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sexta-feira, 21 de março de 2014

       Copa do Mundo 70

                    Carlos Drummond de Andrade
I

Meu Coração no México


Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:
Que é do meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,
instalou-s, discreto, num cantinho
qualquer, entre bandeiras tremulantes,
microfones, charangas, ovações.,
e de repente, sem que eu mesmo saiba
como ficou assim, ele se exalta
e vira coração de torcedor,
torce, retorce e se destorce todo,
grita: Brasil! Com fúria e com amor.


II

O Momento Feliz

Com o arremesso das feras
e o cálculo das formigas
a seleção avança
negaceia
recua
envolve.
É longe e em mim.
Sou o estádio de Jalisco, triturado
de chuteiras, a grama sofredora
a bola mosqueada e caprichosa
Assistir? Não assisto. Estou jogando.
No baralho de gestos, na maranha
na contusão da coxa
na dor do gol perdido
na volta do relógio e na linha de sombra
que vai crescendo e esse tento não vem
ou vem mas é contrário... e se renova
em lenta lesma de replay.
Eu não merecia ser varado
por esse tiro frouxo  sem destino.
Meus onze atletas
são onze meninos fustigados
por um deus fútil que comanda a sorte.
É preciso lutar contra o deus fútil,
fazer tudo de novo: formiguinha
rasgando seu caminho na espessura
do cimento do muro.

Então crescem os homens. Cada um
é toda a luta, sério. E é todo  arte.
Uma geometria astuciosa
aérea, musical, de corpos sábios
a se entenderem, membros polifônicos
de um corpo só, belo e suado. Rio,
rio de dor feliz, recompensada
com Tostão a criar  e Jair terminando
A fecunda jogada.

É gooooooooool  na garganta florida
rouca exausta. Gol no peito meu aberto
goll na minha rua nos terraços
Nos bares nas bandeiras nos morteiros
gol
na girandolarrugem das girândolas gol
na chuva de papeizinhos  celebrando
por conta própria do ar: cada papel,
riso de dança distribuído
pelo país inteiro em festa de abraçar
e beijar e cantar
e gol legal é gol natal é gol de mel e sol.

Ninguém me prende mais, jogo por mil
jogo em Pelé o sempre rei republicano
o povo feito atleta na poesia
do jogo mágico.
Sou Rivelino, a lâmina do nome
cobrando fina, a falta.
Sou Clodoaldo rima com Everaldo.
Sou Brito e sua viva cabeçada,
cm Gerson e Piazza  me acrescento
de forças novas. Com orgulho certo
me faço capitão Carlos Alberto.
Félix, defendo  e abarco
em meu abraço a bola e salvo o arco.

Como foi que  esquentou assim o jogo?
Que energias dobradas afloraram
do banco de reservas interiores?
Um rio passa em mim ou sou  o mar atlântico
passando pela cancha e se espraiando
por toda a minha gente reunida
num só vídeo, infinito, num ser único?

De repente o Brasil ficou unido
contente de existir, trocando a morte
o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste
por um momento puro de grandeza
E afirmação no esporte.
Vencer com honra e graça
com beleza e humildade
é  ser maduro e merecer a vida,
ato de criação, ato de amor.
A Zagalo, zagal prudente
e a seus homens de campo e bastidor
fica devendo a minha gente
este minuto de felicidade.

sábado, 15 de março de 2014


                        Gente Pobre de Dostoievski
                          
                           (Cyro de Mattos)
             
            Dostoievski era homem da cidade, um intelectual pequeno-burguês, que possuía  uma alma espiritualista ligada à interpelação da vida sob as manifestações do bem e do  mal. Nessa dicotomia religiosa era que concebia os caminhos de uma libertação com base  no evangelho e nas visões filosóficas de um cristianismo angustiado. Segundo Otto Maria Carpeaux, “a sua obra inteira é um protesto apaixonado contra o determinismo que lhe parecia o fundamento do materialismo ateu.” (Conf. História da Literatura Ocidental, V, pág. 2532)       
         Gente Pobre, romance de estreia de Dostoievski, foi considerado o  primeiro romance social da literatura russa. O livro causou sensação no meio literário e cedo trouxe a glória ao autor, que  passou a fazer amigos com gente da alta sociedade. As obras que vieram depois de Gente Pobre foram consideradas de nível inferior: O Sósia, A Hospedeira e O Senhor Prokharttchine.
        Em Gente Pobre, os primeiros passos de um escritor com uma arte voltada para o psicologismo das camadas  inferiores transitam por entre as pulsações que exprimem a aflição e a humilhação de uma gente infortunada. Nesse romance de autor estreante   é percebido, em  nível expressivo de criação literária, uma das tônicas da ficção que Dostoievski iria desenvolver ao longo de sua obra,  associada ao que há de dramático e sofrido no curso doloroso da vida. Na inventiva do jovem romancista,  aflora o sofrimento de uns pobres diabos participando  de um cenário retirado de um dos bairros miseráveis de São  Petersburgo.
         Ficou bastante  conhecido  o que disse Dostoievski ao jovem Merejekowski, de quinze anos, que ao lhe visitar  leu seus versos: “Para escrever bem, é preciso sofrer, sofrer.” Dostoievski sempre soube que dor é vida, os outros sofriam como ele porque todos estavam na vida. Certa vez, na voz de um de seus personagens, chegou a  um desabafo quando disse que lá embaixo, na outra terra, não podemos amar senão com dor, e somente através da dor.
         Este sofrimento integral conheceu Dostoievski em longa pena de trabalhos forçados, durante os  anos  que passou  na prisão da Sibéria, quando então teve conhecimento pela primeira vez de  todo tipo de criminoso. Experimentou  nas regiões infernais do jogo, na danação das dívidas, na falência, na humilhação, na doença da epilepsia, nas desilusões de uma vida amorosa, nas verdades pessimistas  que iriam formar seu espírito inquieto e atormentado, inclinando-o, na progressão de sua obra,  às auscultações místicas, à exacerbação do  psicológico e ao credo permanente na Arte.                                    
        Gente Pobre é um romance de estrutura simples com uma narrativa também de fácil apreensão. Descreve o que são  os dias de desalento vividos pelo funcionário Makar, um homem de meia-idade, e Varvara, moça desonrada e órfã.  Dostoievski faz uso da troca de cartas entre os dois personagens para que a vida como um espelho reflita o comportamento afetivo de duas criaturas tristes,  quase na indigência. Informa assim na aparente superfície das coisas  sobre duas vidas no infortúnio,  conscientes de que o pior era  viver na incerteza, sem saber nada do que seria deles em seu estado de penúria.
        As camadas superiores na Rússia desse tempo seguiam um ritual que anunciava  as pessoas vestidas em indumentária nobre, fazendo questão que fossem notadas  seu brilho no exercício dos privilégios. Era importante nas pessoas esse brilho quando  compareciam aos grandes e pequenos  acontecimentos. Marginalidade, pobreza, força do destino determinado por Deus, sobre todos esses parâmetros, fazem com que Dostoievski realize a cortante incursão na alma humana para transmitir nas entrelinhas as profundidades de um imoralismo social.  Longe de ser  panfletário, muito menos de ter uma escrita política afastada do estético, em Gente Pobre já acontece um Dostoievski imbuído daquela percepção de que a arte se torna plena de significados quando comprometida  com as verdades essenciais da vida, combinando as feridas sociais com as atribulações da alma, Sem dor e solidão, angústia e outros males da alma,   torna-se um produto fútil, que alimenta  vaidades e faz o elogio do ornamento.     

domingo, 2 de março de 2014

O Poeta Menelau

              Ainda não conhecia o fundador da Confraria dos Poetas de Burundanga. Exercia o mandato de presidente pela décima vez, sempre eleito por aclamação. Também com ele a regra era seguida à risca, só era poeta quem pertencesse ao ilustre quadro de membros efetivos da confraria.  Quem não tivesse o salvo-conduto, não imaginasse ser considerado como um verdadeiro poeta.
Era de estatura pequena, pescoço grosso, cabeça grande. Dentuço e nervoso. Tinha o sestro de sacudir a cabeça várias vezes quando estava dizendo um poema. Era amigo do prefeito, para quem  dedicava sempre dois ou três poemas no dia de seu aniversário. Assinava uma coluna no Diário da Burundanga na qual comentava livros de poesia, apenas os volumes dos confrades. Contente, ali era um espaço ideal para publicar seus comentários literários ou  poesia de dez a vinte estrofes. O que não deixava de ser uma boa oportunidade para disseminar sua glória, quase dizia vaidade, mas isso não calhava com seus brios de poeta talentoso, segundo ele.
 Gostava muito de fazer poemas longos, curtos só os de circunstância. Detestava o hai-cai, coisa insignificante, de poeta minimalista, sem inspiração, habilidade no estro, alienado, cultor de fórmulas orientais para  compor o verso. De outras gentes que nada tinham a ver com a magnífica poesia cultivada por ele e os poucos leitores, que eram os mesmos integrantes da confraria.   
Quando se dirigisse a ele, só admitia que fosse chamado  poetão Menelau. Vá lá, poetastro, nada de poeta ou poetinha, isso não condizia com a grandeza de seu estro, que tinha como marca supimpa as rimas mais instigantes. Por exemplo, coração com mamão, tesouro com besouro, presepada com batucada, cachoeira com besteira, facão  com anunciação, porrete com macete, camaradagem com garagem, alegria com pirataria, jereré com pontapé.
Estava abastecendo o carro com gasolina no posto. De súbito apareceu aquela cabeça grande na janela do motorista, os olhos rutilantes como se quisessem saltar do rosto ossudo.
Disse com entusiasmo:
-  Soube que você publicou um livro de poesia na França.
- Sim – eu disse.
Emendou sem pestanejar:
- Mas isso não é a glória. Não é trunfo para se achar  um verdadeiro poeta.
Meio assustado, disse que a glória não me preocupava. A imortalidade era uma fórmula usada pelos membros de uma academia.        
- Você precisa aparecer lá na confraria dos poetas da terra, retornou e insistiu na lembrança. - Precisa se filiar ao grupo. Se não tiver em nosso meio, nem se considere poeta.
E recitou o que ele chamava do mais recente poema de sua imbatível inspiração. Uma zorra com versos que rimavam coração com cheiro de manjericão, pele morena com embriaguez serena, e por aí seguia. Informou que os versos candentes desse poema ou o que fosse lá o que fosse tinha inspiração na sua bela Aurora, mulher,  companheira e eterna musa.
        -  Quer ouvir outro poema?
        Comecei a suar, apressando-me  em ligar o carro para  me livrar das investidas poéticas do Menelau.  Para sorte minha, ouvi o frentista dizer, no outro lado,  para que ele tirasse seu carro, que o tanque já estava cheio. Ele não deu ouvido. Começou a dizer outro poema, apesar de meu conselho para que fosse tirar o seu carro, o frentista já estava irritado de tanto pedir isso, tinha gente na fila querendo abastecer o veículo.  Foi o que me salvou. O poeta Menelau, o grande, antes que me esqueça, saiu chateado com aquela inconveniente interrupção à sua elevada dicção para soltar a verve,  que emergia, naquele instante, do encontro não marcado com um simples fazedor de versos.
         O poeta Menelau ainda lembrou antes de sair:
          - Apareça lá na confraria dos poetas.
          E arrematou com o peito cheio e cabeça nervosa:
          - Junte-se a nós e vá em frente como um verdadeiro poeta.       
  



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Carnaval
                                                         
                  O carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que irrompe na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, que se exibe na passarela do asfalto, desfilam passistas, ritmistas, fantasias, carros com alegoria,  samba enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baianas e comissões de frete. Aparecem figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente. Deslumbram. Arrancam palmas da plateia. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações do corpo, canto e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.
           Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso, varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo ventos da utopia  para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros. Suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandi”. Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo.
      Não se pode deixar de considerar que o Carnaval ativa o comércio informal.  É a oportunidade que muitos encontram para ganhar um dinheirinho e sobreviver na dura lei da vida. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral frenético silencia, o Carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Dezenas  nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.
      O Carnaval de Itabuna já foi o melhor do sul da Bahia durante muito tempo. Não acontece há anos. Autoridades argumentam que nessa época o surto de dengue é grande nos bairros carentes da cidade,  os recursos públicos  que seriam  fornecidos para animar  a festa devem ser  destinados para debelar, controlar ou atenuar   o surto da doença infecciosa,  que em alguns casos resulta em morte.
     Várias administrações municipais não vêm conseguindo derrotar ou pelo menos enfraquecer em níveis aceitáveis o surto da dengue nessa época, através da execução de um programa eficiente no setor da saúde comunitária, Assim, o Carnaval, que não é responsável pela dengue, é impedido de acontecer em nossa cidade. De onda eufórica para liberar a adrenalina passa a ser um vilão vil e repelente.  Nessa época, quando o Brasil usufrui uma de suas grandes paixões populares, o folião itabunense é jogado para escanteio. Fica a ver navios.  Tem como consolo  acompanhar a festa no Rio, Salvador e outras localidades pela telinha da televisão.
         Mais uma vez esse folião vibrante, antigo dono do pedaço quando passava e agitava na euforia, vai saber que na sua cidade não acontece nada no Carnaval, Nesses dias, a tristeza ganha da alegria.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Passeio pela Espanha

                                          (Cyro de Mattos)
           
            A estrada bem sinalizada nas curvas, encostas e cruzamentos. O ônibus desliza no asfalto, tem a maciez de um colchão. Dá sono esta viagem que atravessa planícies, uma paz que suaviza a alma. Campos de trigo como imensos lençóis até a curva do horizonte.   Uma família portuguesa, com certeza de classe média, rostos de cada um até certo ponto afável, ocupa poltronas  perto  da minha.  Um casal de velhos puxa conversa para saber o que aconteceu com o avião seqüestrado depois de decolar no aeroporto de Nova Iorque, levando cento e cinqüenta passageiros. O velho ouviu a notícia no quarto, estava arrumando a mala para a excursão a Madri. Plantão da TV Planeta.  A velha, com veias grossas nas mãos magras, cabelos alvos e sedosos, disse que o avião explodiu sobre o oceano. A mãe do menino põe  a mão na boca horrorizada. Santo Deus, que barbaridade! (o pai do menino).
            O ônibus faz a segunda parada nas imediações de Toledo. Trinta minutos para apreciarmos a cidade ali do alto. Da balaustrada podemos tirar fotos e filmar. No retorno de Madri, vamos conhecer Toledo por dentro. Puerta Bisagra, Castillo Visigodo, Calle de Santa Isabel, Casa del Greco, a Catedral famosa e outros locais importantes. O guia anuncia com sua voz ligeira. Alguns não escutaram direito o que a voz nervosa dele  acabou de dizer. Pedem para ele repetir, devagar, por favor. Toledo é um museu a céu aberto, você vai ver isso, o passado chegando da Idade Média em silêncio, a mulher de olhos azuis diz para o homem de cabelos cor de ouro, nariz comprido no rosto com o queixo saliente. A cidade foi construída sobre uma grande rocha, lá embaixo o rio contornando-a e seguindo com a sua enorme cobra grossa. Estratégia perfeita montada com a ajuda da natureza para impedir a invasão das hordas inimigas. A entrada da cidade fica lá em cima, no topo da rocha. Chega-se à grande porta atravessando por uma ponte sobre o fosso de garganta escura.
            Distante dos outros, numa das extremidades da balaustrada. Calado, arredio.   Espio as casinhas lá embaixo, próximas ao rio, num dos lados em que circunda a rocha. O guia informa que só podem ser construídas com a mesma arquitetura dos tempos medievais. De longe observo Toledo. Visão que se mistura com a sensação de uma fortaleza impenetrável, muralhas altas, circulando a cidade, construídas sobre o topo da rocha.  Torres dentadas onde outrora ficaram sentinelas, na ronda com espada e lança.  Noites expectantes sob a dura vigília à espreita da morte.
            O  ônibus cruza a Puerta d´Alcalar, em Madri. Ao desembarcar sigo atrás  dos outros turistas, que em grupos estão entrando no Hotel Washington, na Gran Via de Madri. O guia recomenda que só vamos ter  cinqüenta  minutos para descermos até o salão de refeição, fica  no primeiro andar do hotel. Entrega a cada um de nós  o cartão magnético, ensina como deve ser enfiado na fenda da porta do apartamento para abri-la. Ao ser enfiado na porta, o lado da tarjeta para baixo. Cuidado para não esquecer o cartão magnético enfiado na porta quando sair. Convite para o ladrão entrar no apartamento e ganhar o dia fácil (risos).
            Ficaria sem fazer a refeição do jantar, se não chamasse  o chefe dos garçons para saber o que estava acontecendo. Ali sozinho na mesa do canto, vendo os outros deglutir a sopa: são servidos com atenção especial por dois garçons que parecem irmãos  gêmeos. “Levo o caso para a Embaixada do Brasil para as providências legais”. Impaciente, voz um pouco alterada, absurdo o tratamento que estão me  dando. “Por favor, senhor, está havendo um mal entendido”, calmo o chefe dos garçons, “num instante o senhor será servido.” Um português de fala fina, o chefe dos garçons,  impecavelmente vestido no uniforme do hotel, cor de vinho.  O nome do hotel com letras douradas no bolso superior do paletó. Incumbe um dos garçons para me servir imediatamente.
O guia reúne todos no salão de recepção do restaurante, ao lado do salão de refeições. Vamos dar um breve passeio pelo centro da cidade agora à noite. Fontes de Cibelis e Netuno, Porta do Sol, Praça da Espanha, passaremos em frente ao Palácio Real. Após a refeição matinal, amanhã, às 8,30 horas, todos na recepção do hotel. Pela manhã, passeio no Parque do Retiro e, à tarde, Praça Maior. À noite, como opção conhecer o flamenco, a dança e a música que apresentam chamas. Despesas no teatro por conta de cada  um de vocês, diz o guia.        
       Depois de três dias visitando outros locais importantes em Madri, o ônibus retorna a Lisboa de manhã cedo. Começa a subir a Grande Via, durante o dia com muito movimento de carros. O ônibus deixa para trás ruas com os vultos de pessoas andando pelos passeios. O roteiro no retorno da Excursão Eldorado indica parada no Vale dos Caídos, visita à monumental Salamanca e à admirável Toledo. No retorno,  como aconteceu na ida, continuo na excursão como um desconhecido, que viaja em silêncio. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

                   Um Torcedor Especial
                                                (Cyro de Mattos)

O telefone toca na sala.
A mulher atende.
- Quem é?
- Luís Fernando.
-Diga meu neto.
- Quero falar com vô.
Da sala a voz forte da mulher para o vô no gabinete:
- É seu neto, quer falar com você.
- Já vou.
No telefone:
- O que foi, meu neto ?
- Vô, você está triste?
- Triste de quê?
- O seu Vasco perdeu para o Atlético Paranaense.
- De goleada e desceu para a segunda divisão.
- Cada gol que o Vasco tomava eu me lembrava do meu vô.
- Mas você não é Vasco, e, sim, Flamengo,  como  seu pai.
- Sou mesmo, uma vez Flamengo sempre Flamengo, Flamengo sempre hei de ser, até morrer, mas fiquei triste e chorei. Preocupado com a derrota do Vasco e a tristeza do vô.
- A vida é assim mesmo, um perde e ganha. Quando o Vasco voltar para a primeira divisão, vai cruzar com o  seu Flamengo e aí tudo volta com antes: vamos ver qual é o melhor dos dois times, se o seu  mengão ou meu vascão.
- Está certo, vô.
- E não chore mais. Tenho certeza que meu Vasco voltará à primeira divisão no próximo ano. Vai ganhar de todos os 19 times da segunda divisão. Vai dar a volta por cima e, na primeirona, não tem pra ninguém.
- Tomara, vô!
Foi bom o Vasco perder aquela última partida.
Descer para a segunda divisão.
Descobriu que o neto era o melhor torcedor deste planeta. Especial, muito especial. Não havia outro igual.      

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ginásio dos Meus Verdes Anos



( Cyro de Mattos)


O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais e ser admirado por pessoas importantes. Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanham a criatura humana em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender o mundo. Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.

Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava ao fim do ano. Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, Padre Nestor, Lode Hage e “Seu” Queirós. Professores responsáveis que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.  

Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos advogados Joel, Eraldo, Gervásio  e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir Oliveira, Euvaldo Mattos, José Rebouças, Antonio  Menezes, João Otávio e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho Maron. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Neviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos Irmãos Ildo, Eudes,  Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as profundezas de águas escuras. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário, eu indagava sobre a escuridão daquelas águas traiçoeiras.

Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.    

 Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas. Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paulo, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio seguia nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paulo. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a idéia.

Nesse tempo a cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passavam a conhecer  que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro ginásio da cidade. Colheitas desse saber foram realizadas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, tornaram-se constantes. Produziriam rimas ricas.



                                        ITABUNA E SEUS MITOS
                                                                 Sônia Carvalho de Almeida Maron*


            Na edição do dia 4 do corrente mês, o Diário Bahia prestou justa homenagem ao cidadão desta cidade, Alencar Pereira, mais conhecido como “Caboclo Alencar”. Pequeno comerciante e proprietário do barzinho “ABC da Noite”, no Beco do Fuxico, há muitas décadas mantém o ponto de encontro de boêmios, intelectuais, comerciantes, empresários, enfim, representantes de todos os segmentos sociais, anônimos e celebridades, que apreciam a “batida”  mais famosa da Bahia. O bom papo e a atração irresistível do inteligente, bem humorado e filósofo da faculdade da vida, apelidado Caboclo Alencar, que assegura o pão de cada dia com a exibição do conhecimento de historiador autodidata  e analista sociopolítico, mantém, durante décadas, a admiração dos freqüentadores do seu bar pelo carisma e comentários próprios de um humorista de escol. Eu sei por ouvir dizer, expressão usada para as testemunhas não presenciais. As garotas dos “anos dourados” não frequentavam barzinhos especializados em batidas, entretenimento reservado aos rapazes. As informações fidedignas eu obtive, pela vida a fora, de Nilton Galvão Pinto, amigo de infância e vizinho da rua Rui Barbosa, e Huldo Baldoino, itabunense que passou a residir no Rio Grande do Sul e visitava a família nas férias, reservando, como verdadeiro ritual, um tempo para visitar o Caboclo Alencar. Logo, temos amigos comuns.
            A comemoração dos 83 anos do itabunense famoso e singular, marcada pelo carinho dos incontáveis amigos reunidos no Beco do Fuxico, foi consagrada pela matéria primorosa deste jornal, com direito à chamada de primeira página  e a marca inconfundível  da redatora Celina Santos. Registre-se, ainda, por conta das comemorações, o documentário exibido pela TV Itabuna, no qual a competência e sensibilidade de Barbosa Filho reuniu intelectuais de todos os matizes, jornalistas, advogados, pessoas do povo, um delicado mosaico de celebridades e amigos, alguns tecendo uma análise sociológica do papel do Caboclo Alencar na cultura de Itabuna, outros sugerindo o tombamento do “ABC da Noite”, como marco precioso da nossa história.
            Nenhuma dúvida quanto ao merecimento do Caboclo Alencar. A propósito, muitos meses atrás, o escritor itabunense Cyro de Mattos (membro do PEN CLUB e de várias academias, com grande parte da obra premiada, traduzida em outros idiomas e publicada em vários países) neste mesmo jornal, escolheu o conterrâneo Alencar Pereira para homenagear em inspirada crônica, ressaltando sua personalidade invulgar. São atitudes que sinalizam abençoada modificação nos formadores de opinião, “louvando quem bem merece”  como diz o verso de Gilberto Gil.
            Ocorre, no entanto, que o reconhecimento ao “ABC da Noite” traz a lembrança do esquecimento total de um marco  insubstituível que definiu a vida de centenas (ou milhares) dos seus frequentadores: O ABC DO DIA. O que foi o ABC DO DIA? Ninguém lembra, é certo. O ABC DO DIA, ícone  maior da história de Itabuna, foi demolido, vilipendiado, apagado, deletado. Morreu ignorado, sem choro nem vela. O pior é que o ABC DO DIA tinha um mundo de celebridades que poderiam defendê-lo e impedir seu assassinato.  Muitos fecharam os olhos, os  ouvidos e emudeceram por covardia ou conveniência; outros desconheciam o plano sinistro de destruição; poucos, muito poucos, gritaram, esbravejaram, manifestaram a indignação de filhos ultrajados, porque o ABC DO DIA era o pai e a mãe de todos que buscaram seu abrigo e sua orientação. Os cegos e surdos-mudos são de fácil identificação, porque covardes, indiferentes e convenientes e são inúmeros; entre os que nada puderam fazer por ignorar o projeto de destruição, estão celebridades como Jorge Hage, controlador geral da União e Ubaldo Porto Dantas, ex-prefeito desta cidade; gritando indignados através deste jornal apenas Cyro de Mattos, João Otávio Oliveira Macedo e a autora destas linhas, três pessoas comuns do cotidiano itabunense, também ex-alunos do Ginásio Divina Providência, como nossos conterrâneos e sempre amigos Jorginho Hage e Ubaldo. 
            Volto a lembrar o atentado à cultura e à história de Itabuna, consubstanciado na destruição do prédio onde existiu o Ginásio Divina Providência. Dir-se-ia assunto recorrente, resolvido sob a pá de cal dos escombros que apareceram sob a pressão de máquinas fantasmas que trabalharam durante a noite... É verdade. A demolição ocorreu durante a noite. Por quê?  Sabe DEUS! O fato é que a pressa em concluir o “trabalho” antes do amanhecer, fez com que surgissem rachaduras nas paredes da Igreja de Santo Antonio e nos imóveis do comerciante Reinaldo Cruz e livraria “Um pouco de tudo”. É o que dizem as más línguas. Não estou afirmando que ocorreu prejuízo material para os vizinhos do prédio sinistrado, não vi, não investiguei, não inspecionei. Apenas ouvi dizer e a verdade sobre a transferência de domínio e a demolição, a esta altura, nada significa em cotejo com o prejuízo cultural, histórico, moral. É doloroso constatar que tantos metros quadrados que poderiam destinar-se à construção de outros templos de conhecimento e cultura, minimizando a carência de uma cidade que cresce desordenadamente, e o que é pior, sem respeito ao passado, abriguem, hoje, uma loja de departamentos e outra de sapatos populares. Como poderá Itabuna sequer sonhar com o futuro? Quem não teve passado ou o repudia, não existe no mundo real, é filho de chocadeira.
            Que seja homenageado o Caboclo Alencar. Ele merece. Por tudo que representa como cidadão digno da comunidade que consegue, durante décadas, manter um estabelecimento reservado à venda de bebidas alcoólicas fora do rótulo da mediocridade e do estímulo manifesto ao vício. Ele, ao seu modo, faz a diferença. Principalmente porque conseguiu reunir pessoas que proclamam suas virtudes e provocam a celebração dos 83 anos de uma figura humana que integra a memória de Itabuna. É uma façanha que o meu ABC DO DIA não conseguiu. Somente os três itabunenses já citados, eu, Cyro e João Otávio, tentam salvar o que resta de uma vida inteira da dedicação de LINDAURA BRANDÃO DE OLIVEIRA à formação da juventude de Itabuna e de toda a região sul da Bahia.
            Sinal dos tempos, da modernidade, da pós-modernidade, da sociedade líquida, do que quiserem os eruditos de plantão e de ocasião. Pelo menos, nós,  os três sobreviventes, continuamos lutando para provar que o passado existe e serviu de bússola às nossas escolhas. Nós acreditamos que as chocadeiras ficaram para os aviários. Nunca para a vida das comunidades.


*Sônia Carvalho de Almeida Maron é Juiza de Direrito. Presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Amizade


           Dois repentistas na praça faziam o improviso nos versos que discorriam sobre a amizade. Um elogiava a amizade enquanto o outro procurava mostrar que de maneira sincera ela  não existia neste mundo desde não sei quando. Curiosos que formavam pequeno cinturão  em volta dos repentistas ouviram um  deles dizer a certa altura do improviso sob galope acirrado:
Quem disser que tem amigos
Tem de si pouca ciência,
Amigo só existe aquele
O da própria conveniência.

          Quis dizer com suas impressões realistas da vida que ter o amigo fiel, certo na hora incerta, é a exceção, daí se concluir que  a regra neste velho mundo consistia na amizade ser sustentada através do interesse. O dito popular que afirmava melhor amigo na praça do que dinheiro no caixa não predominava como uma constante  nas relações de empatia entre os seres humanos. A amizade verdadeira, que não espera nada de volta, só acontecia em situações excepcionais.
          Pensando, pensando, a amizade  desinteressada só  quando não há  a competição desumana e desigual pelas coisas materiais ou a vã glória. Na competição selvagem, marca do capitalismo,  uma pessoa enxerga a outra como estranha. Nas  relações duras da luta pela vida,  a afeição, que implica em segredos e solidariedades,  tem pouca chance de achar o seu lugar ao sol.  
          Amizade pura só mesmo na infância quando a vida é uma festa colorida por gestos espontâneos,  em que entram sentimentos nutridos de  esperança e ternura. Daí o poeta dizer que quando a gente fica grande o país da infância é trancado pelos homens com pedaços de alma. Resta a  sensação de uma fruta doce que acaba. Na infância perder ou ganhar é igual a se divertir. Por ser assim em essência, não havendo competição ditada pelas necessidades materiais, naquele território feito de alegria para todos  não funciona  a regra Deus para mim e o diabo para os outros. Estou me referindo à infância feliz, não à pobre e miserável.
         Na juventude, quando no grupo se é envolvido espiritualmente por sentimentos que em si pertencem a todos,  irrompendo do coração para ultrapassar desafios e atingir metas no conhecimento da vida, a gente consegue como na infância fazer boas amizades,  que levam a vida inteira. Quando somos colegas em uma mesma escola, colégio, faculdade,  estamos nesse barco alegre da vida sem competições ferinas. Leve e solta, a criatura humana ainda não provou os  desastres gerados pelo ritmo de nossos estados de necessidade nas rinhas da vida.
         Há quem argumente que uma boa amizade nasce  na mesa de um bar, lugar onde se joga conversa fora ou a mágoa quando se tem a necessidade  ainda maior de desabafar tudo o que está preso no peito. Com este cronista as boas amizades  vêm do tempo da infância e juventude, até hoje perduram, embora sejam poucas.  Outras, de uns tempos  para cá, nasceram graças ao  milagre operado pela literatura.
        Apesar de o mundo das letras ser competitivo, em muitos casos neurótico, até mesmo diabólico,  gerando conquistas para encher as vaidades e os egoísmos, tenho feito  amigos que parecem que já me eram desde muitos e  muitos anos. Alguns deles vivem distante,  nunca os vi pessoalmente. As afinidades eletivas nesse caso forjam uma afeição  sólida a cada descoberta agradável.  A afeição  assim me aproxima  do novo amigo  numa cadeia de instantes recíprocos e suaves. As coisas acontecem em razão das horas iluminadas por impressões de leitura. A empatia é expressa  de modo sincero  com suas ondas de ternura, por correspondência aérea ou  internet.
          A amizade é necessária  para  que o entendimento decorrente do gesto das mãos nas mãos torne a vida fácil, sem dominações, ciúmes  e traições. O ideal era que resultasse duma união geral  para que a vida fosse forte e bela, com rações suficientes para todos. Enquanto tal não acontece, lembro um poema do mineiro Elias José, querido amigo, de saudosa memória,  que só tive o prazer de ver uma vez.  Ele me enviou de Guaxupé, sua cidade natal,  o poema “Amigo” quando ainda era inédito.

                      A palavra AMIGO
                      Abre-se com a gente
E sabe escutar e guardar
Queixas e segredos.
Chora a dor que é nossa,
Faz festa na nossa alegria.

O mundo seria mínimo
E sem a menor graça,
Se não existisse a  graça,
Se não existisse a luz
Da palavra AMIGO.


        Para esse mineiro de inteligência incomum, coração terno, que escreveu mais de cem livros, entre volumes de ficção e poemas, para gente grande e pequena, premiadíssimo, a amizade encantava e  comovia. Fluía no tempo de ardente aprendizagem.