol, Praça da Espanha, passaremos em frente ao Palácio Real. Após a refeição matinal, amanhã, às 8,30 horas, todos na recepção do hotel. Pela manhã, passeio no Parque do Retiro e, à tarde, Praça Maior. À noite, como opção conhecer o flamenco, a dança e a música que apresentam chamas. Despesas no teatro por conta de cada  um de vocês, diz o guia.        
       Depois de três dias visitando outros locais importantes em Madri, o ônibus retorna a Lisboa de manhã cedo. Começa a subir a Grande Via, durante o dia com muito movimento de carros. O ônibus deixa para trás ruas com os vultos de pessoas andando pelos passeios. O roteiro no retorno da Excursão Eldorado indica parada no Vale dos Caídos, visita à monumental Salamanca e à admirável Toledo. No retorno,  como aconteceu na ida, continuo na excursão como um desconhecido, que viaja em silêncio. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

                   Um Torcedor Especial
                                                (Cyro de Mattos)

O telefone toca na sala.
A mulher atende.
- Quem é?
- Luís Fernando.
-Diga meu neto.
- Quero falar com vô.
Da sala a voz forte da mulher para o vô no gabinete:
- É seu neto, quer falar com você.
- Já vou.
No telefone:
- O que foi, meu neto ?
- Vô, você está triste?
- Triste de quê?
- O seu Vasco perdeu para o Atlético Paranaense.
- De goleada e desceu para a segunda divisão.
- Cada gol que o Vasco tomava eu me lembrava do meu vô.
- Mas você não é Vasco, e, sim, Flamengo,  como  seu pai.
- Sou mesmo, uma vez Flamengo sempre Flamengo, Flamengo sempre hei de ser, até morrer, mas fiquei triste e chorei. Preocupado com a derrota do Vasco e a tristeza do vô.
- A vida é assim mesmo, um perde e ganha. Quando o Vasco voltar para a primeira divisão, vai cruzar com o  seu Flamengo e aí tudo volta com antes: vamos ver qual é o melhor dos dois times, se o seu  mengão ou meu vascão.
- Está certo, vô.
- E não chore mais. Tenho certeza que meu Vasco voltará à primeira divisão no próximo ano. Vai ganhar de todos os 19 times da segunda divisão. Vai dar a volta por cima e, na primeirona, não tem pra ninguém.
- Tomara, vô!
Foi bom o Vasco perder aquela última partida.
Descer para a segunda divisão.
Descobriu que o neto era o melhor torcedor deste planeta. Especial, muito especial. Não havia outro igual.      

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ginásio dos Meus Verdes Anos



( Cyro de Mattos)


O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais e ser admirado por pessoas importantes. Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanham a criatura humana em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender o mundo. Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.

Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava ao fim do ano. Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, Padre Nestor, Lode Hage e “Seu” Queirós. Professores responsáveis que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.  

Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos advogados Joel, Eraldo, Gervásio  e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir Oliveira, Euvaldo Mattos, José Rebouças, Antonio  Menezes, João Otávio e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho Maron. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Neviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos Irmãos Ildo, Eudes,  Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as profundezas de águas escuras. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário, eu indagava sobre a escuridão daquelas águas traiçoeiras.

Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.    

 Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas. Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paulo, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio seguia nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paulo. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a idéia.

Nesse tempo a cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passavam a conhecer  que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro ginásio da cidade. Colheitas desse saber foram realizadas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, tornaram-se constantes. Produziriam rimas ricas.



                                        ITABUNA E SEUS MITOS
                                                                 Sônia Carvalho de Almeida Maron*


            Na edição do dia 4 do corrente mês, o Diário Bahia prestou justa homenagem ao cidadão desta cidade, Alencar Pereira, mais conhecido como “Caboclo Alencar”. Pequeno comerciante e proprietário do barzinho “ABC da Noite”, no Beco do Fuxico, há muitas décadas mantém o ponto de encontro de boêmios, intelectuais, comerciantes, empresários, enfim, representantes de todos os segmentos sociais, anônimos e celebridades, que apreciam a “batida”  mais famosa da Bahia. O bom papo e a atração irresistível do inteligente, bem humorado e filósofo da faculdade da vida, apelidado Caboclo Alencar, que assegura o pão de cada dia com a exibição do conhecimento de historiador autodidata  e analista sociopolítico, mantém, durante décadas, a admiração dos freqüentadores do seu bar pelo carisma e comentários próprios de um humorista de escol. Eu sei por ouvir dizer, expressão usada para as testemunhas não presenciais. As garotas dos “anos dourados” não frequentavam barzinhos especializados em batidas, entretenimento reservado aos rapazes. As informações fidedignas eu obtive, pela vida a fora, de Nilton Galvão Pinto, amigo de infância e vizinho da rua Rui Barbosa, e Huldo Baldoino, itabunense que passou a residir no Rio Grande do Sul e visitava a família nas férias, reservando, como verdadeiro ritual, um tempo para visitar o Caboclo Alencar. Logo, temos amigos comuns.
            A comemoração dos 83 anos do itabunense famoso e singular, marcada pelo carinho dos incontáveis amigos reunidos no Beco do Fuxico, foi consagrada pela matéria primorosa deste jornal, com direito à chamada de primeira página  e a marca inconfundível  da redatora Celina Santos. Registre-se, ainda, por conta das comemorações, o documentário exibido pela TV Itabuna, no qual a competência e sensibilidade de Barbosa Filho reuniu intelectuais de todos os matizes, jornalistas, advogados, pessoas do povo, um delicado mosaico de celebridades e amigos, alguns tecendo uma análise sociológica do papel do Caboclo Alencar na cultura de Itabuna, outros sugerindo o tombamento do “ABC da Noite”, como marco precioso da nossa história.
            Nenhuma dúvida quanto ao merecimento do Caboclo Alencar. A propósito, muitos meses atrás, o escritor itabunense Cyro de Mattos (membro do PEN CLUB e de várias academias, com grande parte da obra premiada, traduzida em outros idiomas e publicada em vários países) neste mesmo jornal, escolheu o conterrâneo Alencar Pereira para homenagear em inspirada crônica, ressaltando sua personalidade invulgar. São atitudes que sinalizam abençoada modificação nos formadores de opinião, “louvando quem bem merece”  como diz o verso de Gilberto Gil.
            Ocorre, no entanto, que o reconhecimento ao “ABC da Noite” traz a lembrança do esquecimento total de um marco  insubstituível que definiu a vida de centenas (ou milhares) dos seus frequentadores: O ABC DO DIA. O que foi o ABC DO DIA? Ninguém lembra, é certo. O ABC DO DIA, ícone  maior da história de Itabuna, foi demolido, vilipendiado, apagado, deletado. Morreu ignorado, sem choro nem vela. O pior é que o ABC DO DIA tinha um mundo de celebridades que poderiam defendê-lo e impedir seu assassinato.  Muitos fecharam os olhos, os  ouvidos e emudeceram por covardia ou conveniência; outros desconheciam o plano sinistro de destruição; poucos, muito poucos, gritaram, esbravejaram, manifestaram a indignação de filhos ultrajados, porque o ABC DO DIA era o pai e a mãe de todos que buscaram seu abrigo e sua orientação. Os cegos e surdos-mudos são de fácil identificação, porque covardes, indiferentes e convenientes e são inúmeros; entre os que nada puderam fazer por ignorar o projeto de destruição, estão celebridades como Jorge Hage, controlador geral da União e Ubaldo Porto Dantas, ex-prefeito desta cidade; gritando indignados através deste jornal apenas Cyro de Mattos, João Otávio Oliveira Macedo e a autora destas linhas, três pessoas comuns do cotidiano itabunense, também ex-alunos do Ginásio Divina Providência, como nossos conterrâneos e sempre amigos Jorginho Hage e Ubaldo. 
            Volto a lembrar o atentado à cultura e à história de Itabuna, consubstanciado na destruição do prédio onde existiu o Ginásio Divina Providência. Dir-se-ia assunto recorrente, resolvido sob a pá de cal dos escombros que apareceram sob a pressão de máquinas fantasmas que trabalharam durante a noite... É verdade. A demolição ocorreu durante a noite. Por quê?  Sabe DEUS! O fato é que a pressa em concluir o “trabalho” antes do amanhecer, fez com que surgissem rachaduras nas paredes da Igreja de Santo Antonio e nos imóveis do comerciante Reinaldo Cruz e livraria “Um pouco de tudo”. É o que dizem as más línguas. Não estou afirmando que ocorreu prejuízo material para os vizinhos do prédio sinistrado, não vi, não investiguei, não inspecionei. Apenas ouvi dizer e a verdade sobre a transferência de domínio e a demolição, a esta altura, nada significa em cotejo com o prejuízo cultural, histórico, moral. É doloroso constatar que tantos metros quadrados que poderiam destinar-se à construção de outros templos de conhecimento e cultura, minimizando a carência de uma cidade que cresce desordenadamente, e o que é pior, sem respeito ao passado, abriguem, hoje, uma loja de departamentos e outra de sapatos populares. Como poderá Itabuna sequer sonhar com o futuro? Quem não teve passado ou o repudia, não existe no mundo real, é filho de chocadeira.
            Que seja homenageado o Caboclo Alencar. Ele merece. Por tudo que representa como cidadão digno da comunidade que consegue, durante décadas, manter um estabelecimento reservado à venda de bebidas alcoólicas fora do rótulo da mediocridade e do estímulo manifesto ao vício. Ele, ao seu modo, faz a diferença. Principalmente porque conseguiu reunir pessoas que proclamam suas virtudes e provocam a celebração dos 83 anos de uma figura humana que integra a memória de Itabuna. É uma façanha que o meu ABC DO DIA não conseguiu. Somente os três itabunenses já citados, eu, Cyro e João Otávio, tentam salvar o que resta de uma vida inteira da dedicação de LINDAURA BRANDÃO DE OLIVEIRA à formação da juventude de Itabuna e de toda a região sul da Bahia.
            Sinal dos tempos, da modernidade, da pós-modernidade, da sociedade líquida, do que quiserem os eruditos de plantão e de ocasião. Pelo menos, nós,  os três sobreviventes, continuamos lutando para provar que o passado existe e serviu de bússola às nossas escolhas. Nós acreditamos que as chocadeiras ficaram para os aviários. Nunca para a vida das comunidades.


*Sônia Carvalho de Almeida Maron é Juiza de Direrito. Presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Amizade


           Dois repentistas na praça faziam o improviso nos versos que discorriam sobre a amizade. Um elogiava a amizade enquanto o outro procurava mostrar que de maneira sincera ela  não existia neste mundo desde não sei quando. Curiosos que formavam pequeno cinturão  em volta dos repentistas ouviram um  deles dizer a certa altura do improviso sob galope acirrado:
Quem disser que tem amigos
Tem de si pouca ciência,
Amigo só existe aquele
O da própria conveniência.

          Quis dizer com suas impressões realistas da vida que ter o amigo fiel, certo na hora incerta, é a exceção, daí se concluir que  a regra neste velho mundo consistia na amizade ser sustentada através do interesse. O dito popular que afirmava melhor amigo na praça do que dinheiro no caixa não predominava como uma constante  nas relações de empatia entre os seres humanos. A amizade verdadeira, que não espera nada de volta, só acontecia em situações excepcionais.
          Pensando, pensando, a amizade  desinteressada só  quando não há  a competição desumana e desigual pelas coisas materiais ou a vã glória. Na competição selvagem, marca do capitalismo,  uma pessoa enxerga a outra como estranha. Nas  relações duras da luta pela vida,  a afeição, que implica em segredos e solidariedades,  tem pouca chance de achar o seu lugar ao sol.  
          Amizade pura só mesmo na infância quando a vida é uma festa colorida por gestos espontâneos,  em que entram sentimentos nutridos de  esperança e ternura. Daí o poeta dizer que quando a gente fica grande o país da infância é trancado pelos homens com pedaços de alma. Resta a  sensação de uma fruta doce que acaba. Na infância perder ou ganhar é igual a se divertir. Por ser assim em essência, não havendo competição ditada pelas necessidades materiais, naquele território feito de alegria para todos  não funciona  a regra Deus para mim e o diabo para os outros. Estou me referindo à infância feliz, não à pobre e miserável.
         Na juventude, quando no grupo se é envolvido espiritualmente por sentimentos que em si pertencem a todos,  irrompendo do coração para ultrapassar desafios e atingir metas no conhecimento da vida, a gente consegue como na infância fazer boas amizades,  que levam a vida inteira. Quando somos colegas em uma mesma escola, colégio, faculdade,  estamos nesse barco alegre da vida sem competições ferinas. Leve e solta, a criatura humana ainda não provou os  desastres gerados pelo ritmo de nossos estados de necessidade nas rinhas da vida.
         Há quem argumente que uma boa amizade nasce  na mesa de um bar, lugar onde se joga conversa fora ou a mágoa quando se tem a necessidade  ainda maior de desabafar tudo o que está preso no peito. Com este cronista as boas amizades  vêm do tempo da infância e juventude, até hoje perduram, embora sejam poucas.  Outras, de uns tempos  para cá, nasceram graças ao  milagre operado pela literatura.
        Apesar de o mundo das letras ser competitivo, em muitos casos neurótico, até mesmo diabólico,  gerando conquistas para encher as vaidades e os egoísmos, tenho feito  amigos que parecem que já me eram desde muitos e  muitos anos. Alguns deles vivem distante,  nunca os vi pessoalmente. As afinidades eletivas nesse caso forjam uma afeição  sólida a cada descoberta agradável.  A afeição  assim me aproxima  do novo amigo  numa cadeia de instantes recíprocos e suaves. As coisas acontecem em razão das horas iluminadas por impressões de leitura. A empatia é expressa  de modo sincero  com suas ondas de ternura, por correspondência aérea ou  internet.
          A amizade é necessária  para  que o entendimento decorrente do gesto das mãos nas mãos torne a vida fácil, sem dominações, ciúmes  e traições. O ideal era que resultasse duma união geral  para que a vida fosse forte e bela, com rações suficientes para todos. Enquanto tal não acontece, lembro um poema do mineiro Elias José, querido amigo, de saudosa memória,  que só tive o prazer de ver uma vez.  Ele me enviou de Guaxupé, sua cidade natal,  o poema “Amigo” quando ainda era inédito.

                      A palavra AMIGO
                      Abre-se com a gente
E sabe escutar e guardar
Queixas e segredos.
Chora a dor que é nossa,
Faz festa na nossa alegria.

O mundo seria mínimo
E sem a menor graça,
Se não existisse a  graça,
Se não existisse a luz
Da palavra AMIGO.


        Para esse mineiro de inteligência incomum, coração terno, que escreveu mais de cem livros, entre volumes de ficção e poemas, para gente grande e pequena, premiadíssimo, a amizade encantava e  comovia. Fluía no tempo de ardente aprendizagem.


                               

sábado, 25 de janeiro de 2014

Amor pelo Brasil
                           

A literatura prejudica o econômico, interfere na família, não resolve os problemas sociais e políticos. Embora incerta para o autor, a literatura  é atividade útil como conhecimento da vida. Viver sem ela é impossível. Dá vôo à razão na leitura do mundo. Consegue o milagre de  aproximar criaturas no plano afetivo, não importando a idade, cor, crença,  lugar e distância..
Graças à literatura tenho feito  bons amigos. O último deles foi há poucos anos. É um americano, erudito, sensível, atencioso, qualidades inconfundíveis de seu caráter. Professor Emérito da Universidade de Austin, Texas, Fred Ellison  tem um amor forte  pelo Brasil. O abraço rico que vem dando há anos  ao nosso País manifesta-se  no ensino de língua e literatura brasileira nos Estados Unidos, passa pelo ensaísmo lúcido  e alcança traduções admiráveis de autores importantes de nossas letras, como  Rachel de Queiroz Helena Parente Cunha, Adonias Filho e Affonso Romano de  Sant´Anna.  Meus livros “De Cacau e Água” e “Poemas da Terra e do Rio”, inédito,  levam a marca da tradução exemplar para o inglês do caro amigo. .
”Brasilianista” dos melhores,  Fred Ellison proporciona agora em “Alfonso Reyes e o Brasil” (Editora Topbooks, Rio, 2002) estudo substancioso sobre a temporada que  o embaixador-poeta mexicano passou entre nós. O assunto encontra no americano o ensaísta maior. A pesquisa criteriosa do espírito sensível, que caminha de mãos dadas com o discernimento para erguer na  escrita agradável uma vida intelectual plena de reflexões, projeções,  esperanças e realizações  em chão brasileiro.
 Desse livro emerge todo o clima intelectual e emotivo que  o embaixador-poeta mexicano teve pelo Brasil durante os sete anos em que aqui esteve. Abordam-se   como nenhum intelectual brasileiro tentou fazer até hoje, o que não deixa de ser  omissão lamentável, as múltiplas atividades e relações  culturais que o embaixador-poeta mexicano empreendeu em prol do Brasil. Foram  anos em  que ele  se dedicou de  modo afetuoso às relações diplomáticas e à cultura brasileira, em namoro intenso,  de quem escreveu contos, poemas e ensaios tendo como ponto de referência nossas coisas e gente.
 O livro de Fred Ellison é leitura obrigatória  para quem quiser saber sobre a vida cultural do Brasil nos anos 30. Reconhecer intelectuais  do circulo de relações de Alfonso Reyes, bem como suas atuações culturais em nossas artes e letras. Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima, estes foram alguns de nossos homens de letras e artes que se tornaram amigos  desse embaixador e escritor  de extração renascentista. Manuel Bandeira fala do mexicano  com afeto em “Rondó dos Cavalinhos”, no almoço de despedida  oferecido por diplomatas e entidades brasileiras  no Jóquei Club do Rio, e no outro poema  “Rondó do Palace Hotel”,  no qual  os dois últimos versos  - “Por alguém que não está presente/ No hall do Palace”, dizem respeito a Reyes, observa  o ensaísta americano. 
Fico sabendo no livro “Alfonso Reyes e o Brasil” que o diplomata  teve  ânsias de entrar em contato com os intelectuais brasileiros assim que aqui chegou. No início nossos homens de letras não foram   tocados pelos acenos do  mexicano, que nunca escondeu nas intenções e atitudes  a inquieta admiração pelos brasileiros e sua paisagem.. Momentos de amizade foram se fazendo com nitidez pouco depois, e, dos encontros que continuavam, a oportunidade era dada   ao intercâmbio de idéias, informações e juízos críticos consistentes.
                 Até hoje pouco sabia da atuação e amor desse notável  embaixador-poeta- mexicano pelo meu país. Acredito que o mesmo se deu com a minha geração nos anos 60. No livro  de Fred Ellison, através de entrevista concedida a Aurélio Buarque de Holanda, posso sentir como esse  embaixador mexicano teve no Brasil uma temporada das mais felizes de sua vida, contribuindo para isso dois elementos essenciais: o homem e a natureza. “Tudo do melhor em minha existência”, ele assinalou,  em momento de puro encantamento.. E, enamorado do Brasil cada vez mais,  tanto o elogiou que todos os mexicanos quiseram vir ao Brasil como embaixador e desse modo lhe tomaram o posto.
                    Fico sabendo ainda no ensaio de Fred Ellison que, na poesia de  “Romances  del Rio  de Enero”,  o embaixador  diz versos num “caso de amor” pelo Brasil, simbolizado pela moça que há tempo tinha desejado:


                        “Brasil,  me das a la moza
que ha tiempo he dado em querer?
Mira, que si me la niegas
enloquezco, y yo no sé.... (sic)
La espada de mys mayores
descuelgo de la pared,
y entro a tajos por el mundo
como el que se va a perder.
La pido por cortesía,
cedemela tu por ley.
No se diga que desoyes
a los que te quieren bien;
no se diga que no sabes
pagar y corresponder;
no se diga que me pierdo
por culpa de uma mujer.”

                   
                                                        :
                   



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

          Boate Id


 ( Cyro de Mattos)


A Boate Id ficava  em um desses sobrados antigos de Salvador, na cidade alta.  Uma escada estreita terminava no terceiro andar onde funcionava a boate. Lá dentro, as mesas com quatro cadeiras distribuídas por vários cantos do salão e ao redor do círculo que servia como pequena pista de dança. À direita da entrada da boate havia um barzinho onde apenas o garçom ia buscar no balcão a bebida com  o tira-gosto pedido pelo cliente. Ao lado do barzinho, a toalete masculina e a feminina.
   À música era ao vivo. A orquestra com o pianista, baterista, saxofonista e cantor tocava no pequeno tablado, armado junto a uma das paredes laterais. Às vezes aparecia por lá um cantor famoso da música popular brasileira. Cantava sem cobrar nada porque era amigo do dono da boate ou então porque gostava de cantar naquele tipo de ambiente noturno. Não chegava a ser um show ou espetáculo demorado. Era apenas uma apresentação rápida do cantor famoso. Foi assim que tive a oportunidade de assistir cantar bem  perto Miltinho e Jamelão, dois nomes famosos da música popular brasileira à época, que se apresentaram para um público hipnotizado na boate lotada.
Ninguém podia entrar no recinto acompanhado de mulher. A Boate Id tinha as suas meninas, que assim eram conhecidas, cada uma com o seu jeito sensual para atrair a atenção do homem que acabava de chegar ao recinto, interessado por goles desse vinho vertido de gozo. Os pares conversavam sentados à mesa, misturando vozes com o prazer que dava a bebida e o cigarro.
Naquele tempo era comum a cidade de Salvador  propiciar encontro de amigos, que nem sempre tinha um local marcado. A cidade ainda era pequena, mesmo se tratando de uma das capitais mais importantes do Nordeste. Sua população talvez tivesse uns seiscentos mil habitantes. A capital baiana conservava muita coisa de cidade de interior. Em alguns locais como a Rua Chile  a cidade toda passava durante a semana. 
A noite oferecia a oportunidade de extrair o tédio ou a angústia, que à época se chamava de fossa, escondida atrás de uma fachada aparentemente brilhante, mas em situação crítica sob qualquer aspecto íntimo. Por tudo isso, e porque tinha gente que sobrevivia vendendo acarajé, abará,  mingau e churrasquinho de carne no espeto, na rua onde estava localizada a Boate Id, como em outros pontos semelhantes da cidade alta,  a noite da capital baiana era considerada como uma das coisas generosas da vida.  Para os que circulavam na boêmia, podia significar um desabafo no encontro fugaz do amor com uma das meninas da Boate Id. Reciclava-se dessa maneira,  no ímpeto máximo do  prazer, a energia que o corpo necessitava para no outro dia seguir nos caminhos da vida.                           
          As meninas que trabalhavam na Boate Id tinham origens pobres, sem preparo e proteção familiar. Levavam a vida nada fácil de mulheres que vendiam o corpo na cama para sobreviverem. Ainda não sabiam esse lado do mundo que de uns anos para cá passou a matar a vida com tóxicos e drogas, sem deixar rastros. Era na bebida que as meninas afogavam as mágoas, tentavam  enganar e aliviar os ferimentos causados pela dura realidade que levavam.
Trabalhavam de terça-feira a sábado, das 22 às 3 da madrugada, o domingo era para o descanso e o lazer. Reservavam a segunda-feira para fazer compras com o namorado. Quando estavam na boate, usavam saia curta, seios salientes de propósito quase saindo do decote. A maquiagem constava de cabelos brilhantes, rosto levemente de ruge, lábios pintados de preferência com batom vermelho. Pulseira no braço, anel  com a pedra de brilhante simulada, bolsa a tiracolo quando no fim da noite, o trabalho encerrado, iam jantar em algum restaurante da Ajuda. O preferido dos restaurantes era o Cacique, que ficava na vizinhança do Cine Guarani e do Tabaris, um famoso cabaré  que atraía as prostitutas em fim de noite, marginais do luxo e da ociosidade, comerciários, estudantes, jornalistas,  músicos e cantores. Camada de gente que se encontrava naquele ambiente procurado  porque achava que a vida noturna da cidade  tinha um prazer especial escorrendo por ladeiras e becos.
Na Boate Id era reprovado o gesto de algum homem que saísse do limite e ousasse chamar uma das meninas de puta. Por sua inconveniência, calcada em ressentimentos pessoais ou paixão compulsiva, era colocado para fora do recinto pelo segurança quando insistia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Luiza Lobo Conquista o Prêmio
Para Romance do Pen Clube do Brasil


Com Terras Proibidas – A saga do café no Vale do Paraíba do Sul, da editora Rocco, a escritora e professora de Letras da UFRJ Luiza Lobo conquistou o Prêmio Pen Clube do Brasil para romances publicados em 2014. O romance é um mergulho na trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo no café no Vale do Paraíba.
O  século XIX no Brasil foi o século do café.  Foi ele que deu origem a poderosos clãs estabelecidos no interior fluminense, na região conhecida como Vale do Paraíba do Sul. Mas, em meio ao poderio cafeeiro, fortemente dependente da mão de obra escrava, sopravam os ventos da modernidade, da onda abolicionista, da morte do Império e do nascimento da República.
O romance conta a saga da família de Francisco José Teixeira Leite, o barão de Vassouras. Empreendedor nato, ele construiu um império cafeeiro e um clã poderoso e influente, auxiliando no crescimento das cidades do Vale do Paraíba, particularmente Vassouras, e adquirindo grande importância política.  No entanto, sua família estava fadada a sofrer com tragédias e mortes.  Ele testemunha todas elas.  Seria a maldição lançada por Manoel Congo, escravo que lidera uma rebelião nas fazendas de café da região, mas é capturado e condenado à morte? - perguntam-se os moradores da Fazenda Cachoeira Grande, onde viveu o poderoso barão.
Ancorada em extensa pesquisa histórica, Luiza Lobo usa a família do Vale do Paraíba do Sul – também conhecido como Terras Proibidas, região a qual ninguém podia ter acesso para que fosse impedido o contrabando de ouro encontrado em Minas Gerais – para ilustrar as intensas mudanças pelas quais o Brasil passou na segunda metade do século XIX. Não apenas mudanças políticas e econômicas, mas também, e talvez impulsionadas por elas, mudanças de comportamento, como o namoro da sobrinha do barão com um então abolicionista chamado Joaquim Nabuco, motivo de alvoroço na família. 
           Paralelamente ao cenário social, político e econômico, Francisco José Teixeira Leite passa a enfrentar um longo martírio pessoal: perde a primeira mulher, a prima Maria, devido a um mal súbito; casa-se em seguida com outra prima, a jovem e voluntariosa Ana, que lhe tira a paz em todos os momentos com seus caprichos; amarga dissabores com os problemas mentais de um dos filhos; perde a outra filha, Ambrósia, em pouco tempo; e o destino de Eliza, sua neta, também só lhe trará dor.
           Terras proibidas narra a saga do impávido barão de Vassouras, um homem que atravessou o século cada vez mais só e isolado até uma época que já não teria lugar mais para ele, e retrata assim uma parte importante da história do país.

A AUTORA
Luiza Lobo é professora de literatura comparada e teoria literária na pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ e pesquisadora associada da Universidade de Poitiers, na França. Tem doutorado em literatura comparada pela Universidade da Carolina do Sul (EUA) e duas pós-graduações, em Nova York e em Berlim. Escreveu livros acadêmicos e de contos. Publicou mais de 100 ensaios em revistas, livros e enciclopédias no Brasil, na Inglaterra, na Itália, em Portugal e nos EUA. Traduziu mais de 30 obras, assinadas por autores como Jane Austen, Virginia Woolf e Edgar Allan Poe. Proferiu palestras nas universidades de Londres, Oxford, Yale, Harvard e Columbia, entre tantas outras. Em 2000,  a Rocco publicou seu quinto livro de contos, Estranha aparição.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

“Um Grapiúna em Frankfurt



Meu Novo Livro: “Um  Grapiúna
em Frankfurt e Outras Crônicas”

Com capa do desenhista baiano Sante Scaldaferri, prefácio do poeta paulista Álvaro Alves de Faria, a Editora Dobra Literatura (SP) publicou em dezembro último  o meu novo livro:  “Um Grapiúna em Frankfurt e Outras Crônicas”. Este foi o oitavo livro que publiquei em 2013, dessa vez reunindo 50 crônicas, umas inéditas e outras publicadas semanalmente no “Diário Bahia”.  A edição contou com o apoio cultural da LIDI, Laboratório de Análises Clínicas de Itabuna.
No prefácio, o poeta Álvaro Alves de Faria comenta:  “o poeta deixou que passasse à sua frente esse tempo que ainda vive no que guarda da sua criação da Beleza, buscando lá atrás as cenas que ainda existem, porque fazem a história de cada dia. Por isso tudo, este livro é obra rara no vale de lágrimas destes tempos brasileiros que só invertem os  valores e isso inclui também a literatura, que deveria ser a identidade de um povo”.
Com 75 anos de idade,  continuo no destino de ser escritor, é o que gosto de fazer, bem ou mal. A estréia foi em 1966 com “Berro de Fogo”, contos, livro que risquei de minha bibliografia, espero que nunca encontrem para ler. Neste ano de 214, publicarei  mais seis livros: os infantis  “Existe  Bicho  Bobo?” (Editora  Biruta, SP),  “Poesia de Calça Curta” (Editora Solisluna, Salvador)  “Olhe  Nós Aqui” (Editora Dimensão, BH), “Minha Feira Tudo Tem Como Onda Vai Vem” (Ler Editora, Brasília), o romance juvenil “Nada Era Melhor” (Biruta) e o romance para adultos “Os Ventos Gemedores” (Editora Letra Selvagem, SP). Além disso, a Editora da Universidade do Estado da Bahia  publicará a segunda edição de “Cancioneiro do Cacau”, na Coleção Nordestina, livro que me rendeu quatro expressivos prêmios literários, três no Brasil e um no exterior.
Crônica do Circo

                                (Cyro de Mattos)



Desde que conheceu o circo pela primeira vez,  ficou  encantada com os números divertidos e arrojados. Além de  Margarida,  uma chimpanzé dócil, inteligente  e brincalhona, as atrações que mais lhe chamaram a atenção foram os trapezistas, o globo da morte, palhaços (que as crianças adoraram) e os dois times de cão Paulistinha, Corintians e Palmeiras. À noite,  antes de pegar no sono, conferiu na imaginação todas as atrações e prometeu que um dia ia ser trapezista.
O circo ficou na cidade seis semanas. A casa sempre cheia. Quando o circo foi embora, ela fugiu com um dos trapezistas. Tinha pouco mais de 15 anos de idade, ele aparentava 25. Estava comprando pipoca com o irmão mais velho na entrada do circo, antes de retornar para a casa.  O trapezista aproximou-se do carro de pipoca e perguntou se ela e o irmão tinham gostado do circo. Ficou confusa quando viu o trapezista. Gaguejou, dizendo que tinha gostado muito. O que mais lhe impressionou foi o número dos trapezistas. Olhou com interesse para ele, aquele rapaz louro, olhos azuis e rosto sanguíneo.  Eles se apaixonaram ali mesmo quando seus olhos se cruzaram. 
A mãe dela desmaiou quando encontrou a cama da filha vazia no mesmo dia em que o circo foi embora.  O trapezista casou com ela, como havia prometido. De início, começou a trabalhar no circo como contorcionista. Só depois de um ano, três meses treinando com  exaustão, todos os dias, é que ela passou para o trapézio. Com o tempo tornou-se uma trapezista sensacional, que arrancava  suspiros da platéia. Quando terminava seu número com o marido e o cunhado, o circo quase vinha abaixo com os assovios, gritos e aplausos  demorados.
         Depois de casada passou a ser chamada de Baiana  pelo pessoal do circo. De mês a mês,   ficava sabendo como era a vida no circo. Tinha o lado bom e o ruim. Com certeza, o lado bom era bem melhor do que o ruim. Para o artista,  o bom era a expectativa da estreia, o povo aplaudindo. Ver uma criança aplaudindo não tinha preço.
        O lado ruim era viver na estrada sempre como nômade, sem ter tempo de criar vínculos de amizade. Ainda assim reconhecia que deixava muita gente saudosa por onde passava com o marido e os outros artistas. Outro ponto positivo daquela vida nômade era conhecer o Brasil com suas diferenças  e encantos. Em algumas regiões o frio era intenso, em outras o sol brilhava o ano inteiro. Havia gente de todos os tipos.     
       Outro fator negativo, nessa vida nômade, era a educação das crianças. “Toda criança tem como base a escola. Hoje tem uma lei que ampara a criança de circo para matrícula em colégios do ensino público”, disse para o repórter que a estava entrevistando. “Mas, infelizmente, existe deficiência no ensino público, por isso nós procuramos matricular em colégios particulares.  Há uma dificuldade muito grande para o filho de artista circense se adaptar ao ritmo do colégio”, observou.   
         Ela tentou viver na cidade, teve dificuldade no relacionamento com outras pessoas que não fossem do ambiente circense. Também não conseguiu viver  na cidade porque se acostumou a morar em trailer. A rotina na cidade era  bem diferente. O trailer tinha  tudo que uma casa normal possui, geladeira, tevê, fogão, mas  num espaço super-reduzido.
            Sentira  a dificuldade  em alfabetizar o filho.  Quem  a ajudou a solucionar esse problema da alfabetização do filho foi sua mãe,  que morava no interior de São Paulo. O filho voltaria depois  para o circo,  para ser artista como ela tinha sido, se assim ele quisesse.   Além de artista, esforçava-se para manter a ordem na agenda de dona casa. Tinha que  se virar. Cuidar do marido, do filho quando vinha passar as férias com os pais, do almoço e estar pronta na hora do espetáculo.
         - Tudo aqui é muito compacto, mas não troco o circo  pela cidade de jeito nenhum, pois não me acostumaria – ela disse ao repórter no final da entrevista.